Joaquim Teixeira: Um 2025 “acima das expectativas” na Montanha

Por a 15 Dezembro 2025 10:04

O Campeonato de Portugal de Montanha atravessa uma fase positiva. Com grelha muito preechidas e com muitos fãs a verem o espetaculo ao vivo, a competição apresenta-se saudável e pronta para evoluir ainda mais.

Para Joaquim Teixeira, presidente da Associação Portuguesa dos Pilotos de Automóveis de Montanha (APAM), 2025 foi mais do que uma boa época: foi um ano que superou aquilo que a própria estrutura esperava à partida. Logo no capítulo dos números, a média de cerca de 90 inscritos por prova nas oito rampas do calendário é, por si só, um sinal de saúde competitiva.

“O ano de 2025 do Campeonato de Montanha superou as nossas expectativas iniciais”, começa por enquadrar. “Esperávamos crescer face a 2024, mas não só aumentou o número de participantes como também apareceu muita gente jovem e vimos mais público nas provas.”

A competitividade interna foi outro ponto que o dirigente destacou. “Muitos campeonatos decidiram-se na última prova, alguns literalmente na última subida”, recorda. “Isso é sinónimo de que o campeonato foi equilibrado ao longo do ano. Se ainda está tudo em aberto na última prova, é porque o nível é bom e o regulamento está a funcionar.”

Regulamentos estáveis e controlo técnico reforçado

Uma das bandeiras da APAM tem sido a estabilidade regulamentar, algo que Joaquim faz questão de sublinhar. “Sempre defendemos que os regulamentos não podem estar a mudar todos os anos”, explica. “No mínimo, têm de se manter estáveis durante três anos, para que equipas e pilotos possam fazer projetos sérios e não andar sempre a refazê-los de uma época para a outra.”

Para 2026, a base regulamentar mantém-se, mas com ajustes cirúrgicos que atacam um ponto sensível: o cumprimento efetivo dos regulamentos técnicas. “Vamos ter uma maior fiscalização às viaturas, para garantir que estão de acordo com a ficha de homologação ou com o regulamento da categoria onde se inscrevem”, detalha. “A federação adquiriu muito equipamento para isso, desde meios para verificar cilindradas até material para abrir motores ou caixas de velocidades, e todas as viaturas vão ser seladas antes do início do campeonato, garantindo que as viaturas cumprem os regulamentos.”

O presidente admite que este aperto poderá afastar alguns concorrentes, mas vê isso como um filtro saudável. “Se me perguntar se vamos ter mais ou menos inscritos, não sei”, assume. “Alguns podem não gostar, porque não gostam de ser controlados, e vão deixar de aparecer. Mas os que ficarem serão, de certeza, aqueles que querem andar na Montanha pela verdade desportiva.”

Combate às “conversas de bastidores”

As novas medidas não nascem de capricho, mas da perceção clara de que havia um ruído crescente nos bastidores. “Já havia muitas conversas de bastidores a dizer que havia carros A, B ou C que não estavam de acordo com o regulamento”, admite. “ No último ano, cinco viaturas foram desclassificadas, e este ano não houve desclassificados, mas sentimos que, se calhar não houve o cumprimento rigoroso dos regulamentos.”

O objetivo, insiste Joaquim, é simples: “Queremos que quem é campeão o seja em plenitude de direitos, com verdade desportiva”, afirma. “Quando todos sentem que as regras são aplicadas de igual forma e que há controlo a sério, o valor de um título sobe e o ambiente no paddock é mais saudável.”

Calendário: Falperra como Taça e sete rampas no campeonato

No plano desportivo, o calendário mantém a sua espinha dorsal, com pequenas alterações de enquadramento. “As provas mantêm-se praticamente todas”, confirma. “A grande diferença é que a Falperra deixa de integrar o Campeonato de Portugal de Montanha e passa a ser Taça de Portugal de Montanha.”

Na prática, o campeonato passa a ter sete provas pontuáveis, com seis resultados a contar, enquanto a Taça de Portugal de Montanha surge como evento adicional, sem peso para o título. “A Taça não entra na pontuação do campeonato, será para quem quiser participar, mas continuará a ser uma grande festa, integrada na promoção que o nosso promotor está a fazer”, explica.

