CPR 2026 de Garras vs. Galões – Irreverência vs. Resistência
A nova geração chega com unhas afiadas, mas a velha guarda não cederá sem muita luta. O CPR 2026 arranca com confronto de gerações, regresso da Lancia e muitos pontos de interesse aos mais variados níveis.
O Campeonato de Portugal de Ralis de 2026 arranca com um cenário pouco habitual nos últimos anos: sem pilotos estrangeiros com ‘andamento’ mundial, com um plantel exclusivamente nacional e com uma renovação visível nas estruturas de topo, num campeonato em que Armindo Araújo parte como principal referência, mas onde a nova geração surge com espaço real para discutir protagonismo.
O adiamento do Rallye Vidreiro para novembro, que leva ao arranque do CPR 2026 apenas a meio de abril, o regresso da Lancia aos ralis portugueses e a obrigatoriedade de cada piloto nomear, para efeitos de pontuação, o Rally de Lisboa ou o Rali de Castelo Branco e Vila Velha de Ródão reforçam a ideia de uma época mais aberta e estrategicamente mais complexa.

Armindo Araújo chega como referência
Face ao historial recente, Armindo Araújo apresenta-se como o principal favorito ao título, depois de nas últimas três épocas ter sido o português mais consistente perante campeonatos ganhos por Kris Meeke e Dani Sordo, e de voltar a alinhar com o Škoda Fabia RS Rally2 preparado pela The Racing Factory. O piloto encara a nova época como um “confronto de gerações” e assume ambição total, sublinhando que a equipa fez “um grande trabalho de preparação” e que o objetivo passa por começar a temporada em alta, “sempre a pensar no grande objetivo, que é a conquista do título absoluto”.
A seu lado estará Luís Ramalho, numa dupla que continua a oferecer um dos perfis mais sólidos do campeonato, sobretudo num calendário em que a regularidade poderá pesar tanto como a velocidade pura. Araújo reconhece que o CPR será “muito disputado” e admite que os jovens chegam com “a garra de vencer”, mas coloca a fasquia na luta pelas vitórias desde a primeira prova.

Fontes abre novo capítulo com a Lancia
José Pedro Fontes surge como uma das figuras centrais da temporada, não apenas pelo estatuto de bicampeão nacional, mas também por protagonizar o regresso da Lancia aos ralis portugueses com o novo Ypsilon Rally2 HF Integrale. Depois de 11 anos ligado à Citroën no universo Stellantis, o piloto da Sports & You entra numa nova fase que mistura valor simbólico, curiosidade técnica e ambição competitiva.
Fontes considera tratar-se de “outro capítulo no mesmo grupo” e acredita que o novo carro poderá dar-lhe argumentos adicionais numa época que antevê como “uma luta de gerações”. Na estreia competitiva do modelo em Portugal, no Rali Serra da Cabreira, terminou em segundo e destacou os “excelentes sinais” deixados pelo carro, acrescentando que sentiu “uma margem muito boa para evoluir”, embora ressalvando que “a realidade é o cronómetro”.

Teodósio volta a reinventar-se
Ricardo Teodósio entra em 2026 com mais uma mudança de projeto, desta vez ao volante de um Citroën C3 Rally2, numa opção com que pretende relançar a candidatura aos lugares cimeiros. Campeão nacional em 2019, 2021 e 2023, o algarvio mantém José Teixeira ao seu lado e apresenta-se de novo como um nome impossível de retirar da equação do título, mesmo depois da troca do Toyota GR Yaris Rally2 por um mais antigo Citroen C3 Rally2.
Teodósio descreve o novo carro como “um carro com provas dadas” e assume entusiasmo com a estreia, embora enquadre o arranque com prudência, frisando que a equipa está focada em evoluir quilómetro a quilómetro. Num campeonato em que a adaptação técnica poderá fazer diferença logo nas primeiras rondas, o seu historial e capacidade de ajuste tornam-no num dos veteranos mais competitivos do pelotão.

