Opinião: Verstappen, Pérez e os dois pontos da discórdia

Por a 15 Novembro 2022 12:57

A Fórmula 1 não pára de nos surpreender e se nos dissessem no início do ano que iríamos perder tempo a tentar entender e analisar uma luta interna pelo sexto lugar, com um piloto já campeão e outro que ainda tem de assegurar o segundo lugar, iríamos rir de certeza. Mas é o que acontece, num filme com um enredo algo complexo e… surpreendente.

A história já foi contada de várias formas, mas para contextualizar os menos atentos, Max Verstappen acabou em sexto o GP de São Paulo, após ter ignorado uma ordem direta da equipa, que pediu para que o campeão (já sem nada a ganhar ou perder), deixasse passar o seu colega de equipa para garantir o máximo de pontos possível e tentar assegurar o segundo lugar final. A Red Bull já disse que pretende a dobradinha final, um objetivo da equipa que não foi respeitado por Max Verstappen no Brasil, ele que tantas vezes falou da importância da Red Bull na sua carreira. 

Ora, além da estupefação geral, Verstappen deixou no ar que havia algo mal resolvido do passado com a afirmação que proferiu no rádio: “Já vos disse no verão passado para que não me pedissem isso outra vez. Está claro? Dei as minhas razões e mantenho-as”.

Quais serão as razões de Verstappen? Logo na transmissão da Sky se falou de um episódio no Mónaco que terá desagradado Verstappen. A história começa agora a ser revelada e traz alguma luz sobre o motivo pelo qual o neerlandês fez finca-pé por um “mísero” sexto lugar. 

Na Q3 da qualificação do GP do Mónaco, Sergio Pérez perdeu a traseira do carro à entrada do túnel, na curva Portier, na segunda e derradeira tentativa de conquistar a pole, quando era terceiro e Max Verstappen estava numa volta que poderia dar-lhe o primeiro lugar, que era pertença de Charles Leclerc naquela altura. O incidente motivou bandeiras amarelas naquele local, um choque entre Carlos Sainz e Pérez e arruinou a volta de Verstappen. No dia seguinte, Pérez acabou por vencer a corrida e Verstappen foi terceiro. Diz-se que Pérez terá feito de propósito para ficar à frente de Verstappen na grelha e ter assim uma melhor posição para a corrida. Arriscaria um piloto cometer um erro, sendo terceiro na grelha do Mónaco, sem garantias de sucesso, arriscando um incidente, como aconteceu? Não sei. A única coisa certa é que na corrida anterior, Pérez não escondeu o desagrado por ter de deixar passar Verstappen no GP de Espanha, que o neerlandês viria a vencer. Diz-se também que Pérez admitiu a Christian Horner e Helmut Marko que errou de propósito no Mónaco.

Este enredo complica-se um pouco quando chegamos ao México, com Verstappen já campeão e com Pérez desejoso de vencer perante o seu público. Questionado se deixaria o seu colega de equipa passar para que garantisse a vitória em casa, Verstappen deu um redondo não e acabou por vencer a corrida, com Pérez em terceiro (sem hipóteses de tentar a vitória). 

E com este cenário que chegamos ao Brasil, penúltima corrida do ano, com a luta Pérez vs Leclerc ao rubro pelo segundo lugar final. Depois de um toque de Lando Norris, Leclerc conseguiu recuperar posições e no recomeço após o último Safety Car, consegue chegar ao top 5, enquanto Pérez, com os pneus errados para se defender, cai para sétimo, atrás de Verstappen. O resto já todos sabem.

O que tiramos de toda esta confusão? Primeiro, que o ambiente entre os dois pilotos da Red Bull está irremediavelmente comprometido. Pérez, que disse no rádio “isto mostra quem realmente ele é”, dificilmente confiará no seu colega de equipa daqui para a frente e o equilíbrio que existia está em causa. A Red Bull finalmente encontrou uma dupla de pilotos equilibrada, algo que não acontecia desde a saída de Daniel Ricciardo. Pérez não é tão rápido quanto Verstappen, mas é consistente e foi fundamental nas conquistas dos títulos. Pérez virou “Ministro da Defesa” quando segurou Lewis Hamilton em Abu Dhabi, o que abriu as portas ao título de Verstappen. No futuro, Pérez poderá não ser tão incisivo ao defender o seu lugar para beneficiar Verstappen, pois o neerlandês não gosta de fazer favores. Verstappen fica a perder com isto, pois perde um aliado em pista (ele que já tem poucos). E nesta equação passa a entrar Daniel Ricciardo. Se o ambiente entre Pérez e Verstappen se deteriorar, o australiano poderá ter via aberta para um regresso a uma casa que sempre o respeitou.

