Os ralis perdidos do WRC
Numa altura em que se fala cada vez mais do regresso do WRC a horizontes onde já esteve – como o Chile, Japão, ou o China – nada mais oportuno que dar uma vista de olhos pelo que já se fez, e já desapareceu, no Mundo de Ralis.
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Numa altura em que se sabe que os promotores do WRC e a FIA querem que o WRC regresse a horizontes onde já esteve – como o Brasil ou o China – e vá também para novos países, nada mais oportuno que dar uma vista de olhos pelo que já se fez e já desapareceu, em termos de ralis do principal campeonato do Mundo. Desde que o campeonato foi criado, em 1973, muitos foram os ralis que pelo seu calendário passaram. Alguns, deixaram, história – como o Safari ou a Nova Zelândia. Outros, foram meras pinceladas de desvario da FIA – ou, pior ainda, erros monumentais de ‘casting’. Um a um, vejamos de forma breve o que foram e o que deixaram nas nossas memórias. Ou não…
Rali da Áustria 1973
Os Alpes Austríacos (Österreichische Alpenfahrt) são uma das provas mais antigas da Europa. A primeira edição realizou-se em 1910, antes do Rali de Monte Carlo e, até à Primeira Guerra Mundial, foi considerada um dos ralis mais duros. Na realidade, o seu percurso, ao longo dos Alpes, ainda hoje é recordado por muitos amantes da adrenalina, realizando-se mesmo uma longa prova, por estrada aberta – tal como era nos tempos heróicos… – em que homens e máquinas de agora medem as suas capacidades de curva em curva, com olhos postos nos abismos. Hoje, com carros possuindo tudo o que de melhor existe em termos de segurança ativa e passiva (mesmo assim, há um par de meses, durante a ‘edição’ deste ano, uma equipa de jovens britânicos perdeu a vida, quando o SEAT Leon em que estavam a ‘correr’ se despistou numa dessas curvas e se despenhou por uma ravina de 400 metros de fundo…). Agora, imagine-se o que era nas décadas de 1910 a 1930, em que entre os carros presentes estavam os monstruosos Auto Union Type C! No entanto, a sua fama era tal que, quando a Áustria percebeu que não tinha dinheiro para reeditar a prova, após a Guerra, foi uma ‘pool’ de diversos países (França, Suíça, Alemanha e Itália) a custear as despesas da sua realização, entre 1928 e 1936!
Depois da Segunda Grande Guerra, os Alpes Austríacos voltaram em 1949 e, até 1965, a prova acolheu quase somente motos, por razões económicas mas, entre esse ano e 1973, o seu prestígio regressou aos píncaros mais elevados. Porém, após aquela que foi a única edição inscrita no calendário do WRC (em 1973, o seu primeiro ano, quando ainda se não chamava assim), a crise petrolífera levou a novo encerramento do rali. Desta vez, definitiva: a prova foi reatada em 2002, como rali de clássicos (Internationale Österreichische Alpenfahrt Classic Rallye) – mas não aquele em que morreram os dois britânicos – e, em 2010, celebrou-se com pompa e circunstância o seu centenário. A edição de 1973 viu Achim Warmbold conquistar aquela que foi a sua segunda vitória no WRC (a primeira tinha sido na Polónia), ao levar o seu BMW 2002 Tii ao triunfo, numa prova muito dura totalmente disputada em estradas de terra, em setembro. Tão dura que, à partida, estiveram 75 equipas, mas somente 25 (33,8%) chegaram ao fim! Era a 9ª das 13 provas do calendário e, no total, os pilotos cumpriram 2.314 km de estradas, dos quais 324,5 em luta com o cronómetro.
