Colin McRae e Subaru, dois em um!


Pensar em Colin McRae é associá-lo ao Subaru Impreza. Claro que o ‘casamento’ teve etapas menos felizes, mas os dois ‘amantes’ estavam destinados um ao outro. Mesmo após o ‘divórcio’, nunca se esqueceram e estavam decididos a reatar a relação…não fosse o fatalismo do dia 15 de setembro de 2007.

O céu e as estrelas, a lâmpada e a luz, o carro e a estrada, Colin e a Subaru. Há metades que não fazem sentido sozinhas… até nos ralis! McRae tinha algo de especial com a marca que o catapultou para o sucesso. Não era uma questão dos carros azuis e amarelos lhe terem dado a sua primeira vitória no WRC. Não era por neles ter cumprido grande parte da sua carreira (66 dos 146 ralis disputados). Nem por ter festejado em cima dos seus capot, 17 dos seus 25 triunfos. Sim, também gozou o seu único título de Pilotos num Subaru, mas isso foi apenas o efeito da causa ‘Subaru’. A tamanha cumplicidade entre um piloto ‘especial’ e uma marca que, em tempos, também fez carros especiais chamava-se ‘química’ e tal como nas relações de amor, também não se explicava, vivia-se!
Tirar tudo de um carro de ralis e, em particular, de um full Grupo A ou World Rally Car da primeira geração, com diferenciais ativos e carregado de eletrónica até ao ‘tutano’, quer dizer, chassis, não é apenas para bons pilotos, mas para uma muito restrita camada de eleitos. McRae integrava esse clube de predestinados e, às vezes, superava-o, conseguindo proezas que faziam duvidar que tivesse nascido na Terra. Foi o caso do seu primeiro triunfo no WRC, no Rali da Nova Zelândia de 1993, que pôs fim ao jejum de 27 anos de um inglês ganhar uma prova no Mundial de Ralis (o último tinha sido Jim Clark) e se traduziu também na primeira vitória da Subaru. Invertendo a dificuldade extra que foi abrir a estrada na última etapa, McRae, que já tinha afirmado estar a andar nos seus habituais ‘101 por cento’, derrotou o Ford Escort de François Delecour jogando com o binómio consistência/rapidez como nenhum outro piloto, depois de um golpe de sorte, na segunda etapa, lhe ter permitido continuar em prova quando o habitáculo do Legacy foi invadido por parte do óleo do motor que vazou, a 2,5 km da assistência. Após essa primeira vitória, McRae confirmou que ‘o gelo estava quebrado! Senti imediatamente que era capaz de repetir a proeza e que não havia nada que me impedisse, dali para a frente, de me bater pelas vitórias. Foi excelente para a minha confiança e um impulso decisivo na minha carreira”.

A cumplicidade com o Impreza
Mas teve que esperar um ano para regressar aos triunfos, então já com o Impreza. A relação entre McRae e a nova arma da Subaru parecia ser ainda mais ‘escaldante’. As dimensões compactas do Impreza 555 , mas, sobretudo, a sua distribuição de massas (devido ao motor boxer de alumínio colocado longitudinalmente em vez de transversalmente como nos carros rivais), comungavam com o espírito guerreiro daquela ‘peça de arte’ escocesa. O mais avançado sistema de transmissão com diferenciais eletrónicos que até então o Mundial tinha visto dotava o Impreza de uma capacidade extra de tração, aliviando o desgaste dos Pirelli que ‘calçava’. McRae era exímio no controlo destas variáveis, não tendo qualquer problema em ir buscar os 10 centímetros a mais fora de estrada que por vezes necessitava para chegar onde queria e, claro está, por vezes, também aonde não queria!

