Bruno Magalhães explica cenário atual dos ralis em Portugal: “O CPR está partido em dois…”
Quando Bruno Magalhães, em novembro passado, foi o piloto de serviço na apresentação da Toyota Gazoo Racing Caetano Portugal, muitos pensaram que estava aberto o caminho para o seu regresso após dois anos fora dos ralis, mas como o piloto tratou de revelar de imediato, na altura: “Acho que merecíamos, temos sido sempre rápidos, por uma razão ou outra não fomos campeões, mas andámos sempre lá na luta, andámos sempre depressa, ganhámos sempre ralis, portanto temos sempre mostrado o nosso potencial, e acho que temos ainda muito para dar aos ralis.
A ambição é grande…”, mas o piloto escolhido, foi, como se sabe, Kris Meeke.
A política das equipas oficiais mudou, a aposta é nos pilotos estrangeiros de renome, como são Kris Meeke (Toyota) e Dani Sordo (Hyundai) e por isso, pilotos como Bruno Magalhães continuam fora dos ralis: “estive ali a fazer um trabalho para a Toyota, mas eu na altura deixei logo bem claro que era apenas e só isso”, disse, em conversa com o 16 Válvulas, com Bruno Magalhães a explicar também em detalhe as razões para que esse enlace não se tenha dado: “obviamente que eu gostaria de ter feito um projeto, gostava muito de ter feito, mas neste momento as políticas das marcas não são para pilotos portugueses e como tal, eu não me adequava ao projeto, e dessa forma nunca teve perto de acontecer”, revelando depois que a questão nunca se colocou em termos de poder colocar de pé um projeto pessoal, por motivos muito fáceis de explicar: “Os valores neste momento necessários para conduzir um Rally2 são muito, muito altos, na casa dos 400.000 euros, isto sem azares. É importante referir isso: sem azares. Neste momento, arranjar essas verbas é quase uma utopia. Se houvesse uma marca que quisesse unir esforços e tentar fazer alguma coisa, eu estaria na disposição de tentar arranjar alguns apoios, fosse com patrocinadores históricos ou com novos também, mas a partir do momento é que é preciso arranjar uma verba tão grande para partir do zero, é praticamente impossível”, explicou à mesma fonte.
Bruno Magalhães deu também a sua opinião face ao que é hoje em dia o Campeonato de Portugal de Ralis, e o que se antevê para as próximas sete provas: “a nível competitivo Fafe foi o que estávamos todos à espera. O campeonato está partido em dois. Ouço dizer que é o campeonato mais competitivo de sempre, mas eu estou em total desacordo com isso. O CPR está partido competitivamente. Competitivo era quando em 2019 fomos para a última prova quatro pilotos com hipóteses de sermos campeões. Aí sim, era grande a competitividade.
Este ano, isso não vai acontecer por diversas por diversos fatores, obviamente. Temos pilotos que são melhores que os outros. Não há forma de dizer o contrário. São dois pilotos com uma experiência enorme a nível de Mundial de Ralis, de correr em todo o tipo de condições, com as melhores condições, e por isso têm uma experiência e uma qualidade – porque é preciso frisar que a qualidade deles também é superior – que os outros não têm.
E quando juntamos qualidade superior e condições de trabalho, que também que nada tem a ver com os portugueses, torna-se muito, muito difícil que os portugueses consigam fazer algo de interessante
Quem não tem o peso nos ombros a nível de orçamental, e que sabe que se acontecer algum azar, isso não tem qualquer influência no seu bolso, obviamente que assume os riscos de uma forma totalmente diferente dos pilotos portugueses.”
