Um outro olhar sobre a questão dos N5 em Portugal
Tendo a FPAK em mãos uma decisão para tomar relativamente à aprovação ou não da entrada dos N5 no CPR, há que ouvir quem há anos ‘alimenta’ a competição em Portugal. Equipas como a Sports & You, ARC Sport e Racing 4 You, por exemplo, dão-nos a sua visão da questão.
SPORTS & YOU – José Pedro Fontes
“Temos é que criar uma forma barata dos jovens entrarem nos ralis”
José Pedro Fontes é um dos principais responsáveis da Sports & You estrutura que há muito coloca vários carros a correr nos ralis nacionais, e para além disso co-organiza também a Peugeot Rally Cup Ibérica, competição que pode também ser afetada com uma possível entrada dos N5 em Portugal: “Quero deixar bem claro em primeiro lugar que não sou contra o conceito N5, sou sim a favor que o CPR continue a seguir a norma FIA. Sou contra criação de regulamentações específicas no CPR, que não venham claramente aumentar o número de novos participantes. Fazer alterações ao regulamento do CPR, com a introdução de uma nova categoria, isso só poderia ser justificado se atraíssem um número considerável de novos pilotos e não dividir os que já existem.
Não me parece que possa haver muitos pilotos parados em casa, e que se houvesse N5, correriam. Não correm porque não têm dinheiro para o fazer. O que temos de pensar é como vamos pôr pessoas a correr com 10, 15 ou 20 mil euros, porque quem tem 130 mil euros ou 150 mil euros têm muitas opções de carros, desde R2, R3, Gr N, ou R5 usados ou os novos R4 para competirem.
Além disso, a norma FIA dá mais confiança regulamentar, pois o exemplo de polémicas que temos tido no nosso pais vizinho com a desconfiança regulamentar entre os intervenientes na categoria N5 é tudo o que menos precisamos para o nosso campeonato.
Sobre o ponto de vista económico e para a sustentabilidade dos projetos eu acredito que a norma FIA é a melhor, pois possibilita um mercado internacional dos carros e o seu escoamento, que regulamentos nacionais como o dos N5 não permitem.
Esta é uma situação que me preocupa como equipa, que é a desestabilização do mercado, que poderá acontecer com a introdução de modelos estranhos à regulamentação FIA e é legítimo que as pessoas ou empresas que fizeram investimentos nos carros de regulamentação FIA tenham essa preocupação, quando investiram nos R2, R3 e R5, foi a pensar que o nosso mercado é FIA e como tal teria uma estabilidade temporal, o que uma possível vinda dos N5, ou qualquer outra categoria inventada fora da FIA irá imediatamente destabilizar esse mesmo mercado de carros usados. Depois quem paga o eventual prejuízo que possam ter essas equipas que tem investido no nosso campeonato durante todos estes anos com o pressuposto que é um campeonato de modelos FIA?
É curioso também os valores que se andam a falar, que na minha opinião não são os corretos. Quando se fala em N5 fala-se sempre dos preços mais baixos, e dos R5 sempre dos preços mais altos. Dos N5 fala-se em valores de 120, 130 mil euros, mas ninguém diz que há N5 a custar mais de 150 mil euros ou também que já se compra R5 usado por 125 mil euros.
Quem quiser comprar um Suzuki, que é o N5 mais rápido, paga 150 mil euros ou mais…
É sempre difícil uma discussão dos valores entre uma categoria em que os valores são públicos e controlados pela FIA estando á disposição de todos nos sites das marcas e outra não tenha esta informação.
Quando falam de motores, achei também estranho falarem em motores a custar 45 mil euros nos R5, pois os Citroën não custam isso. E os valores dos motores dos N5 que se fala, são usados ou novos? Porque mais uma vez, o valor dos motores do Suzuki ronda os 10.000€, agora se falarmos de valores de usados eu também posso vender um motor de R5 usado, se calhar, por 15.000€. Dito isto, temos que comparar coisas que são comparáveis. Por exemplo, os N5 têm bacquets de fibra, e os R5 são de carbono. As de carbono custam 5 ou 6 mil euros e as de fibra 800 ou 900 euros. E a segurança é muito diferente! Por isso, quem quiser ter um N5 com as medidas de segurança que tem um R5 custa mais 9.000€ ou 10.000€ mais.
Outro aspeto importante e que vem dar resposta ao argumento que os N5 podem trazer novas marcas que não têm R5, a FIA desenvolveu recentemente o KIT FIA R4 que apontam para preço semelhantes aos N5 mais caros e que as equipas são livres de produzirem com base a carroceria que quiserem, portanto o que temos que ter são R4 e não N5. Ainda não percebi porque é que está tanta gente a falar dos N5 e ninguém fala de R4.
