Pedro Salvador – Como se tornar num dos maiores talentos nacionais

Por a 1 Março 2021 11:16

Pedro Salvador é unanimemente reconhecido como um dos maiores talentos da sua geração e um dos melhores a passar nas pistas nacionais. O AutoSport falou com ele, propondo-lhe um desafio.

A ideia base para esta conversa é simples. O que é preciso para ser piloto de competição? Uma pergunta que a grande maioria dos adeptos do desporto motorizado já alimentou, nem que por apenas alguns segundos. Todos admiramos a capacidade dos pilotos, mas no fundo também nos questionamos se não seriamos nós capazes de fazer igual, qual talento desperdiçado que nunca teve a oportunidade de se mostrar. Há também a visão dos miúdos que começam agora a competir, em busca de um sonho difícil de concretizar. O que é preciso para chegar ao topo? Para responder a essa pergunta falamos com Pedro Salvador, um dos melhores pilotos nacionais e que além de piloto é chefe de equipa. A sua visão privilegiada permite entender o que é preciso, quer do lado de dentro da pista como do lado de fora. Além disso, falamos do “estado da nação” e do que deve ser melhorado para termos um motorsport melhor, sempre com frontalidade que carateriza Salvador.

Desconfio que a paixão pelas corridas tenha nascido em Vila Real”

A primeira pergunta foi mesmo a que deu o mote para esta conversa. O que é preciso para ser piloto? Uma questão de resposta simples, mas ao mesmo tempo complexa:

“Acima de tudo é preciso querer, querer muito, ter muita vontade, o que vai ditar a determinação e o espírito de sacrifício de cada um. Antes disso, para ser piloto de competição é preciso ter dinheiro, seja próprio ou através de apoios. Mas o dinheiro apenas não garante o sucesso e vemos os miúdos que estão nas categorias de acesso à F1, que trabalham imenso e têm de ser 100% dedicados, caso contrário não conseguem atingir a performance que é necessária. Mas creio que a base é mesmo essa, a paixão pela competição, pela condução, pelas corridas, que permita fazer todos os sacrifícios necessários e inevitáveis. Não falamos apenas de sacrifico físico, mas sim abdicar de estar com a família, com os amigos . Quanto te dedicas ao desporto motorizado de corpo e alma há coisas que ficam para trás porque não há tempo para tudo. Determinação creio ser a palavra-chave.”

Para Pedro Salvador o sonho surgiu de forma algo inesperada. A paixão nasceu e cresceu em Vila Real, mas ganhou uma dimensão maior quase por acaso:

“Desconfio que a paixão pelas corridas tenha nascido em Vila Real, onde vivi numa fase inicial da minha vida, mudando-me depois para a zona de Chaves. Mas era em Vila Real que ia ver corridas portanto é natural que tenha sido aí que a paixão começou. Mas não foi algo que alimentei, porque achava que era um sonho impossível de conseguir. Aos treze fiz umas férias desportivas e por coincidência cruzei-me com o Tiago Raposo Magalhães e o Tiago Carvalho da Kia, porque fizemos todos o troféu Costa de Cristal do ACP no Cabo do Mundo. Não fazíamos a menor ideia que nos tínhamos cruzado por lá e ainda há pouco tempo nos rimos muito, porque naquela altura fui “altamente aviado” pelo Tiago Raposo Magalhães. Mas foi aí que andei de kart pela primeira vez, foi aí que tive o primeiro gosto pelo karting e pela competição.”

Passado dois anos surgiu a possibilidade de fazer corridas. Nunca tive o sonho de chegar à Fórmula 1, queria apenas fazer algo que gostava de fazer e que eventualmente teria algum jeito para tal. A partir do meu terceiro ano de corridas foi preciso encontrar parceiros e patrocinadores para tornar isto possível e fazê-lo da melhor forma. A paixão por conduzir é algo que existe desde sempre e passado tantos anos noto que é aquilo que gosto verdadeiramente de fazer. Não gosto apenas de corridas. Gosto de conduzir e por vezes gosto de o fazer nos carros mais disparatados que se possa imaginar e talvez por isso me diverti tanto a andar quer de Transit, de Punto, ou de Porsche.”

