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» Textos: Hélio Rodrigues, In Memoriam

» Fotos: Oficiais e Arquivo AutoSport

 

ALBA (1952- 1954): Uma obra-prima nacional


A ALBA foi o melhor e mais bem sucedido paradigma da incipiente indústria automóvel portuguesa, na década de 50. Apenas foram construídos três exemplares do ALBA, entre 1952 e 1954. Mas, ao longo dos anos seguintes, da metalúrgica de Albergaria saíram diversas soluções mecânicas – entre elas, um espantoso e inédito motor de quatro cilindros e 1500cc.

Empresa nascida em 1921, sob o nome de Fundição Lisbonense, mais tarde mudou para Fundição Albergariense, antes de, em 1923, assumir o nome do seu fundador, Augusto Martins Pereira, um homem modesto, nascido em 1885, em Sever do Vouga e falecido em Maio de 1960, na vila de Albergaria – então já dono de uma considerável fortuna e reconhecido internacionalmente na indústria metalúrgica. E, além disso, nomeado comendador.

A empresa tornou-se conhecida mundialmente sob o nome de ALBA – as três primeiras e a última letra da palavra Albergaria. O seu símbolo foi desenvolvido pelo pintor francês Daniel Constant.
As instalações iniciais situavam-se no centro da vila, mas foram transferidas, no final dos anos 30, para o local onde ainda hoje se situam. A empresa fabrica atualmente moldes para diversas utilizações, desde bancos de jardim a tampas de saneamento básico e fogões a lenha e a gás, sempre com desenho exclusivo; hoje, são mais de 30 milos moldes assinados pela ALBA. Um deles, não menos espantoso e significativo da sua capacidade inventiva, foi a carroçaria do automóvel que ficou conhecido pelo nome da empresa : ALBA.

Um caso raro de eficácia
A ALBA era já, no início da década de 50, uma das maiores unidades industriais de metalurgia nacionais. Então já com mais de 60 anos, o comendador Augusto Martins Pereira estava a começar a deixar progressivamente a gestão da fábrica para o seu filho Américo. Mas foi o neto, António Augusto, então na casa dos 20 e um grande entusiasta do desporto automóvel, quem decidiu criar a marca ALBA, vocacionada para a competição e que, depois da FAP e da Dima/DM, foi a terceira marca portuguesa a surgir após a Segunda Guerra Mundial.
O primeiro exemplar do ALBA foi construído em 1952 e, logo aí, se tornaram notadas algumas das características básicas que, mais tarde, acabaram também por ser copiadas por outras marcas portuguesas envolvidas na competição automóvel – pois é preciso assinalar que a ALBA não foi um caso isolado. A carroçaria do ALBA foi sempre o perfeito exemplo de um intenso equilíbrio estético, a prova de como a aerodinâmica deveria ser, então, tratada: as suas linhas suaves e afiladas, muito baixas, fizeram escola e eram desenhadas à imagem do que de melhor se fazia então na Europa, nomeadamente tendo por inspiração as “barchettas” italianas. Somente as marcas que surgiram após a ALBA se preocuparam em desenvolver produtos mais eficazes aerodinamicamente pois, até então, as suas formas eram algo rudimentares e pouco eficientes. E, quanto a isto, na verdade é preciso referir que a ALBA chegou mesmo a conceber carroçarias, feitas à imagem do “seu” desportivo, para outras marcas nacionais.
Foram fabricados apenas três ALBA – e, hoje em dia, existem dois exemplares: o exposto no Museu do Caramulo desde 2006, de carroçaria creme, matrícula OT-10-54; e o TN-10-82, vermelho, cuja construção, em 1953, foi financiada por Noémio Capela, que com ele apenas participou no III Rali Rainha Santa, em Coimbra, em Julho de 1954, embora o tenha cedido à equipa para correr noutros eventos; o seu motor é um FIAT de 1089cc. Desconhece-se o que sucedeu ao terceiro ALBA, matrícula LA-11-18, de 1954, embora a convicção geral é de que tenha sido destruído num acidente e, posteriormente, “reconvertido”, algures nos finais da década de 50.

