Entrevista a Mikko Hirvonen: “O Loeb podia ser batido, mas era extremamente difícil”

Por a 3 Agosto 2024 16:40

Por José Luís Abreu

Há uns anos, apanhámos Mikko Hirvonen em Portugal, e aproveitámos a oportunidade para recordar os seus tempos de grande piloto do WRC. Nunca ganhou um título, mas não andou muito longe e deixou uma marca interessante no WRC. Recordemos essa conversa…

Costuma dizer-se que o segundo classificado é sempre o primeiro dos últimos, mas esse não de modo nenhum um epíteto justo para Mikko Hirvonen. Tendo sido considerado um dos grandes pilotos finlandeses das últimas duas décadas, não conseguiu ser campeão do mundo, mas a verdade é que nesse hiato de tempo, só Marcus Gronholm o conseguiu e logo no arranque do século.

Bem vistas as coisas, Hirvonen ‘apanhou’ pela frente aquele que é considerado por muitos como o melhor piloto de ralis de todos os tempos, Sébastien Loeb. Logicamente que esse era um tema que dava pano para mangas, até porque como o finlandês diz, as coisas não são tão líquidas como podem parecer à primeira vista, devido à dificuldade de comparar eras.

De qualquer das formas, Mikko Hirvonen tem no seu currículo seis pódios no campeonato, já que foi terceiro em 2006 e 2007, e segundo em 2008, 2009, 2011 e 2012, o último dos quais na Citroën, depois dos primeiros cinco terem sido obtidos na Ford.

Em 2008, 2009, 2011 e 2012, terminou sempre como vice-campeão de Sébastien Loeb. Olhando para o significado que o francês tem na história dos ralis, ficamos a perceber que o seu único ‘azar’ foi ter coexistido no topo dos ralis ao mesmo tempo que Loeb.

Mas esse foi um problema comum a muitos outros, e nenhum outro esteve tão perto quanto Mikko Hirvonen. Desde que Marcus Gronholm se ‘reformou’ Loeb só voltou a ter adversários quando o seu compatriota Sébastien Ogier chegou também ao topo.

Natural de Kannonkoski, povoação a cerca uma centena de quilómetros a norte de Jyväskylä, Hirvonen, como boa parte dos finlandeses, não tinha grande alternativa aos ralis, até porque nunca sequer colocou outra hipótese para a sua vida.

Sendo a Finlândia um país com enorme tradição na disciplina, Mikko Hirvonen fica na história como um dos bons finlandeses voadores, ainda que num patamar abaixo de ‘monstros’ como Ari Vatanen, Hannu Mikkola, Markku Alen, Timo Salonen, Juha Kankkunen, Tommi Makinen e Marcus Gronholm.

O que achas deste regresso a Portugal para guiares um carro que te deixou feliz tantas vezes?

Senti-me bastante bem, Portugal sempre foi um local excelente para fazer ralis, os adeptos são extremamente entusiásticos, gostam de desportos motorizados em geral, ralis em particular, para além de que é bom poder fazer ralis sem pressão, só pelo prazer de guiar, especialmente este carro, com o qual tive a maioria dos sucessos da minha carreira. Foi uma grande semana, gostei muito.

O que achaste deste evento?

Fiquei surpreendido, nunca pensei que fosse tão grande! Ver tantos carros históricos, motos, carros de endurance, F1, fiquei surpreendido e acho que devia haver mais eventos deste tipo, pois as pessoas estão cada vez mais interessadas na história do desporto motorizado, foi mesmo uma boa surpresa para mim…

Conduziste o Focus WRC à noite em troços que há 33 anos tinham lá 500 mil espetadores. Consegues imaginar isso?

É muito difícil de imaginar. A serra de Sintra é um local fantástico, nunca cá tinha estado, mas agora vi como é, mas não consigo imaginar estar ali assim tanta gente na estrada. Para quem lá guiou, acredito que deve ter sido impressionante ver tanta gente à beira da estrada, a atmosfera foi incrível…

A primeira parte de Sintra é como uma autoestrada, ou uma Rampa, mas depois são tudo estradas estreitas, irregulares, ganchos. Não são troços fáceis…

São bem giras! Acho que seriam troços perfeitos para o WRC. Rápidas em algumas zonas, muito técnicas, noutras, mas onde é possível ter um bom ritmo, não se tornam chatas, tenho a certeza que os pilotos adorariam fazer estes troços.

Disseste um dia que os ralis sempre fizeram parte da tua vida. Como tudo começou?