Acham que o nosso campeonato está mau do ponto de vista dos carros bons? Eu quando vejo ralis com 15 R5 inscritos penso que não está! E onde é que está mau? Eu penso que é na entrada no desporto, pelas categorias mais baixas e baratas, que tem que ser a base do desporto e com muito maior número de inscritos. Não me parece que faça sentido estarmos neste debate para que quem tenha 130.000€ ou 150.000€ para comprar um carro, e não nos concentremos em criar é uma forma barata dos jovens ou novos participantes possam entrar nos ralis, isso é que devia ser uma preocupação de todos nós…
Assim sendo, e em resumo, o que eu defendo é que para sairmos desta regulamentação FIA o único argumento tem que ser uma entrada significativa e massiva de novos participantes e não a divisão dos que há, até para proteção de quem andou a investir no campeonato durante estes últimos anos.
Para mim era muito mais pertinente estarmos a falar de soluções de entrada mais barata no desporto, abaixo dos R2, e também nos R4 para conseguirmos ter um produto para uma eventual entrada de novas marcas, ou de como vamos conceber o produto comercial ‘ralis’ para o vendermos mais, e atrair mais publico e patrocinadores, e como o vamos comunicar e promover.
Precisamos de mais destas soluções que alimentem este desporto no futuro, do que, objetivamente, estarmos a discutir escalões intermédios com nova regulamentação de carros de 130 a 150 mil euros.”
ARC Sport – Augusto Ramiro
“N5 poderiam ser o princípio do fim do CPR”
Líder de uma das maiores estruturas nacionais hoje em dia no desporto motorizado nacional, a ARC Sport, Augusto Ramiro é também um acérrimo defensor das regras FIA, sendo de opinião que os N5 poderiam ser uma forte machadada negativa no panorama dos ralis nacionais, essencialmente devido ao risco do descontrolo regulamentar e da consequente falácia dos custos mais baixos: “Eu começo por perguntar o que é que são os N5? Ninguém sabe muito bem, não é? Para mim não faz sentido no CPR correrem viaturas que não tenham homologação FIA. Fui contra os Porsche quando correram sem homologação FIA, pois podiam fazer tudo o que quisessem, já que não existia uma ficha de homologação FIA. Por isso, como posso concordar que um carro participe numa prova de um campeonato nacional se ninguém sabe ao certo o que aquilo é? Não tem homologação FIA, não tem cadernos de encargos, não tem controlo de custos. Os N5 podem ser o que as pessoas quiserem e eu sou totalmente contra isso”, afirmou.
“Até porque a história dos custos para mim é uma falsa questão. Há quem defenda que custa 120.000€, há quem diga que custam 150.000€ e há quem peça 175.000€. Os R5, mais coisa, menos coisa, custam todos o mesmo, pois há um cadernos de encargos, o preço está tabelado e comprometido por três anos. Nos N5 não é assim. Compro um carro por 175.000€ e posso evoluí-lo como me der mais jeito, porque não tenho limitação em termos de regras. Por isso posso pôr um carro de 175.000€ a custar 300.000€. Não há nada que me impeça disso, portanto é uma falsa questão, a dos custos dos N5”, alertou.
“Para além disso, há uma categoria nova que já está para aparecer há algum tempo, com homologação FIA, R4 Kit. O que está a acontecer é que ainda não vingaram e estão com dificuldades em vingar porque em termos de custos são muito parecidos com os R5. A única diferença dos R4, N5 ou R5 basicamente é o motor, o resto, em termos globais, é o mesmo conceito, os mesmos custos de produção, etc. E os R4 não vingam porque a diferença de um carro novo entre os R5 e os R4 é mínima e em termos de custos são basicamente a mesma coisa, pois um R4 não passa de um R5 com um motor um bocadinho menos potente. A única diferença de custos, é que enquanto nos R4 se pode fazer a revisão do motor em casa, os motores dos R5 têm que ir à marca”, explicou.
“Não tenho nada contra qualquer tipo de carro, mas as regras têm que ser iguais para todos. Num campeonato como o nosso, que está bem e recomenda-se, acho eu, e que tem uma série de pessoas que investiram em carros, trazer um carro que depois não é controlado em termos de regras, não acho correto. Não podemos tirar partido de um carro em que cada um faz o que quer e lhe apetece porque lhe dá jeito, isso seria uma coisa muito má para o nosso campeonato e eu acho que isso poderia ser o princípio do fim do CPR.
E não nos podemos esquecer de uma coisa: a Citroën fez um carro novo, a Skoda está a fazer, o Polo está quase homologado e há o novo Ford. O que vai acontecer é que esses carros vão chegar ao mercado e os modelos anteriores vão ter um preço muito mais baixo do que têm agora. Por isso, eu penso que para quem quiser correr de forma mais barata, está aí uma possibilidade. E aí sim, tudo bem.” No entender de Augusto Ramiro, “enquanto preparador, se calhar era bom que fizessem os N5, mas também penso que isso seria uma forma de olhar para o negócio somente a curto prazo. A longo prazo não me parece correto nem saudável. É redutor. Os R5 vendem-se e compram-se em qualquer sítio do mundo, os N5 andariam somente entre Portugal e Espanha. E depois há ainda a questão das provas FIA do nosso campeonato, que são 5 em 9. E os N5 teriam apenas homologação local.”
