» Textos: Hélio Rodrigues

 

Jacky Ickx: O rei da chuva


Rápido e versátil, tão capaz de ganhar nas longas retas de Le Mans, como nas areias e dunas escaldantes do Sahara, Jacky Ickx foi – é – um dos mais ecléticos e completos pilotos da História recente do automobilismo desportivo. Ickx, venceu corridas desde cedo, passou pela F2 e pela F1 com a mesma sede de ganhar. Aqui, correu na Brabham, Ferrari, McLaren e Lotus, entre outras, venceu com a Brabham e a Ferrari e, com esta, foi vice-Campeão do Mundo de F1, em 1969 e 1970. Durante mais de dez anos, foi recordista de triunfos nas 24 Horas de Le Mans. Excelso sob condições atmosféricas dramáticas, foi considerado como Rei da Chuva. E foi à chuva que cometeu o seu pior erro, ao parar o GP do Mónaco de F1, em 1984, oferecendo o trufo ao seu amigo Alain Prost e negando-o a Ayrton Senna – ou, quem sabe, até a Stefan Bellof, que seguia ambos, mas ainda mais rápido.

Jacques Bertrand Ickx nasceu na capital belga, no primeiro dia do ano de 1945. Filho de um jornalista de desportos motorizados e piloto ocasional, também chamado Jacques, dele herdou os genes que o levaram, um dia, às pistas – sem ser como acompanhante do pai. No entanto, parece apenas ter descoberto esse apelo quando o pai lhe ofereceu uma Zundapp 50 – com a qual venceu oito das suas 13 primeiras corridas e o título europeu correspondente! Ganhou mais dois títulos europeus nas duas rodas e, então, com um Ford Cortina Lotus, sagrou-se campeão belga de Turismo, em 1965. Em 1966, com um BMW 2002 TI, ganhou as 24 Horas de Spa e, nesse ano, começou a fazer corridas de resistência com carros de Sport, começando logo pelos 1000 Kms. de Nürburgring
A sua estreia na F1 aconteceu em 1966, precisamente no Nürburgring, com um Matra MS5 de F2, num tempo em que, no GP da Alemanha, podiam coabitar carros de F1 e de F2. Ickx voltou à pista em 1967 e, com um Matra MS7, começou a corrida atrás de todos os F1 mas, ao fim de quatro voltas à pista de 28 quilómetros – ainda não tinha sido encurtada e a estrada era ainda mais ondulada e perigosa – estava já em 5º lugar, após ultrapassa 12 F1! Oito voltas mais tarde, a suspensão do seu Matra partiu-se e teve que abandonar. Mas ficou a marca da sua pilotagem corajosa e da sua mestria em piso molhado – e, ainda nesse ano, fez o seu primeiro GP de F1 “verdadeiro”, com um Cooper T81B/Maserati V12, terminando em 6º o GP de Itália, em Monza
No ano seguinte, era já piloto oficial da Ferrari. Abandonou nas duas primeiras corridas mas, no “seu” Spa, largou da primeira linha a acabou no terceiro lugar do pódio. Em Rouen, conquistou a sua primeira vitória na F1 – claro, sob chuva torrencial. Em Brands Hatch, foi 3º e, em Nürburgring, de novo sob chuva forte e sem o visor do seu capacete, acabou em 4º lugar. Terceiro em Monza, teve um acidente no Canadá e partiu uma perna. “Vice” de Jackie Stewart nesse ano, no seguinte repetiu a proeza, no seu regresso à Ferrari, agora com três triunfos, nas que foram as suas duas melhores temporadas na F1.
Piloto temerário, amante da chuva, ganhou mas sete GP até 1982, o a partir do qual a sua carreira na F1 entrou em fase descendente. Depois de uma série de participações no Dakar, Jacky Ickx retirou-se profissionalmente das corridas, acompanhando no entanto a sua filha Vanina, fazendo mesmo equipa com ela algumas vezes, em provas de longa duração. Casado com a cantora Khadja Nin, ainda hoje participa em alguns eventos específicos, como o Festival de Goodwood ou o Rali Histórico de Monterey