“Neste momento, eu considero que só existem dois pilotos dois projetos oficiais em Portugal, ou dois pilotos oficiais, que são o Kris Meeke e Dani Sordo, e todos os outros são pilotos que têm a sua vida profissional, têm que arranjar dinheiro para correr. Além disso, têm às costas sempre a questão dos acidentes que podem surgir, seja em testes, ou em ralis, e para as pessoas terem uma ideia, pois se calhar, não sabem, um seguro para um carro destes, uma franquia de seguro, ronda sempre os 18.000-20.000 euros, portanto, é como se cada vez que os pilotos portugueses colocam o capacete, tivessem um cheque passado de 18.000 ou 20.000 euros, caso algo se passe…
E nem falo de um grande acidente, mas ter uma ligeira saída de estrada e partir um para-choques, só isso custa logo 2.000 ou 3.000 euros e a maior parte das pessoas não têm noção disso.
Portanto, quem faz tanto esforço para se manter ativo durante 25 anos neste desporto, muitas vezes a pôr dinheiro do bolso. Depois o dinheiro já não chega e já sabem que não podem ter acidentes. Isso aconteceu-me a mim.
Eu estive quatro anos como piloto da Hyundai e nunca risquei um para-choques. Agora, perguntam-me, isso é normal? Não, não é. E porque acontece? Porque sabemos que não podemos bater. Porque sabemos que estamos a começar um campeonato que ainda não temos dinheiro para o pagar na totalidade, quanto mais ter azares.
E isso mexe muito com a vida das pessoas.
Quem vive do seu salário, do seu dia a dia, quando pega numa máquina destas que custa 300.000€ e sabe que se tiver um azar, de repente, tem que ir ao bolso buscar 20.000€ quando por vezes nem sequer há dinheiro para pagar o campeonato, quanto mais aparecer uma conta adicional de 20.000€ para pagar.
Como devem calcular, isso tem muita influência no risco que se assume quando se está a correr.
Por tudo isto, eu considero que o campeonato nesse aspeto está completamente partido, porque existem dois pilotos que têm condições, que nada têm a ver com os outros pilotos que lá andam.
E que eles por si já são melhores. É importante saber isso e todos sabemos, são pilotos de nível mundial, ganharam provas do WRC, com boas carreiras. Portanto, eles já são melhores, juntando a isso, tendo em condições muito melhores, a competitividade deixa de existir, no meu ponto de vista” disse Bruno Magalhães, que, todavia, entende a perspetiva das marcas: “Eu falo enquanto piloto, mas também sei ver o outro lado, ver da perspetiva das marcas.
Colocando-me nessa perspetiva, percebo que quem investe neste desporto quer ter resultados imediatos. Mas para ter resultados imediatos, também se podia fazer projetos com pilotos portugueses. Até porque os projetos com estes pilotos são muito mais caros do que com um piloto português. Portanto, é difícil perceber, e existe uma certa angústia, no sentido que perceber que existem recursos, mas esses recursos não são aproveitados para promover os desportistas portugueses e levá-los mais adiante e isso era impensável acontecer em Espanha, (…) havia uma rebelião, eles não aceitavam isso…
Em Portugal, colocando-me no lugar das marcas, obviamente que tem projeção, são pilotos com muito nome, as pessoas adoram vê-los passar na estrada, eu também gosto dos ver passar…” disse Bruno Magalhães que também não concorda com a forma como foi estruturado o projeto Júnior Team da Hyundai e da FPAK: “É uma boa opção, mas acho que foi cometido um erro, não deviam ser dois pilotos, devia ser apenas um, não interessa qual. Devia ser um programa completo. Não estou aqui a dizer que devia ser o piloto A ou o piloto B. Não há nenhum piloto com 26 ou 27 anos que possa evoluir a fazer três ralis num ano. Logo aí nós vemos a diferença para aquilo que se passa lá fora…”, disse. Eram outros tempos, é certo, mas para Bruno Magalhães: “eu com a idade que eles estão a começar já era campeão nacional…”.
