COMO OS VLOGUES PODEM REVITALIZAR O DESPORTO MOTORIZADO

Por a 13 Julho 2019 11:36

Distanciarem-se do cinzentismo ou da formatação associada aos canais de comunicação tradicionais, premiando antes a autenticidade, originalidade e espontaneidade dos conteúdos, é o que leva ‘YouTubers’ como Hugo Marcos a apostarem em vlogues para criarem uma relação mais interpessoal com o seu público. Depois de ler este texto, vai ficar a perceber como hoje em dia se pode potenciar a notoriedade através das redes sociais, trabalhando bem. O que vai ler quanto ao Hugo Marcos e ao CarOnline.TV não se aplica aos pilotos em geral, porque o Hugo trabalha como um profissional no seu canal, mas dá uma ideia muito boa do que os pilotos – nem que para isso se tenham de valer dos amigos ou mesmo de ajuda semi ou mesmo profissional – podem fazer para chegar mais longe. Esperamos que, depois de ler isto, muitos pilotos percebam onde podem chegar com as ‘ferramentas’ que têm nas mãos…

A recente corrida de Vila Real, ‘vista’ e comentada por dentro. nada melhor que o ‘jornalista’ rodar atrás dos dois pilotos que lutam pela vitória…

O resultado é notório no número de visualizações dos conteúdos e na interação gerada, com comentários que ultrapassam as centenas de unidades, inclusive nas publicações exclusivamente dedicadas aos bastidores do Troféu Kia Picanto GT Cup. Foi sobre esta forma alternativa de atrair audiências para o automobilismo que falámos com o fundador do CarOnline.TV

Engenheiro informático, rosto da plataforma CarOnline.TV e piloto do Kia Picanto GT Cup. Em cerca de dois anos, o multifacetado Hugo Marcos conseguiu atrair quase 73.000 subscritores para o seu canal de YouTube. Uma legião de fãs que lhe trouxe uma notoriedade inesperada, mas determinante para conseguir realizar vários sonhos, incluindo o que lhe fugiu das mãos em 2014, quando as lesões provocadas por um acidente de bicicleta impossibilitaram-no de apanhar um avião até Silverstone, rumo às finais internacionais da GT Academy – o concurso no qual, antes dele, Hugo Araújo ou Miguel Faísca brilharam, elevando o nome do desporto motorizado (e do ‘gaming’) nacional.

Desde maio do ano passado, aquela que até aqui era uma plataforma centrada em conteúdos sobre automóveis de produção em série conta com conteúdos exclusivos sobre os bastidores do novo Troféu monomarca do automobilismo português, num seriado que aborda temas tão diversos como o custo do equipamento de competição ou o simples processo de verificações administrativas e técnicas que marcam o início de cada prova. Mais do que o tom, informal, e a qualidade dos vídeos — bem editados, mas pouco polidos —, nos vlogues (diminutivo de vídeo-blogue) até agora publicados há um denominador comum, transversal a todos os conteúdos do canal: a crueldade do que é dito.

FIDELIZAÇÃO PELA HONESTIDADE

“Não há filtro. Tal como acontece com a maioria dos restantes pilotos, o meu projeto é garantido pelo apoio dos patrocinadores. Mas eles aceitam e sabem perfeitamente que a única forma disto funcionar passa por ser sempre muito honesto com o público.
No YouTube, tu crias um relacionamento com as pessoas em que elas acham que te conhecem há imenso tempo. Há uma proximidade que transmite a ideia de estarmos todos à roda de uma mesa, numa conversa de café.
E só a consegues alcançar falando descontraidamente e manifestando a tua opinião sincera sobre o objeto do teu vídeo e de tudo o que se passou ou está a acontecer no momento”, revela Hugo Marcos.

Foi por isso que, logo na prova inaugural do Troféu, na Rampa da Falperra de 2018, o piloto do Kia Picanto GT Cup nº 18 não teve problemas em admitir que “as rampas são uma seca”, depois de se ver obrigado a digerir cerca de 60 minutos de espera entre a descida do comboio de carros até à linha de partida e o início efetivo da sua última subida cronometrada. “As saídas de estrada de concorrentes de outras categorias provocaram alguns atrasos ao longo do fim de semana e dei por mim a passar mais tempo vestido dentro do carro do que propriamente ao volante”, explica.