Jacky Ickx e Le Mans: O anterior recordista
Jacky Ickx e as 24 Horas de Le Mans são os protagonistas principais de uma já velha história de amor. Ou, se quiserem dizer de outra forma, uma história de sucesso. Com 15 participações – em 1966 e 1967, 1969 e 1970, em 1973, entre 1975 e 1983 e em 1985 – na mítica prova de resistência francesa, que assinala o solstício de Verão todos os anos, o belga era o anterior recordista de vitórias, antes do seu recorde ser esmagado, nos tempos mais recentes, por Tom Kristensen. Um recorde de seis triunfos, que vigorou ente 1982 e 2005.
Vejamos, uma a uma, as suas 24 horas de Le Mans.
1966 – Abandono (v. 154) – Essex Wire Corporation/Ford GT40 Mk I nº 60 (c./Jochen Neerpasch),
1967 – Abandono (v. 29) – John Wyer Automotive Engineering/Mirage M1 nº 15 (c./Brian Muir)
1969 – 1º – John Wyer Automotive Engineering/Ford GT 40 Mk I nº 6 (c./Jackie Oliver). O seu primeiro foi um triunfo dramático. Na parte final da corrida, Ickx e Hans Hermann protagonizaram um duelo terrível, com ultrapassagens constantes, até que o Porsche 908 Coupé começou a sentir problemas de travões. Na última volta, Ickx deixou Hermann passá-lo, convencido de que não tinha gasolina que chegasse. Mas, colado ao Porsche, utilizou o cone de ar para fazer toda a reta das Hunaudières, poupando combustível e voltando ao comando na travagem no final da reta. Ickx conseguiu manter-se na frente, recebendo a bandeira de xadrez com uns meros 120 metros de vantagem sobre Hermann.
1970 – Abandono (v. 142) – SpA Ferrari SEFAC/Ferrari 512S nº 5 (c./Peter Schetty). O carro estava m 6º quando, ao princípio da noite, começou a chover. Ickx conseguiu levá-lo até ao 2º lugar, mas tudo acabou de forma trágica, quando Ickx teve um acidente na chicane Ford, que foi fatal a um comissário.
1973 – Abandono (v. 332) – SpA Ferrari SEFAC/Ferrari 312 PB nº 15 (c./Brian Redman). A prova ficou marcada pela luta entre os Ferrari 312 PB, mais lentos, e os Matra-Simca MS670B, mais velozes. Venceu um destes, na frente de um Ferrari, mas o de Ickx desistiu quase no final da prova.
1975 – 1º – Gulf Research Racing/Mirage GR8 nº 11 (c./Derek Bell) – Os dois Mirage da Gulf dominaram as primeiras horas. O líder Vern Schuppan teve problemas de alternador, deixando o comando a Ickx que, durante a noite, teve que parar nas boxes para reparar um escape. Depois, a prova passou a ser um jogo do gato e do rato com os Ligier, que demoravam menos tempo nas boxes, mas que se debatiam com enormes vibrações, provocadas pelo motor Ford Cosworth DFV. Ickx ganhou com uma volta de avanço sobe o Ligier JS2 de Jean-Louis Lafosse/Guy Chasseuil.
1976 – 1º – Martini Racing Porsche System/Porsche 936 nº 20 (c./Gijs van Lennep). Esta foi a sua primeira vitória com um Porsche. Num ano de mudança de regras, o novo 936 – que tinha a oposição dos 935 e do também novo Renault Alpine A442 – dominou e venceu na estreia, com 11 voltas de vantagem sobre o Mirage GR8 de Lafosse/François Migault. O A442 não chegou ao fim.