Penso que a história é semelhante a muitos outros pilotos, quando eu era um jovem o meu pai fazia ralis na Finlândia, vivíamos perto de um lago que quando ficava gelado no inverno, dava para ir para lá guiar e eu comecei a fazê-lo tinha seis anos, tudo o que tivesse motor. Guiava com amigos, divertíamo-nos, por isso começou a ficar claro para mim que queria ser piloto de ralis.

Achas que esse facto, ser muito fácil começar cedo a ter brincadeiras dessas, ajuda mais tarde a que haja muito jovens a querer ser pilotos nos ralis?

Talvez, é uma das razões, há muitas zonas boas para andar, mas os desportos motorizados há muito que são uma espécie de desporto nacional, temos bons pilotos em todas as modalidades, F1, ralis, motos, motocross, temos muitos campeões, penso que isso tudo junto faz com que muitos jovens queiram ser pilotos.

Qual foi o teu rali favorito, fora da Finlândia, e por quê?

Uma das coisas que os ralis do mundial sempre tiveram é que todos têm algo único, são sempre diferentes em alguma coisa, mas não podendo dizer Finlândia, diria que a Nova Zelândia é muito especial, as estradas são fantásticas, e para além disso é um rali em que de modo geral não nos temos que preocupar muito com furos ou danificar o carro, pois as estradas são muito boas, só temos mesmo que nos preocupar em guiar bem naquelas fantásticas estradas. Mas como disse, todos os ralis do WRC têm características únicas que os distinguem muito uns dos outros.

E é assim que deve ser, ralis diferentes, culturas diferentes, as pessoas são também muito diferentes, por exemplo entre o Japão e o México, mas são interessantes de maneiras diferentes…

Quem é, ou foi o teu ídolo nos ralis? Porquê?

Não tenho uma resposta fácil. Quando eu era um jovem gostava de todos os principais pilotos finlandeses, Ari Vatanen, Hannu Mikkola, Markku Alen, Juha Kankkunen, é difícil escolher apenas um, respeito-os muito a todos…

Estiveste perto de estar entre os sete finlandeses vencedores do Rali de Portugal, em 2012. Mas depois os Comissários Desportivos tiveram outras ideias…

Senti-me como se tivesse ganho! Mas o nosso carro não estava conforme o regulamento, havia peças que não estavam homologadas, fui excluído, foi mau, mas antes como agora, faz parte do jogo. Mas recordo-me essencialmente do que foi a prova, foi um rali muito desafiante com a chuva e a lama e eu ganhei-o na estrada.

Esses foi um dos ralis do sul, mas apesar de já não teres chegado a competir no Norte, estiveste no Fafe Rali Sprint…

Sim, duas vezes, era incrível a quantidade de gente que se via naquele pequeno troço de Fafe. Vê-se que os ralis são muito mais populares no norte,

Há 10 anos, em 2009. Loeb ganhou por 1 ponto. Ainda hoje achas que estiveste muito perto?

Foi muito difícil de aceitar que depois de tanta luta durante o ano, perder por um ponto. Foi duro, mas a vida continuou. De qualquer forma, olhando para o que foi esse ano a verdade é que levei um piloto como o Sébastien Loeb ao limite. Forçámo-lo aos limites. Por outro lado fiquei feliz porque ele é um dos maiores pilotos de ralis de todos os tempos. Não consegui batê-lo em nenhum ano, mas posso sentir-me orgulhoso da minha carreira. Não lamento nada, foram grandes lutas que travei com o Loeb.

Nesse ano, alcançaste três vitórias seguidas, depois o Dani Sordo ajudou o Sébastien Loeb no Rali da Catalunha, e o Rali da Grã-Bretanha foi decisivo, mas o Loeb ganhou…

Tantas coisas aconteceram naquele ano, não vale mesmo a pena pensar no que podia ter feito, simplesmente chegámos ao Rali da Grã-Bretanha e sabíamos que o que ficasse à frente do outro e ganhasse o rali seria campeão. E foi ele.

Mas tiveste grandes momentos na tua carreira com a Ford, títulos de construtores…

Tenho grandes memórias com a Ford. Nunca esquecerei os títulos de construtores que ajudei a Ford a conquistar. Passei vários anos naquela equipa, com as mesmas pessoas, aprendi muitas lições do Malcolm (Wilson), foram tempos absolutamente fantásticos.

Quando foste para a Citroën, percebeste melhor porque o Loeb e a sua equipa ganhavam tanto?

Um dos motivos acho que se deveu ao facto da equipa girar por completo à volta do Sébastien Loeb. Sempre foi dessa forma que eles trabalharam e senti isso quando fui para lá. Há também grandes engenheiros na Ford, mas a forma como trabalhavam na Citroën era diferente. Analisavam muito mais a informação que recolhiam, procuravam sempre informação na telemetria que os ajudasse a dar-nos um carro melhor. Falavam muito com os pilotos para perceberem melhor o que viam na telemetria, e depois relacionavam as coisas de modo a poder melhorar, nem que fosse um pormenor ínfimo. E isso depois tinha efeitos.

