Dakar 2021 na Arábia Saudita: Os suspeitos do costume
Depois de um ano totalmente marcado pela pandemia de coronavírus, e apesar de um susto devido ao fecho das fronteiras por parte do Reino da Arábia Saudita, tudo se resolveu e o Dakar 2021 vai mesmo em frente. Como tem vindo a ser habitual, Toyota e Mini vão lutar pelo triunfo, no ano de estreia da incógnita BRX Extreme de Sébastien Loeb e Nani Roma. Ricardo Porém encabeça o curto contingente luso.

Ainda hoje quando conversamos com pilotos que se estreiam ou já participaram na prova, não são poucas as vezes que ouvimos “Paris-Dakar”, de tão ‘entranhado’ que ficou na mente das pessoas a prova sabiamente sonhada e desenvolvida por Thierry Sabine, hoje em dia, um dos mais importantes eventos do ano motorizado, e, como sempre foi, uma enorme aventura para máquinas, pilotos e equipas, quer seja em termos mecânicos, físicos ou mentais.
Depois de se ter tornado o 30º país diferente a receber o evento, a Arábia Saudita recebe a caravana pela segunda vez, desta feita, e muito naturalmente, com menos inscritos que nas edições anteriores. A pandemia continua ainda a vergar vidas e a economia ressente-se.
A edição de 2021 do Dakar terá novamente lugar exclusivamente na Arábia Saudita, com as equipas a partir da cidade de Jeddah no dia 3 de janeiro.
O percurso de 2021 atravessará terreno semelhante ao da edição de 2020, mas os organizadores asseguraram novos percursos. O tradicional dia de descanso terá lugar a 9 de janeiro na cidade de Ha’il, antes dos concorrentes rumarem novamente até Jeddah, com o final agendado para 15 de janeiro. O percurso de 2021 também inclui duas etapas que começam e terminam no mesmo local, bem como a tradicional etapa Maratona que os concorrentes terão de completar sem um regresso noturno para assistência no bivouac.
Será introduzido um novo roadbook digital para a edição de 2021, com o percurso apenas disponível imediatamente antes do início de cada etapa. Esta abordagem foi testada em etapas selecionadas no Dakar 2020, mas tornar-se-á a nova norma. Este novo formato, não só acrescenta um nível extra de imprevisibilidade, como também torna todo o processo mais fácil de administrar e controlar pelos comissários da prova.

Percurso mais lento
O deserto saudita volta a receber os melhores pilotos de TT do mundo, desta feita com os concorrentes já a terem uma ideia muito precisa do que podem encontrar.
Tal como no ano passado, etapas longas e novamente um grande desafio. Apesar das dificuldades associadas à pandemia, um forte plantel de concorrentes respondeu à chamada, com 321 veículos na lista de inscritos. Para além de 108 motos, 21 quads, 124 carros e SSV, 42 camiões, 26 veículos foram inscritos para uma competição de regularidade na nova categoria Dakar Classic, aberta a carros e camiões construídos antes do ano 2000.
“Ouvimos muitas vezes que participar no Dakar é uma vitória em si mesmo. Este é certamente o sentimento que nos revigorará a todos, começou por dizer David Castera.
Após uma introdução aos desertos sauditas, os concorrentes do Dakar 2021 podem contar com uma menor velocidade média, o que aumenta as condições de segurança, e realçar as qualidades desportivas dos concorrentes. Os participantes do Dakar entrarão em ação a 2 de janeiro com um prólogo de 11 km para determinar a posição de partida de cada concorrente para a etapa de abertura.

Quem vai estar mais forte: Mini ou Toyota?
Não deverá ser muito diferente do ano passado as várias lutas na frente. Nas motos, Ricky Brabec e Honda puseram em 2020 fim a uma série de 18 vitórias consecutivas da KTM, que regressa com um forte alinhamento para tentar iniciar nova série de vitórias, enquanto o vencedor em título da categoria de quads, Ignacio Casale, partirá para um novo desafio, nos Camiões, a mesma classe em que descobriu o Dakar em 2010. Vencedor de 2020 nos autos, ao volante de um Mini X-Raid buggy, Carlos Sainz regressa com a mesma ambição mas talvez não com a mesma sorte que lhe permitiu controlar a ameaça de Nasser Al-Attiyah, piloto da Toyota. Espera-se animada competição entre os dois principais construtores, que será intensificada com o regresso de Sebastien Loeb e Nani Roma na nova equipa equipa privada, BRX Prodrive. Cyril Despres e Mike Horn lançaram um projeto para um veículo de energia alternativa para o Dakar, serão mais um duo a ter em conta. E o vencedor da categoria SSV de 2019, o chileno Francisco ‘Chaleco’ López, será o homem a bater, numa categoria em que a hierarquia, no entanto, está em constante mudança. Nos últimos dois anos, uma vitória para a Moini (2020), outra para a Toyota (2019), isto depois de três anos seguidos da Peugeot a vencer.