O esboço de calendário mantém Murça como abertura, no final de março, seguida da Rampa da Penha em abril. Em maio, a Falperra acolhe a Taça; no início de junho corre-se na Serra da Estrela, ainda em junho realiza-se Santa Marta, julho traz a prova sob égide Targa (com localização ainda a confirmar), setembro é reservado a Boticas e o encerramento fica, mais uma vez, na Serra da Arrábida no início de outubro. O coeficiente 1,5 da prova de fecho continua a ser uma forma de “obrigar” os candidatos ao título a lá estarem: “É um incentivo forte para ninguém faltar, porque pode pesar muito nas contas do campeonato.”

Montanha como “irmã” dos ralis e a questão do público

A Montanha é uma das modalidades mais populares do desporto Motirzdo nacional. Leva as corridas muito perto do público; é quase como ter um circuito de rua. As pessoas ficam próximas, sentem os carros a passar, e isso cria uma ligação diferente.

Em 2025, a promoção deu um passo em frente com a aposta num spot televisivo semanal. “Com algum sacrifício financeiro nosso e dos clubes, fizemos um spot na SIC com 86 emissões semanalmente, sempre a anunciar a próxima prova”, explica. “Acreditamos que isso contribuiu bastante para o aumento de público.”

O dirigente lamenta, porém, algumas limitações regulamentares que, na sua visão, impedem ações de marketing mais fortes. “Infelizmente, não podemos usar co-drives como gostaríamos, porque a federação não autoriza”, critica. “Mais ainda, os carros 0 não podem ser de competição. Se isso fosse permitido, acho que seria uma mais-valia poder colocr pilotos consagrados de outras modalidades a fazer subidas com convidados ao lado. Seria um atrativo enorme para o público, mas enquanto não for permitido, é uma ferramenta que não podemos usar.”

Segurança primeiro: o critério que afasta alguns carros e pilotos

Uma das ideias fortes de Joaquim é a prioridade absoluta à segurança, mesmo que isso limite o tipo de carros que podem correr ou a vinda de alguns pilotos estrangeiros. “Há pilotos que fazem velocidade ou ralis ao mais alto nível e que têm receio da Montanha”, reconhece. “Num circuito, no fim da reta há uma grande escapatória, gravilha. Na montanha, a escapatória é o rail, que está muito perto. E isso pesa na cabeça de muitos pilotos. Há pilotos que ainda não se libertaram do complexo de correr na montanha.”

O mesmo raciocínio se aplica às viaturas de fórmula. “Já tivemos pedidos de pilotos estrangeiros para virem com fórmulas de 3.000 cc, por exemplo”, recorda. “Mas entendemos que as nossas rampas não têm condições de segurança para esse tipo de carro. Por isso, só permitimos fórmulas até determinada cilindrada e mesmo assim há rampas – como Murça, Arrábida e Penha – onde eles não podem participar. Isto demonstra o nosso compromisso e exigência no capítulo da segurança. É um esforço conjunto do promotor e da FPAK.”

Um campeonato no “top 3” europeu

Comparando com o panorama europeu, Joaquim Teixeira não hesita em colocar o Campeonato de Portugal de Montanha entre os melhores. “Em termos de segurança, as nossas provas dão 10-0 a muitas do Europeu”, afirma. “Os traçados são mais seguros, a exigência em termos de rails e dispositivos de proteção é muito superior. Lá fora, há rampas onde quase não se vê um rail.”

Também a diversidade de carros é um trunfo nacional. “Nós temos muitas viaturas de acordo com fichas de homologação, carros de troféus, clássicos, Legends”, enumera. “Lá fora, praticamente todos os carros estão alterados e resumido a duas grandes categorias. Aqui temos protótipos ao nível dos melhores europeus, muitos GT, TCR, carros de Grupo A e N, clássicos, Legends. Isso torna o espetáculo mais rico.”

