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CRÓNICA: Os heróis dos anos 2000 by Rui Pelejão

José Luis Abreu by José Luis Abreu
2 Dezembro, 2017
in MAIS MOTORES
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CRÓNICA: Os heróis dos anos 2000 by Rui Pelejão

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Em 1973, no ano em que nasci, Woody Alen realizou um filme chamado “O herói do ano 2000”. Uma paródia futurista a imaginar como seria a vida no ano 2000. Quatro anos depois o jornalista José Vieira e uma pequena equipa lançou aquele que viria a ser conhecido como “o semanário dos campeões”. O Autosport, título a que eu viria a estar ligado afetiva e profissionalmente e que cumpre agora o seu 40º aniversário, um fenómeno de longevidade no panorama da imprensa em Portugal.

Um jornal que há 40 anos acompanha, através de várias gerações de jornalistas, o desporto automóvel em Portugal e no mundo, é assim o mais fiel depositário da história do próprio desporto e da forma como ele e a sociedade evoluíram em 40 anos.

O arquivo do Autosport é uma espécie de Torre do Tombo do automobilismo, especialmente o nacional e o único acervo possível para quem se queira embrenhar no estudo da história deste desporto no nosso país. Um desporto que, recorde-se, foi e continua a ser dos mais populares, mesmo que muitas vezes desprezado, ignorado ou maltratado.

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As quatro décadas de vida do Autosport espelham bem os vários períodos da história mais recente do automobilismo, que é possível compactar em décadas, como fazem as rádios nostálgicas com o “o melhor das décadas de 80, 90 e 2000”. Primeiro, como jovem e voraz leitor, cultivei o gosto pelo automobilismo naquelas que eram as duas bíblias da década de 80 – o jornal “Motor”, o meu preferido por razões filiais (o meu pai trabalhava no Motor”) e no rival “Autosport”.

Naquele tempo a televisão tinha dois canais, não havia internet, smartphones, computadores ou redes sociais e só havia duas maneiras de acompanhar o automobilismo — indo ver as provas ao vivo ou lendo o “Autosport” ou o “Motor”. Era por isso que o Rali de Portugal e a F1 no Estoril arrastavam multidões e era por isso que a F1 era a disciplina mais seguida pelos adeptos portugueses, precisamente porque passava na televisão, aos domingos depois do TV Rural e da hora de almoço, com os comentários do José Pinto, Adriano Cerqueira e Domingos Piedade.

Foi a década das grandes paixões para uma geração de adeptos. Foi a década de Senna e Prost, do bando dos quatro (juntando Mansell e Piquet) e que criou aquele clubismo de ídolos, essencial para o interesse no desporto. Depois das corridas de domingo de F1, ler o “Autosport” com as reportagens de José Miguel Barros, Rui Freire ou Luis Vasconcelos, era a forma de prolongar a experiência e consolidar o conhecimento sobre os meandros daquele desporto tão apaixonante.

Foi também a década de ouro do Mundial de Ralis, dos “monstruosos” Grupo B, das batalhas entre a Lancia e Audi, do 037 e do Quattro, de Toivonen, Alén, Vatanen, Mikkola, Röhrl, Salonen, Biasion. Todos tínhamos o nosso clube, os nossos preferidos, os nossos ídolos juvenis. Os meus dois primeiros morreram precocemente, Toivonen nos ralis e Villeneuve na F1. Foi a primeira vez que com pouco mais de 10 anos intuí o que era a morte e que fiquei imensamente triste por saber que não veria nunca mais o virtuosismo louco de Gilles ou de Toivonen. Os ídolos morrem novos, para ficarem para sempre, eternos e belos no nosso imaginário, como tão amargamente iríamos descobrir dez anos depois, com a morte de Senna em Imola, que eu elegeria como o facto mais marcante na história do desporto nos 40 anos em que o Autosport a acompanhou.

Se a década de 80 marcou o início de uma era de maior profissionalização e mediatização do automobilismo, com adesão oficial das marcas às várias disciplinas e com a evolução das exigências técnicas para pilotos profissionais, a década de 90 criou um conflito entre essa evolução e o paradigma da segurança que sempre assombrou o desporto, mas que a partir da morte de Senna iria condicionar todo o seu desenvolvimento tecnológico, a regulação e a própria configuração dos espetáculos.