A honestidade, na forma e no conteúdo, é essencial para fidelizar o público, adianta: “O YouTube é um bocadinho a verdade. Ou seja, às vezes derrapas em vídeos gravados com o telemóvel, e por isso de qualidade discutível, mas que acabam por conseguir imensa tração, e outros com produção ‘Hollywoodesca’, mas que não funcionam, porque a malta está cansada do teatro à volta da televisão e quando veem um conteúdo, de certa forma, mais amador, mas muito focado na opinião e no desabafo, as pessoas acabam por criar uma ligação muito particular com o mesmo.
No fundo, é isso o que eu tento passar, até porque não sou ator e não tenho essa capacidade de passar uma imagem que não corresponde à realidade”, garante. “Todo o conceito por trás da série Kia Picanto GT Cup passava precisamente por transmitir essa experiência, quase em primeira mão, de algo que eu nunca tinha feito, que era um Troféu de Velocidade, com rampas e circuitos à mistura, e onde, logo na estreia, fiquei a saber uma coisa sobre a qual não tinha a mínima ideia — o tempo que um piloto fica à espera antes de correr com o carro!”.

ATRAIR NOVAS GERAÇÕES

Para Hugo Marcos, o impacto desta comunicação distinta dos meios tradicionais tem sido muito positivo, cumprindo o objetivo a que o engenheiro informático se tinha proposto quando decidiu arrancar com este projeto — primeiro, por via de um ‘crowdfunding’ que acabou por ficar aquém das expectativas, e depois pela iniciativa de empresas privadas que acreditaram no potencial e viabilizaram financeiramente a ideia.

“Analisei os custos associados e o facto de o Kia Picanto GT Cup ser uma ótima forma de um amador se iniciar no desporto motorizado, e pensei que seria giro tentar trazer novamente a malta mais nova para o mundo das corridas. Na minha opinião, além da maior oferta cultural e de entretenimento que existe hoje, o facto de tudo o que era Fórmula 1 e MotoGP ter passado para os canais de televisão privados fez com que deixasse de haver essa cultura automobilística nas gerações mais recentes, levando-me a concluir que estas pessoas não estão a consumir o desporto automóvel pelos chamados meios tradicionais”, salienta.

Hugo achou, por isso, que “poderia ser interesse fazer um seriado que mostrasse o outro lado das corridas e o que acontece nos bastidores, colocando em evidência o que uma pessoa como eu tinha de fazer para participar num Troféu de iniciação e acessível como o Kia Picanto GT Cup. Isso significava dá-lo a conhecer não tanto na perspetiva do resultado das corridas, porque haverá outros meios mais indicados para fazê-lo com enfoque nesse aspeto, mas antes por intermédio do lado da preparação, dificuldades e contingências de uma pequena equipa, composta por uma ou duas pessoas, com a missão de tratarem de toda a logística do carro e tudo o que isso implica”, refere.

Hugo Marcos quis ainda deixar em evidência as suas próprias descobertas enquanto piloto e “as diferenças entre alguém que faz uma corrida esporádica e um piloto que participa num campeonato completo ao volante de um carro próprio, mas com um orçamento muito limitado, tendo, por isso, de assegurar, de alguma forma, a sua integridade ao longo da época”.

QUEBRAR O GELO

Para aproximar o público e fomentar uma relação com o carro, criou um espaço na decoração do Kia Picanto GT Cup reservado exclusivamente para assinaturas e dedicatórias — um sinal de apreço ao projeto que, revela, “é muitas vezes feito por pessoas que acompanhavam o canal, mas nunca tinham ligado ao desporto motorizado, e que acabam por se interessar pelo projeto porque deixaram a sua marca nele”. Um interesse que tem vindo a crescer com o desenrolar das corridas, “com malta que vem mais para assinar o carro, vê-lo em pormenor e tirar uma fotografia, do que propriamente com um interesse cego em conhecer o piloto. Claro que depois dão sempre dois dedos de conversa comigo, mas já vêm ao meu encontro com o pretexto de assinar o carro, quebrando desde logo o gelo associado ao primeiro contacto”, indica.
“Ver as pessoas a ligarem-se ao carro porque deixaram a sua assinatura em algo que não se vê ao longe ou em andamento acaba por ser giro”, demonstrando a importância de se criarem relações de proximidade entre os objetos e as pessoas, mesmo que o universo lhes seja desconhecido ou desinteressante à partida.

Ainda assim, continua a haver uma parcela dos 73 000 subscritores que não se interessa por carros de competição, e consequentemente pela série. “Tenho um canal disperso, que tanto aborda automóveis de produção em série, como clássicos ou viaturas elétricas. Existem públicos e targets muito específicos e nem sempre as pessoas que gostam de transformação automóvel apreciam a competição automóvel, apesar da relação que existe entre os dois universos.
No entanto, noto que este conceito de vlogue de corrida é engraçado e que as pessoas comentam dizendo-me que dão por elas a ver os episódios e a desejarem-me sorte, ficando com vontade de fazer uma experiência semelhante no futuro e perguntando-me, desde logo, quanto é que essa ‘perninha’ poderá custar”.