Rali do Brasil 1981-1982
O Rali do Brasil apenas se realizou duas vezes, enquanto prova do WRC – e tem que se referir que, para isso, contou com uma ajuda portuguesa: a muita experiência, enquanto organizador e piloto, de Francisco Santos, nessa altura a viver naquele país (e onde, por exemplo, já tinha ajudado a criar as corridas de camiões!). Mesmo fora do campeonato do Mundo, a prova continuou a realizar-se e, agora, é uma das que se fala que poderão regressar ao WRC a curto prazo – eventualmente, mesmo já em 2016. Longe vão os tempos das grandes confusões que foram as duas edições mundialistas! A primeira edição da prova teve um atrativo nacional de peso: a participação do português Carlos Torres que, com um Ford Escort RS 2000 e navegado por António Morais, acabou em 5º da geral e venceu o Grupo 1. No entanto, a dureza das estradas brasileiras, nitidamente pouco apropriadas para estas andanças, refletiu-se no número de equipas que ficaram pelo caminho: nada mais que nove, das 67 que começaram o rali… Entre elas, um dos favoritos, Shekhar Mehta, com p famoso Datsun Violet GT. Já a segunda não foi menos dura: das 50 equipas à partida, apenas cinco atingiram a chegada! O terceiro classificado ficou a quase duas horas do vencedor (no caso, vencedora, Michele Mouton, com um Audi Quattro) e, em 4º e 5º lugares, ficaram dois VW Passat 1.6, um a gasolina e outro a álcool,
respetivamente a 3h24m e 3h51m do primeiro!
Rali da Bulgária 2010
O Rali da Bulgária realizou-se pela primeira vez em 1965, então ainda sem autorização oficial e é uma das mais antigas provas do mundo – na verdade, é mesmo a mais antiga que existe do outro lado da (demolida…) Cortina de Ferro (hoje, de arame farpado, para barrar o caminho aos migrantes; mas esta é outra história…). Mais tarde, a prova deu origem ao Zlatni Piassatsi (ou Areias Douradas), em 1970 que, nessa década e nas duas seguintes, foi uma das mais importantes provas do Europeu, atingindo o coeficiente 20 entre 1988 e 2001. E foi com base nesta rica história que, em 2010, a FIA decidiu levar a prova, sob o nome de Rali da Bulgária (designação que já existia desde 2002), para o WRC. Foi uma vez sem exemplo – e foi, também, a coroa de glória do desporto búlgaro pois, também pela primeira vez, uma prova da Bulgária teve lugar num campeonato FIA. A edição de 2010 era a 41ª da história do rali. Os organizadores aproveitaram as estradas usadas na prova europeia (cerca de 250 a 270 km), adicionando os restantes requeridos pela FIA a partir das classificativas que tinham feito parte da edição de 2002, junto às cidades de Peshtera e Batak e em volta da famosa estância de esqui de Borovets – que, curiosamente, faziam parte do traçado de outra prova célebre no país, o Rali Hebros. Sétima prova do calendário, o Rali da Bulgária foi ganho por Sébastien Loeb, que conquistou aqui a sua quarta vitória do ano . Porém, mais que isso, foi uma espantosa demonstração da eficácia do C4 WRC, com o alsaciano a liderar um ‘comboio’ de quatro carros franceses. Atrás de si, ficou o seu colega de equipa, Dani Sordo, na frente do privado Petter Solberg e do outro piloto da
Citroën, um tal de Sébastien Ogier. Todos eles, em menos de dois minutos! Logo a seguir, mas a quase quatro minutos, começou novo ‘comboio’ – neste caso, composto por três Ford Focus RS WRC’09, com os ‘oficiais’ Mikko Hirvonen e Jari-Matti Latvala na frente do privado Per-Gunnar Andersson. Loeb foi o único líder da prova, em que as 14 classificativas foram todas ganhas por pilotos da Citroën, com o campeão do Mundo á cabeça (venceu seis, contra cinco de Solberg, duas de Sordo e uma de Ogier). Mais palavras para quê?
Rali nos EUA (1973-1988)
Toda a gente sabe que os ‘States’ não são conhecidos pelas suas provas de estrada – talvez, hoje, com exceção das Bajas, mas estas não são a mesma coisa. Por isso, embora os ‘States’ sejam um dos grandes colossos da indústria automóvel, os ralis nunca tiveram grande expressão no WRC. Na verdade, apenas por cinco vezes lá estiveram representados – duas nos anos 70 e três na década seguinte. Porém, numa prova de como o país não vivia apenas da velocidade pura das ovais e dos ‘dragsters’, fez parte do primeiro calendário do WRC, em 1973. A prova chamavase Press-on-Regardless, nome que manteve no ano seguinte e foi ganha por Walter Boyce, um canadiano que, então, era o maior piloto deste tipo de provas na América do Norte. Nesse ano, não teve grande representatividade junto do núcleo duro dos ralis mas, em 1974, acolheu os principais nomes e marca da indústria… europeia. Mesmo assim, foi um Renault 17 Gordini, carro com pouca expressão, que dominou a prova – pilotado, isso sim, por um grande nome, Jean-Luc Thérier. Nesse ano, a prova saiu do WRC e as competições em estrada nos ‘States’ também. Contudo, é preciso que se explique que o Presson- Regardless, que tinha a região de Detroit (claro!) por palco e se realizava desde 1949, ainda hoje existe.