Rúben Rodrigues pode dar o salto
No grupo dos pilotos com argumentos para entrar regularmente na discussão dos primeiros lugares, Rúben Rodrigues aparece como um dos nomes mais interessantes, agora mais conhecedor das provas do CPR e mantendo-se ao volante do Toyota GR Yaris Rally2. O açoriano deixou bons indicadores em 2025, incluindo um quarto lugar entre os concorrentes do CPR na Aboboreira, e chega a esta época com melhores bases para transformar rapidez pontual em campanha consistente.
A sua escolha de Castelo Branco como prova obrigatória de pontuação, ao contrário de vários candidatos diretos que optaram por Lisboa, acrescenta também uma variável estratégica à gestão da temporada. Num campeonato em que contam os sete melhores resultados num máximo de oito participações, decisões deste tipo podem ganhar peso real no balanço final.

Hyundai e Toyota aceleram renovação
Se a velha guarda mantém nomes de peso, a renovação geracional ganhou expressão nas equipas oficiais. O Team Hyundai Portugal promove Gonçalo Henriques e Hugo Lopes aos Hyundai i20 N Rally2, enquanto a Toyota Gazoo Racing Caetano Portugal apresenta pela primeira vez dois GR Yaris Rally2 oficiais, entregues a Pedro Almeida e Rafael Rêgo, depois de conquistar o título de marcas em 2025.
Gonçalo Henriques assume ambição elevada e diz que as metas são “claras: lutar por vitórias e, no final, pelo título”, sustentado por uma pré-temporada positiva e pela confiança no Hyundai i20 N Rally2 com pacote Step2.
Hugo Lopes, por seu lado, fala numa temporada “muito competitiva” e quer afirmar-se “como uma das principais figuras em todas as provas”, também com o objetivo de lutar por vitórias e pelo título.

Pedro Almeida lidera ala jovem
Entre os jovens promovidos às estruturas oficiais, Pedro Almeida surge como o mais preparado para ter impacto imediato, até porque já soma quatro épocas ao volante de um Rally2 e venceu uma prova do CPR em 2025, no Rali de Portugal. Na estreia com o Toyota GR Yaris Rally2 oficial, o piloto adota um discurso equilibrado: quer crescer ao longo do rali, compreender o carro em contexto de competição e terminar com “um bom resultado”, sem esconder a vontade de andar “o mais próximo possível dos primeiros lugares”.
Ao mesmo tempo, Rafael Rêgo representa uma aposta muito mais virada para o futuro, chegando aos Rally2 aos 20 anos e com um natural percurso de aprendizagem pela frente. O jovem piloto assume uma abordagem progressiva, centrada em ganhar confiança, evitar erros e aumentar o ritmo de forma controlada, perfil que faz dele um dos projetos mais promissores da nova geração, ainda que não surja, para já, como candidato regular às vitórias absolutas.