ERRADO REPLICAR CONCEITOS

Comentando que o erro dos meios tradicionais está em tentarem “replicar o mesmo conceito em diversas plataformas, em que a expectativa e comportamento dos públicos são distintos”, Hugo Marcos explica que “num vlogue conta-se uma história que segue os três princípios do cinema: há uma introdução, a apresentação de um conflito e uma resolução. Não funcionaria na escrita jornalística, como não funcionaria na televisão. O conteúdo feito para a televisão deve ser transmitido na televisão, porque está demasiado polido. É por isso que, quando ligas uma câmara, adotas naturalmente um determinado comportamento, que depois tem de ser corrigido para o YouTube porque as referências que tens presente são todas da televisão. Ajustas-te ao que tens internamente plantado como algo bem feito, e isso nem sempre é válido”, nota.

Além do tom e da forma, a tolerância do público nas duas plataformas é também distinta: “Quando ligas a televisão estás à espera de um determinado tipo de conteúdo. Por exemplo, um erro de edição num vídeo é algo que passa de forma relativamente descontraída no YouTube, mas o mesmo já não acontece com um erro factual. Na televisão, a exigência de ambos é enorme e não acredito, desde logo, que a questão estética fosse tão perdoada”.

Com a missão de criar novos conteúdos todas as semanas, Hugo Marcos tem já definido um processo de trabalho que lhe permite evitar ter “demasiados brutos”, filmando “quase tudo” ao primeiro ‘take’. Apesar de contar com um pequeno guião com os dados mais relevantes sobre o carro que se encontra a ensaiar num dado momento, contribuindo para que a mensagem seja clara e sucinta, salienta que todo esse esforço poderá cair por terra caso não consiga despertar a curiosidade do público ao ponto de quererem carregar no vídeo e ver o que ele esconde. “Se o título não for apelativo, ninguém vai ver o teu conteúdo. Tem que ser mais sensacionalista. É como a capa de um livro. Uma boa capa, ou seja, uma boa imagem e um bom título são meio caminho andado para que as pessoas vejam o teu vídeo. A malta não adivinha o que se encontra ali, portanto, se não tiverem vontade de clicar, vão acabar por passar para outra coisa qualquer”.

Uma lição que também pode ser aprendida pelos promotores e os meios de comunicação tradicionais: “Penso que a maioria dos meios não soube, nem se encontra a ajustar-se às novas realidades. Estão um pouco presos ao que sabem fazer e não estão, a meu ver, a apostar no digital com força suficiente.
O que fazem é um pouco por obrigação. Vejo algumas publicações no Facebook em que, além de uma galeria de imagens, publicam um pequeno vídeo de 30 segundos, mas com o tal discurso formal imposto. Sempre que se utilizam os meus autores, ou que os autores que produzem os conteúdos mais sérios nas revistas não se encontram dispostos a falarem publicamente noutro formato, este desfasamento irá permanecer inalterado. A revista britânica Top Gear é um bom exemplo do que deve ser feito, tendo ido buscar para o seu canal de YouTube um Chris Harris que já dominava no digital.
Entretanto ele passou a ter uma presença, ainda que esporádica, na televisão e no papel, mas a verdade é que a revista continua a ter as mesmas pessoas que já escreviam a maioria dos conteúdos. Não acho, de todo, que a mesma pessoa tenha de fazer formatos distintos, até porque está provado que na maioria das vezes isso não resulta”, conclui.

PERFIL
Apaixonado por automóveis e jogos de computador relacionados com a matéria, Hugo Marcos criou o CarOnline.TV em Março de 2017. O nome é uma homenagem à sua filha, com a dição em inglês a assemelhar-se a “Caroline” — a tradução anglo-saxónica de “Carolina”. Desde então, não tem parado de crescer. Já publicou 346 vídeos, que já somam cerca de 230.000 visualizações. Números importantes para medir o retorno do investimento feito pelos patrocinadores, mas também o interesse em torno do projeto. Assegura que o crescimento do canal foi sempre orgânico e que deixou de partilhar os vídeos em fóruns e grupos porque, infelizmente, “o Facebook é uma das maiores plataformas de ódio online”. Fá-lo apenas na sua página pessoal e nas restantes redes que opera, nomeadamente o YouTube, o Instagram e o site próprio com o mesmo nome do canal. “No YouTube, acontece o contrário. É muito raro. Até podem não gostar, mas fazem uma crítica construtiva e não um deita-abaixo completo só porque disse qualquer coisa que não gostaram sobre a marca de automóveis favorita”. Natural de Lisboa, tem 36 anos e é um antigo vencedor da GT Academy portuguesa (2014).

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Boa notícia/reportagem.
Falta outra sobre o PTES que começa a dar os primeiros passos…

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