Durante mais de dez anos, o WRC manteve-se longe da pátria da GM e da Ford. Regressou apenas em 1986 – com o Olympus Rally, uma prova que existia desde 1973 e fazia parte do campeonato SCCA Pro Rally. Em 1985, quando a FIA decidiu voltar, o Olympus funcionou com prova de ensaio e, nos três anos seguintes, pontuou para o WRC. Depois de 1988, a prova deixou de ser organizada, voltando apenas em 2006 e mantendo-se, até hoje, no calendário de ralis do principal campeonato norte-americano.
Rali do Canadá (1974-1979)
Nunca houve nenhum Rali do Canadá no WRC. Mas existiram duas provas, realizadas naquele país, que – por quatro vezes – figuraram no calendário do Mundial. A primeira vez foi em 1974 e a prova chamava-se Rally of the Rideau Lakes e teve a sua primeira edição em 1973. Sediada na região de Smith Falls, Ontario, a prova era composta por 40 classificativas, em estradas de terra. Depois da edição de 1974, problemas financeiros atiraram a prova para o esquecimento – nesse ano, o vencedor foi Sandro Munari, com um Lancia Stratos HF, na frente de Simo Lampinen (Lancia Beta Coupé) e do herói local, Walter Boyce (Toyota Celica). Dois anos tarde, em 1977, o WRC regressou ao Canadá, mas agora com uma prova disputada no Quebéc. Com o apoio da cervejeira Molsom, este que foi mais conhecido por Critérium du Québec (embora, por vezes, também lhe tenham chamado Rally of Canada…) manteve-se três anos seguidos no WRC e, quando de lá saiu, desapareceu do mapa. Literalmente…
Rali da China 1999
A China é hoje a maior potência económica em crescimento – e um dos maiores mercados mundiais (se não mesmo o maior). No entanto, pouco ou nenhuma história tem em termos de desporto automóvel. E só por causa das primeiras considerações (dinheiro, muito dinheiro… e milhões de espetadores potenciais) se percebe porque, 16 anos após a primeira e única edição do Rali da China com honras de WRC, se voltar a falar em semelhante coisa. A primeira edição do Rali da China teve lugar em 1997, integrando o calendário do campeonato da Ásia Pacífico (ASPR). Colin McRae foi o vencedor, façanha que repetiu no ano seguinte, sempre com um Subaru Impreza WRC. E terá talvez sido esse elan o despoletar da FIA para a importância de levar a caravana do WRC àquele imenso país. Foi um fiasco: depressa se percebeu outra coisa, a que a FIA costuma dar uma enorme importância: a falta de experiência organizativa dos homens da incipiente federação chinesa e a falta de condições logísticas (alojamento, estradas, segurança, aeroportos) para acolher as exigências de uma tão grande responsabilidade. Pode agora pensar-se, com ou sem razão que, ao longo dos anos, com a prova a realizar-se sem interrupção e sempre pontuando para o APRC, os homens locais tenham aprendido alguma coisa. Quiçá ao ponto de a FIA lhes renovar a confiança, colocando-lhe novamente a responsabilidade de levarem por diante uma prova mundialista. Mas, isso, só o futuro o dirá – se forem por diante as intenções da federação comandada por Jean Todt. Regressando ao único Rali da China do WRC, o de 1999. Com duas classificativas canceladas por razões de segurança, a prova foi liderada por Didier Auriol, numa primeira fase, antes de ser ‘substituído’ primeiro por Tommi Mäkinen (até este se atrasar e acabar por desistir, vítima de problemas de suspensão já na parte final da prova) e por Richard Burns. Mas, na fase final, o piloto do Toyota Corolla WRC desfechou um ataque demolidor, assumindo o comando a partir da PEC 14 e mantendo em sentido os seus adversários ao longo do derradeiro dia. No final, bateu Burns por 55,8s, com o seu colega de equipa, Carlos Sainz, a mais de 2m19s. No ano seguinte, ‘castigada’ pela avaliação dos observadores da FIA, a prova perdeu o seu lugar, sendo substituído pelo Rali de Chipre. O ano passado, a FIA colocou a prov no calendário, quase dando carta branca aos organizadores, mas as chuvas que danificaram estradas meses antes da prova foram um bom pretexto para os chineses não mexerem uma palha para resolver o problema e com isso perderam a vaga. Mas a FIA tentar até conseguir. Como vai correr é que ninguém sabe…
Rali da Costa do Marfim (1978-1992)
O Rali da Costa do Marfim, também conhecido por Bandama, é o emblema do WRC na costa este de África. Utilizando as densas florestais daquele país de colonização francesa, a prova desenrolou-se, no quadro do Mundial, entre 1978 e 1992, num total de 15 vezes. Realizada pela primeira vez em 1969, ainda hoje tem lugar, sendo uma das principais provas de ralis do continente negro. Sobre ela, pode encontrar um trabalho mais exaustivo no AutoSport Histórico nº 1891. Aqui, apenas como recordação, relembramos somente o seu palmarés no WRC.