Qual foi o segredo principal deles na Citroën, tinham algo de muito diferente do que vocês tinham na Ford?

Essa é fácil, acho que era mesmo o Loeb. Ele tinha um dom especial, por exemplo nas escolhas. A equipa fazia muita análise, mas o facto dele ter estado tantos anos na mesma equipa, trabalhado com os mesmos engenheiros, tido as mesmas pessoas nos troços dando-lhe informação, quando as condições mudavam, tudo isso ajudava mesmo muito.

Se, em teoria, todos os pilotos tivessem o mesmo carro, achas que Loeb seria imbatível no conjunto de uma temporada, mesmo que perdesse alguns ralis pelo meio?

Basta pensar nos anos em que ele esteve nos ralis e que ninguém o conseguiu bater. Olhando para os números pode dizer-se que ele era imbatível. O Loeb podia ser batido, mas era extremamente difícil. Se olharmos para uma temporada completa ele era mesmo muito forte. Acredito que não fosse fácil para ele, mas ele conseguia ser rápido em todas as provas e em todos os tipos de pisos, mas onde acho que estava uma das suas principais forças era quando os troços mudavam muito. Penso que ele se adaptava muito rapidamente às mudanças repentinas nos troços, ajustava muito rapidamente a sua pilotagem e depressa voltava a atacar. Ver o que ele andava com as alterações constantes de aderência era absolutamente impressionante. Por tudo isso, podemos dizer que Loeb era imbatível. Muitos pilotos tentaram, mas nenhum conseguiu.

Achas que o Loeb é o melhor piloto de sempre da história do WRC?

São tempos diferentes. É verdade que ele tem muitos títulos, mas a verdade é que os tempos nos ralis mudaram muito. Reparem que, na verdade, em vários anos era quase só a Citroën e a Ford na luta, quando o Marcus Gronholm abandonou, eu fui capaz de lhe dar luta, mas a consistência dele era fantástica. Hoje em dia, entre as quatro equipas todas elas podem ganhar ralis, mas só há três pilotos que têm capacidade de lutar pelo título.

Os tempos são diferentes é difícil dizer que ele é o melhor de todos os tempos. Mas foi definitivamente o melhor do seu tempo.

Depois do bom ano de 2012 que tives, o que te aconteceu em 2013 em que foste apenas quarto classificado do Mundial de Pilotos no WRC. Provavelmente a tua resposta é…. Volkswagen?

Sim, não penso que tenhamos perdido velocidade ou esquecido como se guia bem. O ano de 2012 foi dos mais bem sucedidos da equipa, que venceu 10 em 13 provas, fomos primeiro e segundo no Mundial de Pilotos, mas depois chegou a Volkswagen e ‘rebentou’ com tudo. De repente ninguém os conseguia acompanhar. Eles conseguiram realmente um grande conjunto. Trabalharam todo o ano de 2012 no carro, o Ogier colocou o carro exatamente como queria, e com tudo isso mais ninguém teve hipóteses. Reparem que eles chegaram, construíram um carro completamente novo, enquanto os carros da Ford e Citroën já se estavam a tornar um pouco velhos pois eram modificados em termos mecânicos de anos para ano mas a base era exatamente a mesma. Mas a Volkswagen era realmente forte e nos quatro anos seguintes ganharam tudo.

Este ano foi o fim da era dos Sébastien (Loeb e Ogier) vencerem campeonatos. Já não era sem tempo, não?

Penso que o Tanak mereceu, a Toyota tem o melhor carro e se houvesse alguma coisa que o pudesse ter impedido de vencer, seria a fiabilidade do Yaris, pois a Toyota teve alguns problemas a esse nível.

Um dia destes, alguém na F1 disse que o piloto só importa 30%, o carro 70%. E nos ralis? Nos teus anos como era?

Penso que nos ralis é bem diferente, pois enquanto nas pistas eles apanham aquilo sempre igual, ou quase, nos ralis não há uma curva igual à outra. Nos circuitos há sempre a possibilidade de corrigir coisas, de volta para volta, pois estão constantemente a ter informação do que se passa.

Não estou a dizer que a F1 é mais fácil, são simplesmente duas formas muito diferentes de desporto motorizado, mas penso que nos ralis há que ajustar muito mais a pilotagem, as curvas são diferentes, cortamos muito as bermas, estamos sempre a fazer compromissos com a velocidade a que vamos. Penso que nos ralis o piloto tem muito mais controlo do que se está a passar do que um piloto de F1. Provavelmente, nos ralis é precisamente o oposto, um piloto contra 70% e os carros ‘valem’ 30%.

