Em Berlim, Nico Müller (Porsche) assinou uma lição estratégica de automobilismo ao levar a Porsche à vitória no E-Prix caseiro, após uma recuperação fulgurante desde o 6º lugar. Numa prova marcada pelo caos e pela gestão do Attack Mode, o piloto suíço construiu uma vantagem dominante de 4,6 segundos, batendo Nick Cassidy (Citroen) e Oliver Rowland (Nissan) num pódio de luxo. António Félix da Costa teve uma corrida complicada, partiu de nono, terminou em décimo, perdendo a posição já perto do fim depois de se ter queixado de falta de potência no seu monolugar.
Foi sob um silêncio pesado pela morte de Alex Zanardi, o paddock recolheu-se primeiro à memória de um homem maior do que o próprio desporto, e foi como se Berlim arrancasse com essa sombra nobre por cima da grelha, transformando a corrida num duelo entre luto, velocidade e sobrevivência competitiva.
Quando as luzes se apagaram, Edoardo Mortara (Mahindra) agarrou a liderança com a frieza de quem quer impor ordem, mas atrás dele o pelotão fechou-se de imediato, com Oliver Rowland a saltar para segundo e Nick Cassidy a colar-se ao grupo da frente.
O início foi um vendaval. Rowland tomou a dianteira, Cassidy cresceu no meio do tumulto e Zane Maloney (Lola) começou a insinuar-se como ameaça real, num pelotão comprimido em poucos segundos. Depois surgiu a primeira imagem verdadeiramente cinematográfica do dia: Lucas di Grass (Lola)i, lançado do fundo da grelha, a subir lugares em catadupa até se meter entre os homens da frente e reescrever o argumento quando quase ninguém o imaginava capaz disso.
A corrida entrou então numa fase hipnótica, em que o líder mudava constantemente mas o pelotão permanecia inteiro, preso no mesmo plano, como se vinte carros corressem ligados por um único fio invisível. Cassidy voltou ao comando, Maloney passou pela frente, e di Grassi completou uma ascensão improvável até à liderança, empurrando a Lola Yamaha para um inesperado um-dois e dando à prova um herói improvável, veterano, resistente, quase romântico na forma como desafiava a lógica do pelotão. Berlim parecia render-se a essa rebelião perfeita, mas na Fórmula E nada dura demasiado tempo sem pagar o preço.
Quando a corrida entrou no seu terço decisivo, o enredo abriu-se. Vieram os PIT Boost, depois as estratégias partidas ao meio, primeiro os que arriscaram cedo e os que esperaram pela altura que se revelou certa, e o pelotão deixou de ser apenas uma massa compacta para se tornar em várias corridas dentro da corrida.
Rowland herdou a frente no meio dessa agitação, Cassidy ‘caiu’ e voltou a subir, e Nico Müller, discreto até aí, começou a desenhar a manobra que mudaria tudo: primeiro manteve-se vivo, depois ativou o Attack Mode, e finalmente soltou o ritmo que ninguém mais conseguiu acompanhar.
António Félix da Costa no coração da perseguição
No meio desta batalha de sobrevivência e cálculo, António Félix da Costa foi sempre uma presença ativa na luta pelos pontos, envolvido na fase mais densa da corrida e também ele lançado no turbilhão estratégico dos Attack Mode. O português entrou na ofensiva quando o pelotão se abriu definitivamente, atacou com ambição na fase final e manteve-se dentro do grupo perseguidor numa corrida em que cada decisão parecia poder render um pódio ou empurrar um piloto para o anonimato.
A partir daí, a história ganhou um dono. Müller passou de caçador a força imparável, cavando segundos onde antes mal existia espaço para um carro, e transformando uma corrida caótica numa demonstração clara de quem iria vencer. Enquanto atrás dele Cassidy completava uma recuperação feroz até segundo e Rowland resistia para segurar o último lugar do pódio, o suíço da Porsche rodava com a autoridade de quem percebeu antes de todos onde estava a vitória.
E foi assim, com o pelotão ainda em combustão e a tensão a ferver até à última volta, que a corrida terminou no seu clímax perfeito: um piloto suíço a vencer para um construtor alemão em solo alemão, no dia em que a Fórmula E correu entre a memória de Zanardi e a brutal urgência de todos continuarem as suas vidas…
FOTO by Simon Galloway LAT Images













Corrida caótica???? Acho que foi uma corrida normal da fórmula E. Caótica seria se tivesse havido batidas, vários safety cars, e não houve nem uma bandeira amarela, sequer.