Amor à segunda vista
Mas se o casamento ficou desfeito em 1999, esteve muito perto de ser reatado mais duas vezes, durante a carreira do piloto de Lanark. Em qualquer das ocasiões e como quase sempre acontece quando se está a falar ao mais alto nível do Mundial de Ralis, as movimentações que poderiam ter permitido o regresso à Subaru pouco transpiraram cá para fora, mas, agora à luz do tempo e numa altura em que já ninguém pode confrontar Colin com a situação, deixaram de ser propriamente segredo.
O primeiro renovado ‘namoro’ aconteceu em 2002 quando a Ford deixou de ser uma opção para McRae. As suas malas quase chegaram a estar à porta da Prodrive, mas uma sucessão de factos impediu que elas pudessem ser desfeitas no quartel-general de Banbury. Com Tommi Makinen fora dos planos de David Richards, a corda ora avançava para o lado de Richard Burns, ora para o lado de Colin. Mas quando o fatalismo atingiu Burns (foi-lhe diagnosticado o cancro que acabaria por lhe roubar a vida) e o piloto inglês teve a certeza que já não poderia ser o segundo ás dentro da estrutura inglesa, todas os dedos ficaram a apontar para McRae que teria como missão fazer sombra ao novo Campeão do Mundo, Petter Solberg.
Mas nada disso aconteceu… De repente, um autêntico cataclismo abateu-se sobre a formação britânica que viu o Japão não só negar-lhe a fatia de ienes inicialmente prevista para o segundo carro, como ainda fazer-lhe um valente rasgo no orçamento global anual. Colin iria custar à equipa muito dinheiro, mas não seria difícil voltar a explorar a imagem associativa que ele tinha com a Subaru e que, numa fase maior de maturidade para onde já caminhava a sua carreira, facilmente se poderia potenciar em termos de resultados. Todavia, já se sabe, ‘sem dinheiro, não há vícios’ e McRae ficou automaticamente fora de jogo, tendo que se render à alternativa pouco agradável de ser um par entre iguais (senão o elo mais fraco), na equipa Citroën, onde o menino bonito Sébastien Loeb e o experimentado e bem relacionado Carlos Sainz, já pontificavam e faziam as honras da casa. Para guiar o segundo Subaru, Richards apostava o dinheiro dos japoneses numa jovem esperança chamada Mikko Hirvonen que, acabaria por desiludir e no final dessa temporada já tinha prontos os papéis para o ‘subsídio de desemprego’.

Terceiro (e último) assalto
Com a passagem pela Citroën, onde o melhor atestado de velocidade que conseguiu passar foi o segundo lugar no Monte Carlo de 2003 e, depois, uma breve passagem pela já devoluta equipa Skoda, em 2005, McRae estava em condições de se voltar a sentar à mesa das negociações com David Richards e David Lapworth. Quatro anos tinham passado e muita coisa mudado, mas a vontade de Colin fazer uma última entrada em grande no WRC e lutar pelo título mais parecia um prolongamento da sede de vitórias que a equipa Subaru já não disfarçava, bem como a vontade do construtor regressar à ribalta e ao triénio dourado de 1995, 1996 e 1997.
Em 2007, o Impreza era um carro rápido, fiável, mas não ganhava ralis simplesmente porque os Ford Focus e o Citroën Xsara eram de outra geração e se tinham adaptado melhor à evolução regulamentar dos World Rally Cars. Segundo David Richards nada de errado havia com o carro da Prodrive, mas era preciso alguém que reunisse a sensibilidade e experiência para confirmá-lo e começar a preparar a evolução de 2008 que Steve Farrel, o principal engenheiro da Subaru, tinha sido já encarregue de desenvolver. Colin era o tal. As conversas informais rapidamente voltaram a tornar-se ‘picantes’ e McRae ficou a um passo de regressar à sua ‘antiga namorada’. O teste que permitiria apresentar resultados e, depois deles, uma proposta séria ao Japão, colocando McRae ao lado de Petter Solberg, no lugar ocupado por Chris Atkinson, na temporada de 2008, estava já na agenda. Mas, não foi cumprido. Pela segunda vez, McRae ficava com as malas à porta de Banbury, mas, desta vez, sem qualquer possibilidade de regressar. Sem saber que o seu trabalho teria ficado sempre incompleto já que, no final da temporada, a Subaru colocava um ponto final na sua odisseia do Campeonato do Mundo de Ralis, McRae despenhava-se no seu helicóptero particular. Morria o homem, começava a lenda. Uma lenda que a Subaru ajudou a contruir e tão bem soube igualmente tirar partido.

