Pilotos ‘diferentes’: Histórias de uma vida que não pediram…


São muitos – e todos diferentes. Quanto mais não seja, porque têm uma coragem diferente: a de enfrentarem problemas físicos, ultrapassando-os rumo ao sucesso. Ou, no mínimo, rumo a uma desenfreada paixão…

Billy Monger é a mais recente vítima duma longa lista de pilotos que tiveram horríveis acidentes que os incapacitaram. O jovem piloto britânico perdeu as pernas na sequência de um acidente na Fórmula 4 inglesa, em abril de 2017, mas cerca de dois meses depois já esteve novamente aos comandos de um carro em pista. Em Brands Hatch, Monger guiou um carro da Fun Cup, especialmente adaptado a pilotos com deficiências físicas, pertencente ao Team BRIT, mas o jovem piloto tem já previsto correr nas 24 horas de Le Mans, em 2020, ao lado de Frederic Sausset, e para tal vai regressar às pistas em novembro, precisamente em Portugal, durante a corrida do V de V Endurance Proto Series, no que será o início da preparação para o grande objetivo de Le Mans 2020.

Chamam-lhes deficientes. Ou paraplégicos. Ou outra coisa qualquer. Mas, na verdade, não passam de homens (e mulheres) que um dia se viram com um problema na vida que lhes tornou a vida diferente. Ou, então, que já nasceram assim, com esses problemas – e que desde cedo meteram corpo e mente à obra de serem capazes de façanhas apenas ao alcance de um homem “’normal’. Os exemplos são muitos, nestas coisas dos automóveis. De uma forma simples, podem dividir-se em duas ‘categorias’: os que já nasceram assim; os que adquiriram essa diferença durante um percalço da vida. Em comum, têm uma força de vontade acima da média – e, também e muitas vezes, um talento à altura. Estamos a falar, já deverá ter percebido, de pilotos.

Já nasci assim…

Desde sempre, nem todos os seres humanos nasceram completos ou isentos de problemas físicos. Isso, é claro, sucedeu também no automobilismo de competição. Tommy Milton, que foi o primeiro piloto a vencer por duas vezes as Indy 500 (1921 e 1923), era cego de um olho, além de ter sofrido graves

queimaduras num acidente em Uniontown, nos finais de 1919. Também o holandês Ab Goedemans, que foi durante anos piloto oficial da Abarth nos campeonatos europeus de Turismo, tinha problemas na vista esquerda, o que não o impediu de ser um artista acima da média. Aliás, terá sido por causa desse problema que perdeu a vida em Nürburgring, no dia 2 de setembro de 19568, quando calculou mal a entrada de uma curva, saindo fatalmente de pista. Nesse dia, estava ao volante do novo protótipo da Abarth com motor 1.600 e que tinha uma posição de condução diferente e a que não estava habituado… Ainda na IndyCar, Gary Bettenhausen, que foi campeão em 1980 e 1983, tinha severamente restritos os movimentos do braço esquerdo e Andy Linden, que correu nas Indy500 entre 1951 e 1957, sendo 4º no primeiro ano, tinha só um pulmão.

E, numa altura em que a poliomielite era uma doença sem cura e que afetava milhões de crianças em todo o mundo, alguns pilotos correram com sequelas graves, como pés defeituosos, pernas mais curtas ou dificuldades em locomoverem-se. Como, por exemplo, Simo Lampinen, um dos maiores pilotos finlandeses de ralis – ganhou os Mil Lagos em 1963 e 19674 e o RAC em 1968, tendo sido 3º no TAP em 1970. Ou o australiano Bob Holden, que ganhou os 500 Km. de Bathurst em 1966 com Rauno Aaltonen, num Mini, e que, aos 82 anos, ainda fazia corridas… de clássicos! Ou, enfim, a italiana Ana Maria Peduzzi,que correu na Alfa Romeo antes da II Grande Guerra e na Stanguellini depois e que, um dia, foi desclassificada numa corrida de sport’, porque recebeu ajuda de um espetador, numa decisão que causou alguma polémica, pois ela simplesmente não empurrou o carro… porque as sequelas da doença não lho permitiram.