Quem é o favorito?
Tendo em conta o que se viu o ano passado, a corrida via ser equilibrada entre a Mini e a Toyota, com qualquer dos lados da barricada a ter boas hipóteses de vencer. Tudo vai depender muito dos contratempos mecânicos, que todos vão ter, dos erros de navegação, que também sempre existem, e neste particular, depende da ‘gravidade’ de casa um, o mesmo se aplicando aos contratempos mecânicos. O equilíbrio é sempre a chave, mas o problema é que enquanto um piloto procura esse equilíbrio, nunca sabe se o tempo que está a perder por não andar mais depressa lhe vai fazer falta. É assim mesmo o Dakar.
Quanto BMX à Prodrive, é uma verdadeira incógnita, porque ainda não competiu face à Toyota e Mini, mas tendo em conta a experiência de Loeb e Roma, provavelmente já vão ter um bom andamento. Tudo vai depender depois da fiabilidade, o que no primeiro ano é sempre uma verdadeira incógnita.
Na Mini, a mesma receita do ano passdo, o MINI JCW Buggy e Carlos Sainz/Lucas Cruz e Stéphane Peterhansel/Edouard Boulanger. Apesar da pamdemia e das limitadas oportunidades para testar, os engenheiros da X-raid ainda conseguiram introduzir melhorias substanciais no Buggy. Entre outras coisas, foi reduzido o peso global do carro, alterada a geometria da suspensão, que também foi otimizada. Entre as duas duplas, estão 13 vitórias no Dakar.
Na Toyota, Nasser Al-Attiyah/Mathieu Baumel, Giniel de Villiers/Alex Haro, o rookie Henk Lategan/Brett Cummings e Shameer Variawa/Dennis Murphy. A equipa, que compete no Dakar desde 20212, mistura este ano a experiência e a juventude. Há que começar a pensar no futuro. Al Attiyah e de villiers dispensam apresentações, os sul africanos Henk e Brett, venceram recentemente o campeonato sul africano de TT e agora vão aprender na sua primeira visita ao Dakar. Shameer e Dennis, também sul africanos, completam a equipa, também eles vão aprender o Dakar, ‘montados’ num dos melhores carros do plantel, a última versão da Toyota Hilux, com mais evoluções, desta feita na suspensão e motor V8 naturalmente aspirado. A mais percetível alteração está no desenho exterior, que agora reflete a última versão da produção da Toyota Hilux. Aqui, têm logicamente que ser referidos, Yazeed al Rajhi e Dirk von Zitzewitz (Toyota Hilux Overdrive), quartos classificados o ano passado, sétimos há dois anos, são candiataos claros ao pódio.