Desviem-se que estou fulo!
O Rali da Catalunha era a penúltima prova do Mundial de 1995. Um surpreendente Kankkunen, em Toyota Celica, dominava os acontecimentos até se despistar na 16ª especial, deixando os homens da Subaru, Sainz e McRae, na frente da prova. No final da segunda etapa, Sainz tinha uma vantagem de 8 segundos sobre o escocês e David Richards chamou os dois pilotos à motorhome, ordenando que as posições se mantivessem até ao final. Com esta decisão, o patrão da Prodrive queria assegurar que os dois carros chegariam ao fim mas, acima de tudo, pretendia demover Sainz, que já tinha um acordo verbal com a Toyota, de abandonar a equipa no final da temporada. Mas na manhã do último dia, McRae, que disputava com o seu colega de equipa o título de Campeão do Mundo, parecia pouco disposto a acatar as ordens que recebera e partiu para o primeiro troço completamente ao ataque. Na célebre passagem em La Trona, havia já roubado a liderança ao espanhol e nas paragens na assistência, não escondia a fúria, ignorando as ordens que lhe pediam para reduzir o ritmo. No último troço, a Subaru mandou elementos da equipa para o meio da estrada, fazendo sinais para que o escocês abrandasse, mas este passou por eles sem levantar o pé, cumprindo a derradeira Classificativa na liderança do rali. A revolta de Mcrae provocara um ambiente de cortar à faca na equipa Subaru e teve que ser o seu pai, Jimmy, a convencê-lo a penalizar um minuto à entrada do último controlo, entregando, contrariado, a vitória a Carlos Sainz.

Flat out em El Condor
Mais do que a terceira vitória consecutiva de Tommi Mäkinen no país das Pampas, o Rali da Argentina de 1998 ficou marcado por um inexplicável episódio protagonizado por McRae. Penalizado por abrir a estrada na primeira etapa, Colin imprimiu desde o início um ritmo alucinante e a meio do segundo dia, era já o líder do rali. Mas na 15ª Especial, enquanto voava baixinho aos comandos do Impreza WRC, não evitou uma violenta pancada numa pedra, entortando por completo o conjunto roda/amortecedor traseiro do lado direito. Enquanto arrastava o Subaru na ligação para a PEC seguinte, a roda danificada acabou por sair, permitindo finalmente o acesso aos estragos. McRae retirou o braço da suspensão completamente torcido, e com a ajuda de um pedregulho, conseguiu endireitar minimamente aquele componente, voltou a colocá-lo e, depois de recolocar a roda, partiu rapidamente para o início do troço seguinte, onde chegou apenas 2 segundos antes de atingir o limite de penalização. O mais surpreendente é que o escocês, com um carro visivelmente empenado, conseguiu ser o mais rápido na 16ª classificativa! McRae terminou o rali em quinto, mas a sua prestação nos 16,98 Km de “El Condor” constituem ainda hoje um dos mais intrigantes momentos da história do Mundial de Ralis…

Talento a mais, cavalos a menos!
Pode parecer estranho, mas na Subaru, Colin McRae não guiou apenas o Legacy, o Impreza 555 e as duas versões do Impreza WRC (2007 e 2008). No Rally Safari de 1993 participou num ‘sub-nutrido’ Vivio Sedan 4 WD. Com tração integral, motor turbo de 600 cm3 e 85 cavalos, McRae mediu forças com Mashashi Ishida e Patrick Njiru, os dois nipónicos que participaram em carro idêntico, mas inscritos como privados pela equipa Koseki. Com demasiado talento para tão poucos cavalos, Colin ainda surpreendeu ao terminar a primeira etapa em quarto, mas, mais tarde, a suspensão esquerda dianteira do Vivio não suportou o suplício das picadas africanas e colapsou, mandando McRae mais cedo para casa. O melhor Vivio acabou por ser o de Njiru (o de Ishida também desistiu com problemas de motor) que terminou num ‘simpático’ 12º lugar, vencendo a classe A5. Mesmo sem McRae à chegada, a missão da Subaru estava cumprida: ajudar Colin a acumular de experiência, o que, certamente, mais tarde acabou por ter repercussões ou não tivesse o escocês ganho três vezes a odisseia do Safari (1997 com o Impreza, 1999 com o Focus WRC00 e 2002 com o Focus WRC02).