Rali de Chipre (2000-2009)
O Rali de Chipre, que esteve no WRC entre 2000 e 2009, foi considerado como mais lento do calendário. O mais lento, mas também um dos mais demolidores, com as suas estradas em duro piso de terra, em plenas montanhas de Troödos, mais apropriado para a prática do TT do que para provas de ralis, com os seus calhaus pontiagudos e as barreiras laterais. Era, mesmo, mais duro que a Acrópole, com quem compartilhava as características rugosas das estradas… A prova, que ainda hoje tem lugar, começou a realizar-se em 1983 e, desde logo, inscrita no Europeu de Ralis onde, em 1990, passou a usufruir do coeficiente 20, o máximo possível. Foi assim até 1999 – e, no ano seguinte, recebeu a ‘promoção’ para o WRC. Desde 2010, fez parte, sucessivamente, do IRC, do MERC (campeonato do Médio Oriente) e, agora, também do ERC. O centro nevrálgico tem sido em Limassol, a segunda cidade da ilha. Sébastien Loeb ganhou as quatro últimas edições do WRC – 2004 a 2006 e em 2009 (após dois anos afastado do WRC).
Rali da Indonésia 1996
Em 1996, o dinheiro de um dos maiores bancos indonésios – o Utama – que já financiava a prova desde 1991, convenceu a FIA a levar a caravana do WRC às inóspitas pistas indonésias. Foi um erro de ‘casting’, mas a FIA queria a todo o custo expandir horizontes, nem que para isso tivesse que desbravar terreno desconhecido. O erro saltou à vista na segunda edição da prova no Mundial, em 1997 – e, apesar de inscrita no calendário de 1998, o Rali da Indonésia depressa se reduziu à sua insignificância: a de ser, mesmo assim, a maior prova de ralis existente no país (desde 1986). As duas edições do WRC foram ganhas por Carlos Sainz, em ambas depois de duras pelejas. Mas nem este interesse desportivo serviu para salvar a realização do evento, que se fez depois entre 2000 e 2009 como prova integrante do campeonato FIA da Ásia Pacífico. A sua última edição foi em 2013.