Tenho vários momentos bons que fizeram todo o esforço valer a pena”

O combustível que alimenta esta paixão é o gosto pelo desafio que surge em cada corrida, ao entrar numa competição nova… o desafio de se superar a si próprio:

“Gosto do desafio. Não o de levar a melhor sobre quem quer que seja, mas sim o que me imponho a mim, de ser capaz de superar uma nova competição, num novo mundo que pode até ser desconfortável. Um exemplo mais recente disso foram os Caterham, nos Super Seven. Tinha a noção que ia para uma competição extremamente competitiva, com bons pilotos, com técnicas muito próprias que temos de aprender rapidamente, seja a estratégia de corrida, gerir os cones de ar, os timings certos… encarei isso de coração aberto, mas verdadeiramente desejoso de ter um novo desafio, num campeonato em que arrancar de primeiro ou de décimo não faz grande diferença, mas onde a luta é leal mas dura, como eu gosto. Esse desafio é o que me faz gostar de provas de montanha, por isso gostaria também de ter feito ralis a sério, pelo desafio que exige ao piloto de se adaptar a vários tipos de condições e de terrenos.”

Estar na competição é buscar a glória e os bons momentos. Para Salvador a lista de momentos altos é grande, mas com destaque para alguns em especial:

“Tenho vários momentos bons que fizeram todo o esforço valer a pena. Felizmente também não tenho muitos maus, o que é ótimo. Mas guardo com particular carinho a primeira vez que venci em Vila Real, que foi um momento incrível. A Boavista, em 2013, quando fiz a pole no protótipo e no Porsche… E depois a própria corrida, com a Boavista cheia de público, com o ambiente fantástico que se viveu em 2013 e a performance que conseguimos alcançar com o António Nogueira, numa participação isolada com um bom carro, mas com uma estrutura radicalmente diferente da concorrência. Outro momento alto foi o primeiro título, que pude dedicar a um dos meus bons amigos que faleceu num acidente no ano anterior, que me deixou com o sentimento de missão cumprida. São vários momentos e sinto-me um privilegiado por ter conseguido o que outros pilotos contra quem corri na Fórmula Ford e na Fórmula Novis, que era belíssimos pilotos, mas que por circunstâncias diversas não conseguiram. Não penso no que poderia ter sido a minha carreira… continuei a fazer o que gosto, continuei a ganhar corridas e há imensa gente que também o podia ter feito e que tinha todas as condições para o fazer também, mas ou não tiveram a sorte ou não puderam ter o privilégio de o continuar a fazer. Sou muito grato por tudo o que conquistei até agora.”

Ken Bowes foi uma peça fundamental, pela forma como me educou e pela abordagem que me ensinou”

Como em tudo na vida, há um momento que marca a diferença. Um momento em que entendemos que somos capazes de cumprir o nosso potencial. Para Salvador esse momento veio em 1997, com a ajuda de uma pessoa:

“O primeiro momento que marca a diferença foi em 1996 inicio de 97, a primeira vez que tive a oportunidade de trabalhar com um engenheiro de corrida a sério, que além de me ter entregue um carro com um nível de competitividade completamente diferente do que tinha tido até então, me fez evoluir muito. Em 94 e 95 podia ter tido o melhor carro do mundo, mas não tinha experiência para tirar partido dele. Faz parte da aprendizagem e todo piloto que quer fazer competição tem de estar consciente que há um período de aprendizagem que é duro e que não demora dois meses. Pode treinar o que quiser, mas vai ter de viver essa experiência. Mas em 96 conheci o Ken Bowes, que além de afinar o carro, afinou-me a mim. Trabalhou comigo aquela parte que em competição é fundamental, a parte mental. O físico é importante, mas o mental é que nos permite estar preparados para qualquer situação e o Ken foi uma peça fundamental, pela forma como me educou e pela abordagem que me ensinou, que é a mesma que uso desde então, adaptando-a e tentando evoluir sempre. Conheci-o em 96 em Spa e posso dizer que desde aí até 2002, devo ter terminado duas vezes fora do pódio. E antes de o ter conhecido, fui ao pódio duas ou três vezes.

Na altura que conheci o Ken, era um puto de 18 anos que absorvia tudo que ouvia e executava. Se me dissesse, naquela injeção de confiança que é fundamental, que a curva dois era a fundo eu chegava lá e fazia a fundo sem pensar. A confiança é fundamental neste desporto e por vezes temos de ter uma atitude muito egoísta para todos os que estão a nossa volta para encontrarmos o nosso espaço para executar o que queremos. Não me lembro o que mudou ao certo, mas fundamentalmente o que mudou foi o acreditar. É preciso acreditar que somos capazes e claro, termos uma ferramenta à altura. Temos altos e baixos mas temos de ser capazes de resistir aos baixos e aproveitar os altos sem deslumbramentos. Devemos ficar satisfeitos, mas tentar sempre entender o que poderia ter sido feito melhor. A determinação que referia no inicio é também isto, a abordagem que temos de fazer e esta busca constante pela evolução.”