Antes e logo depois da II Grande Guerra, o austríaco Otto Mathé fez furor, ao pilotar com destreza só com um braço, levando mesmo ao triunfo no Rali Alpino um Porsche 60K10 Aerocoupe, em 1950. Também só com um braço, David Good venceu o campeonato RAC de Rampas, em 1961, ao volante de um Cooper-JAP 1100. Na F1, os casos de deficiência natural não foram raros. Jody Scheckter, campeão do Mundo com a Ferrari em 1979, falhou os testes militares, porque era daltónico! E isso só se descobriu depois dele ter deixado as corridas… A pergunta de um milhão de dólares: como era capaz de distinguir as cores das bandeiras?

Roy Salvadori, que correu nos anos 50 e 60 com Maserati 250F e vários Cooper oficiais, entre outros, era surdo de um ouvido. Stuart Lewis-Evans, o amigo de Mike Hawthorn cuja morte, no GP de Marrocos, o levou a abandonar a F1 mal foi campeão do Mundo em 1958, sofria de terríveis úlceras no estômago e de espondilite anquilosante desde criança. E até mesmo Ayrton Senna sofria de descoordenação motora, quando era menino – é célebre a história, contada por seus pais, de que tinham que comprar sempre dois gelados, porque um deles acabava seguramente no chão!

Aquele dia maldito
Em Brooklands, nos anos logo a seguir à I Grande Guerra, era ‘normal’ ver pilotos a correrem, só com um braço, ou só com uma perna. E, nessa altura, correr ali, numa oval de cimento, sem as medidas de segurança que hoje existem (e levaram à extinção de ovais assim…), não era para qualquer homem. E Rudi Caracciola, o grande piloto da Auto Union, rival de Bernd Rosemeyer, Dick Seaman, Luigi Fagioli e Tazio Nuvolari, reputado especialista na chuva, tinha uma perna mais curta que a outra, por causa de um acidente de competição.

Muito mais tarde, em 2012, nos Estados Unidos, Michael Johnson, então com 19 anos, decidiu fazer uma corrida do campeonato USF2000, uma competição que fazia parte do ‘Caminho para a Fórmula Indy’ (Mazda Road to Indy), que tinha vários degraus, até se chegar à Indy Lights e, enfim, à IndyCar. O USF2000 era (é…) um campeonato com monolugares, uma espécie de GP32 local. Até aqui, nada de mais – exceto se dissermos que Johnson tinha perdido o movimento das pernas depois de um acidente, sete anos antes – altura em que já tinha conquistado 14 títulos no motociclismo. Desta forma, ele tornou-se o primeiro piloto paraplégico a participar nesse campeonato, com um carro adaptado às suas necessidades. E aí sim, as coisas eram (mesmo!) diferentes! Hoje, ser ‘diferente’ já não é assim tão raro no automobilismo mundial. Na Austrália, Matt Speakman, de 45 anos e paraplégico desde um acidente de trânsito em 1993, altura em que corria no campeonato de Super Sport 600 do seu país, decidiu participar na Porsche Carrera Cup nesta temporada, ao volante de um 997 GT3 Cup Challenge preparado para o efeito.

Antes disso, tinha já participado em campeonatos locais e regionais de ralis. No Brasil, onde existe uma equipa composta só de pilotos paraplégicos (IGT MINI Challenge composta por Thiago Cenjor, Tales Lombardi e Paulo Polido) e que disputa a MINI Challenge, um piloto conhecido por ‘Capixaba’ [Wagner Hertel] corre profissionalmente em provas de ‘karting’, onze anos depois de ter perdido o movimento das pernas, depois de um acidente de carro, quando voltava de uma farra com amigos. Tinha então 23 anos e, após anos de terror, conseguiu dar a volta por cima, começando a desenvolver maquinaria específica para as suas necessidades. Hoje, faz aquilo de que mais gosta, batendo-se (e batendo…) pilotos ditos ‘normais’.