Motor “madeathome”
A ALBA foi a única marca a construir, para lá da carroçaria, um motor próprio, situação a que foi obrigada pelas alterações regulamentares impostas em 1954 pelo ACP e que a impediam de continuar a ser competitiva com os pequenos motores FIAT e Simcade 1089cc que usava desde a sua origem. Nesse ano, os limites de cilindrada subiram dos 1100cc para os 1500cc, penalizando os pequenos construtores artesanais portugueses, pois todos usavam o mesmo fiável motor de origem italiana e que tão bem sucedido era nos pequenos e ágeis Cisitalia. Por isso, foram muitas as que então deixaram de correr e, principalmente, de ser competitivas.
A única equipa que lutou contra essa maré foi a ALBA, liderada como sempre pelo espírito empreendedor de António Martins Pereira. A princípio, foi decidido desenvolver um motor a partir do FIAT, mantendo a mesma base mas aumentando o diâmetro, atingindo os 1325cc. Mais tarde, a ALBA desenvolveu um motor mais potente, baseando-se num bloco da Peugeot, resultando num 1360cc. Mesmo assim, continuava impossível bater os motores da Porsche, que dominavam através dos Denzel e dos Porsche 550 Spyder. Foi então que Corte-Real Pereira teve a ousadia de pegar num motor Alfa Romeo 6C 1750 e diminuir-lhe o diâmetro, criando assim um curioso motor de seis cilindros e 1,5 litros de cilindrada, que infelizmente não teve muito sucesso nas três provas em que participou – Boavista em 1955 e 1956 e Vila Real em 1958.
Sem baixarem os braços, os homens comandados por Martins Pereira começaram então a desenvolver o projeto inédito de um motor próprio, concebido nas instalações de Albergaria da metalúrgica. Totalmente feito em alumínio, era um bloco de quatro cilindros quadrado (diâmetro e curso de 78 mm), com duas árvores de cames à cabeça e duas velas por cilindro, distribuidores movidos diretamente pelas árvores de cames e dois carburadores duplos horizontais, uma novidade técnica na época. Leve e fiável, a sua potência oscilava entre os 90 e os 95 cavalos e, acoplado a uma caixa de quatro velocidades, permitia ao ALBA atingir os 200 km/h. Felizmente, é esse o motor que está no ALBA existente no Museu do Caramulo e que, todos os anos, sobe a Rampa, por ocasião do Caramulo Motorfestival, pilotado por Salvador Patrício de Gouveia.

Uma história de sucessos
O ALBA estreou-se no Circuito de Vila do Conde, a 31 de Agosto de 1952. O primeiro resultado de relevo aconteceu logo no mês seguinte, também em Vila do Conde, o 2º lugar na classe. A sua primeira vitória à geral foi na Taça Cidade do Porto, no Circuito da Boavista, em 1953, ganhando a prova na frente de 30 outros carros, 20 dos quais de origem portuguesa, o que mostra bem a vitalidade da nossa indústria artesanal de automóveis de competição. A última vez que um ALBA participou numa prova foi em 1961, quando Corte-Real Pereira conquistou o 3º lugar absoluto no Rali Noturno do Salgueiros.
Ao longo destes anos, os ALBA participaram em 42 provas, conquistando os seus pilotos 25 pódios e dez vitórias, das quais cinco absolutas – entre elas, a Taça Cidade do Porto, no Circuito da Boavista, em 1953 (Corte-Real Pereira) e o Rali Vinho do Porto, em 1955. A história desportiva do ALBA concentrou-se entre os anos de 1953 e 1956, sempre em Portugal, nunca se tendo deslocado além-fronteiras.
No total, foram nove os pilotos que utilizaram os ALBA. Para lá de Francisco Corte-Real Pereira – que fazia principalmente provas de velocidade – e de António Martins Pereira – dedicado aos ralis e provas de regularidade – os outros pilotos foram Noémio Capela, Elísio de Melo, Baltazar Vilarinho, Castro Lima, Carlos Miranda, Manuel Nunes dos Santos e Manuel Alves Barbosa.