» Textos: Adelino Dinis

» Fotos: Edições Vintage

 

Circuito de Cascais 1963-66: A história sensacional de um circuito quase esquecido


O Circuito de Cascais nasceu como palco de curto prazo para o desporto motorizado. Apesar da ambição modesta, foi anfitrião de três Grandes Prémios de Portugal, recebendo dezenas de pilotos de todo o mundo, trazendo talento e experiência, juntamente com as suas belas e potentes máquinas, desde as poderosas motos britânicas aosemblemáticos Fórmula 3 “Screamers”,além dos os melhores automóveis de Turismo e Grande Turismo dos anos 60.

Este novo livro é o relato de todas as corridas disputadas entre 1963 e 1966 num dos circuitos urbanos mais pitorescos de Portugal, combinando as emoções do desporto motorizado com o glamour de um destino turístico de exceção. Com 209 fotos, quase todas inéditas, o livro inclui ainda todas as classificações dos cerca de 260 inscritos nas 13 corridas ali realizadas, duas de motos e onze de automóveis.

Como nasceu o Circuito de Cascais
Em 1961 Portugal ficou sem qualquer dos seus grandes circuitos. Monsanto foi utilizado pela última vez em 1959. Vila Real teve alguns anos sabáticos até 1966. E o circuito da Boavista, o esteio das provas nacionais desde 1950, também foi descontinuado, permanecendo inativo durante 45 anos!
No início da década de 60, Vila do Conde era o único circuito português em atividade, mas carecia de condições para receber eventos internacionais. Alverca e Lordelo do Ouro foram testados, mas não vingaram. E Montes Claros (também conhecido como Pequeno Monsanto) só servia realmente para provas de âmbito nacional.
O eterno projeto de um circuito permanenteera urgente, mas demoraria dez anos a materializar-se no Autódromo do Estoril.
Por isso, quando, no início do ano 1963,a Câmara Municipal de Cascais abordou o ACP sobre a possibilidade de realizar um evento internacional de automobilismo para comemorar o seu 600.º aniversário, a ideia foi recebida com entusiasmo. O objetivo era realizar um Grande Prémio de Portugal em 1964, para celebrar a efeméride. Uma prova anterior, em 1963, destinada apenas a concorrentes portugueses, proporcionaria um ensaio adequado para um novo traçado.
Em fevereiro, a intenção foi divulgada por Carlos Tavares, secretário do CDN. O circuito de Cascais faria parte do Campeonato Nacional de Pilotos, composto por três circuitos, duas rampas e oito ralis.
Detalhes sobre o novo circuito só foram revelados em junho, cerca de um mês antes do evento. A pista utilizaria parte da nova estrada do Guincho, bem como a estrada marginal para a Boca do Inferno, nome da famosa gruta na falésia.
A pista tinha a linha de metalocalizada cerca de 100 metros após o início da Avenida Rei Umberto II da Itália que, naépoca, era uma estrada nacional. Trata-se de um trecho ligeiramente em declive, com o Oceano Atlântico à direita. Pouco antes de aparecer o farol de Santa Marta, os concorrentes virariam à esquerda, para a rua Frei Nicolau de Oliveira, passando pela Capela do Sagrado Coração de Jesus, antes de entrar na rua Visconde da Gandarinha e cortar à direita para a rua Ricardo Espírito Santo Silva. Esta zona era sinuosa e estreita. Já aavenida da República era bastante larga e os concorrentes aceleravam a fundo até à curva apertada onde ficava o popular restaurante “O Retiro do Diabo” — conhecido como a “taberna do Manuel Diabo”.
Depois do gancho, os participantes estariam de novo à beira-mar, cruzando a linha de chegada e dando início a mais uma volta.