Rali da Irlanda (2007-2009)
A pro va de ralis mais popular na Irlanda é, desde há muitas luas, o chamado Circuito da Irlanda. Esta é a prova mais antiga que se realiza de uma forma regular na ilha – desde 1931, então muito à imagem aquela que é considerada (talvez erroneamente, mas enfim…) como ‘A Mãe de Todas as Provas’, o Rali de Monte Carlo. Mas não foi ela que a FIA escolheu para entrar no WRC, em 2007 – mas sim um pequeno rali local, que se fazia desde 2005 e tinha a chancela da federação oficial Motorsport Ireland, ligada à federação principal do Reino Unido. Porque, é preciso que se diga, esta prova decorreu no Ulster, que é tecnicamente parte do país gerido pela rainha Isabel II…
Curiosamente, foi um sucesso. A sua primeira edição decorreu no final da temporada, entre 16 e 18 de novembro – foi a 15ª de 16 provas do calendário – e utilizou as estradas em cimento e asfalto, muito escorregadias e estreitas, mas muito rápidas, embora bastas vezes ladeadas por muros em pedra, dos arredores de Belfast, a capital da província. A prova começou por uma Super-Especial realizada nos jardins do Parlamento, em Belfast e, depois, saiu para os campos, passando pelos condados de Sligo, Donegal, Fermanagh, Tyrone, Leitrim, Cavan e Roscommon, mais a norte do território e também na República irlandesa. O Rali da Irlanda, embora nitidamente uma prova ‘inglesa’, recebeu apoio de ambos os lados da fronteira, o que contribuiu para o seu enorme sucesso. Não se realizou em 2008, por causa da rotatividade das provas do calendário mas, em 2009, teve a honra de abrir o campeonato. Uma honra que foi retribuída pelo impressionante número de 250 mil espetadores que se dispersaram pelas estradas. Já agora, nesse ano a prova foi transmitida, em direto ou não, para 180 países… A prova nunca mais se realizou, apesar de se esperar que ela acontecesse em 2011. Porém, foi o próprio promotor do evento a encarregar-se de anunciar, meses antes, que ela não iria ter mais lugar. Desportivamente, as duas edições realizadas foram feudo de Sébastien
Loeb (claro!) que, sempre com o Citröen C4 WRC, não deixou mais que simples migalhas para os seus adversários, em ambas as vezes capitaneados por Dani Sordo. Em 2009, a rapidez das classificativas fez vítimas entre os favoritos e causou também algumas surpresas. Uma delas foi o estónio Urmo Aava que, na sua estreia com o Ford Focus oficial, liderou a prova durante duas especiais, antes de se despistar violentamente, na sexta classificativa. Também Conrad Rautenbach, um natural do Zimbabwe que então era piloto oficial da Citroën, estava a dar boa conta de si, terminando o primeiro dia em 5º lugar, quando ‘plantou’ o C4 WRC na lama, no segundo dia, caindo várias posições, pois não encontrou ninguém que o ajudasse a sair do local. Então jovens promessas, quem hoje ainda se lembra deles?
Rali do Japão (2004-2010)
O Rali do Japão (então como Hokkaido) teve a sua primeira edição em 2002 e, entre 2004 e 2010, fez parte do WRC (com uma interrupção em 2009). Simplesmente, a FIA queria saber se os japoneses gostavam tanto de ralis como de F1 – e depressa perceberam que não. E em 2011 a prova não apenas deixou de fazer parte do calendário – deixou mesmo de se realizar! O Rali do Japão foi disputado, nos primeiros anos, nas estradas de terra estreitas e apertadas dos arredores de Tokachi, antes de, em 2008, se deslocar para zona de Hokkaido, onde afinal a prova tinha nascido. Durante a sua curta vida no WRC, a prova foi absolutamente normal e a única exceção aconteceu na edição de 2007. Nesse ano, os dois pilotos que lutavam pelo título abandonaram, permitindo a Mikko Hirvonen conquistar aquele que seria o seu terceiro triunfo no campeonato – e o segundo do ano. Primeiro, foi Marcus Grönholm, ainda no primeiro dia, depois de danificar o ‘roll bar’ do Ford Focus RS WRC em consequência de um violento capotamento. Logo a seguir, na classificativa número 5, foi a vez de Sébastien Loeb abandonar, depois de Daniel Elena, oi seu navegador, ter lido mal uma nota – a primeira vez que isso sucedeu em dez anos! No ano a seguir, a prova – a mais longa da sua história ‘mundialista’, com 29 especiais – ficou marcada pelo brutal despiste de François Duval (Ford Focus RS WRC’07), que deixou o navegador, Patrick Pivato, em estado muito grave, com fraturas pélvicas e nos membros inferiores, de que viria a recuperar meses mais tarde.
Rali da Jordânia (2008-2011)
Um rali do WRC na Jordânia? Bom, até pode ser – desde que a FIA queira! E quis: em 2008, o Rali da Jordânia, que existia desde 1981 e fazia parte do campeonato do Médio Oriente (MERC), passou a fazer parte do WRC! Era a primeira vez que o campeonato tinha uma prova realizada no Médio Oriente – próximo dos diversos conflitos étnicos e políticos que, desde há décadas, têm assolado a região. A primeira edição do rali integrado no WRC realizou-se em abril, utilizando as estradas dos arredores de Amman, a capital do país, mais precisamente na região do Mar Morto. Um pormenor: todas as classificativas, exceto uma (20 em 21!) , ficavam abaixo do nível do mar. Sem infraestruturas adequadas, foi preciso construir de raiz tudo – e, para isso, o governo mobilizou os serviços do Exército que, em tempo recorde, levantaram o necessário para que decorressem sem problemas os parques de assistência, numa área de 50 mil metros quadrados. É que, queira-se ou não, esta era a maior prova de automóveis que existia no território jordano!