Bruno Magalhães disse muito mais, pode ouvir toda a entrevista AQUI
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HellRun
19 Março, 2025 at 18:14
O CPR muitas vezes esteve partido naqueles que tinham muito mais dinheiro que os outros. Eu ainda me lembro do Fernando Peres a dominar completamente o campeonato, com um Escort que ficava a milhas dos carros da concorrência, isto apemas para citar um exemplo (e nada contra o Peres, que fazia o que gostava, com os melhores meios que conseguia). Pelo menos agora, há duas equipas oficiais, e há privados com boas maquinas e muito rapidos, que ainda o ano passado bateram o pé aos oficiais. Não me venham com conversas de que “dantes é que era bom”. Eu estive lá…
[email protected]
19 Março, 2025 at 18:17
Finalmente alguém que fala o que pensa, e as realidades.
Interessante.
jose melo
19 Março, 2025 at 18:39
Dinheiro há. Tem que haver. Se os carros custam € 300.000 e parece que são oferecidos num hipermercado tal a quantidade, tem de haver dinheiro. E só estou a falar de rallyes porque se juntar a velocidade então…
O que há e sempre houve é melhores ou piores contactos, e capacidade e conhecimento para negociar. E isso uns têm mais que outros. Sempre foi assim. Como sempre houve pilotos com um nível inferior e melhores carros, e o inverso.
Esteve uns anos na Hyundai, não riscou um parachoques, mas também não ganhou e supostamente era a mesma equipa de fábrica que é hoje. Não será por essa falta de resultados que levou a marca a procurar um piloto mundialista?
Também é verdade que desde o iníco da carreira se viu o valor que tinha, e em simultâneo a constante falta de patrocínios, sendo que o seu saudoso pai sozinho não aguentava tudo.
É sempre um assunto complicado que dava horas de discussão. Mas dinheiro há, e ulgo até que em Portugal nunca houve tanto dinheiro em competições automóveis. Rallyes, velocidade, TT e até rallcrosse,, tem uma quantidade impressionante de carros com orçamentos gigantes, para o País que somos. E ainda Madeira e Açores.
[email protected]
20 Março, 2025 at 0:31
Pois…
Nrpm
20 Março, 2025 at 10:31
A visâo é clara e retrospectiva o suficiente para ser correcta. Correr de ‘carteira aberta ou fechada’ têm grande impacto. O problema actual do automobilismo em Portugal, no geral, é a falta de categorias de promoção e progressão, captação de talento em vez de elenco!
‘Descobriu-se’ que o que é bom é correr a gastar ‘milhões’, com equipas galácticas com pouco interesse desportivo nacional e muitas outras vezes com personagens sem provas de competência dadas… nos rallies e na velocidade. A FPAK também alinha neste turpor ‘etilico’. Um programa de fomento que em 365 dias contempla 3 provas, para 2 pilotos!? Ou no Campeonato de Montanha com um Junior Team, onde os pilotos pagam as participações. Que desenvolvimento e fomento é que isto trás? Onde estão os resultados da última década resultantes da iniciativa da FPAK? Que pilotos podem descolar relevantemente para carreiras internacionais dignas, em 1 ou 2 anos? Que Troféus – provas de budget moderado ou baixo – apareceram nos últimos 5 anos, que fossem frutuosos? (Foi mau haver FEUP 1, 2 e 3? É Single Seaters?) Não venham por exemplo dizer que a Fed não tem dinheiro porque não é assim. Têm é máquinas ‘constantes’ muito pesadas e pausadas. Que divulguem quanto recebem anualmente do Orçamento de Estado, quanto cobram pelas licenças desportivas e pelas licenças de prova. E as marcas? Com o cachet do ‘Mickey’ ou do ‘Soldo’, e o cash de 1/2 R2 apoiam-se 25 pilotos num troféu junior e um sénior, uma temporada inteira.
E antigamente não era melhor…
Era pior?
Era mais!
Resultou em mais.
Basta olhar para qualquer outro país da Europa e ver como ‘fazem pilotos’.