A “primeira vez” de Colin McRae no Rali de Portugal
Rali de Portugal, algures a meio da Serra do Açor, 6 de março de 1993, dois fotógrafos procuravam o melhor ‘spot’ dum novo troço, Malhada Chã, que ficava perto do Piódão. Para quem conhecia mal a serra, qualquer pista era boa, e ao depararmos com uma carrinha de assistência da Subaru, sabíamos que estávamos no bom caminho. Faltavam ainda cerca de cinco horas para o troço, e por isso, durante um ou dois quilómetros seguimos quem nos havia de levar ao sítio certo. Para nosso espanto, os ingleses da carrinha de assistência já desconfiavam o porquê de, aquela hora, luzes de um carro os seguirem. Pararam, e uma mão fazia-nos sinal para passarmos. Só que o que queríamos era um guia e por isso parámos ao lado deles. Abrimos a janela, e pedimos que abrissem a deles. Nada feito. Pelas caras via-se que tinham receio de ser assaltados. Num bloco escrevi: “where is the stage Malhada Chã?”. Mostrei. Riram-se, abriram a janela, “follow us”. Era exatamente isso que queríamos. Meia hora depois, muitos quilómetros e muitas curvas, estávamos nos Penedos Altos, onde estavam todas as assistências. Aí, falámos com os mecânicos e rir do que se tinha passado antes. Contudo, os semblantes mudaram quando se soube que Colin McRae tinha saído violentamente de estrada em Alvoco das Várzeas, e os ouvidos estavam todos colados ao rádio. Afinal ele e o navegador estavam bem: “Graças a Deus, ele é um tipo porreiro e um grande piloto”, disse-nos um mecânico. Nos dias anteriores tínhamos visto como o jovem Colin McRae divertia os espetadores, e naquele momento percebeu-se o que aquele piloto já significava na equipa oficial da Subaru, mesmo tendo a seu lado um “monstro” como Markku Alen. Um pouco depois, parecia que alguém aí vinha em ritmo de troço, era Colin McRae, já quase a penalizar e com muitos danos no seu Subaru Legacy. A equipa fez o que pôde, e foi com o carro todo “torcido” que Colin McRae seguiu para o início de Malhada Chã. Tínhamos testemunhado os dramáticos momentos que se viveram na assistência da 555 Subaru Rally Team, depois daquele que foi o primeiro grande acidente de Colin McRae no Rali de Portugal.

