Opinião: Lando Norris já mostra fibra de campeão

Por a 22 Abril 2021 11:45

Lando Norris é sem dúvida um dos mais talentosos jovens do automobilismo mundial, um rótulo que o acompanha há já algum tempo. Mas o que temos visto neste arranque de época mostra que o britânico já deixou de ser o miúdo brincalhão e é está a transformar-se num piloto capaz de lutar por vitórias e por títulos.

Há pilotos que, por algum motivo, nos caem no goto por razões nem sempre fáceis de entender. Lando Norris foi um desses casos. As prestações do jovem na F2, altura em que comecei a seguir mais de perto a sua carreira, deixaram água na boca, além do palmarés que apresentava. Já tinha ficado surpreendido com algumas das suas prestações, mas a sua passagem por Daytona, em que pilotou um LMP2 da United Autosports, sendo colega de equipa de Fernando Alonso, deixou-me ainda mais impressionado. Aquele miúdo foi capaz de chegar a uma pista nova, num carro em que tinha pouca experiência e fazer stints excelentes em condições de pista difíceis, com a chuva a mostrar-se quando estava ao volante do Ligier da equipa de Zak Brown.

Veio a inevitável promoção à F1, pela mão da McLaren e então o mundo começou a ver o Lando Norris bem disposto, aquele miúdo traquina que veio trazer mais cor ao paddock. Entrou com George Russell e Alex Albon, dois pilotos também de grande talento. Dos três, Russell era o que tinha mais “pinta” de piloto de F1 e as suas prestações nas categorias de iniciação mostravam um talento tremendo. Albon, apesar de ter sido escolha de última hora, mostrou logo nas primeiras corridas que merecia o lugar na F1. Continuo a achar que a sua dispensa foi injusta, quase tão injusta quanto a despromoção de Pierre Gasly. Ambos foram vítimas da má gestão da Red Bull. Gasly tem mostrado que é um dos pilotos em melhor forma nos últimos tempos e é bom não esquecer que Albon chegou à F1 com 0km de testes e com contacto muito reduzido com a realidade da F1. O que ele fez na primeira época continua a ser menosprezado injustamente. 

Do seu lado, Norris começou de forma tímida, claramente com algum receio de errar nas primeiras corridas. Uso uma postura humilde, olhando para o seu colega de equipa como a grande referência. Tentou a todo o custo evitar problemas em pista, preferindo adquirir experiência do que tentar o brilharete e borrar a pintura. Claro que o ambiente saudável e com menos pressão da McLaren ajudou. No entanto chegou o ponto em que tive de questionar-me sobre a capacidade de Norris de ser uma referência na F1. A velocidade não estava em causa, mas parecia que lhe faltava o “killer instinct” que sentimos imediatamente com Charles Leclerc ou Max Verstappen e que só não vimos em Russell porque o carro que lhe calhou em sorte era fraco.

Na segunda época na F1, vimos um Norris diferente. Talvez não tão brincalhão mas com uma postura mais atrevida em pista. O seu primeiro pódio na Áustria voltou a fazer acreditar-me que Norris tinha fibra de campeão, pois não tremeu apesar da pressão inerente à situação. 2020 foi um bom ano para Norris, lutou de igual para igual com o melhor Carlos Sainz que a F1 viu, numa das disputas internas mais renhidas. Mas 2021 trouxe novos desafios e um novo colega de equipa. Um tal de Daniel Ricciardo que é considerado por todos um dos melhores da atualidade. Seria mais um teste de fogo para Norris, desta vez com um nome consagrado.

A postura de Norris mudou. Não é mais o miúdo traquina que gosta de brincadeira. É agora mais sério, mais focado e raramente “alinha” com Ricciardo, entendendo que tem de enfrentar um grande piloto e que não pode perder tempo com “macacadas”. Em pista, também está ainda melhor. Não é certamente dos pilotos mais exuberantes, mas tem uma classe e uma suavidade na condução, que faz lembrar outros campeões. No Bahrein vimos um Norris forte, mas em Ímola vimos talvez a sua melhor exibição. Aquela ultrapassagem a Sainz no início da corrida evidenciou o tal “killer instinct” que é preciso para vencer. O ritmo que mostrou em pista foi tremendo, ao ponto de fazer parecer Ricciardo um piloto banal (sem esquecer que o australiano dá os primeiros passos na equipa e ainda precisa de tempo). Foi agressivo quando precisou, soube gerir a corrida, mesmo com pneus macios que tinham forçosamente de durar até ao fim. Defendeu-se de forma sublime de Lewis Hamilton e mais não fez porque a valia dos carros e a diferença nas borrachas falou mais alto. Mais que isso, conseguiu anular a ameaça de Leclerc, que a certo ponto parecia que tinha tudo para poder ganhar um lugar no pódio.

