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Maria Germano Neto: Os primeiros passos rumo ao topo | AutoSport

Maria Germano Neto: Os primeiros passos rumo ao topo

Por a 20 Dezembro 2021 10:26

Nunca faltou talento em Portugal e temos visto jovens pilotos com qualidade a surgir com regularidade nas nossas pistas. Mas, ciclicamente, aparece alguém especial, que nos faz sonhar com outros voos e Maria Germano Neto é a nova esperança do automobilismo nacional. 

Maria Germano Neto começou  cedo e logo nos primeiros passos nos karts começou a colecionar troféus a uma velocidade impressionante. As suas espetaculares prestações valeram-lhe o convite para participar no FIA Girls On Track, programa pensado para raparigas que dão os primeiros passos e que querem chegar ao topo. Maria era a mais pequena e a mais jovem mas, foi a grande vencedora na categoria júnior e graças a isso foi incluída na Ferrari Academy Driver e na próxima época competirá com a Tony Kart, uma das melhores estruturas do mundo da modalidade. O AutoSport falou com a Maria e com o seu pai, Germano Neto, depois desta grande conquista. 

Agora que és piloto da Academia Ferrari como te sentes? Está orgulhosa?

Sim, estou muito orgulhosa.

A competição foi muito difícil?

Dentro de pista não foi, mas as atividades fora de pista foram um pouco mais complicadas porque as meninas mais velhas tinham mais capacidades para os exercícios físicos. Mas em pista correu tudo muito bem

Como começaste nos Karts?

A primeira vez que andei num Kart foi num circuito em Fafe e logo na altura gostei muito. Mas não foi eu que pedir para experimentar. Aconteceu mas ainda bem porque agora é uma coisa que gosto muito de fazer. ” 

Germano Neto

Os karts não foram algo que aconteceram como um objetivo já delineado. Isto surge do nada e a Maria ter ido para uma pista de Kart em Fafe e ter experimentado foi uma casualidade, não fui eu que a levei para a pista porque eu próprio não tenho qualquer ligação com o automobilismo. Estava mais ligado ao futebol, fui jogador do Vitória de Guimarães e nunca tive qualquer ligação com o automobilismo. Mas foi uma casualidade que no primeiro momento deu para entender que a Maria tinha talento. Encontrei-me com um cliente meu que estava no kartódromo com o filho, que era mais velho e concluímos que na primeira vez que a Maria andou de Kart, tinha sido mais rápida que o filho desse meu cliente, que já tinha seis meses experiência, ele com seis anos e a Maria com quatro. Tanto é que o miúdo deixou os karts e a Maria pouco depois estava a fazer uma prova oficial. A primeira prova que ela fez foi em Leiria em 2015 para a Taça de Portugal, pouco tempo da primeira experiência. Mas foi algo que surgiu por acaso e porque a Maria revelou logo qualidade e se não tivesse sido o caso, não teríamos passado todo este tempo nos karts. Do que vou vendo ao acompanhar a Maria, vejo muitos miúdos que estão em pista devido à motivação e por vezes pressão dos país e vejo muitas vezes os mudos mais interessados em fazerem equipas de futebol para jogarem nos intervalos e parece-me que se perguntássemos a 100 miúdos qual era o verdadeiro interesse deles, acredito que mais de metade diriam que é o futebol. A Maria não, é algo que gosta mesmo e é isso que nos leva a fazer o esforço adicional para que não falte muito à Maria. Falta sempre mais do que outros porque o nosso país não aposta no Karting e no automobilismo e, para dar um exemplo, tínhamos mais apoio quando a Maria corria cá do que quando ela passou para Espanha e Itália, porque a maioria dos patrocinadores considera que as competições lá fora não têm repercussão mediática e levar a Maria para Espanha e Itália fez com que tivesse menos protagonismo do que em 2019, quando ela venceu praticamente todas as provas cá. Se não fosse a qualidade da Maria, este caminho não teria sido feito e como tal o mérito é dela. Para terem uma ideia, a Maria passa muito tempo em treinos, em competições a maior parte das vezes sozinha. Desde os sete anos que está habituada a andar de avião sozinha, com uma hospedeira de bordo e a ser recebida pela equipa no destino. A minha vida profissional não me permite acompanha-la todos os dias, mas não a poderia condicionar por causa disso. A Maria tem de ir uma semana antes treinar e por vezes as atividades em pista começam logo na terça feira, com os treinos livres a partir de quarta feira, até domingo. Por vezes, não conseguimos encontrar forma de ela voltar no dia seguinte, o que faz com que ela passe muito tempo sozinha. Se não fosse o gosto dela e se não fosse o principal foco dela já teria desistido há algum tempo.

