A vida de Giancarlo Fisichella para lá da Fórmula 1

Por a 10 Dezembro 2017 18:00

Depois de mais de duzentos Grande Prémios de Fórmula 1, em 2010, Giancarlo Fisichella optou pela posição de piloto de reserva na Scuderia Ferrari, em vez de um lugar numa equipa de segunda linha. Esta escolha abriu-lhe as portas para as corridas de GT. Este ano foi o chefe de fila da Kaspersky Motorsport.

Antes de nos sentarmos à mesa com Giancarlo Fisichella, momentos depois da qualificação madrugadora para a prova final do Blancpain GT Endurance Cup de 2017 e, na versão italiana, de Sebastian Vettel em Sepang ter sido abalroado na volta de desaceleração por Lance Stroll, estávamos avisados que perguntas sobre as actividades da Scuderia Ferrari na Fórmula 1 não eram permitidas. “Fisico” ainda é piloto Ferrari, onde entrou em 2009 para fazer as últimas cinco corridas da temporada, mas a recente política da Scuderia com a comunicação social é de tolerância zero, especialmente este ano.

Como a Fórmula 1 e também a Fórmula 2 eram assuntos tabu, à partida, a conversa, acompanhada por um café expresso italiano, tinha que se centrar em redor das corridas de GT. Não que o assunto não fosse agradável e não desse pano para mangas, mas o fim-de-semana de Barcelona não estava a correr de feição ao chefe de fila da Kaspersky Motorsport que continua a ser um dos pilotos mais procurados no paddock para um autógrafo ou uma simples fotografia para a posterioridade.

“Não andámos nos treinos-livres, porque tivemos diversos problemas e a Pré-Qualificação foi à chuva. Já sabíamos que nesta pista ia ser difícil com este carro, mas o melhor Ferrari ficar a 1.3 segundos do primeiro classificado é muito”, desabafava o piloto de 44 anos, acentuando que “o BoP nesta pista é claramente desfavorável ao Ferrari. Demasiado…”

Depois de ter disputado três eventos no Blancpain GT Cup o ano passado, numa equipa de pilotos Pro-Am e sem grandes ambições de triunfar à geral, Fisichella foi chamado a liderar a equipa de ponta da Ferrari naquele que é provavelmente o campeonato de GT mais equilibrado e disputado da actualidade. Ao piloto italiano foi entregue um 488 GT3 preparado pela AF Corse, rotulado à voz baixa no paddock como o “melhor chassis do 488 alguma vez saído de Pádua”, e apoiado pelo gigante russo da cibersegurança Kaspersky, com que partilhou a condução com o inglês James Calado, piloto da Ferrari Competizione GT, e o transalpino Marco Cioci, um dos mais experientes condutores ao serviço da formação de Amato Ferrari.

Os ingredientes eram em teoria os ideais para cozinhar um bom pitéu, mas, ou não fosse o automobilismo um desporto imprevisível, os resultados, por isto ou por aquilo, não foram os esperados. Um quarto lugar na prova de abertura em Monza acabou por saber a pouco, principalmente para o trio de pilotos que dominou a prova a rainha do campeonato, as 24 Horas de Spa-Francorchamps, até que um infeliz acidente ao raiar da manhã os ter colocado de fora quando lideravam e pareciam rumar a uma vitória tranquila.

A temporada do Blancpain GT Endurance Series não correu como certamente gostaria, mas ainda lhe falta disputar este ano uma corrida de GT3, as 6 Horas de Roma, no circuito de Vallelunga, prova que o ano transacto venceu e cujo triunfo ambiciona repetir, ou não fosse ele um orgulhoso romano.

Um mundo diferente

Depois de ter tomado parte de duzentos e vinte e nove Grande Prémios de Fórmula 1, entre 1996 e 2009, onde defendeu as cores da Minardi, encontrando aí como companheiro de equipa o português Pedro Lamy, Jordan, Benetton, Sauber, Renault, Force India e Ferrari, Fisichella descobriu nas corridas de GT, com a Ferrari, um lugar competitivo para continuar aos 39 anos de idade a competir ao mais alto nível, abrindo assim um novo capítulo na sua carreira.

O ecletismo do piloto italiano é evidente ao longo da sua carreira, tendo vencido três Grande Prémios, destacando-se a caótica prova de Interlagos de 2013, mas curiosamente, começou por dar nas vistas no ITR, a versão internacional do DTM, onde em 1995 e 1996 defendeu as cores oficiais da Alfa Romeo aos comandos de um imponente 155 V6 TI, não sendo para si um tejadilho a cobrir-lhe o capacete uma experiência estranha. Contudo, Fisico não encapota o facto que nem tudo foi fácil no seu novo ofício nas corridas de Grande Turismo, principalmente o início.

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“É uma realidade completamente diferente”, não esconde o italiano. “É uma abordagem totalmente diferente em termos de corrida, pois as corridas de GT são corridas de resistência em que tens que partilhar o teu carro, mas especialmente por causa do comportamento do carro. Estes carros são muito mais pesados que os Fórmula 1, têm menos aderência, menos downforce e menos potência.”