O Rali da Jordânia de 2008 foi ganho por Mikko Hirvonen, num Ford Focus RS WRC’07, que bateu Dani Sordo por mais de 1m15s. Mas a sua liderança apenas se consolidou depois de Sébastien Loeb ter desistido e Jari-Matti Latvala se ter atrasado, depois da primeira PEC do terceiro e último dia. Após um hiato em 2009, o Rali da Jordânia realizou-se ainda no quadro do WRC em 2010 e 2011, sendo neste ano o palco da quarta vitória de Sébastien Ogier. Mas esta edição esteve em risco de não se realizar: protestos políticos na Síria atrasaram a chegada dos barcos com os carros e o equipamento e responsáveis pelas equipas, como a Citroën, pediram mesmo à FIA para a prova ser cancelada. A solução foi anular o primeiro dia, até porque, para piorar as coisas, abateu-se uma violenta tempestade ao largo de Haifa, onde os barcos deveriam atracar. No final, o resultado desportivo do Rali da Jordânia acabou por ser uma agradável surpresa, pois revelou uma das mais apertadas diferenças entre o vencedor e o segundo classificado da história do WRC: 0,2s separaram Ogier de Latvala! Um pequeno pormenor: de todas as 32 edições da prova, quem mais vezes a venceu foi o príncipe árabe Mohammed Bin Sulayem, um dos vultos mais importantes do automobilismo local (e, porque não, mundial…): nada mais que 12 vezes, com a primeira a ser em 1984 e a última em 2002!
Rali de Marrocos (1973-1976)
O Rali de Marrocos pode definir-se com o percursor das grandes maratonas pelas pistas arenosas africanas. A sua primeira edição teve lugar em 1934 e, até 1988, realizou-se de uma forma intermitente. Juntamente com o Safari, era decidido através das penalizações. Na década de 70, fez parte do primeiro calendário do WRC (outra vez, tal como o Safari) e realizou-se mais duas vezes, em 1975 e 1986. Foi sempre ganho por carros franceses, com os maciços Peugeot 504 a demonstrarem uma incrível capacidade de resistência nas demolidoras pistas do norte de África. Muitas das classificativas eram de longa distância, a exemplo do que mais tarde se fez no Dakar. Mas outras eram mais curtas e, de qualquer forma, sempre feitas a velocidades elevadas. O vencedor andava por vezes um dia inteiro (24 horas!) ao volante. Em 1988, a prova sofreu uma interrupção, regressando apenas em 2013, começando com enorme pompa e circunstância … e a ‘benção’ de Sua Majestade, o rei Mohammed VI.
Rali da Nova Zelândia (1977-2012)
Entre 1977 e 2012, o Rali da Nova Zelândia fez parte, por 31 vezes, do calendário do WRC. Decorreu sempre na ilha Norte, primeiro em Taupuo e depois nos arredores de Auckland, antes de se mover para a vizinha cidade de Hamilton. A primeira edição teve lugar em 1969 e, em 1972, Andrew Cowan foi o primeiro piloto de renome internacional a ganhar a prova, seguindo-se, no ano seguinte, Hannu Mikkola. Com paisagens magníficas, em especial da zona costeira, a prova dos antípodas carateriza-se por rápidas estradas em piso de terra solto, que provoca algumas dores de cabeça aos pilotos, ainda para mais quando, ao lado da estrada, se encontram, por vezes demasiado próximas, as enormes árvores características da região. A edição de 2007 é considerada aquela em que a diferença entre vencedor e segundo classificado (respetivamente Marcus Grönholm e Sébastien Loeb) foi a mais curta da história do WRC.