Segundo, Max Verstappen é pouco inteligente. Pode até ter razão no que fez e a sua aparente retidão neste caso pode ser motivo de respeito de alguns, a confirmar-se que o “caso Mónaco” é mesmo verdade. Mas fazê-lo por causa de dois pontos apenas é pouco inteligente, no mínimo, além de não mostrar respeito pelos objetivos da equipa. Dizer que Verstappen foi ingrato pode ser um argumento válido, mas, pessoalmente, não vou tão longe. Pérez não deu títulos a Verstappen. Ajudou muito, certo, mas o grande trabalho foi de Verstappen, que esteve em condições de ser campeão. O que Pérez fez, foi ajudar a sua equipa a conquistar títulos, algo para o qual foi contratado. Não foi tanto um favor que Pérez fez a Verstappen, foi a sua obrigação perante a equipa. Claro que o fez várias vezes e de forma bem-feita, mas se Pérez não o tivesse feito seria neste momento piloto da Red Bull? Se por um lado Pérez “merecia” a ajuda de Verstappen, por outro, o suposto caso do Mónaco coloca em causa toda a narrativa do merecimento do mexicano. Pérez venceu no Mónaco, Verstappen queria vencer no Mónaco e não conseguiu, porque o seu colega de equipa o terá prejudicado. E a quebra de confiança poderá não ter acontecido no Brasil, mas sim no Mónaco.

Terceiro, o ego dos pilotos é algo fantástico de analisar. Verstappen não levanta o pé, porque há um caso do início da época que ele ainda não engoliu, mesmo depois de ganhar o título. Pérez acha que sem ele, Verstappen não teria sido campeão, mas poderá ter cometido o erro de propósito no Mónaco, que lhe abriu a porta para a vitória (e que até poderia prejudicar o neerlandês na luta pelo título), isto no fim de semana em que renovou pela Red Bull. É a F1 no seu melhor. Pilotos que tentam marcar a sua posição de forma clara, num jogo por vezes perigoso e com jogadas nem sempre limpas. Algo que nem sempre nos agrada, mas que na alta competição acontece frequentemente. 

Por fim, todos perdem. Perde a Red Bull, porque a sua estrela não colocou os interesses da equipa em primeiro lugar (e se Leclerc é segundo por dois pontos?), mesmo depois de tudo o que a Red Bull fez por ele, perde Verstappen porque podia ter mostrado uma faceta diferente, ficar por cima da situação e poder cobrar “outro favor” no futuro, mesmo sabendo o que supostamente se passou no Mónaco (nem falo das repercussões mediáticas, pois parece pouco interessado nisso) e perdeu Pérez dois pontos, vendo descoberta uma situação que talvez quisesse ver abafada, além de usar o argumento pouco válido de que foi fundamental nos títulos de Verstappen, o que, no fundo, menospreza a sua boa carreira, mostrando-se como um nº2 assumido, em vez de ser candidato ao título. Ganha quem conseguir ver este episódio com o necessário afastamento e entender que por vezes, nos atos menos louváveis, está também a beleza da F1, com homens e mulheres dispostos a tudo para vencer. Agora vemos a fealdade de tudo o que se passou. Talvez no futuro vejamos com outros olhos tudo isto. Como vemos os atos menos ponderados de ídolos do passado. 

Quem tem razão? Difícil de avaliar. Não posso deixar de respeitar a carreira de ambos. Pérez esteve por duas vezes de saída da F1 e conseguiu manter-se e provar que é um bom piloto. Verstappen é um talento tremendo, com um ego igualmente grande, que sabe que em terra de lobos, não se pode ser cordeiro, com tudo o que isso implica. Pessoalmente, acho que Verstappen perdeu mais com este “filme” e mostrou uma faceta implacável e pouco abonatória a seu favor. Se tivesse de escolher um lado, talvez ficasse do lado de Pérez, relutantemente e sem convicção, pois há bons argumentos dos dois lados. Mas não foi a busca obsessiva pelo sucesso e a postura implacável que tornou outros grandes nomes em ícones? 

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4 comentários

  1. Henrique Fonseca

    15 Novembro, 2022 at 14:15

    Excelente artigo de opinião… e com uma foto a condizer bem com a atitude menos conseguida do Verstappen, parabéns.

  2. Rui

    15 Novembro, 2022 at 16:03

    Existem muitos adjetivos para a atitude de Verstappen mas uma delas é Estúpida! Não ganha nada e só perde.
    Ter acidente no Mónaco para sair em 3º parece-me igualmente uma decisão tão estúpida que não acredito.

  3. Pedro Vasco

    15 Novembro, 2022 at 16:23

    Não sei porque estão surpreendidos o VERS é aquilo tudo que se pode tirar ilações desta atitude dele, tem vindo a ter comportamentos reprováveis mesmo, em pista tais como: Atira o carro e provoca acidentes , nos áudios ouvia-se a mandar bocas ao Hamilton etc… Agora foi de mais evidente a sua exposição foi maior… Por isso não é de estranhar a equipa tem dificuldades em arranjar um piloto para correr com VERS nestas condições óbvio que não interessa a ninguém… Ninguém consegue ter a capacidade de saber quais as razões que tem para uma situação destas… Sempre disse Max tem a qualidade de campeão mas não tem carisma nem grandeza como ser humano de um Senna ou de um Hamilton... VERGONHA Max VERGONHA Max

  4. Manuel Costa

    15 Novembro, 2022 at 22:35

    Só um reparo em relação ao artigo, não foi o Perez que abriu as portas do titulo ao Max em Abu Dhabi, foi sim um Sr. chamado Masi…

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