Mas nem sempre foi assim… tão ‘fácil’. Aliás, nunca foi fácil. As histórias de uma vida diferente nas corridas são mais que muitas. Exemplos: Johnny Rutherford, piloto hoje com 76 anos e que ganhou as Indy 500 por três vezes (1974, 1976 e 1980), teve um acidente numa corrida de ‘sprint’ durante os anos 60 [Eldora, 1966] , em que queimou gravemente as mãos, em especial a direita e, a partir daí, ficou com quase zero sensibilidade para segurar o volante, tendo que usar muitas vezes uma luva especial. O mesmo sucedeu com outro piloto da IndyCar, Mel Kenyon, que apenas conseguia pegar o volante se calçasse uma luva própria, até porque praticamente perdeu o uso de uma das mãos. E Salt Walther, que correu por 12 vezes nas Indy500, sofrendo mesmo um quase fatal acidente em 1973, tinha a mão esquerda de metal, que escondia sempre com luva negra.

Russell Ingall, que venceu a Bathurst 1000 por duas vezes (1995 e 1997) e foi Campeão no V8 Supercar australiano, em 2005, não tem um dos indicadores mas, mesmo assim, não deixou de ser competitivo logo desde o ‘karting’ – onde, aliás, perdeu esse dedo num acidente. Na F1, Jean Behra tinha uma orelha artificial, depois de ter perdido a original num acidente de corrida e Jean-Pierre Beltoise movia muito mal um cotovelo, consequência de um acidente durante uma prova em 1964, na pista de Rouen Les-Essarts, em que foi cuspido do carro. David Piper perdeu uma perna num acidente em Le Mans, durante a rodagem do filme com o mesmo nome e que tinha como ator principal Steve McQueen, passando a correr com uma prótese. O rodesiano John Love teve também um grave acidente, com um Cooper de Formula Junior, em Albi, em 1962, ficando com um braço defeituoso e mal dobrando o cotovelo. E, no mundo das cadeiras de rodas, os casos mais conhecidos são os do dinamarquês Jason Watt, que sofreu um acidente ao testar uma moto para uma revista especializada, em 1999, continuando depois a correr e sagrando-se mesmo campeão nacional de Turismos em 2002, com Peugeot 307 GTi. Ou do antigo piloto de F3 britânico Barrie Maskell que, depois de ter ficado paraplégico após ter partido a espinha num acidente, se dedicou, com sucesso aos GT e em especial aos Porsche 911. Enfim, recordemos ainda Vern ‘Flip’ Fritch que, depois de um acidente numa corrida de ‘sprint’, em Owosso Speedway, em outubro de 1949, fundou uma associação para apoio aos deficientes motores e, após dez anos numa cadeira de rodas, bateu o recorde de velocidade para carros controlados apenas pelas mãos, em Daytona, ao passar das 100 mph (160 km/h), em 1959. Jean de Pourtales perdeu um braço num acidente de carro, quando era criança mas, mesmo assim, usando uma prótese, aventurou-se não apenas nos monolugares, fazendo o Campeonato britânico de Fórmula Renault 2.0, nos anos 90 como, entre 2007 e 2010, participou nas 24 Horas de Le Mans e, ainda mais recentemente, nas Le Mans Series (LMS). Terminemos, numa lista obrigatoriamente com lacunas e onde se tem ainda que incluir o russo Boris Kushnarev, que perdeu um pé num combate aéreo, na II Guerra Mundial e, durante mais de 20 anos, correu em carros de ‘sport’, terminando no 4º lugar o campeonato da União Soviética de 1983, com uma história que o irá fazer sorrir um pouco: Cal Niday, um piloto norte-americano muito conhecido nos anos 50, em que correu nas Indy500, teve um dia um acidente, em que ficou encarcerado dentro do carro. Ele usava uma perna artificial, que ficou presa. Sem se preocupar com isso, separou a perna e saltou do carro, deixando-a lá dentro. Algumas pessoas que estavam a ver, não evitaram cair para o lado, desmaiadas…

O exemplo de Alex Zanardi

A vida de Alessandro Zanardi, mais conhecido por Alex, dava um filme, tal como já deu um livro, e dos bons! Nascido em 23 de outubro de 1966, começou a correr em ‘karts’, feitos por si mesmo, aos 13 anos. Em 1988, foi para a F3 italiana e, dois anos mais tarde, sagrou-se campeão na European F3 Cup. Subiu à F3000 em 1991, sendo vice-campeão, com vitórias em Vallelunga e no Mugello e segundos lugares em Jerez, Brands Hatch, Spa e Nogaro – ou seja, terminou no pódio todas as corridas em que chegou ao fim! Ainda nesse ano, estreou-se na F1, com a Jordan, fazendo as três últimas corridas. Em 1992 fez outras três com a Minardi, antes de assinar um contrato com a Lotus para 1993.