Rei Colin McCrash
Colin McRae deixou a sua marca no WRC como um dos mais espetaculares pilotos de sempre que passaram pela modalidade e a isso juntou igualmente um ‘epíteto’ não menos sonante aos olhos dos adeptos: “McCrash”. No seu palmarés conta-se apenas um título mundial, em 1995, mas a lista de abandonos por acidente vai para lá das duas dezenas, alguns deles decisivos nas contas do campeonato, como sucedeu no Rali da Grã-Bretanha de 2001, competição que perdeu para Richard Burns, por dois pontos. “Vencer ou bater” era o seu lema, que levou até ao fim da sua carreira, num estilo que inspirou uma geração. Dele, Nicky Grist, navegador de longa data disse: “Era o que saltava mais alto, chegava mais longe, andava mais de lado! Era inconfundível, os espectadores sabiam sempre que era o Colin que passava”. Os números de Colin McRae não disfarçam o estilo e dos 60 abandonos em 146 provas, mais de um terço foi devido a despiste.
Finlândia 1992: Foi nesta prova que a ‘fama’ de Colin McRae começou a ganhar forma. Já bem conhecido na Grã-Bretanha, devido às suas prestações nos campeonatos locais, incluindo a prova inglesa do WRC onde, em cinco participações tinha desistido em três por acidente, no Rali da Finlândia de 1992, ainda o rali não tinha começado e já a equipa reportava a David Richards um despiste de Colin McRae em testes. No primeiro dia de prova, uma violenta saída de estrada resultou em sete capotanços: “O carro já não parecia um Subaru, mas ainda andava”, disse Mcrae na altura. No dia seguinte, nova saída, e mais três capotanços. Por sorte, não bateu em qualquer árvore e por isso foi possível colocar o Legacy novamente na estrada a andar. Literalmente “preso por cordas” na assistência, a dupla Colin McRae/Derek Ringer prosseguiu. No terceiro dia até David Richards ajudou a endireitar a carroçaria à martelada, com o escocês a terminar o rali em oitavo.
Córsega 2000: O Rali da Córsega sempre ficou marcado por acidentes muito graves, e o que sucedeu a Colin McRae em 2000 não foi exceção, embora, felizmente, sem o mesmo desfecho trágico doutros. Contudo, a dinâmica do acidente foi verdadeiramente complicada, já que foi a sorte a determinar a diferença entre algumas nódoas negras e algo muito mais grave. O piloto escocês não começara bem o rali e por isso precisava de recuperar tempo aos homens da frente. Na PE 10, e após uma zona rápida, cortou em demasia uma esquerda, batendo numa pedra que catapultou o carro para fora de estrada, caindo por uma ravina, batendo numa grande árvores pelo caminho. O carro ficou assente sob o teto, e Colin McRae ficou inconsciente e esteve cerca de 40 minutos para ser desencarcerado, desconhecendo-se na altura se tinha lesões graves. ‘Safou-se’ com uma lesão grave na face, mas só quando os médicos chegaram foi possível perceber o estado do escocês, que não ganhou para o susto. Mais uma vez.
2001 Grã-Bretanha: Colin McRae conta no seu palmarés com um único título mundial, e em 2001, entrou para a última prova no comando do mundial, com um ponto de avanço, com Carlos Sainz, Richard Burns e Tommi Makinen também na corrida do título. Mas como a palavra gerir nunca entrou no dicionário do escocês, o célebre “pedal to the metal” permitiu-lhe liderar desde o primeiro troço, até à quarta especial, onde um aparatoso acidente o atirou com grande violência para fora de estrada. Onde os restantes pilotos passaram com cautelas, McRae passou a fundo e ao cortar demasiado a curva, um buraco no seu interior ditou o inevitável desfecho, com vários capotanços à mistura. Dentro dos destroços do Focus WRC, McRae e Grist permaneceram mudos, pois sabiam que a partir dali só um milagre lhes permitiria ser campeões, com o cetro a ir precisamente para o seu arqui rival, Richard Burns.
Chipre 2002: McRae liderava com Gronholm à ‘perna’ mas capotou depois de acertar no muro duma ponte. O carro ficou pior que o chapéu dum pobre, e caiu para segundo. Deu para prosseguir com o carro muito amarrotado, mas os pontos eram suficientes para segurar a liderança de Marcas. Contudo, a tentar recuperar tempo entrou numa curva de quinta, em sexta a fundo, e novo capotanço foi inevitável. A confusão foi imensa e a dupla recomeçou o troço… em sentido contrário, o que Grist só percebeu pouco depois devido às notas. Travão de mão, caminho certo, e um carro que mais parecia um Ford Focus ‘pick up’. Ainda deu para terminar em sexto.