Em Ímola vimos que Norris tem fibra de campeão, não apenas pelo que fez, mas pela insatisfação na qualificação. Apesar de ter visto a sua volta anulada, ninguém duvidou que o piloto da McLaren tinha feito uma grande volta. Mas ele não se importou com isso e a sua frustração veio do facto de não estar onde sentiu que merecia estar. Apesar dos elogios, não se contentou com uma “potencial boa volta”. Assumiu o erro, se é que uma saída de pista de poucos centímetros se pode considerar erro, e não escondeu a irritação. Naquele momento vimos o que pode ser Lando Norris. Já não está na F1 para ser o miúdo que nos faz rir. Está na F1 para vencer. Ímola trouxe o melhor de Norris e a confirmação de que o #4 é um potencial campeão no futuro. Ainda tem muito para aprender e crescer e basta lembrar que Max Verstappen, que está na F1 em 2015, só conseguiu transformar-se num verdadeiro candidato ao título em 2019. Por isso Lando tem ainda um longo caminho pela frente mas o que já mostra é bom… muito bom. Ímola fez-me sorrir. À lista de potenciais campeões para o futuro que já conta com Verstappen, Leclerc, Russell a adição de Norris é agora clara e inequívoca.  

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12 comentários

  1. Speedway

    22 Abril, 2021 at 12:39

    Sempre foi rotulado de grande talento potencial. Esta época será decisiva para ver se terá eventualmente estofo de campeão ou não.O Mclaren é bom, mas está ainda longe de poder sequer sonhar com ganhar o mundial.Vitória num GP talvez em circunstâncias especiais,mas não será previsível.

  2. jo baue

    22 Abril, 2021 at 13:30

    O Norris na corrida pediu por rádio para passar o Ricciardo pois este estava mais lento, e este deixou-o passar com a promessa de lhe ser devolvida a posição se o inglês não se afastasse. E o resto já sabemos, o Norris foi-se embora com o Sainz a passar facilmente o Ricciardo. A Ferrari perdeu uma boa ocasião para copiar o bom exemplo, esperemos que o faça no futuro, quando faça sentido.

    • Cágado1

      22 Abril, 2021 at 13:50

      Não houve promessa nenhuma ao Ricciardo, nem ele precisa disso para cumprir o seu papel, é um piloto muito consciente e um grande team-player.

      • RedDevil

        22 Abril, 2021 at 20:40

        Houve sim… a equipa disse-lhe que Lando lhe devolvia o lugar se não se afastasse…

    • Frenando_Afondo™

      22 Abril, 2021 at 20:50

      O normal quando se faz a troca é dizer isso, não foi para agradar a Ricciardo, é o correcto, se um cede a posição é em benefício da equipa, se esse benefício não se traduz em pontos então é igual se Ricciardo acabasse na frente de Norris e como tal seriam trocadas as posições e muito bem. Mas Norris mostrou que estava bem mais rápido.

  3. Cágado1

    22 Abril, 2021 at 14:07

    Confesso que não gostei da postura do Norris vs o de Vries na F2, pareceu-me que se achava superior.
    A minha opinião mudou por completo, mal chegou à F1, o seu 1º ano foi brilhante – e só não foi melhor por um número elevado de azares, que levaram a 6 desistências. Acho que se mostrou imediatamente ao nível do Sainz – se bem que eu nunca tive o Sainz como um super-dotado. O ano passado foi fantástico, a começar logo na 1ª corrida. Fez tudo isto com boa disposição e à vontade.
    Não vejo razão nenhuma para ter de mudar – o Riiciardo é parecido e implacável em pista, o Nelson Piquet, tb sempre foi um palhaço e um tipo absolutamente implacável em pista e às vezes fora dela, como com o Eliseo Salazar. Espero que o Norris consiga ter sucesso sem mudar a sua postura bem disposta.
    A F1 só tem a ganhar com Norris e Ricciardos, pilotos eficazes e que geram empatia.