Fisichella estreou-se nas corridas de resistência em 2010, ao volante de um Ferrari 430 GTE no Le Mans Series, com Toni Vilander e com outra ex-glória do “Grande Circo” da Scuderia Ferrari e igualmente um bom amigo, Jean Alesi. Isto são memórias de um passado recente, de uma fase de aprendizagem de uma nova arte, pois hoje “Fisico” sente-se muito mais completo como piloto de GT. “No princípio foi um choque conduzir estes carros, mas depois, com a experiência que fui ganhando nas corridas, fui melhorando e melhorando. Agora, passado já vários anos, sinto-me muito mais confortável, já venci corridas e estou feliz aqui!”

Goste-se ou não de Fórmula 1, esta é a categoria máxima do desporto automóvel e tudo o que está a baixo será sempre de alguma forma visto como inferior. Porém, Fisichella não menospreza todo o trabalho que a AF Corse faz e que lhes permite ser uma das forças no Blancpain GT Series, assim como em qualquer outro campeonato de GT de topo onde corra um “Cavallino Rampante” para vencer.

“É um tipo de trabalho diferente. Aqui as regras e o formato das corridas são diferentes. Precisas de fazer a diferença nas paragens nas boxes. Há muito treino, tal e qual como na Fórmula 1. É uma competição diferente mas a dedicação colocada na preparação é a mesma”, até porque “este é um campeonato muito importante para a Ferrari, para a Kaspersky e eles (equipa) fazem um enorme esforço”.

Preferência ao GTE

Para além dos deveres esta temporada no Blancpain GT Cup, Fisichella também deveria ter participado na temporada completa do IMSA SportsCar Championship, no outro lado do Atlântico, mas o acidente do Ferrari 488 GTE da Risi Competizione nas 24 Horas de Le Mans e uns encontros de segundo grau indesejados no campeonato norte-americano obrigaram a equipa texana a faltar a algumas provas para se reagrupar. Esta mudança de planos reduziu o calendário do piloto que obteve o seu primeiro triunfo em corridas de GT em Road Atlanta na Petit Le Mans de 2011, com um 458 Italia, prova a que regressou este fim-de-semana novamente para comandar a mais forte equipa norte-americana da Ferrari da actualidade. Apesar dos transtornos habituais das viagens transatlânticas, Fisichella não esconde que correr nos Estados Unidos da América “é algo fantástico” e “muito diferente” da realidade que encontra nas pistas europeias, ao ponto de também já ter admitido publicamente preferir o campeonato norte-americano ao Campeonato do Mundo FIA de Endurance (WEC).

Diferente é também conduzir o Ferrari 488 GTE desenhado por Marco Fainello, um carro que embora tenha o mesmo bloco V8 de 3.9 litros turbo de potência limitada pela BoP e da diferença em temos aerodinâmicos não ser assim tão significativa para o GT3, é no entanto uma máquina diferente de domar.

Em 2012, num dos Ferrari 458 da AF Corse, acompanhado por Vilander e Gianmaria Bruni, Fisichella venceu a classe GTE Pro nas 24 Horas de Le Mans, ajudando a casa do Cavallino Rampante a vencer o título de construtores, uma memória que ainda está bem viva. Questionado qual dos dois Ferrari 488 – GTE ou GT3 – prefere guiar, Fisichella não hesita em dizer que “prefiro conduzir o GTE, porque não tem o sistema ABS. A maior diferença entre os dois carros está mesmo no ABS e, obviamente, no reflexo que tem nas travagens e gozo na pilotagem”, afirma o nosso interlocutor. Outro factor, exterior ao carro, e que igualmente pesa na sua preferência, está nos pneus. “Na categoria GTE usamos pneus confidenciais, o que é uma enorme diferença em termos de aderência e consistência nas corridas”, o que tem reflexos na performance pura, assim como na estratégia de corridas. Aliás, as corridas com o 488 GTE não se assimilam às corridas com o 488 GT3.

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“As regras entre os campeonatos são bastante diferentes. Aqui, no Blancpain GT Series, corres apenas com carros de GT. Não tens protótipos à tua volta, mas por outro lado, tens cinquenta carros em pista. Há alturas em que a pista está muito ocupada e não é fácil conseguir uma volta limpa. A qualificação é vital, pois se não te qualificas nas primeiras linhas da grelha de partidas e se tens que partir de trás, como nós hoje, então a corrida está praticamente acabada mesmo antes de começar”, salienta. “No WEC e no IMSA as corridas são de maior duração, tens os protótipos e menos carros na tua categoria”, a que se junta o facto da maior parte dos GT serem conduzidos por pilotos profissionais, o que no Blancpain GT Series não acontece, dada a presença em pista de vários pilotos amadores.

Fisichella diz-se satisfeito de estar a competir onde está e não tem uma data para se reformar, vendo-se ainda ao volante dos carros da marca fundada por Enzo Ferrari por mais umas quantas temporadas, em mais um exemplo vivo que há vida para além da Fórmula 1…

Texto: Sérgio Fonseca

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