O jogo Colin McRae Rally
Há quem diga que nos EUA, o nome Colin McRae ‘diz’ bastante mais às pessoas que o próprio WRC, existindo ainda muitos adeptos que pensam que o escocês é algum primo da Lara Croft, de Tomb Raider, ou seja, uma personagem virtual. Este é um dos casos em que o ídolo se sobrepôs ao próprio desporto em termos de reconhecimento público e para isso muito contribuiu o jogo “Colin McRae Rally”, hoje “DIRT”. Um estrondoso sucesso, pioneiro das simulações de ralis e um dos mais vendidos, ainda hoje. Desde 1998 para cá, mantém-se no topo das preferências dos adeptos, e cinco anos depois do desaparecimento do seu ‘mentor’, muitos sabem o que são os ralis, fruto das inúmeras horas que passaram a acelerar frente à TV. Claramente, o jogo promoveu o piloto, mas também ajudou a levar a modalidade para outro nível de audiências. Se até à altura, os jogos de computador eram pouco mais que reservados a jovens ‘geeks’, o leque alargou-se bastante com o primeiro êxito da Codemasters, o que foi também, claramente potenciado pela popularidade, que a meio dos anos 90 Colin McRae tinha. A ‘franchise’ CMR/DIRT começou e continua bem, como se comprova pelas oito sequelas que se seguiram, num sucesso que poucos, inicialmente, esperavam. A qualidade que destas simulações hoje em dia, têm “selo” McRae, já que depois do impacto inicial da primeira versão, o piloto envolveu-se bastante nas seguintes, e muitas das mudanças tiveram o seu cunho pessoal. Tudo mudou após a sua morte, em 2007, pois o produtor decidiu inovar e com o primeiro DIRT os ralis perderam protagonismo para os adeptos da “gincana”, tal como Ken Block muito bem explora hoje em dia, num jogo que cada vez menos tem a ver com ralis. Mas há alternativas, e pelos vistos à altura. Para a história, fica a fabulosa associação de Colin McRae ao ‘seu’ jogo.

Talento imenso como o deserto
Colin McRae foi um piloto que não deixava ninguém indiferente à sua passagem. Quem o tenha visto passar, ainda que apenas uma vez, num qualquer troço de rali ou todo-o-terreno, guarda certamente essa memória. A principal qualidade dum bom piloto é procurar incessantemente os seus limites. Colin McRae ia muitas vezes muito para lá deles, e isso fez dele uma lenda. Depois dos troços de ralis e das pistas, foi o todo o terreno que escolheu para dar sequência à sua carreira, correndo pela Nissan no Dakar 2004, onde foi 20º e venceu duas especiais, vivendo também a grande aventura humana que é o Dakar, ao passar quase dois dias sozinho no meio do deserto. O escocês adaptou-se bastante bem à modalidade, e para quem o conhecia do WRC, e reencontrou mais tarde no TT, testemunhou uma clara mudança de atitude, pois passou a deparar com um Colin McRae muito mais solícito e relaxado. Curiosamente, a sua primeira vitória no TT sucedeu na Baja 500 Portalegre 2004, onde relembrou aos adeptos portugueses o que perderam depois da saída do WRC de Portugal em 2001. A Nissan veio a Portugal em testes para o Dakar, e acabou por contribuir para mais um capítulo na história de um dos mais virtuosos pilotos da sua geração. Confiante, no Dakar 2005 entrou como sabe, ao ataque, e na quinta especial liderava com seis minutos de avanço, até cair numa das muitas armadilhas do Dakar e capotar, abandonando. Depois dum ano de 2006 quase sabático, regressou no ano seguinte ao todo-o-terreno. A convite de Grégoire de Mévius, veio a Portugal disputar o Rali Vodafone Transibérico numa Nissan Pick Up. Mesmo desistindo, a sua prestação convenceu Sven Quandt, não demorando a assinar um contrato com a X-Raid. O patrão da equipa alemã revelou mesmo que o seu projeto deu um enorme salto qualitativo graças a McRae. Quando morreu, preparava-se para disputar o seu terceiro Dakar. Ao contrário do projeto ‘Colin McRae R4’, protótipo que ficou guardado na coleção da família depois da morte do piloto, a ligação de Colin McRae ao TT prolonga-se no tempo com o projeto McRae no Dakar, com o Buggy McRae 4×2 e o McRae 4×4. O seu irmão Alister sempre esteve mais ligado, mas o nome de Colin McRae caiu como mel na sopa.