E foi aqui que as coisas correram mal, com um acidente durante os treinos para o GP da Bélgica, ao bater com enorme violência no alto do Raidillon. O embate foi de tal forma que a compressão o fez ficar mais baixo cerca de 4 centímetros! Com uma concussão cerebral, chegou a estar em coma, mas sobreviveu, voltando no entanto à F1 apenas no GP de Espanha de 1994, no lugar de Pedro Lamy, que tinha sofrido um acidente pouco antes. Ainda em 1993, Zanardi tinha sofrido um acidente de estrada, quando foi abalroado por um velho condutor, que não o viu e lhe bateu na traseira da sua bicicleta provocando-lhe várias fraturas que, mesmo assim, não o afastaram então da F1! Sem nunca pontuar nesse ano (na realidade, apenas conseguiu um ponto, referente ao 6º lugar no GP do

Brasil de 1993), Zanardi deixou a F1 no final de 1994, rumando à CART, onde conquistou dois títulos, em 1997 e 1998. No final desse ano e 15 vitórias depois, aceitou o desafio de Frank Williams e regressou à F1 – mas, sem se adaptar às novas exigências tecnológicas, voltou a não conquistar nenhum ponto… regressando outra vez aos States, em 2001, depois de um ano de reflexão. Nessa temporada, com o carro de Mo Nunn, não foi tão eficaz como tinha sido anteriormente, tendo no 4º lugar em Toronto a sua melhor classificação do ano. Até que, a 15 de setembro, quatro dias depois do 9/11, durante a prova de Lausitzring, que estava a liderar, entrou em pião ao sair das boxes, na frente de Patrick Carpentier, que o conseguiu evitar, sendo no entanto embatido, a alta velocidade, por Alex Tagliani. O embate, na parte frontal, mas de lado, junto à roda! – do monolugar, partiu-o em dois e arrancou de imediato ambas as pernas (uma antes do joelho, a outra acima) do italiano, que chegou a perder quase três quartos do seu sangue. A rápida intervenção dos médicos salvaram-lhe a vida e, mais tarde, numa operação que durou mais de três horas, cortaram-lhe mais alguns bocados das pernas e limparam as artérias e os nervos decepados. A sua carreira nos monolugares terminou ali.

Mas Zanardi não é de desistir e, após receber próteses em ambas as pernas, iniciou um intenso e ambicioso programa de reabilitação, que o levou a sentar-se a volante de um carro de competição apenas dois anos depois, em Monza. No ano seguinte, fez todo o FIA ETCC, com um BMW da equipa BMW Team Italy-Spain, de Roberto Ravaglia. Em 2005, o campeonato passou a chamar-se WTCC e Zanardi manteve-se na equipa, conquistando a sua primeira vitória desde o acidente, na segunda corrida de Oschersleben. O italiano ficou na equipa até 2009 e venceu mais três provas: Istanbul Park 1, em 2006; e Brno 1 em 2008 e 2009. Antes disso, Zanardi regressou ao volante de um F1, testando um BMW Sauber em Valência, em 2006 e voltou à pista onde perdeu as pernas, cumprindo as 13 voltas que lhe faltavam nesse ano para vencer a prova nesse dia fatídico, estabelecendo tempos que lhe davam um lugar na fila da frente de uma grelha, em 2003. Mas os horizontes de Zanardi não se esgotaram nos automóveis. Ainda em 2007, começou a correr em campeonatos para deficientes mores, em cadeira de rodas. Com um empenho colossal, quase sobre humano, depressa chegou à discussão das vitórias e, em 2011, recebeu a primeira medalha, de Bronze, num campeonato do Mundo. Conquistou sete Medalhas de Ouro: duas nos Jogos Paralímpicos de Londres (2012) e cinco no Campeonato do Mundo (três em 2013, no Canadá e duas já este ano, nos Estados Unidos). E continua a fazer história…