Rali Safari (1973-2012)
A primeira edição do Safari teve lugar em 1953. Nesse ano, decorreu de 27 de maio a 1 de junho e foi uma espécie de celebração da coroação de Isabel II como rainha dos ingleses – que, então e até 1963, quando o país se tornou independente, eram ‘reis e senhores’ do território. Nesse ano, não houve vencedor oficial declarado, mas quem menos pontos de penalização teve foi a equipa Alan Dix/Johnny Larsen, ao volante de um VW Carocha 1131cc. A partir de então e durante muito tempo, mesmo até após o Kenya ser um país livre, o Safari foi olhado como um símbolo colonial. Palco de incríveis históricas, exigindo uma coragem a toda a prova e adotando velocidades suicidas em estradas abertas ao trânsito, o Safari já foi objeto, no âmbito do AutoSport Histórico, de um trabalho específicos, em que são recordadas algumas das memórias da prova. Pode encontrá-las na edição nº 1944. Agora, espraie o olhar pela tabela de vencedores – o Safari, com 29 edições mundialistas, foi uma das que mais vezes foi disputada nesse quadro. Ah! Sabe que, apesar do vencedor ser declarado através dos pontos de penalização, houve edições em que o seu tempo total, na estrada, foi superior a 16 horas?
Rali da Noruega (2007-2009)
Depois da Suíça, foi a Noruega o país mais afetado pela tragédia das 24 Horas de Le Mans. Durante décadas, as provas de automóveis foram proibidas no território e, apesar de terem um piloto importante de renome, John Haugland, a sua fama fez-se toda para lá das fronteiras, em especial na Suécia e na Finlândia. E foi só nas décadas de 80 e 90 que, a pouco e pouco, os ralis voltaram a ser aceites na Noruega, de forma oficial. Por isso, não é de espantar que, logo nos primeiros anos deste milénio, a FIA tenha começado a pensar em realizar uma prova nas estradas norueguesas – na verdade, o único local com neve garantida (a prova fez-se sempre em fevereiro, tal como a sua ‘irmã’ sueca) e em que as estradas eram muito semelhantes às suecas, muito rápidas e traçadas em florestas – se bem que um pouco mais estreitas.
O percurso usava muito das estradas (em terra gelada) do principal rali do país, o Finnskog, mas a base foi mudada de Kongsvinger para Hamar, onde existiam melhores condições, nomeadamente hotéis. Em 2006, teve lugar uma prova de candidatura, que foi um sucesso. O vencedor foi Henning Solberg, que travou um animado duelo com Daniel Carlsson, até este abandonar por despiste. O pódio ficou completo com as jovens esperanças locais, Mads Ostberg e Anders Grondal. Estavam, pois, lançadas as sementes. O primeiro rali da Noruega no WRC foi ganho por Mikko Hirvonen, na frente de Marcus Grönholm e de Henning Solberg. Em 2008,k a prova não teve lugar e, em 2009, foi dominada por Sébastien Loeb, no ano em que foi a segunda prova do calendário. O primeiro líder foi Petter Solberg, mas depressa Loeb se assumiu como o candidato ao triunfo, o seu segundo numa prova disputada em neve, depois da Suécia em 2004. Atrás de si ficaram os dois Ford Focus RS WRC oficiais de Mikko Hirvonen e Jari-Matit Latvala, na frente de Henning Solberg que, noutro Focus, foi o melhor piloto norueguês, depois de vencer uma dura batalha com Dani Sordo, quinto com o C4 WRC.
Rali da Turquia (2003-2010)
Verdadeira ponte entre o previsível e pragmático mundo europeu e o excêntrico e misterioso Oriente, a Turquia também poderá ter funcionado de uma maneira semelhante, quando o seu rali esteve inscrito no WRC, entre 2003 e 2010. Aliás, foi assim com o GP de F1, mas esta é outra história… A primeira prova verdadeiramente internacional decorreu em 1972, nos arredores de Istambul, onde aliás começava a terminava. Mais tarde, quando se começou a pensar em realizar uma prova com a chancela da FIA, nasceu o Rali da Anatólia, que adotou um formato tipo WRC em 2002, a sua segunda edição. Nesse ano, a organização convidou Sébastien Loeb (Citroën Saxo) e Juuso Pykalistö (Peugeot 206 WRC) para participarem, naquela que foi a primeira vez que existiram inscrições deste calibre. Muito dura e rápida, a prova foi ganha por três vezes por Loeb, a última delas em 2009, ano da derradeira edição no Mundial. O Rali da Turquia não se realizou em 2008 e, em 2007, não pontuou para o campeonato, tendo então sido ganho por Nicolas Vouilloz, num Peugeot 207 S2000. Estará de regresso para o ano no WRC, numa zona diferente, das que se realizaram até aqui.
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