Maria, não te importas de passar tanto tempo sozinha?

Não me importo porque já me habituei a isso. Já antes passava muito tempo sozinha, mas como a equipa acompanhava-me sempre não era bem sozinha. Claro que preferia viajar com o meu pai ou com a minha família mas não é muito mau viajar sozinha.

Encontraste muitas diferenças quando começaste a competir lá fora e no FIA Girls on Track?

Quando fui para fora notei a diferença porque cá os pilotos não têm tanta experiência e não são tantos pilotos. Mesmo no FIA, Girls on Track não sabia o nível das meninas com quem ia competir mas nas primeiras vezes que entrei em pista entendi que elas não tinham um nível muito alto, mas também não era muito más, por isso sabia que podia ganhar. Fora de pista é que foi mais difícil e alguns exercícios físicos eram mais complicados para mim, porque não tinha tanta força quanto as mais velhas. Em relação às meninas da minha idade, tinha mais ou menos a mesma força. Havia outros exercícios em que como era baixa não conseguia chegar. Na última fase, quando eramos só quatro, nos exercícios psicológicos aí correu bem. Foi muita coisa, mas tínhamos muitas pausas. Dentro de pista era mais intenso, mas fora de pista era mais pausado. Foi a primeira vez que andei com um kart para juniores em corrida, mas já tinha treinado antes. Andam mais mas, acho que tenho de ter mais força.

Germano Neto

Mais difícil é a Maria conseguir conciliar tudo isto. A Maria é uma criança e tem de ter um crescimento normal para uma criança da idade dela. Faz-lhe falta conviver com as suas amigas e amigos na escola e dentro do possível ela consegue conciliar isso, com os estudos e a competição. Nestes últimos dois meses a Maria teve uma semana e um dia de aulas e o resto passou o tempo todo em Itália. O mérito é dela pois é ela que faz este esforço todo e eu tento acompanha-la o máximo que posso. Mas é evidente que sinto um orgulho enorme porque parece-me que é a primeira e única piloto portuguesa a integrar a academia Ferrari e a piloto mais jovem de sempre a ser integrada na Academia Ferrari. Não é por ser a Maria, mas consideramos que ela tem muito potencial. Soubemos que ela ia competir em Júnior no FIA Girls on Track três semanas antes do evento. A Maria chegou-me a dizer que não queria competir naquele Kart, que é absolutamente exagerado para o tamanho dela, e ela é competitiva e não gosta de correr se não for para ganhar, como tal, poderia acabar por ser um desafio frustrante. Não fosse o facto de já estar tudo articulado com a FPAK, de já termos dado as referências para o tamanho do fato e das botas, provavelmente teríamos repensado se valeria a pena ela participar. Ela treinou três dias à chuva em Itália e um fim de semana em Viana num kart antigo. O que é certo é que a Maria conseguiu surpreender-nos e eu estive no fim de semana em Viana com ela e com o primeiro mecânico dela cá e ela conseguiu ficar a três décimos do melhor tempo à chuva daquela pista, num kart de júnior. É um orgulho enorme mas é fundamentalmente o reconhecimento das capacidades da Maria e mais do que isso do espirito de sacrifício dela.”

Maria, alguma vez sentiste que foste tratada de forma diferente por seres menina?

Nunca senti que fui tratada de forma diferente em relação ao rapazes. Há poucas raparigas, mas as que correm tem algumas qualidades. Em Itália há lá meninas a correr e que fazem sempre bons resultados.