O meu irmão Nicolas

Tem 22 anos, chama-se Nicolas e é o irmão mais novo de Lewis Hamilton. Sofre de paralisia cerebral desde que nasceu mas, mesmo assim, teve sempre o mesmo sonho: ser piloto de competição. Na verdade, desde sempre que seguiu o irmão, tal como o pai, Anthony, antes e depois dele entrar na F1. Estreou-se em 2011, no troféu Renault Clio britânico, com um carro adaptado às suas condições e, nesse ano, foi 14º no final da competição, que repetiu no ano seguinte. Em 2013, fez seis provas do ETCC, com SEAT León Supercopa, da Baporo Motorsport, terminando o ano em 12º, com um 9º lugar em Salzburgring como a sua melhor classificação. Regressou este ano na Clio Cup britânica…

O caso de Albert Llovera

Andorrano, Alberto Llovera Massana ficou sem o uso das pernas num acidente de esqui, no Europeu de 1985. No ano anterior, com 17 anos, tinha sido eleito o atleta mais jovem de sempre das Olimpíadas de Inverno. Mas, sem nunca baixar os braços, Llovera conquistou dois anos mais tarde o título de Espanha de Quads. Depois disso, nunca mais parou. Depois dos ‘quads”, passou para o campeonato de Velocidade da Catalunha , desde 2001, passou a fazer ralis. Em 2003, fez algumas provas do campeonato espanhol, comum FIAT Punto Kit Car e, entre 2004 e 2012, fez o Campeonato de Espanha de Ralis em Terra, sempre com um FIAT – nos últimos anos, um Grand Punto S2000. Em 2009, foi mesmo 2º no Grupo N. Fez, ainda, várias provas do WRC, com um FIAT Punto S1600, um Grand Punto S2000 e um Mitsubishi Lancer Evo VIII. Esteve no Vodafone Rali de Portugal de 2010, que terminou em 41º com um Grande Punto S2000 e, em 2008, com carro idêntico, foi 12º no Rali dos Açores, que era então uma prova do IRC. Imparável, Llovera chegou mesmo a correr no Dakar, em 2007 (Isuzu D-Max GT) e 2014 e tem continuado a dar asas à sua paixão….

Os heróis nacionais

Em Portugal, não se conhecem muitos casos de pilotos com debilidades físicas. Não que eles não tivessem existido – mas deles não reza a (grande) história. Lembramos-nos de Miguel Vilar, que foi campeão nacional de Ralis/Navegadores nos anos 80 e que, depois, enveredou por uma carreira nos monolugares, tendo chegado à Fórmula Opel europeia, onde lutou contra David Coulthard e Ralf Schumacher, por exemplo, e à F3. Em 1997, aos 40 anos, um acidente de viação, em que sofreu o embate de uma pedra lançada pelo rodado traseiro do camião que seguia na sua frente, provocou-lhe graves lesões cerebrais, de que demorou a recuperar, com a preciosa ajuda do cientista António Damásio. Hoje, ainda são visíveis sequelas desse acidente – mas, mesmo assim, já participou em algumas provas de Velocidade, mas sem nunca regressar a tempo inteiro à competição. Fez também, em 2013, o Vinhos Ervideira Rali TT, num Nissan Patrol GR, conseguindo o 5º lugar final na categoria Promoção. Com mais regularidade, participa em competições regionais de ‘karting’ amador, apenas para que a paixão não morra…

Os mais mediáticos são, como não podia deixar de ser, os mais recentes. Um deles, é Valter Martins, que ficou paraplégico depois de um acidente numa corrida de Enduro, em 2004. Seis anos mais tarde, decidiu regressar às competições – mas nos automóveis. Começou pelo Troféu FastBravo, com um SEAT Marbella adaptado às suas necessidades. Em 2013, voltou a correr, agora no Raid TT à Ferraria, – uma estreia no todo-o-terreno, com um Polaris especialmente preparado pelo campeão da especialidade, João Lopes. Valter Martins foi um dos pilotos paraplégicos que correram na Baja 500 Portalegre, num UTV/Buggy, com Isidre Esteve – também paraplégico – a seu lado. Mas talvez que o nome mais conhecido seja o do algarvio João Luz. Navegador de Carlos Sousa, venceu com ele o campeonato nacional de TT em 1999 e era com ele que estava no terrível acidente durante a sua estreia no Dakar de 2000, quando ‘faltou o chão’ debaixo dos ‘pés’, do Mitsubishi Strakar oficial, aterrando de bico alguns metros mais abaixo, numa duna. O choque deixou-o com lesões na coluna e a necessidade de usar uma cadeira de rodas. A recuperação foi longa e complicada, mas João Luz voltou às competições dois anos mais tarde, fazendo alguns ralis esporádicos, com Nuno Pinto, Ricardo Teodósio ou Armindo Neves como pilotos. Entre 2010 e 2012 foi o navegador de Teodósio, participando em várias provas do Campeonato Nacional de Ralis, num Mitsubishi Lancer Evo IV. Hoje em dia, lidera um empresa que ‘trata’ de testes de ralis em Portugal…

