Lando Norris é sem dúvida um dos mais talentosos jovens do automobilismo mundial, um rótulo que o acompanha há já algum tempo. Mas o que temos visto neste arranque de época mostra que o britânico já deixou de ser o miúdo brincalhão e é está a transformar-se num piloto capaz de lutar por vitórias e por títulos.
Há pilotos que, por algum motivo, nos caem no goto por razões nem sempre fáceis de entender. Lando Norris foi um desses casos. As prestações do jovem na F2, altura em que comecei a seguir mais de perto a sua carreira, deixaram água na boca, além do palmarés que apresentava. Já tinha ficado surpreendido com algumas das suas prestações, mas a sua passagem por Daytona, em que pilotou um LMP2 da United Autosports, sendo colega de equipa de Fernando Alonso, deixou-me ainda mais impressionado. Aquele miúdo foi capaz de chegar a uma pista nova, num carro em que tinha pouca experiência e fazer stints excelentes em condições de pista difíceis, com a chuva a mostrar-se quando estava ao volante do Ligier da equipa de Zak Brown.
Veio a inevitável promoção à F1, pela mão da McLaren e então o mundo começou a ver o Lando Norris bem disposto, aquele miúdo traquina que veio trazer mais cor ao paddock. Entrou com George Russell e Alex Albon, dois pilotos também de grande talento. Dos três, Russell era o que tinha mais “pinta” de piloto de F1 e as suas prestações nas categorias de iniciação mostravam um talento tremendo. Albon, apesar de ter sido escolha de última hora, mostrou logo nas primeiras corridas que merecia o lugar na F1. Continuo a achar que a sua dispensa foi injusta, quase tão injusta quanto a despromoção de Pierre Gasly. Ambos foram vítimas da má gestão da Red Bull. Gasly tem mostrado que é um dos pilotos em melhor forma nos últimos tempos e é bom não esquecer que Albon chegou à F1 com 0km de testes e com contacto muito reduzido com a realidade da F1. O que ele fez na primeira época continua a ser menosprezado injustamente.
Do seu lado, Norris começou de forma tímida, claramente com algum receio de errar nas primeiras corridas. Uso uma postura humilde, olhando para o seu colega de equipa como a grande referência. Tentou a todo o custo evitar problemas em pista, preferindo adquirir experiência do que tentar o brilharete e borrar a pintura. Claro que o ambiente saudável e com menos pressão da McLaren ajudou. No entanto chegou o ponto em que tive de questionar-me sobre a capacidade de Norris de ser uma referência na F1. A velocidade não estava em causa, mas parecia que lhe faltava o “killer instinct” que sentimos imediatamente com Charles Leclerc ou Max Verstappen e que só não vimos em Russell porque o carro que lhe calhou em sorte era fraco.
Na segunda época na F1, vimos um Norris diferente. Talvez não tão brincalhão mas com uma postura mais atrevida em pista. O seu primeiro pódio na Áustria voltou a fazer acreditar-me que Norris tinha fibra de campeão, pois não tremeu apesar da pressão inerente à situação. 2020 foi um bom ano para Norris, lutou de igual para igual com o melhor Carlos Sainz que a F1 viu, numa das disputas internas mais renhidas. Mas 2021 trouxe novos desafios e um novo colega de equipa. Um tal de Daniel Ricciardo que é considerado por todos um dos melhores da atualidade. Seria mais um teste de fogo para Norris, desta vez com um nome consagrado.
A postura de Norris mudou. Não é mais o miúdo traquina que gosta de brincadeira. É agora mais sério, mais focado e raramente “alinha” com Ricciardo, entendendo que tem de enfrentar um grande piloto e que não pode perder tempo com “macacadas”. Em pista, também está ainda melhor. Não é certamente dos pilotos mais exuberantes, mas tem uma classe e uma suavidade na condução, que faz lembrar outros campeões. No Bahrein vimos um Norris forte, mas em Ímola vimos talvez a sua melhor exibição. Aquela ultrapassagem a Sainz no início da corrida evidenciou o tal “killer instinct” que é preciso para vencer. O ritmo que mostrou em pista foi tremendo, ao ponto de fazer parecer Ricciardo um piloto banal (sem esquecer que o australiano dá os primeiros passos na equipa e ainda precisa de tempo). Foi agressivo quando precisou, soube gerir a corrida, mesmo com pneus macios que tinham forçosamente de durar até ao fim. Defendeu-se de forma sublime de Lewis Hamilton e mais não fez porque a valia dos carros e a diferença nas borrachas falou mais alto. Mais que isso, conseguiu anular a ameaça de Leclerc, que a certo ponto parecia que tinha tudo para poder ganhar um lugar no pódio.
Em Ímola vimos que Norris tem fibra de campeão, não apenas pelo que fez, mas pela insatisfação na qualificação. Apesar de ter visto a sua volta anulada, ninguém duvidou que o piloto da McLaren tinha feito uma grande volta. Mas ele não se importou com isso e a sua frustração veio do facto de não estar onde sentiu que merecia estar. Apesar dos elogios, não se contentou com uma “potencial boa volta”. Assumiu o erro, se é que uma saída de pista de poucos centímetros se pode considerar erro, e não escondeu a irritação. Naquele momento vimos o que pode ser Lando Norris. Já não está na F1 para ser o miúdo que nos faz rir. Está na F1 para vencer. Ímola trouxe o melhor de Norris e a confirmação de que o #4 é um potencial campeão no futuro. Ainda tem muito para aprender e crescer e basta lembrar que Max Verstappen, que está na F1 em 2015, só conseguiu transformar-se num verdadeiro candidato ao título em 2019. Por isso Lando tem ainda um longo caminho pela frente mas o que já mostra é bom… muito bom. Ímola fez-me sorrir. À lista de potenciais campeões para o futuro que já conta com Verstappen, Leclerc, Russell a adição de Norris é agora clara e inequívoca.