Augusto Ramiro não tem dúvidas: “A FPAK não me perguntou, mas se perguntar, serei perentório. Como é possível autorizar uma coisa que não se sabe o que pode ser, ou melhor, pode ser a vontade de cada um. Não pode ser! O desporto automóvel será sempre um desporto caro, seja ele N5 ou R5.
Os meus argumentos são simples, não faz sentido num campeonato que respeita as homologações FIA, aparecerem de repente carros sem essa homologação. Estou totalmente em desacordo, até porque depois seria uma coisa que ninguém controla. Eu já cheguei a ter na equipa um R3 FIA, que corria contra carros de duas rodas motrizes de homologação nacional. Quando o R3 chegou, foi mais competitivo que os outros, mas só numa prova, pois como as regras permitiam, os outros dois foram de imediato evoluídos, e na prova seguinte o R3 já não era competitivo face aos outros. Estão a ver os riscos que se correm com os N5? O CPR vai continuar a crescer porque vai haver os novos R5, e vão ficar disponíveis muitos mais R5 atuais, mais baratos. Com as regras FIA é tudo controlado.”
Racing 4 You – Manuel Castro
“Já existe um carro semelhante homologado, o R4 FIA”
Manuel Castro é o líder da Racing 4 You, equipa que tem vindo a crescer no panorama dos ralis nacionais. Sem ser totalmente contra os N5, alerta para um conjunto de situações que fazem pensar se a solução passa mesmo por abrir o CPR aos N5: “Eu não acho bem, tendo em conta que penso que isto vai criar problemas para a FPAK e para quem está a participar nas provas. Acharei bem, se o regulamento técnico for muito bem pensado e elaborado, e explico porquê. O que se está a passar em Espanha é mau, e está a passar uma imagem esquisita. Em Espanha os N5 têm dado uma confusão dos diabos e esta continua a haver, e o único argumento que ouço é que os N5 vão trazer marcas, pilotos… zero. Eu não acredito que isto vá trazer qualquer piloto novo para as provas. O que pode é criar uma dança de cadeiras entre quem já cá anda, mas novos não acredito.
Trazer marcas novas, não acredito minimamente. Eu, se fosse diretor de Marketing duma empresa, nunca na vida iria meter dinheiro num projeto de um carro em que só o símbolo é que era meu, pois o resto é tudo feito em algum lado.
A FIA e as federações têm que olhar para os kits da Oreca, o R4 FIA, que até já estão mais baratos que os N5. Explicando rapidamente, sou, por princípio, contra este troféu que se fala da RMC Sport, porque eu acho que já existe um carro semelhante FIA, homologado, o R4 FIA, mais barato que o kit da RMC Sport dos N5.
Se isto já deu celeuma este ano com provas FIA onde os Mitsubishi e os Subaru correm, não correm, vão lá para trás, com os N5 iria acontecer a mesma coisa. Temos cinco provas FIA no CPR e algum tempo depois haveria gente a queixar-se por andar lá atrás nessas provas.
Eu penso que, ou isto era muito bem pensado, completamente ao detalhe ou vai resultar num imbróglio de regulamentações e classificações, como tem acontecido nos últimos tempos.
Eu, cliente FPAK, quero que isto acabe porque começo a ter dificuldades com os meus patrocinadores, como é que existem tantos campeões, ninguém sabe quem é que é o quê. É a minha opinião.
Se os carros vierem com uma regulamentação técnica equilibrada, com restritor igual para toda a gente, eu até posso concordar, mas o que eu acho é que se existe um Kit FIA homologado, não me parece fazer sentido.
Falam nos prémios do troféu da RMC. Será que há mesmo prémios? Já ouvi tantas histórias de pilotos que participaram em competições com prémios que ficaram a arder…
Acho que isto pode criar problemas e temos de olhar é para as marcas que cá estão, sejam elas construtores ou importadores de automóveis, e marcas grandes como a Altice, Vodafone, BP, Galp, que amanhã se podem ir embora se ficarem cansadas disto.
O que eu acho que faz falta é a FPAK apoiar o troféu 208, que é caro, mas se calhar podiam fazer um downgrade mais barato, ou o KIA Picanto nos ralis, esses troféus é que deviam ser apoiados para trazer gente nova para os ralis.
E ainda há uma coisa que as pessoas se estão a esquecer, no mercado de usados podem-se comprar R5 por pouco mais de 120.000€ e vendê-los ao fim de algum tempo, e não acredito que com os N5 seja assim. Quanto é que vai valer um N5 daqui a um ano ou dois anos? Se calhar não vale metade.
Acho que a FPAK tem que ter cuidado. Temos neste momento a Hyundai e a Citroën a investir bem nos ralis, a Skoda, temos marcas grandes no desporto automóvel, para o ano há uma marca nova e agora vamos misturar isto com carros de marca, X, Y, Z?
Deviam simplificar e não complicar, e acho que não se devem por a jeito para ter problemas…”
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