CLAY REGAZZONI

Piloto de F1 suíço, que ficou confinado a uma cadeira de rodas depois de um acidente durante o GP dos Estados Unidos Oeste, em 1980. O seu Ensign ficou sem travões numa zona em que se chegava a 280 km/h e embateu no carro avariado de Ricardo Zunino, parado na escapatória. Depois do acidente, ‘Rega’ recuperou e fez várias vezes o ‘Dakar’ num Mercedes adaptado, que controlava manualmente. Além disso, correu também nas 22 Horas de Sebring. Retirou-se em 1990 e morreu num acidente de carro, em 2006.

ALESSANDRO NANNINI

Ficou com o braço direito decepado por um dos rotores do helicóptero em que viajava e que se desenhou na fazenda paterna, em outubro de 1990. A sua carreira na F1 terminou aí, mas depois ainda venceu várias corridas nos Superturismos, em Itália, e no DTM, com a Alfa Romeo, entre 1992 e 1996. Ganhou também uma prova do FIA GT, em Suzuka, um ano antes de se retirar, o que aconteceu em 1998. Hoje é um homem de negócios bem sucedido.

DIDIER PIRONI

Piloto da Ferrari em 1981 e 1982, nos treinos para o GP da Alemanha deste ano, sofreu um violento acidente, debaixo de chuva torrencial, ao acertar na traseira do carro de Alain Prost, quando tentava passar Derek Daly, levantando voo e aterrando de ‘bico’ no asfalto. Sobreviveu, mas sofreu ferimentos tão graves em ambas as pernas, que nunca mais regressou á F1. Dedicou-se então às competições de barcos ‘offshore’, que se pilotavam em pé, mas acabou por morrer aos comandos de um desses artefactos, em agosto de 1987, durante uma corrida a largo da ilha britânica de Wight.

BRUCE McLAREN

Aos nove anos, contraiu a doença de Perthe, que lhe atacou os ossos dos quadris, deixado com a perna esquerda mais curta que a outra. Mesmo assim, começou a pilotar em rampas, aos 14 anos, um Austin 7 Ulster e chegou à F1, onde esteve, como piloto, entre 1958 e 1970. Venceu mesmo quatro GP, o último deles, o da Bélgica em 1968, com a sua própria equipa, a McLaren Motor Racing. Morreu quando restava um M8D de CanAm, em Goodwood, em 1970.

ISIDRE ESTEVE

Piloto de motos, fraturou duas vértebras na Baja Almanzora, em 2007 que o atirou para uma cadeira de rodas. Tinha 35 anos. Voltou às competições, em 2009, no Dakar, com um Ssang Yong Kyron adaptado às suas condições físicas e terminou a prova em 71º lugar. Correu em Portugal na Baja 500 Portalegre, em que também chegou ao fim, com um UTV/Buggy. Correu no último Dakar, ainda que tenha necessitado de um dispositivo especial que lhe permite estar sentado cerca de 10 horas.

ADRIÁN HANG

Um acidente em Monza, durante uma prova da Super Formula italiana, em 1996, levou à amputação do seu pé direto e da sua perna esquerda. Regressado ao seu país natal, a Argentina, voltou a competir, sagrandose Campeão de Turismo Nacional, Classe 2, com um VW Gol, em 1999. De novo em Itália, venceu também o campeonato de Turismo na Classe 3, com um Rover 200, em 2003. Corre na Argentina, com a sua própria equipa, a AH Competición.