Sempre tive o gosto por poder passar o meu conhecimento”

A mudança para o outro lado do pit lane aconteceu há relativamente pouco tempo, mas a vontade de o fazer já era antiga, materializando-se com o apoio de várias pessoas:

“A vontade de trabalhar nas corridas já vem há algum tempo, a de ter a equipa nem por isso. Sempre tive o gosto por poder passar o meu conhecimento a miúdos, ou a malta mais graúda. Gosto de ganhar corridas que eles ganhem corridas e sejam competitivos. Esse era um trabalho que já fazia e o aparecimento da Speedy Motorsport foi a resposta a um desafio proposto por alguns dos pilotos com quem já trabalhava. Lembro-me do Paulo Sá Silva que correu com a Speedy em 2015 e o Paulo em 2014 estava a fazer Fórmula Ford e perguntou-me ´porque não fazes uma equipa? Se fizeres eu estou contigo´. Esse voto de confiança foi-me dado também pelo Nuno Couceiro, na altura quando o Rafael Lobato tinha feito Radicais e queria fazer protótipos. Tive essa conversa com ele, que me disse ´se o fizeres sei como o vais fazer por isso estou cá para te apoiar´ Esses votos de confiança deram um empurrão fundamental para a criação da Speedy e para o sucesso que tivemos logo no primeiro ano, que se deve às pessoas que trabalharam e ainda trabalham na equipa, à abordagem que temos, à vontade que temos de fazer bem sermos competitivos sempre. Não somos os melhores, nem os piores do mundo, mas em vontade de vencer não há quem tenha mais que nós.”

O trabalho com os pilotos é feito de forma especifica e detalhada, olhando sempre às necessidades e expetativas de cada um:

“Há um detalhe fundamental que é entender as pessoas, como elas funcionam e que canal de informação temos de encontrar com cada um deles. Há também a questão das expetativas e objetivos que os pilotos têm. Há uma serie de questões na comunicação, que é preciso entender. É preciso entender a sensibilidade de quem está do outro lado. O caminho do sucesso, quanto mais direto, mais duro. A comunicação quanto mais direta, mais dura e há pessoas que não estão preparadas para isso. Os elogios são poucos e as criticas construtivas são abundantes. A abordagem é diferente a cada situação. Mas com a determinação e a postura certa, vão superar os desafios, vão-se divertir, uns pelo lado da competição outros pela lado da diversão pura. “

“Procuramos ajudar na preparação, descrição das voltas, analise das voltas, descrição da pista, qual a abordagem certa à pista e às situações de corridas e afins. Temos sempre gente dedicada, eu incluído, na análise dos vídeos e dos poucos dados que temos, onde podemos entender o que estão a fazer de errado e o que podem melhorar.”

Para definir a trajetória ideal numa carreira é preciso entender qual o objetivo”

Desfiado para delinear a trajetória ideal para um piloto a nível nacional, Salvador traçou a que considera o ideal, deixando avisos:

“Para definir a trajetória ideal numa carreira é preciso entender qual o objetivo. Para ter a F1 como meta, é preciso colocar uma pergunta muito dura, mas necessária, que é se há dinheiro para isso, sabendo que é preciso muito dinheiro para chegar à porta da F1, sem garantias de lá entrar. Independentemente da opção para a carreira, seja monolugares, ou GT, ou Turimos, acho sempre que quando os miúdos têm idade para saltar fora do kart, o devem fazer. O desafio para ser piloto, seja em que categoria for, começa a partir daí. A progressão deve ser sempre feita assim que possível. Para ser piloto profissional é preciso ter budget suficiente para evoluir após o kart e mostrar ao mundo o seu talento. Se não houver essa capacidade financeira, sair de Portugal vai ser mais difícil. Mas um piloto pode ser profissional se for capaz de montar projetos e dar-lhes a sustentabilidade económica e temos bons exemplos cá. Um exemplo de um percurso bem orientado, com sucesso e sempre com projetos bem sustentados é o de José Pedro Fontes, que teve sucesso por onde passou, sempre com projetos que permitiram que fosse profissional de corridas.”