  4. 831AB0

    22 Abril, 2021 at 16:36

    Só um pequeno acréscimo a esta excelente crónica. Em 2016, quando a Vodafone emitia o canal Motorsport TV, vi – confesso que mais por desfastio que por verdadeiro interesse – algumas corridas da F3 britânica. Apesar de a liderança do campeonato pertencer a um brasileiro chamado Matheus Leist, a atenção geral estava voltada para um puto de 16 anos com um nome estranho, certamente inspirado pela saga Star Wars. Por curiosidade, comecei a acompanhar a carreira do puto. Ficou-me na memória um duelo fantástico no Red Bull Ring com um belga chamado Max Defourny (que, infelizmente, teve tanto êxito na subida às fórmulas superiores como o tal Matheus Leist), numa das corridas do campeonato europeu de Fórmula Renault 2.0, que o miúdo disputava em simultâneo com a F3 britânica ao serviço da Josef Kaufmann Racing. O que me impressionou de imediato foi a segurança e a maturidade do jovem, que por esta altura já devem ter percebido que era o Lando Norris. Limpou os campeonatos de F. Renault 2.0 (Eurocup e NEC), ganhou algumas corridas na F3 britânica e ainda ganhou a Toyota Racing Series disputada na Nova Zelândia. Uma época absolutamente brilhante.
    No ano seguinte subiu à F3 europeia com a Carlin. Não dominou o campeonato por completo, mas ganhou-o com muita cabeça e autocontrolo. As largadas não eram o seu forte, mas quando as falhava, conseguia sempre recuperar. Apesar do seu estilo suave, sabia ser agressivo nas curvas quando necessário, mas era um jovem de 17 anos a mostrar uma maturidade invulgar.
    Depois veio a F2. É preciso dizer que, apesar de todos os carros serem iguais no papel, a equipa faz uma diferença substancial. O George Russell ganhou porque corria para a ART, ao passo que o Lando Norris acompanhou a Carlin na estreia da equipa na F2. Corressem ambos na mesma equipa, e certamente o campeonato teria outra feição.
    Os invejosos vão provavelmente mudar de opinião sobre o Lando Norris ao saber que o financiador da sua carreira foi sempre o seu pai, um milionário de Bristol, UK. No entanto, o talento do Lando Norris é de tal ordem que a fortuna da família não importa; até funcionou como um Deus ex machina, porque um talento destes tinha forçosamente de singrar e chegar à F1. E tenho a impressão de que não se vai ficar por uns pódios ocasionais.

  5. NOTEAM

    22 Abril, 2021 at 16:47

    Há corridas que marcam a carreira de alguns pilotos, esta pode muito bem ser aquela que o pode colocar num patamar superior, o dia em que o Norris mostrou que pode ser melhor que todos os outros!. Concordo em absoluto com o artigo, nunca foi uma questão de velocidade, trata-se mesmo do tal “killer instinct” que faz toda a diferença entre os mais rápidos do mundo. Parece-me que o Norris beneficiou com a chegada do Ricciardo, tem demonstrado com toda a fúria que não está na F1 para ser figurante e este novo desafio está a fazer com que cresça a todos os níveis. É nestes momentos, sob pressão, que se reconhece a real valia de um piloto. As qualificações não foram perfeitas, o seu desempenho em corrida foi simplesmente perfeito, há ainda margem de progressão, mas nunca é demais relembrar que estamos a falar de um piloto com 21 anos de idade. Claro que o Ricciardo não está a gostar deste papel, não tarda vai reagir, será esta luta interna que vai impulsionar a Mclaren a chegar a outros voos, não tenho dúvidas em relação a isso.

  6. Lagafe

    22 Abril, 2021 at 17:08

    Gosto muito do Norris mas confesso que a sua ascensão está a demorar mais tempo que eu previa. Ou o Sainz é melhor do que muitos pensam.
    Temo que por ser extremamente simpático e humano seja tratado com demasiada benevolência.

    • NOTEAM

      22 Abril, 2021 at 17:21

      Ele no Bahrain abriu bem asinhas no confronto com o Ricciardo. Julgo que ele já se apercebeu que para nadar com os tubarões tem de deixar alguma simpatia de lado.

  7. Miguel Costa

    22 Abril, 2021 at 17:41

    Estes putos são uma lufada de ar fresco na F1, na minha opinião há alguns anos que não subiam à categoria rainha, vários pilotos com tanto talento ao mesmo tempo. O Norris é um deles sem dúvida, não se amedrontou com a chegada de um excelente piloto para colega de equipa e toca de mostrar serviço. Está a meu ver a desenvolver uma capacidade de poupar pneus, só comparável ao Perez. Não tem carro para lutar pelas vitórias na maior parte destes circuitos modernos, mas em alguns pode fazer brilharetes, até ganhar, este McLaren é um bom carro.

  8. Frenando_Afondo™

    22 Abril, 2021 at 20:52

    Norris mostrou logo nas primeiras corridas na F1 que tinha fibra, o resto é uma questão de crescer na direção certa e se tiver monolugar, estará a lutar por títulos. Nas categorias anteriores onde andou ganhou tudo, claro que isso não significa que vá ser um excelente piloto na F1 (como Hulk demonstrou, outro que ganhou tudo antes de chegar naF1), mas até agora está a progredir bem, sem pressão a mais, mas também sem pressão a menos.

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