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MEMÓRIA: Jean Alesi, Um homem capaz de (quase) tudo!


Um homem capaz de tudo. De dar luta a Senna, em Phoenix, quando só tinha nas mãos um Tyrrell-Ford e de ficar sem gasolina, em Melbourne, por não ter olhado para os painéis que a equipa lhe mostrava; de levar um Sauber ao pódio na chuva de Spa e de se esquecer que mudara de equipa e quase parar na boxe errada em Budapeste; de acusar Schumacher de ser arrogante e perigoso e, depois, querer à viva força ser o seu melhor amigo; de acusar Coulthard, em Imola, de ser o piloto mais incorrecto do mundo e de se desfazer em lágrimas, no muro das boxes de Monza, abraçado a Todt depois do seu Ferrari se ter avariado. Jean Alesi, o piloto, foi tudo isto e muito mais.
Foi, sobretudo, um piloto extremamente dotado, com uma capacidade quase sobre-humana de dominar um Fórmula 1 nas situações mais extremas, mesmo se também era capaz de incorrer nos erros mais infantis. Reflexo evidente duma personalidade explosiva, em que o estado de espírito está sempre num constante devir, nunca se sabendo que Jean Alesi vamos encontrar a cada hora do dia.
Se para os jornalistas a tarefa de descortinar o “bom Jean” era fundamental para se poder trabalhar, imagine-se como viviam as equipas, os engenheiros e os mecânicos, face a um homem tão imprevisível. Tudo podia estar fantástico, para cinco minutos depois tudo ser uma m….! Bastava um pequeno nada para o estado de espírito de Alesi se transformar imediatamente, sem pré-aviso, mas, também, sem efeitos secundários. O grande abraço do pequeno-almoço podia transformar-se num olhar glacial e acusações múltiplas a meio da manhã, para tudo ser esquecido uma hora mais tarde. Por isso mesmo, ou se gosta de Jean Alesi como ele é, ou não se gosta mesmo. Por mim, gosto muito do francês, porque, ao menos, tem a vantagem de dizer sempre aquilo que pensa. Mesmo se o que ele pensa hoje não é o que vai pensar amanhã, ao menos fica sempre tudo em pratos limpos de cada vez que se fala com ele!
Não é, por isso, surpreendente que Alesi se tenha dado muitíssimo bem com gente como Ken Tyrrell, Harvey Postlethwaite e Eddie Jordan e muitíssimo mal com Flavio Briatore e Jean Todt. Não foi por acaso que o seu companheiro de equipa favorito foi Gerhard Berger e Pedro Diniz tenha sido aquele com quem, ao fim e ao cabo, o relacionamento foi mais frio.
Tyrrell, Postlehtwaite, Berger e Jordan, cada um com o seu estilo, sempre disseram a Alesi aquilo que muito bem pensavam, de forma mais ou menos direta, sem facas pelas costas nem politiquices torpes. Todt, por uma questão de feitio, e Briatore, por toda uma experiência acumulada em mundos onde a franqueza não é bem vinda, só foram diretos com o francês para o acusarem de ser o causador de todos os males do mundo, nunca percebendo como é que se podia tirar o máximo partido das suas características. Quanto a Diniz, a sua esmerada educação nunca lhe permitiria entrar em “peixeiradas” com ninguém, o que criou um fosso com Alesi, que nunca foi ultrapassado.
É, por isso, perfeitamente compreensível que os adeptos de Fórmula 1 adorassem Jean Alesi. Desde que Nigel Mansell se foi embora, mais ninguém foi capaz, durante algum tempo, de realizar façanhas impossíveis ao volante dum Fórmula 1, dois segundos antes de cometer o erro mais primário. Em Alesi o adepto médio reconhecia-se como o homem capaz de falhar quando tudo estava a seu favor, mas de se superar quando o mundo parecia virado contra ele.
Mas ao contrário do inglês, Alesi não tinha problemas em elogiar a equipa ou o carro quando tudo lhe corria de feição. Por isso, enquanto a Mansellmania foi sempre um fenómeno britânico, Alesi saltou fronteiras ao ponto de ser, ainda hoje, muito popular no Japão, onde o seu espírito combativo é muito apreciado.
Foi esse espírito combativo, essa capacidade de surpreender – para o bem e para o mal – e toda a espontaneidade que marcaram o carácter de Alesi que fizeram tanta falta à Fórmula 1.