Não surpreende, por isso, que a FIA olhe para Portugal como caso de estudo de promoção. “Há quatro anos, alguém da FIA perguntou-me qual era a receita para termos tanta promoção, tantos espectadores e tantas equipas”, recorda, com um sorriso. “A resposta é simples: trabalho e incentivo constante às equipas para participarem.”

Crescimento sustentado sob liderança da APAM

Desde 2012 à frente da APAM, Joaquim viu o campeonato passar de uma realidade quase de nicho para um quadro competitivo robusto. “Quando pegámos no campeonato, a Montanha tinha uma média de 15 a 20 participantes por prova”, lembra. “Hoje andamos à volta dos 90. É uma diferença brutal.”

Essa evolução veio acompanhada de um reposicionamento dentro da própria federação. “A Montanha era o parente pobre da velocidade”, admite. “Agora, em termos de retorno, já estamos a seguir o rali juntamente com o todo-o-terreno e se calhar, se nós separássemos as modalidades da velocidade, que tem troféus privados, tem os campeonatos nacionais que são contabilizados em conjunto se calhar ficávamos à frente de todos, porque o nosso valor e o deles é muito idêntico”.

A “Super Challenge” e um paddock onde apetece ficar

Entre as mudanças estruturais, há duas que Joaquim considera decisivas: a abertura a todo o tipo de viaturas, com critério, e a criação de um ambiente de paddock que faça os pilotos quererem ficar. “Nunca fomos de pôr carros na garagem por princípio”, explica. “Achamos que as viaturas não devem ser renegadas. Criámos, para isso, uma categoria Super Challenge, que é livre na filosofia, mas regulada na prática.”

Nesse Super Challenge, qualquer carro pode ser apresentado, mas o piloto tem de preencher uma ficha técnica detalhada. “Ele é livre de preparar o carro como quiser, mas depois tem de declarar o que o carro tem mecanicamente”, descreve. “Em qualquer altura o carro pode ser verificado e, se aquilo que está lá não corresponder ao que foi declarado, é excluído. Simples.”

O outro pilar é o ambiente humano. “Temos vários exemplos de pilotos que vieram do rali, da velocidade, do ralicross, e ficaram. Há competitividade em pista, toda a gente quer ganhar, mas fora dela as equipas dão-se bem, andam de tenda em tenda, conversam. O facto de não haver luta roda com roda também ajuda. Criar um bom ambiente foi uma prioridade e, quando isso existe, a modalidade passa a atrair sempre novos participantes.”

Relação com a FPAK e modelo de promotor “sem lucro”

A relação com a federação, garante Joaquim, está hoje estabilizada e é saudável. “A relação com a FPAK é boa”, frisa. “Eles próprios dizem, às vezes até de forma que eu não gosto muito, que não se metem muito no Campeonato de Montanha porque sabem que nós conseguimos fazer um bom trabalho.”

A grande diferença face a outros campeonatos está no modelo de promotor. “Nós somos uma associação de pilotos que fez um consórcio com os seis clubes que organizam as rampas”, explica. “Respeito muito os promotores comerciais que visam o lucro e com toda a legitimidade. Nós trabalhamos de forma diferente e não visamos lucro. Tudo o que conseguimos em parcerias com empresas – equipamentos, pneus, peças – reverte em apoios diretos às equipas e aos pilotos. São duas formas diferentes de trabalhar, mas o que interessa é termos competições bem organizadas e competitivas, independentemente do modelo utilizado.”

Sem marcas únicas de pneus ou combustíveis impostas, a filosofia é de abertura. “Não temos nenhuma marca exclusiva de gasolina ou de pneus”, sublinha. “Os pilotos podem escolher o que quiserem. Quando se começam a impor obrigações que só interessam ao promotor, há pilotos que têm de desistir porque não têm capacidade para acompanhar. Nós queremos precisamente o contrário: que toda a gente que tenha condições e vontade possa participar.”

No fim, a visão de Joaquim Teixeira para a Montanha portuguesa é clara: um campeonato competitivo, tecnicamente sério, seguro e, sobretudo, humano, onde a verdade desportiva e o ambiente de paddock valem tanto como os décimos ganhos em cada subida.

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