“Quanto ao trajeto a seguir a nível nacional, deve-se apostar em categorias que permitam colher o máximo de experiências possíveis e acrescentar ferramentas ao que já se tem. A velocidade dá continuidade ao que se fez no kart, melhorando a pureza de condução, trajetórias, como tirar o máximo de um automóvel. Os ralis vão dar outra capacidade de improviso, de reagir a situações diferentes e difíceis. O ralicross é uma modalidade não muito evoluída em Portugal, mas é ótima para os miúdos crescerem e o Rafael Lobato é um bom exemplo disso. Fez kart dentro das possibilidades que tinha, foi para o ralicross e não foi por isso que deu um mau piloto, muito pelo contrário, dando lhe uma capacidade de controlo do carro muito acima da média. É isso que procuro dar aos meus pilotos, mais ferramentas que são úteis. Por isso é que, por exemplo, os meus pilotos fazem um curso de drift. Sim, vão se divertir, mas vão aprender a controlar o carro em situações de piso molhado por exemplo.

Em Portugal a trajetória poderá ser Karts, Picanto GT Cup, Kia Ceed GT Cup, Nacional de Velocidade. Outra perspetiva pode ser passar dos Karts para os Caterham, que são uma ótima escola, com um nível de competitividade que obriga a pensar de uma forma completamente diferente do que nos turismos, pois não há cone de ar como nos Caterham e 50m de vantagem no inicio de uma reta não significam nada.”

Aquilo que faz falta em Portugal é estratégia, eficiência, competições bem organizadas”

Claro que para ser piloto em Portugal depende-se sempre do panorama nacional e das competições que por cá existem. Sem rodeios e de forma concisa, Salvador disse o que faz falta:

“Aquilo que faz falta em Portugal é estratégia, eficiência e competições bem organizadas. Por aquilo que percebo e vou ouvindo, falta kart de qualidade, competitivo, sem querer desvalorizar de modo algum quem está lá. Mas falta sair uma fornada de pilotos que vá alimentando isto. Provavelmente faz falta uma competição monolugar em Portugal, que deixou de existir há alguns anos, ainda que feita numa vertente diferente do que é feito em Itália ou Espanha, porque o salto é muito grande. Saindo dos karts para uma F4, tem de se considerar um orçamento de 200 mil euros. Quando eu fiz Fórmula Ford, era um degrau acima do kart ou ao mesmo preço de um kart bem feito. Creio que uma competição monolugar fazia sentido para quem sai dos karts, para depois derivar para outras categorias.

Mas acima de tudo, faltam competições bem organizadas, estruturadas, estabilidade regulamentar e de acordo com a realidade do nosso pais. É um erro sistemático que acontece no nosso pais, em que descolamos da nossa realidade económica e da nossa dimensão. Não estou a ser mente pequena, mas prefiro ter uma competição com trinta carros, super competitiva, que vai fazer as pessoas voltarem a sentir o que é ver uma corrida, do que ver apenas um passeio de automóveis, com três carros de uma categoria, dois da outra… não é o que me faz ir ver corridas. Não temos público, mas temos de arranjar forma de o atrair. Desafio qualquer um a ir ver uma corrida de Super Seven. É o que as pessoas querem ver, indecisão, emotividade, seis carros lado a lado na reta, três a entrar para a primeira travagem, é isso que as pessoas querem ver em corridas de velocidade. Eu adoro ver um Porsche a passar, mas gosto muito mais se vir 10.

Acho que hoje em dia desvirtuou-se um pouco o que é a competição. Temos tantas classes e querem-se dar tantas taças para manter as pessoas contentes, que se acaba por viver uma ilusão em muitas competições. Eu entendo que haja as mais diversas categorias que permitam às pessoas montarem projetos diferentes. Agora ser campeão, ganhar corridas ou ir ao pódio em competições em que há três concorrentes não acho que seja a coisa mais dignificante do mundo. Todos têm direito a montar os seu projetos, mais cria-se uma ilusão nas pessoas e quando batem de frente com uma competição a sério, percebem. Por isso é que eu digo que é importante não nos deslumbrarmos, para estarmos conscientes do que estamos a fazer e entender o nível que temos. Todos querem ir evoluindo e fazendo categorias mais competitivas, mas há malta que se deslumbra imenso e depois quando são confrontados com a realidade, apanham um choque. É muito comum hoje em dia ver pessoas que querem correr e que procuram a categoria onde há menos gente para poderem levar a taça para casa. Não acho que seja esse o caminho. O outro é mais duro, mas estamos prontos mais rapidamente.”

As vezes questiono-me se os diretores de marketing das marcas sabem o que a competição poderia fazer por eles.”