Mantendo-nos num ‘registo numérico’, que percentagem, em média, achas que é devido ao piloto/co-piloto, ao carro ou à equipa.

Será que são 33% para cada um dos três, ou entendes que as percentagens podem ser diferentes?

Quando a equipa funciona e te consegue colocar o carro como queres, é um bom passo, pois vai-te dar muito mais confiança para poderes atacar, da forma que quiseres. Se as coisas entre o piloto e o co-piloto estiverem perfeitas, a mesma coisa, funciona tudo a 100%.

Penso que os valores distribuem-se equitativamente, pois se qualquer das três áreas for má ou tiver estado mal em determinada circunstância, isso vai, de certeza, refletir-se muito depressa. Portanto, concordo com os 33% para cada uma das áreas.

Este ano fizeste um terceiro lugar em Chipre, prova do Europeu de Ralis, com o novo Ford Fiesta R5. O que pensas dessa categoria de carros?

Gostei, penso que os R5 de agora estão ao nível dos WRC de 2002, 2003, em termos de performance global. Penso também que é a fórmula perfeita para os pilotos mais jovens ganharem experiência nos ralis. Reparem que os R5 já são verdadeiros carros de ralis ao contrário do que sucedia com os Grupo N, que eram carros demasiado pesados, e em que se tinha de poupar muito a mecânica, isto apesar de serem carros muito fiáveis. Já com os R5, os pilotos podem atacar, e isso coloca-os já muito mais perto dos WRC e quem lá chegar não terá uma transição tão complicada.

Como foi a tua vida como piloto de testes para uma revista de automóveis finlandesa? É verdade que guiaste um Williams F1?

Sim, fiz todo o tipo de testes com essa revista, mas pilotar um Williams de F1 foi mesmo especial. De qualquer forma, o tempo que passei no carro não foi suficiente para perceber como se guia. Devia ter tido mais tempo para perceber melhor os travões e como por os pneus a funcionar.

São conceitos que também existem nos ralis, e ainda mais na F1. Não consegui nunca ter os pneus em condições. Foi uma boa experiência, mas não tirei todo o partido que podia dela…

Já conseguiste fazer muita coisa diferente no automobilismo. Como foi a tua experiência nos Dragsters?

O Dragster é inacreditável. Pode parecer chato só andar a direito, mas nunca tinha experimentado uma sensação daquelas, é absolutamente irreal. É de loucos quando estamos na linha de partida, seguramos a embraiagem e depois aceleramos a fundo. É mesmo inacreditável o que se sente, quase não dá para explicar por palavras.

Nem tu, nem Jari-Matti Latvala foram campeões no WRC? Quem pensas poder vir a ser o próximo Campeão finlandês no Mundial de Ralis?

O Kalle (Rovanpera) ainda é muito jovem, tem pouca experiência, mas já é muito rápido e penso que vai surpreender muita gente nos próximos dois ou três anos. Há outros pilotos finlandeses a correr, mas talvez o Kalle…

A tua carreira no Dakar começou bem, com um quarto lugar, mas depois, 13º e 19º. O que aconteceu, o MINI perdeu velocidade? As outras equipas tinham carros melhores?

O Dakar foi também uma experiência fantástica. Fisicamente é uma prova muito dura e mentalmente também, é uma grande aventura, adorei.

No primeiro ano correu bem, mas no seguinte foi muito mais desafiador. Mudaram as regras muito em cima da prova e tivemos várias etapas sem notas. A velocidade estava lá, sempre esteve, mas quando começaram os problemas, ficas atascado, por exemplo, é inacreditável o que pode acontecer nesta corrida. Se contasse agora as histórias ficávamos aqui o dia todo, não dá para acreditar, ao ponto que me fartei de rir quando chegámos ao fim desse Dakar. Depois tínhamos o novo buggy e não estávamos bem preparados. O carro era bom mas não estava preparado ainda para a dureza daquela prova.

E quanto ao futuro? Dakar?

Um dia mais tarde talvez, se houver oportunidades. Agora estou confortável com a minha situação, quero estar com a família, passar mais tempo de qualidade com eles. Vamos ver o que sucede no futuro.

1 comentários

  1. Carlos Martins

    3 Agosto, 2024 at 21:25

    Com todo o respeito, nem sei qual a figura de estilo para: “Mikko Hirvonen fica na história como um dos bons finlandeses voadores, ainda que num patamar abaixo de ‘monstros’ como Ari Vatanen, Hannu Mikkola, Markku Alen, Timo Salonen, Juha Kankkunen, Tommi Makinen e Marcus Gronholm”…

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