ALAN STACEY

Piloto britânico, disputou sete GP de F1, entre 1958 e 1960. Tinha uma perna artificial, desde um acidente de moto aos 17 anos e, nos testes médicos para Le Mans, conseguia enganar os clínicos cruzando velozmente as pernas, por forma a que a perna natural ficasse sempre por cima, no ‘teste do martelo’, para ver os reflexos! Era incapaz de fazer ‘ponta-tacão’ e, assim, adaptou um manípulo de moto à alavanca da caixa, para passar as mudanças. Morreu no GP da Bélgica, em 1960, quando sofreu o embate de um pássaro em pleno rosto, quando seguia a mais de 190 km/h. Estava em 6º lugar, com um Lotus 18/Climax.

ARCHIE SCOTT-BROWN

Escocês, conheceu algum sucesso em corridas de ‘sport’, ao volante do Lister-Jaguar Knobbly. Foi, aliás, num destes carros que perdeu a vida, quando lutava la vitória na corrida de Spa-Francorchamps, em 1958. Tinha 31 anos e, em 1956, participou no GP da Grã-Bretanha, desistindo, com um Connaught. Tentou correr no GP da Itália, semanas depois, mas viu a sua pretensão ser recusada. Razão: a sua mãe teve rubéola durante a gravidez e ele nasceu com graves deformações nas pernas, que eram mais curtas que o normal e com o braço esquerdo torto. Além disso, não chegava a medir 1,50 m.

SÉRGIO VIDA

Piloto brasileiro, começou a correr de ‘kart’, em criança. Aos 23 anos, sofreu um acidente de carro que o deixou paraplégico. Mesmo assim, não desistiu de uma carreira nos automóveis e, em 2009, já com 44 anos, tornou-se o primeiro piloto ‘cadeirante’ a participar num campeonato de ‘Stock Car’, no caso a Copa Vicar, a categoria de acesso à principal competição. Hoje, continua a correr mas, principalmente, é um reputado atleta paralímpico medalhado, na categoria de Tiro com Pistola.

ROBERT KUBICA

O primeiro polaco na F1 correu na BMW Sauber, entre 2006 e 2009 e na Renault, em 2010. Ganhou o GP do Canadá de 2008. Aficionado pelas provas de rali, sofreu um grave acidente numa prova em Itália, em fevereiro de 21011, com fraturas compostas os braços e numa das pernas. Os médicos conseguiram evitar a amputação e ele recuperou, mas nunca mais correu na F1, dedicando-se ao WRC, usando carros adaptados às duas dificuldades físicas, pois quase não consegue dobrar o cotovelo direito. Em 2013, foi piloto oficial da Citroën, ganhando o campeonato WRC2, para carros com duas rodas motrizes, mas este ano tem vindo a elevar o nível das suas prestações em pista e depois de ter chegado a testar e a ponderar correr com um LMP1 da ByKolles em Le Mans (não se concretizou) testou recentemente várias vezes um Fórmula 1, da Renault e da Williams, e continua à espera para ver como param as modas!

FREDÉRIC SAUSSET

Frédéric Sausset tem como objetivo tornar-se o primeiro quadriplégico a alinhar e a completar as 24 Horas de Le Mans. Acometido de uma infeção bacteriológica bastante agressiva que obrigou à amputação dos seus quatro membros, Sausset resolveu estabelecer novos objetivos de vida e deu corpo a um antigo sonho, de tornar-se piloto de automóveis em competição, fundando o projeto SRT41. O francês conduz com o que resta do coto do braço direito, num carro especialmente adaptado. Depois de ganhar experiência no Challenge V de V Proto, ao volante de um Ligier JS53, Sausset passou este ano para um sport-protótipo mais potente. Conjuntamente com o britânico Billy Monger, que perdeu as duas pernas num acidente de Fórmula 4, em Donington Park, este ano, Sausset fundou a La Filiere Frederic Sausset que visa ter a correr pilotos com incapacidades na equipa. Para já corre no VdeV, prevê passagem para a European Le Mans Series em 2019, de modo a participar nas 24 Horas de Le Mans de 2020.

 

Hélio Rodrigues