Os outsiders
Ricardo Porém, este ano com Jorge Monteiro ao lado, regressa ao Dakar com a Borgward, mas será a Bahrain Raid Xtreme de Sébastien Loeb e Nani Roma a recolher as atenções para lá das duas equipas favoritas. Com o BRX T1 Rally com tudo para provar, o que vão conseguir fazer na prova depende do que a Prodrive, Loeb e Roma conseguiram fazer durante a fase de desenvolvimento e testes: “O Dubai deu-nos a oportunidade de testar o carro em condições semelhantes às que podemos esperar na Arábia Saudita, estou satisfeito com o desempenho e o equilíbrio do carro, mas depois de ter realizado quatro Dakar, já aprendi que não posso subestimar o desafio que representa, especialmente para uma nova equipa e um novo carro”, disse Sébastien Loeb, que sabe bem o que testou com a Peugeot, e o que mesmo assim a equipa ‘passou’ na primeira vez que regressou ao Dakar. Portanto, é esperar para ver.
São vários os Mini presentes, todos eles candidatos ao top 10, alguns deles, ao top 5. São seis os Mini no Dakar, para lá dos dois Buggy oficiais. Os argentinos Orlando Terranova e Ronnie Graue estarão ao volante de um MINI JCW, bem como Vladimir Vasilyev/Dmitry Tsyro, e Victor Khoroshavsev/Anton Nikolaev. Os brasileiros Guiga Spinelli/Yousseff Haddad correm num Mini All4 Racing. Terranova está com a X-raid no Dakar desde 2013, e em 2020, foi sexto.
Vasilyev volta ao Mini, pode fazer um bom resultado, Khoroshavsev e Spinelli são candidatos ao top 10. Neste contingente há ainda, por exemplo Vaidotas Zala, vencedor da primeira etapa do ano passado, que disputa o Dakar com Paulo Fiúza num Mini. Como se sabe, em 2020 o português foi terceiro ao lado de Stephane Peterhansel. Bernhard ten Brinke/Tom Colsoul (Toyota Hilux Overdrive) podem fazer melor que o sétimo lugar do ano passado, Jakub Przygonski e Timo Gottschalk (Toyota Hilux Overdrive), foram 7º, 5º e 4º entre 2017 e 2019, mas o ano passado a prova não lhes correu bem.
Mathieu Serradori e Fabian Lurquin (Buggy SRT) são candidatos ao Top 10 e podem fazer brilharetes em etapas. Khalid Al Qassimi e Xavier Panseri foram sextos o ano passado com o Peugeot 3008 DKR. Martin Prokop e Viktor Chytka (Ford Ranger) vão tentar fazer melhor que o sétimo lugar do ano passado. Há ainda que contar com Erik Van Loon/Sébastien Delaunay (Toyota Hilux Overdrive), Cyril Després/Mike Horn (Peugeot); Romain Dumas/Gilles Turckheim (Buggy Rebellion) e finalmente Benediktas Vanagas e Filipe Palmeiro (Toyota Hilux) que o ano passado foram 15º.
Alterações nas regras
Este ano, novamente as regras sofreram algumas alterações e visam, uma vez mais, garantir o máximo de igualdade de condições quando se trata de navegação, e também ‘abrandar’ os veículos para tornar a corrida mais segura. O roadbook será entregue 10 minutos (para os carros) ou 20 minutos (para as motos) antes do início de cada etapa. Após um teste em certas etapas de 2020, desta vez será em toda a prova. Além disso, as equipas nas categorias automóvel, SSV e camião receberão uma versão digital do roadbook num ‘tablet’, que eventualmente será alargado às restantes categorias.
O roadbook já destaca as zonas de perigo, mas a partir de agora os concorrentes também receberão avisos sonoros na aproximação às zonas de nível de perigo 2 e 3, para os manter alerta. Além disso, alguns setores especialmente difíceis e perigosos serão categorizados como ‘zonas lentas’ onde o limite de velocidade será ajustado. Quanto aos pneus sobressalentes, a cada moto será concedido um total de seis pneus traseiros para todo o rali.
Os ‘coletes de airbag’, que já são utilizados em várias categorias de estradas e no MotoGP, podem reduzir a gravidade dos ferimentos em caso de acidente grave. Após testes e aprovação no Rally da Andaluzia, foram tornados obrigatórios para as categorias de motos e quads.
Foram ainda introduzidas penalizações por mudanças de motor, há alguns anos para obrigar os pilotos a andar com cuidado. A partir do próximo ano, serão aplicadas penalizações em tempo a partir da segunda mudança de pistão, mesmo que o resto do motor permaneça o mesmo.
De acordo com o objetivo global de encorajar os concorrentes a cuidar bem das suas máquinas, os motociclistas já não poderão trabalhar nas suas motos nos postos de reabastecimento. A paragem de 15 minutos será reservada para reabastecimento e repouso.
Repete-se ainda o Dakar Experience, que permitiu a 22 equipas, no ano passado, que tiveram a oportunidade de permanecer na corrida apesar de terem abandonado a prova. O objetivo é permitir que os amadores ‘rookies’ ganhem experiência para o futuro.
Dakar Classic
Cerca de três dezenas de veículos vão competir no Dakar Classic, uma corrida de regularidade para automóveis e camiões das décadas de 1980 e 1990. Os veículos históricos do Dakar passam a fazer parte da aventura, também. O Dakar dos anos 80 e 90 devolveu imagens e histórias que forjaram o ADN do evento e embora estes veículos históricos já não sejam competitivos, continuam a ser interessantes e todos os dias será feita uma classificação elaborado com base no cumprimento da média velocidades estabelecidas para cada uma de várias etapas. Os clássicos correrão com o relógio, não contra ele…