1977 – 1º – Martini Racing Porsche System/Porsche 936/77 nº 4 (c./Jürgen Barth/Hurley Haywood). O 936/77, uma simples evolução do 936, bateu sem apelo nem agravo os A442 e Mirage. O grande responsável pelo triunfo foi Ickx – que passou do Porsche nº 3, o mesmo chassis com que ganhara em 1976, quando este desistiu com problemas mecânicos, no início da prova, para o carro-gémeo de Haywood/Barth. Pilotando ao ataque, Ickx conseguiu chegar ao comando mas, na última hora, um cilindro partido quase deitou tudo a perder – os mecânicos tiveram a ignição e a injeção do cilindro avariado e o Porsche conseguiu, envolto em fumo, receber na frente a bandeira de xadrez, com 11 voltas sobre o Mirage de Schuppan/Jean-Pierre Jarier.
1978 – 2º – Martini Racing Porsche System/Porsche 936/78 nº 6 (c./Bob Wollek/Barth). A Renault finalmente ganhou, com o Alpine A442B de Didier Pironi/Jean-Pierre Jaussaud, mas não foi uma tarefa fácil: o novo A443 não resistiu e Ickx fez tudo para bater a marca francesa, terminando a cinco voltas.
1979 – Abandonou (v. 200) – Essex Motorsport Porsche/Porsche 936 (c./Redman/Barth). Ickx foi desqualificado, por ter recebido ajuda externa, que não tinha pedido, a tentar reparar o 936.
1980 – 2º – Equipe Liqui Moly – Martini Racing/Porsche 908/80 nº 9 (c./Reinhold Jöst). O 908/80 era um “roadster” e isso complicou a vida de Ickx nas primeiras voltas, depois de uma partida feita sob um verdadeiro dilúvio. A visibilidade era nula e a vantagem estava do lado dos “coupé”, como os Rondeau, BMW M1 e Porsche 935. Mas, quando a chuva desapareceu, Ickx e Jöst começaram a recuperar posições, até Jöst chegar ao comando, pela 3ª hora. Durante a noite, o Rondeau de Jean Rondeau/Jaussaud assumiu a liderança, mas Ickx encetou a “caça” e, pelo amanhecer, após várias trocas de posição entre ambos, Ickx começou a construir uma vantagem mais sólida. Porém, subestimou os Rondeau, que se mostraram surpreendentemente fiáveis e, quando o 908/80 teve problemas de caixa, plas 10h00, caiu para segundo. Nas horas seguintes, meso rodando mais rápido, Ickx não conseguiu aproximar-se do Rondeau. Nem mesmo quando Jaussaud fez um pião, debaixo da chuva, que regressou a meia hora do final…
1981 – 1º – Porsche System/Porsche 936 nº 11 (c./Bell). A corrida desenrolou-se debaixo de temperaturas muito elevadas. Desde o princípio, Ickx e Bell construíram uma vantagem tal que, depois, se limitaram a gerir, ganhando com 14 voltas de vantagem sobre o Rondeau M379 de Jacky Haran/Jean-Louis Schlesser/Philippe Streiff. Foi, na altura, a maior diferença de 1º para 2º.
1982 – 1º – Rothmans Porsche System/Porsche 956 nº 1 (c./Bell). Esta foi a sexta e última vitória de Ickx em Le Mans e a terceira com Derek Bell. Neste ano, uma vez mais as regras foram, novas, com a introdução do efeito de solo. Impecáveis – e implacáveis – os novos Porsche 956 da equipa oficial monopolizaram os três lugares do pódio. Ickx/Bell bateram Schuppan/Jochen Mass por apenas três voltas.
1983 – 2º – Rothmans Porsche/Porsche 956 nº 1 (c./Bell). A vit+ria foi discutida em cima da linha de meta por Ickx/Bell e Schuppan/Haywoord/Al Holbert, com uma vantagem de 17s para estes, que conquistaram um triunfo da sorte, depois do sobreaquecimento do motor, causado por um radiador bloqueado, quase ter deitado tudo a perder.
1985 – 10º – Rothmans Porsche/Porsche 962C nº 1 (c./Mass). Última participação de Ickx, com o novo 962C, que se mostrou inferior ao “velho” 956, que ganhou a corrida.