Um plantel extenso com várias leituras
Para lá dos nomes mais mediáticos, o CPR 2026 apresenta um lote alargado de pilotos capazes de interferir nas contas das provas e de endurecer o contexto competitivo. Pedro Meireles regressa com o Škoda Fabia RS Rally2 e mantém estatuto de piloto experiente e credível tendo sempre que se contar com ele para resultados bem acima na tabela do CPR.
Por outro lado, o seu sobrinho, Guilherme Meireles estreia-se com um Škoda Fabia Rally2 Evo sendo uma das promessas a seguir, mas que, tendo em conta o que já mostrou nas duas rodas motrizes vai evoluir muito rapidamente na ‘grelha’ do CPR, e lá mais para a frente deverá poder-se contar com ele para resultados cada vez mais acima nas tabelas de tempos.
Noutro patamar de evolução já está Diogo Marujo, que integra igualmente o lote jovem em Rally2. Tem vindo a crescer a olhos vistos, mas ainda com muito potencial para desbloquear, pela frente.
Quem deve rapidamente começar a subir nas tabelas de tempos é o açoriano Henrique Moniz, pois com a bagagem que trouxe dos Açores, e quando passar o período de adaptação ao seu novo carro, deveremos começar a vê-lo cada vez mais acima. Não nos podemos é esquecer do grande desconhecimento das provas, ainda que o ano de 2025 no CPR 2RM ajuda um pouco, mas são totalmente diferentes os ralis de Rally2 ou Rally4.
Paulo Neto vai manter a bitola com que nos tem habituado, Ricardo Filipe e Paulo Caldeira reforçam a profundidade de um campeonato que está muito longe de se esgotar na luta pelo título, pelos pódios, ou mesmo top 5.
Um das coisas que é curiosa este ano é que vai haver muitas lutas compartimentadas, as da frente, pódios, top 5, mas também dos mais jovens uns com os outros e também os mais veteranos que não lutam pelas vitórias, uns com os outros, os ‘Masters’.
João Barros é outro exemplo, terá uma campanha parcial, começando apenas no Rally de Lisboa – faz as Camélias ainda antes – e prolongando depois o programa até final da temporada, novamente com o Škoda Fabia RS Rally2 e a Racing4You. O piloto assume uma perspetiva descontraída e reconhece que o ritmo competitivo pode não ser imediato, mas continua a ser um nome relevante pelo valor que acrescenta às listas nacionais.
Rui Borges, incluído entre os pilotos que escolheram Castelo Branco para pontuar, integra também esse bloco de concorrentes que, mesmo com menor projeção mediática no arranque, podem ter influência importante no desenho de cada prova e na distribuição de pontos. A profundidade do plantel ajuda, de resto, a explicar porque é que a temporada arranca com mais perguntas do que respostas.
Regulamento acrescenta nova frente de disputa
Uma das novidades regulamentares mais sensíveis de 2026 obrigou cada concorrente a escolher entre o Rally de Lisboa e o Rali de Castelo Branco e Vila Velha de Ródão qual das duas provas contará obrigatoriamente para a sua pontuação final. A medida, confirmada pela FPAK, introduz uma dimensão estratégica pouco habitual, já que uma menor concentração de adversários diretos numa das provas poderá, em teoria, favorecer resultados mais ‘rentáveis’.
Na distribuição oficial, Armindo Araújo, José Pedro Fontes, Paulo Neto, Paulo Caldeira, Pedro Almeida, Ricardo Teodósio, Gonçalo Henriques, Guilherme Meireles, Hugo Lopes e Rafael Rêgo optaram por Lisboa. João Barros, Ricardo Filipe, Henrique Moniz, Pedro Meireles, Rui Borges, Diogo Marujo e Rúben Rodrigues escolheram Castelo Branco e Vila Velha de Ródão.
Calendário mexido, título em aberto
O adiamento do Rallye Vidreiro Centro de Portugal para 20 e 21 de novembro alterou uma peça estrutural do campeonato, retirando-lhe o papel de abertura e devolvendo-lhe o estatuto de prova de encerramento. A decisão surgiu após os impactos da depressão Kristin na região de Leiria, Marinha Grande e Pombal, mas mantém o rali como potencial momento decisivo na atribuição do título nacional.
Esse contexto reforça a ideia de um campeonato de maratona, em que conciliar rapidez e regularidade continuará a ser determinante. Num CPR sem “mundialistas”, mas mais denso em talento nacional, com veteranos credenciados, jovens promovidos a estruturas de fábrica e novas variáveis técnicas e estratégicas, a época de 2026 arranca com um dado claro: Armindo Araújo parte na frente das previsões, mas dificilmente correrá sozinho no centro da história.
Será, sem dúvida, um CPR diferente dos anteriores, mas a luta de gerações que tanto se tem falado tem toda a razão de ser, sendo que independentemente do que o cronómetro irá ditar, estaremos certamente a assistir a uma época de “passagem de testemunho” pois os pilotos mais veteranos tendem a aceitar o que lhes diz o seu “relógio biológico”, mas de maneira nenhum vão estender a passadeira ao jovens.
A nova geração chega com unhas afiadas, mas a velha guarda não cederá sem muita luta…


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