Germano Neto

Acho que não tem havido diferenças de tratamentos. A Maria teve um episódio numa prova em Viana em que a Maria poderia sagra-se campeã nacional na penúltima prova e foi abalroada propositadamente por um piloto para evitar que ela fosse campeã. E eu acho que não pelo facto da Maria ser menina, mas apenas a afirmação da Maria como piloto que provavelmente causou algum incomodo. Mas admito que em certas ocasiões isso possa causar algum incomodo. Mas é uma realidade cada vez mais presente e, por exemplo, vemos agora cada vez mais juízas do que juízes e há 30 anos tínhamos só juízes. É uma afirmação da mulher no mundo e as oportunidades são cada vez mais iguais para homens e mulheres e é uma evolução natural e é bom que aconteça por que as raparigas não ficam a dever nada aos rapazes. Os rapazes continuam a ter mais oportunidades, mas tem mais a ver com a capacidade financeira dos pais e o dinheiro acaba por adulterar os resultados. A Maria compete, talvez com condições idênticas a outros pilotos mas não com condições superiores. A verdade é que a Maria vai para o WSK com mais de 100 pilotos e está seguramente no top 10. Não é fácil competir com os melhores do mundo, alguns com melhores condições e mesmo assim a Maria consegue lutar de igual para igual. O que noto é que a Maria tem um grau de maturidade maior que os rapazes da idade dela, pois tem a capacidade de entender onde falhou, de ter o cuidado de ver na telemetria onde falhou e onde pode melhorar, de falar com os mecânicos e entender onde pode melhorar o carro. Vejo que a Maria, quando acaba, tem a preocupação de falar com o chefe de equipa e entender o que correu bem e mal, enquanto que os rapazes que são mais velhos, a primeira preocupação é ir jogar futebol.”

Maria, gostavas de chegar à F1? E qual o piloto que gostas mais?

“Claro que gostava de chegar à F1, mas não sei o que vai acontecer daqui para a frente. Tenho dois pilotos preferidos na F1, o Charles Leclerc e o Lewis Hamilton. “

Germano, sentes que o Karting em Portugal tem o nível suficiente para poder lançar novos talentos?

“Tive o primeiro contacto com a FPAK no primeiro ano que a Maria competiu em 2015. Tenho de ser honesto e acho que a FPAK tem feito um trabalho impressionante. A Maria não compete em Portugal desde 2019, mas tenho percebido que a Federação consegue atrair provas internacionais para o nosso país, motivar jovens pilotos a competir em provas internacionais. Creio que tem sido feito um esforço por parte da Federação para potenciar os pilotos portugueses.  Neste evento da FIA para o qual a Maria foi sugerida, tivemos o apoio incondicional da FPAK. Da nossa parte, não temos absolutamente nada a apontar, antes pelo contrário. A FPAK parece determinada em conseguir que determinados miúdos possam ter uma projeção internacional. No entanto, a FPAK não pode patrocinar os pilotos e o que falta cá é apoio de empresas e patrocínios, pois continuamos demasiado focados no futebol. A MEO, por exemplo, gasta milhões de euros no futebol e não tem 10 ou 15 mil euros para apoiar a Maria, um valor que faria muita diferença. Há pilotos que são patrocinados pela GALP e pela MEO com todo o mérito porque conseguiram atingir determinados objetivos mas acho que se deveria seguir uma política diferente. Por isso é que em Espanha surgem tantos pilotos pois há escolas que têm sempre por trás grandes empresas e entidades. O Miguel Oliveira, por exemplo, foi para Espanha muitos anos por conta dele, singrou por conta dele e só mais tarde lhe deram o devido valor. O que custa mais é esta primeira fase em que se dá os primeiros passos. A Maria terá a vida facilitada no próximo ano, pois irá estar inserida numa grande estrutura e graças a isso vai estar numa das melhores equipas do mundo. Se não fosse o talento da Maria dificilmente teríamos oportunidade de estar com a Tony Kart no próximo ano, porque não teríamos as condições para isso. Não se pode apostar apenas no futebol. Era bom que se mudasse o chip e que certas empresas olhassem para outros jovens talentos os quais poderiam ser ajudados a chegar mais longe. Já vimos grandes talentos em Portugal e em Espanha que não tiveram a oportunidade que deveriam ter tido e estavam a trabalhar como coach para outros jovens. Espero que a Maria possa servir de exemplo e que se mude este chip para permitir que outros jovens talentos consigam afirmar-se.

A Maria pode ser uma personagem importante no desporto motorizado nacional. O talento que evidencia faz-nos sonhar, embora devamos ter, tal como ela, os pés bem assentes na terra. Mas é claro que a Maria pode deixar a sua marca no mundo das corridas, pelo seu talento e por mostrar que esse talento não escolhe géneros e que rapazes e raparigas podem ser bem sucedidos neste exigente mundo. À Maria, desejamos toda a sorte do mundo e o desejo de enchermos muitas páginas com os seus feitos. 

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