São os automóveis elétricos mais suscetíveis a incêndios?

Por a 18 Abril 2024 10:31

Será que os carros elétricos são mais suscetíveis a incêndios? Apesar dos vídeos nas redes sociais, os números são muito menos alarmantes.

Os carros elétricos estão sob apertado escrutínio dos consumidores, das autoridades e de todos os envolvidos na indústria automóvel. A natureza do ser humano leva a desconfiança quando encara uma novidade e a desconfiança nos elétricos leva a uma análise minuciosa, o que é bom. A questão dos incêndios nos elétricos tem sido referida com alguma regularidade (cada vez menos), pela espetacularidade de alguns fogos e pela dificuldade em apagar o incêndio. Mas será que os elétricos (EV) são mais suscetíveis a incendiarem-se?

EV não são mais suscetíveis a incêndios

Respondendo de forma simples: Não! Os EV não são mais suscetíveis de se incendiarem e, na pior das hipóteses, o risco é igual ao dos veículos com motores térmicos. Os números que vão sendo recolhidos mostram que os EV apresentam um nível de segurança apreciável.

Um artigo da Forbes mostra, com base nos dados analisados pela AutoinsuranceEZ, baseados em dados do National Transportation Safety Board (NTSB), que os veículos elétricos a bateria podem ser mais seguros do que os automóveis com motor de combustão interna (ICE). Segundo Graham Conway, engenheiro principal do Southwest Research Institute em San Antonio “os dados do NTSB indicam que, após 41 colisões fatais envolvendo EV, 1 incendiou-se (2.44%). Segundo os dados do NTSB, após 20 315 colisões fatais com veículos a gasolina, 644 incendiaram-se (3.17%). Os dados do NTSB indicam que, após 543 colisões fatais envolvendo veículos híbridos a gasolina, 12 incendiaram-se (2.21%)”.

Há mais dados que sugerem que o risco de incêndio nos EV é exagerado, com um artigo da Autocar a referir dados do Bedfordshire Fire and Rescue Service, em que cerca de 1898 incêndios em 2019 foram provocados por veículos a gasolina e a gasóleo e 54 por veículos elétricos.

Outro trabalho, desta vez do The Guardian refere mais dados, tais como os da Agência Sueca de Contingências Civis, que concluiu que houve 3,8 incêndios por 100 000 automóveis elétricos ou híbridos em 2022, em comparação com 68 incêndios por 100 000 automóveis, tendo em conta todos os tipos de combustível. No entanto, estes últimos números incluem fogo posto, o que torna as comparações difíceis. O Departamento de Defesa da Austrália financiou o EV FireSafe para analisar a questão. O estudo concluiu que havia uma probabilidade de 0,0012% de uma bateria de veículo elétrico de passageiros se incendiar, em comparação com uma probabilidade de 0,1% para os automóveis com motor de combustão interna.

A União Europeia também já de debruçou sobre o tema e um estudo de outubro de 2023, revela uma frequência média anual de incêndios em EV de 2,44 × 10^-4 incêndios por EV registado, o que equivale a 244 incêndios por milhão de EV registados ao considerar dados de seis países (Finlândia, Noruega, Suécia, Dinamarca, Coreia do Sul e Países Baixos).

Então os EV são seguros?

Podemos então concluir que os EV são seguros, comparados com os motores térmicos. O que leva a desconfiança são alguns dados e essencialmente o que se vê na internet.

Começando pelos dados, comparar o conjunto de números recolhidos sobre os carros com motor a combustão e os elétricos é incomparavelmente diferente, com os elétricos ainda a terem poucos dados associados. É por isso que os números podem mudar de estudo para estudo, dependendo da metodologia e da amostra usada. Aqui entramos no mundo da ciência em que os números são analisados de forma cuidadosa, e com amostras tão pequenas como a dos EV em circulação (comparado com os “térmicos”), é preciso ter sempre cautelas. No caso dos números avançados pela Forbes, Graham Conway explica isso de forma simples: “41 acidentes vs 20 315 acidentes vs 543 acidentes tornam estatisticamente irresponsável a comparação destes números. Por exemplo, se houvesse um 42.º acidente com um veículo elétrico e este se incendiasse, isso corresponderia a 4,76% dos veículos elétricos ou ao dobro da taxa dos híbridos. Até que o tamanho da amostra seja o mesmo e significativo, não podemos dizer qual será pior ou não”. Assim, alguns estudos não permitem apontar conclusões sólidas, mas a tendência dos números gerais mostram que os EV são tão ou mais seguros. À ciência, exige-se mais estudos e mais análise de dados para comprovar de forma clara esta premissa.