As marcas, que têm dinheiro e poder, poderiam ser fundamentais para que o nosso desporto motorizado crescesse, mas são poucas as que realmente apostam em algo que traz visibilidade e retorno:

“Há um desinteresse das marcas e há algumas em que realmente me questiono se as pessoas que lá estão gostam de automóveis e se percebem a mais valia que é a emoção dos automóveis, que continuam a ser uma compra emotiva. As vezes questiono-me se os diretores de marketing das marcas sabem o que a competição poderia fazer por eles. E o investimento não é assim tão grande.

Aquilo que a Kia fez foi uma operação muito bem sucedida no automobilismo. Por mim falo, sabia que a Kia existia, mas não sabia que eram tão bons automóveis. Hoje vejo os Picantos e os Ceed de forma diferente pois são autênticos tanques de guerra, que fazem lembrar os antigos carros japoneses. É uma aposta bem sucedida que dá visibilidade à marca e transmite um feeling mais desportivo, que não seria tão fácil de acontecer noutro ambiente. Há outras marcas que começam a apostar à custa de trabalho de privados e saúdo aqui o trabalho da Sports &You com o grupo PSA e que nos conseguiu colocar no mapa, não só com os resultados desportivos, mas também recentemente com a presença no rali de Monte Carlo É um projeto brutal, que nos deve deixar a todos orgulhosos. Mas do lado das marcas há a possibilidade de fazer um investimento bem menor do que possam estar a pensar e tirar daí dividendos bem superiores ao que possam imaginar. “

Acho que a forma como as coisas são tratadas acabam por desvalorizar o nosso automobilismo.

Outro dos problemas identificados é a desvalorização da atribuição das licenças que acaba por desvalorizar também a competição em si:

“Acho que a forma como as coisas são tratadas acabam por desvalorizar o nosso automobilismo. Estive a trabalhar naquele famoso test day no Estoril. Tanto nesse test day como na prova a seguir em Portimão havia variadíssimos pilotos alemães que fizeram esse teste como condição fundamental para terem uma licença desportiva. A licença desportiva não é algo que deva ser desvalorizado ou dado. Tem que se começar por valorizar um documento que não deve ser apenas para apresentar nas verificações. Não há formação da federação nesse sentido. Todos nós pilotos estamos conscientes que o exame médico é uma anedota. Para esta quantidade enorme de pilotos que tirou a licença nos últimos cinco anos, há uma desvalorização absoluta do que estão a fazer. Creio que deveria ser obrigatória a formação e um teste teórico para garantir que as pessoas tem o conhecimento básico das regras fundamentais.”

O aumento quase exponencial das competições de clássicos é também visto como algo que não favorece o desporto automóvel em Portugal:

“Há algo pelo qual me manifesto contra, não pelos veículos, mas pela quantidade de competições, que são os clássicos. Será que só existem carros antigos? Cada vez se criam mais competições destas e o dinheiro que é gasto neste tipo de carros podia permitir grelhas preenchidas em troféus de carros mais modernos. Um Gentleman driver pode-se divertir num carro mais moderno, muito mais seguro, correndo menos riscos de se magoar e colocar em causa a sua vida profissional e familiar. É mais giro fazer um fim de semana em que se dá à chave e o carro pega sempre, do que num carro que hoje pega, amanhã já não. E não me digam que é pelo preço e que é mais barato fazer clássicos. O público gosta de ver os clássicos a passar, mas quando já temos três ou quatro competições de clássicos, acho que é demasiado. E vamos ser realistas, há clássicos que são giros e outros nem por isso. Tal como existem carros modernos mais giros e outro não. Se me disseram que o Kia Picanto dá sono, acredito, mas se forem 20 juntos já não dá. E depois temos o nível de investimento que é preciso para fazer um clássico bem feito, dos bons que existem em Portugal. Com esse dinheiro pode-se comprar um Porsche.”

Há competições cada vez mais bem organizadas e desenvolvidas em Portugal.

Há, no entanto, bons sinais a surgirem, que animam o chefe da Speedy Motorsport:

“Acho que o nosso nacional de velocidade finalmente está a ser pegado com vontade. Pelo que vi, há trabalho e vontade de fazer mais e melhor. Obviamente que vão existir criticas a tudo o que está a ser feito porque é a nossa forma de estar, destruímos antes de deixar construir. Mas acho que há bom trabalho e houve coragem para eliminar a categoria GT3 em 2021, que é uma ótima noticia. Nada contra o Sr. José Correia, muito pelo contrario, mas não pode aparecer mais alguém que pega em meio milhão vai comprar um GT3 e decide fazer o nacional de velocidade. Temos de nivelar e ter um teto para que o nacional de velocidade possa ser competitivo, para termos mais carros em pista, sendo mais acessíveis.”