Um GP de Portugal só para os Grande Turismo
Portugal não tinha um Grande Prémio desde 1960, quando o Porto recebeu a Fórmula 1 pela segunda e última vez.
O traçado de Cascais estava destinado a ser provisório, mas o ACP decidiu conceder a este circuito rápido e cénico a honra de receber o X Grande Prémio de Portugal, para automóveis de Grande Turismo.
Os concorrentes estrangeiros juntavam à experiência de um novo circuito a possibilidade de passar uns dias de verão em Cascais. Além disso, os prémios de partida oferecidos pelo ACP cobriam todas as despesas, havendo ainda generosas recompensas monetárias para os mais bem classificados à geral e na classe.
A corrida para automóveis de Grande Turismo recebeu assim um conjunto de máquinas e pilotos interessante. Do Ferrari 250 GTO de Richard Kerrisson ao AC Cobra 289, inscrito pela Willment Racing e destinado a ser conduzido por Bob Olthoff.
Mário de Araújo Cabral tinha um ágil Lotus 26R e era o único português capaz de fazer frente aos estrangeiros. Mas um acidente nos treinos colocou em risco a sua participação…

A Fórmula 3: cabeça de cartaz em Cascais
Em 1964, uma mudança nos regulamentos restabeleceu a Fórmula 3 como uma categoria interessante e competitiva. Era uma forma acessível de competir, preparando futuros campeões do automobilismo. Anteriormente, algumas das fórmulas de iniciação eram quase projetos de bricolagem. Mas na década de 60, havia uma série de competentes fabricantes capazes de fornecer chassis rolantes com atenção aos detalhes. Este foi o caso, particularmente, da Brabham e da Cooper, às quais se juntaram a Merlyn, a Lola e Lotus. A Itália responderia um pouco mais tarde com os Tecno e De Sanctis e França tinha os belos Alpine e Matra.
No entanto, nem tudo se resumia ao chassis. Embora limitados a um litro e usando apenas blocos e cabeça de série, os pequenos motores eram surpreendentes, rodando até às 10.000 rotações e gritando a plenos pulmões. Os F3 desta época eram conhecidos por “Screamers”, devido aos seus “dotes vocais”.
No início, os motores mais populares eram os BMC, Ford, Renault e Fiat. No entanto, de 1966 em diante, os Ford, preparados pela Cosworth ou Holbay, eram a escolha dos pilotos mais rápidos.
Embora fosse uma categoria dirigida a pilotos privados, havia equipas com melhores recursos. Tinham peças sobressalentes, vários motores para cada carro, mecânicos e oficina móvel equipada. No outro extremo estavam as estruturas com orçamento contado. Um velho furgão, um reboque e um Fórmula 3 com alguns anos. Alguns tinham a ajuda de um mecânico, mas muitos tratavam de tudo, com a ajuda da mulher ou da namorada.
Esses entusiastas nómadas viviam dos prémios de partida que as organizações lhes pagavam para aparecer, fazer os treinos e completar pelo menos uma volta na corrida.
As organizações mais generosas também davam prémios em dinheiro a quase todos os que terminassem a corrida principal.
Também por este motivo, Cascais atraiu, em 1965 e 1966, alguns dos principais pilotos desta categoria, que trouxeram um espetáculo emocionante a Portugal…

Sobre o autor
Adelino Dinis é um jornalista português nascido em Gouveia, a 1 de setembro de 1972.
Foi diretor de publicações dedicadas aos veículos clássicos e colaborador de diversas publicações especializadas, incluindo o Autosport.
É autor de várias obras com o tema dos automóveis e do automobilismo, como as biografias de Mário de Araújo Cabral (2001) e de Giovanni Salvi (2019), bem como as histórias da Mercedes-Benz (2006 e 2015) e Jaguar (2012) em Portugal.
Através das Edições Vintage tem dado ao prelo obras de outros autores, como Carlos Guerra, Ricardo Grilo e Sérgio Veiga.

Ficha técnica:
Título: Circuito de Cascais 1963-66
ISBN: 978-989-54665-1-1
Autor: Adelino Dinis
Editor: Edições Vintage
Capa dura
160 páginas a cores e preto e branco
Inglês e Português
209 fotografias
Preço de lançamento: €40
Encomendas através do email: [email protected]