Um fogo diferente, com exigências diferentes

Segundo ponto de desconfiança são os violentos incêndios que se veem nas notícias e na internet quando um elétrico se incendeia. Isso já tem a ver com a natureza do fogo em si. Segundo Paul Christensen, professor de eletroquímica pura e aplicada na Universidade de Newcastle e consultor sénior do National Fire Chiefs Council, em declarações ao Autocar, explicou o que acontece. A “fuga térmica” é o conceito usado para descrever o que risco da energia contida nas baterias escapar de forma incontrolada. Quando o calor e os gases alimentam temperaturas ainda mais elevadas e ainda mais gases, incluindo hidrogénio e oxigénio, entram num ciclo que se auto-alimenta até as células começarem a arder e a rebentar. Desenvolve-se uma nuvem de vapor tóxico, com o risco de deflagração. Uma vez iniciada a fuga térmica, nenhum sistema de gestão da bateria ou disjuntor a pode parar. Assim, um incêndio numa bateria pode ser controlado, mas não pode ser extinto”, diz Christensen.

Isto pode parecer assustador, mas as baterias são pensadas para evitar ao máximo essa fuga térmica. Um exemplo extremo, mas que serve de base para o sossegar, é a competição. Os carros de F1 e de resistência usam baterias para alimentar os sistemas híbridos, em proximidade com um sistema térmico levado ao extremo e, apesar de alguns impactos violentos, as baterias aguentaram o impacto, sem problema. A tecnologia usada nos carros de estrada pode ser diferente, mas a base é a mesma. Mais ainda, há baterias já em circulação nas nossas estradas, que resistem à perfuração, indicado como um dos principais fatores de risco, como o caso da Baterias Blade da BYD, como se pode ver no vídeo:

E se o pior acontece?

E inevitável termos de encarar o facto que, tal como nos motores térmicos. E no caso das baterias o pior leva a um incêndio que dá muito trabalho a controlar. Mas até nesse sentido há marcas que trabalham para encontrar soluções. A Renault, por exemplo, desenvolveu o QRescue, um código QR que dá aos serviços de emergência acesso a todas as informações técnicas do veículo numa só digitalização, mesmo em zonas mortas. Fixado de série nos para-brisas dianteiros e traseiros dos veículos da Renault, a sua localização foi escolhida com os bombeiros para facilitar o trabalho. A marca tem também apostado na formação de bombeiros, inclusive em território nacional, para apontar a forma mais eficaz de combate ao incêndio. Outros sistemas incluem o SD Switch, um interruptor mecânico que desconecta a bateria do circuito elétrico e o Fireman Access, um ponto de acesso que permite “afogar” a bateria com água, reduzindo assim o risco de fogo incontrolável.

Conclusão

Infelizmente, cada vez que entramos num carro, enfrentamos riscos, muitos deles nem sequer equacionados por nós. Mas o risco de entrar num carro com motor a combustão e num EV é, na pior das hipóteses, igual. Os dados recolhidos mostram que os EV são seguros, que o risco de incêndio, apesar de presente, é diminuto e a tecnologia galopa rumo a soluções mais seguras, com baterias mais capazes de resistir a impactos e perfurações. Não podemos fugir ao facto de que são necessários mais dados para comprovar de forma clara a segurança dos EV, mas as primeiras conclusões são de facto bastante animadoras.

Se está a pensar usar um EV ou até comprar, os dados atuais mostram que a segurança é de excelente nível e as marcas continuam a não facilitar neste capítulo. Iremos continuar a ver fogos de EV, por serem mais espetaculares e mais difíceis de travar, mas os motores a combustão também se incendeiam e a maioria das vezes nem sequer são notícia. Como tal, para já, nada aponta para que o risco seja superior nos EV.

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