Toto Wolff tem assumido cada vez mais protagonismo na F1 graças ao excelente trabalho que tem desenvolvido na Mercedes. A equipa tornou-se numa máquina de bater recordes e muito desse sucesso se deve ao contributo do austríaco, que tem tido um comportamento pouco propício a críticas. Mas em Ímola errou em toda a linha.
Há quem diga que Toto Wolff é o melhor chefe de equipa da história da F1 e estatisticamente esse é um facto irrefutável. Pessoalmente aprecio as qualidades de Wolff, quer pelo discurso, pela forma como lida com a sua equipa e por ser também um animal político feroz nos bastidores, algo que poderá não agradar a todos, mas que é fundamental para se ter sucesso na F1. Mas em Ímola pela primeira vez em muito tempo, achei que a sua postura e a forma como lidou com o incidente Valtteri Bottas / George Russell foi despropositada e pior que isso, contra a filosofia que implementou na equipa.
Não podemos esquecer que a F1 é também um desporto de paixões intensas e que para um líder que está habituado a ganhar, ver a vitória escapar por tão larga margem pode ser frustrante e por isso mereceria algum “desconto”. Mas a forma como colocou o maior peso da culpa do incidente em Russell não foi agradável de se ver. Primeiro a insinuação de que Russell deveria ter pensado melhor e visto que tinha um Mercedes à frente. Será que Wolff quer que Russell estenda a passadeira a cada vez que vir um carro preto nos espelhos, ou que levante o pé para não incomodar os Mercedes? Além de ser injusto para Russell, que tem de defender os interesses da sua atual equipa, passa uma mensagem pouco positiva, a fazer lembrar a “lei” que existe do lado da Red Bull e que não agrada aos fãs.
E depois o comentário da Clio Cup:
“Continuo a provocá-lo, disse que se ele fizer um bom trabalho pode estar num Mercedes, se não, iremos fazer a Clio Cup e hoje estamos mais perto da Clio Cup” disse Wolff sobre Russell.
Pode não ter sido essa a mensagem que quis passar, mas para quem ouve fica uma espécie de aviso: se voltas a fazer uma destas és despromovido. Ora isso soa mal por vários motivos. Russell tentou uma manobra ambiciosa que não correu bem contra um Mercedes claramente fora de posição. Russell reagiu mal no calor do momento, quando viu que a sua hipótese de pontuar se esfumou. Reagiu de cabeça quente depois nos comentários após a prova, do alto dos seus 23 anos de experiência. Russell fez o que qualquer piloto de F1 deveria ter feito… atacar e tentar ser feliz.
Wolff fez o que qualquer gestor de carreira de jovens não deveria fazer. Ameaçar. Se na Mercedes vigora a filosofia “no blame” ou seja, os membros da equipa têm liberdade para errar sem pressão, desde que tentem dar o melhor pela equipa, essa filosofia deveria ser aplicada a Russell que tentou fazer o melhor. E as ameaças de “despromoção” são claramente inapropriadas quando falamos de um dos maiores talentos jovens da F1. Sinceramente custa-me imaginar Helmut Marko fazer o mesmo a Max Verstappen no arranque da carreira da estrela da Red Bull, e Marko nem costuma ser meigo no discurso.
O ano será difícil para a Mercedes que tem pela frente uma luta dura com a Red Bull. Wolff poderá sentir essa pressão como talvez nunca sentiu até agora. Mas como chefe de equipa tinha obrigação de fazer melhor ou pelo menos, como fez Russell colocar a mão no peito e assumir o erro. Russell é o futuro da F1 e creio que não merecia ter ouvido de Wolff o que ouviu. A meu ver, um momento baixo do chefe da Mercedes.