“Por aquilo que tenho visto e fiz no ano passado uma prova em Braga, gosto da forma como está a ser apresentado, gosto do que vai acontecer em 2021. Está a ser feito um percurso que terá boas decisões e outras menos boas, mas pelo menos há um rumo e há um objetivo. Acho que deve ser feito dessa forma e deve-se tentar cumprir o objetivo. Vamos dar tempo para que se chegue a esse objetivo. Se alguém quiser sair do Kia Ceed GT Cup e pensar no Nacional de Velocidade, agora sim pode ser uma alternativa. Mas tem de ser trabalhado com afinco, determinação e todos os dias.”

“Há competições cada vez mais bem organizadas e desenvolvidas em Portugal. O exemplo da CRM na velocidade é fantástico, o que a Sports & You tem feito nos ralis é fantástico, tal como a forma como os ralis começaram a profissionalizar e trabalhar o campeonato, como um produto vendável da mesma forma que é o futebol. É esse o caminho que o automobilismo tem de seguir. “

Para os mais novos que querem fazer corridas, arregacem as mangas”

A procura de um lugar ao sol no desporto motorizado é dura, mas pode ser uma escola importante para a vida. Pedro Salvador deu um exemplo que pode ser seguido por todos os pilotos jovens que querem seguir o seu sonho e ir mais além:

“No ano passado estive no ISEP com miúdos, todos eles apaixonados pela competição e ouvi muitas vezes que não há onde correr, não há alternativas. Há por onde ir, mas eu acho que há falta de vontade. Ninguém vai levar nada a casa. Os miúdos que querem fazer competição tem de trabalhar. Há oportunidades, como por exemplo o Kia Opportunity que já sentou quatro pilotos que foram a concurso e ganharam uma época de corrida e o Troféu C1 Learn & Drive faz a mesma coisa. Agora sentados em casa não acontece. E um excelente exemplo que posso dar, é um dos meus pilotos. Foi-lhe incumbida a responsabilidade por parte do pai de desenvolver o projeto e encontrar patrocinadores para organizar a sua época e posso dizer que fiquei muito satisfeito quando recebi uma chamada de um amigo meu a perguntar-me se o rapaz era meu piloto e a elogiar a forma como o projeto está feito e apresentado. Falamos de um miúdo com 18 ou 19 anos. Ele e um amigo montaram um projeto, estão a enviar mails, a fazer apresentações… enviaram mais de 60 mails tendo resposta a mais de 40. O entusiasmo com que isto está a ser feito mostra-me que é possível, mas as pessoas têm de querer. É verdade que nem todos são capazes, mas se não tiverem vontade, então muito mais difícil se torna. Tenho a certeza que este projeto vai ser levado a bom porto e mais que isso, ele está a dar um passo muito maior do que ele pensa. Não é esta época de corrida que se vai concretizar, mas sim a capacidade de montar esta e as próximas épocas que se vão concretizar, pois não vai depender de ninguém, e o que vai apreender neste processo a nível humano, profissional e desportivo vai ser útil para a vida toda, ganhando uma noção aos 19 anos que se calhar apenas iria ter aos 30. E para os mais novos que querem fazer corridas, arregacem as mangas pois nos tempos em que vivemos só vai haver espaço para quem tenha essa garra.”

A receita para ser piloto? Uma paixão enorme, uma determinação férrea, uma vontade inabalável de evoluir sem deslumbramentos, capacidade para ouvir a crítica, por mais dura que seja, para aprender com isso e acima de tudo ter a confiança em si ilimitada para ultrapassar os maus momentos. Ah, claro, e arranjar o dinheiro necessário para isto tudo. No papel parece simples, mas é preciso ser-se realmente especial para reunir estes ingredientes todos e ser bem sucedido.

Pedro Salvador conseguiu isso e é um dos bons exemplos. Carreira construida a pulso, sem se importar com rótulos, fazendo sempre o que o apaixona e tornando-se com isso uma referência incontornável. Direto no discurso, sem subterfúgios, diz o que pensa sem medo do politicamente correto. Apenas uma coisa o move… a paixão pelas corridas e pelos automóveis que defende com unhas e dentes. É sempre um privilégio falar com um dos melhores, que desta vez mostrou o caminho de como ser piloto de competição. Os interessados que tirem notas.

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