A imagem dos poderosos Grupo B a serpentear por entre multidões em Portugal mostrava esse anacronismo. Poderosas e tecnológicas máquinas de competição exibiam-se em espetáculos “amadores” (no sentido moderno do termo) e perigosos para os praticantes e para o público. Obviamente que isso criou na década de 90 uma paranóia securitária com um desporto cujo encanto terrível é precisamente desafiar a morte com a velocidade.

A transformação que ocorreu na maior parte das disciplinas na década de 90 e o grau de sofisticação tecnológico teve outro efeito. Tornou a prática do desporto bem mais caro e inacessível. Acabou-se a era do Datsun 1200 de todos os dias, onde se montavam uns pneus de competição para ir fazer o rali das Camélias ao fim de semana. O desporto automóvel nacional que viveu a sua gloriosa era amadora nos anos 60, 70 e início da década de 80, acabou por ser forçado a uma maior profissionalização, o que limitou a sua prática, logo a sua popularidade.

A “crise do automobilismo nacional” é um tema clássico de três décadas de páginas e títulos do Autosport. É só ir ver os jornais dos anos 80 e 90, mudaram apenas os protagonistas, as queixas são as mesmas, “falta de promoção, falta de meios e apoios, falta de interesse da televisão, etc.” Foi assim que no ano de 2000, o tal do Woody Alen, que eu entrei para a redação do Autosport, onde me mantive 13 deliciosos e duros anos. E foi ali numa redação do ano 2000 que tive o privilégio de acompanhar a carreira daqueles que foram os heróis do ano 2000 do automobilismo. Foi a década de Michael Schumacher, Sébastien Loeb e
Valentino Rossi, que dominaram de forma absolutista e hegemónica as respetivas disciplinas, tornando-se sem sombra de dúvidas as três figuras de proa daquela década. O seu domínio majestático teve, infelizmente, efeitos perversos no próprio desporto, ou pelo menos na curiosidade pública.

É difícil seguir com emoção um desporto ou uma disciplina em que os vencedores são sempre os mesmos. Falta aqui o conflito, a dúvida, o confronto em pista. A hegemonia destas três figuras nas principais disciplinas do desporto ocorre precisamente na década do surgimento da internet, dos sites especializados (o Autosport foi, diga-se de passagem, dos primeiros títulos em Portugal a ter um site) e também da TV por cabo com dezenas de canais.

Na minha opinião, que vale o que vale, devido à conjugação destes fatores, a necessária renovação geracional dos adeptos não ocorreu na desejável escala. Os mais jovens, que podiam dar continuidade à paixão pelo automobilismo dos seus pais, acabaram por fragmentar os seus interesses e seguir desportos que pudessem praticar ou outros temas mais “trendy”.

Ao mesmo tempo que se vivia uma década de ouro do automobilismo, incluindo o nacional, com os sucessos de Carlos Sousa, Armindo Araújo, João Barbosa, Pedro Lamy, Bruno Magalhães, Filipe Albuquerque, Álvaro Parente, Tiago Monteiro ou Félix da Costa, o interesse pelo desporto decrescia em Portugal.

A internet foi abolindo o velho hábito de decorar o nome dos pilotos inscritos num Rali da Madeira dos anos 80, em que eu memorizava nomes como Adartico Vudafieri ou Fabrizio Tabaton e tudo passou a estar à distância de um clique de um — vou ali ao Google que está lá tudo.

A revolução digital e eletrónica teve efeitos colossais nas várias categorias do desporto automóvel, tornando-os quase laboratórios científicos e tecnológicos e também nos media tradicionais, ou seja, a imprensa em papel, que se foi tornando cada vez mais uma espécie de recordação de um passado faustoso, reservada a um grupo cada vez menor de fiéis.

É por isso que eu julgo admirável e de saudar a capacidade do Autosport em se adaptar, em lutar e em se manter como a marca do “semanário dos campeões”, espero sinceramente que por muitos e bons anos, em papel, no no smartphone ou noutro sítio qualquer.

José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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