Lado a lado contra McRae
Em 1992, Colin McRae participou pela única vez no Campeonato Britânico de Turismo. Esta competição tinha adotado novas regras para carros com motor de 2000 cm3, lançando uma revolução na categoria que se alastrou pela Europa e resto do mundo e tornou o BTCC um espetáculo de renome internacional. A Prodrive era uma das equipas oficiais da BMW e McRae, piloto da Prodrive nos ralis, foi convidado para correr na pista de Knockhill, na Escócia, num terceiro carro. Conseguiu um oitavo lugar na primeira corrida, marcando um ponto, o que acabou por ser o melhor resultado da equipa (Tim Sugden danificou o carro dele e Alain Menu teve um acidente de moto-4 antes da prova). Na segunda corrida, abalroou Matt Neal, que acabou por fazer um pião, mas foi desclassificado, fechando-se depois na motorhome da Prodrive porque o pai Neal lhe queria aplicar um corretivo!
Colin McRae passou a dedicar-se quase exclusivamente à sua bem-sucedida carreira nos ralis. Mas em 1996, a British American Tobacco, patrocinadora da Subaru no WRC, permitiu ao piloto escocês experimentar um Fórmula 1. McRae experimentou o Jordan/Mugen-Honda de Martin Brundle (patrocinado pela Benson & Hedges, que pertencia à BAT em alguns mercados), enquanto o inglês passou para o volante do Subaru Impreza WRC. McRae fez ainda uma prova do TVR Tuscan Challenge em 1998.
O regresso a uma competição automóvel de nível internacional longe das estradas poeirentas ou de asfalto foi em 2004. Graças à sua ligação de sempre à Prodrive, Colin McRae aceitou o convite de David Richards para pilotar o Ferrari 550 Maranello GTS, dividindo o volante com o especialista de resistência Darren Turner e o piloto de turismos Rickard Rydell. Na época, a Prodrive construía os carros para as vários competições onde houvesse classe GT1, incluindo o Campeonato FIA GT. Le Mans tem habitualmente poucas lutas diretas, mas o conceito de resistência, poupar o carro, lidar com obstáculos (neste caso, retardatários a serem dobrados) e conduzir à noite com pouca visibilidade permitiram ao escocês sentir-se em casa ao volante. Aliás, o Ferrari podia ter sido vencedor da sua categoria, não fossem problemas mecânicos no final da corrida. No final, McRae e os seus colegas acabaram a prova em terceiro da classe, atrás dos Corvette oficiais, um bom resultado se levarmos em conta que o 550 GTS da Prodrive sempre foi feito à revelia da Ferrari.
Colin McRae também continuou a participar na Corrida dos Campeões quando esta passou a ser disputada em estádio, em 2004. A prova passou a reunir os melhores pilotos de ralis e velocidade, com McRae a fazer várias vezes dupla com David Coulthard na equipa nacional escocesa.

Gastar a última vida
Colin McRae desapareceu no dia 15 de setembro de 2007. Pouco passava das 16h00 quando o helicóptero do piloto de 39 anos se despenhou perto do local onde residia em Lanark. No aparelho seguiam também o seu filho Johnny, de cinco anos, Graeme Duncan, um amigo de McRae de 37 anos, Ben Porcelly, de seis anos, amigo de Johnny. Sobre as causas do acidente só há muito pouco tempo se fez alguma luz, com a Air Accidents Investigation Branch (AAIB) a emitir um relatório oficial que não foi possível apurar as causas exatas do acidente. O mesmo relatório fornece, contudo, algumas pistas sobre o que poderá ter acontecido divulgando que “o helicóptero atingiu provavelmente os 130-135 nós (240-248 km/h) enquanto descia um vale e a sua velocidade ao solo rondaria os 275 km/h devido ao vento de cauda. Na tentativa de voar a uma altura relativamente baixa e a alta velocidade, o piloto realizou uma manobra exigente, numa zona altamente arborizada e com uma margem de erro muito reduzida”.
O que a seguir aconteceu ninguém sabe, sendo apenas certo que não havia razões operacionais ou logísticas para fazer o voo rasante dentro do vale Mouse. Confirmado também estava o facto da licença geral de pilotagem de McRae ter caducado em fevereiro de 2005 e a licença para pilotar helicópteros de pequeno porte estar igualmente fora da validade há seis meses. Não restam dúvidas que também no ar McRae gostava de desafiar o perigo e viver no limite. Numa entrevista ao AutoSport em 2003, o piloto confessava a sua última paixão: “adoro voar e já posso pilotar helicópteros, mas espero ir aos EUA tirar o brevet para pilotar aviões”. Um sonho que ficou por cumprir…