Jacky Ickx, o homem das areias
Verdadeiro homem das areias, Ickx participou em 14 edições do Dakar, vencendo mesmo uma, em 1983. A sua estreia foi em 1981, com o ator francês Claude Brasseur com navegador e ao volante de um Citroën CX 2400 GTI da equipa de fábrica. Chegaram a estar em 4º lugar, mas tudo terminou com um espetacular capotanço, na 12ª etapa. No ano seguinte, Ickx regressou, sempre com Brasseur, mas agora ao volante de um Mercedes-Benz 280 GE. Terminaram em 5º lugar, depois de terem chegado a andar na frente.
Em 1983, de novo acompanhado por Brasseur e num Mercedes-Benz 280 G, Ickx sobreviveu a uma enorme tempestade de areia, na primeira vez que a caravana atravessou o deserto do Ténéré, que fez 40 equipas perderem-se, entre elas a de Mark Thatcher, filho da então primeira-ministra britânica.
No ano a seguir à sua vitória, conseguiu convencer a Porsche a apoiar uma equipa na prova africana. Aos comandos de um 911, terminou no sexto lugar, dando garantias à ainda hesitante marca alemã de que, tal como em Le Mans, também o triunfo no Dakar estava ao seu alcance. Isso, de fato, acabou por acontecer – e mais que uma vez, mas nunca através de Ickx!
Em 1985, Ickx voltou a África, ainda e sempre co Brasseur, mas agora ao volante de um Porsche 959, especificamente feito para a dura maratona. Venceram mesmo uma etapa, mas não resistiam a uma das muitas armadilhas do percurso. No ano seguinte, (quase) nada de novo: outra vez Brasseur, outra vez o 959… e o 2º lugar final, atrás do seu colega de equipa, René Metge.
A Porsche abandonou o Dakar nesse ano e, para 1987, Jacky ickx assinou com a Lada, mudando pela primeira vez de navegador, que passou a ser Christian Tarin. Ficou numa duna de areia… Repetiu a aventura em 1988, com a Lada e com Tarin, acabando em 38º lugar. Desiludido com a equipa russa, entrou para a equipa oficial da Peugeot e, em 1989, com um 405 T16, lutou arduamente pela vitória com Ari Vatanen, perdendo por decisão draconiana de Jean Todt, o diretor da equipa, que lançou moeda ao ar para ver quem seria o vencedor! Ickx foi 2º e, ainda mais desiludido e sedento de vingança, regressou… à Lada em 1990. Sempre com Tarin a seu lado, ganhou uma etapa e terminou em 7º lugar.
Em 1991, com um Citroën ZX Rally Raid, Ickx/Tarin chegaram a comandar a prova, mas tiveram que abandonar. Mantiveram-se na Citroën e, em 1992, agora com Dominique Lemoyne, depois de Tarin ter morrido no Rali dos Faraós, acabou em 6º.
Jacky Ickx ainda voltou ao Dakar em 1995, com um Toyota e correndo a solo. Terminou em 18º e venceu a categoria Marathon Diesel. Em 1997, inscreveu-se com a sua filha Vanina, mas problemas de saúde impediram-no de estar à partida da prova. Mas, sem desistir da ideia de fazer a prova com a filha, Jacky Ickx finalmente conseguiu-o em 2000, com um Toyota, conseguindo mais um 18º lugar.
No total, Jacky Ickx esteve por 14 vezes no Dakar, ganhou uma edição (1983) e 29 etapas, sendo o quinto neste “ranking”, que é liderado por Stephane Peterhansel, com 51 triunfos.

JACKY ICKX
Nome: Jacques Bertrand “Jacky” Icklx
Nascimento: Brussels, 1 de Janeiro de 1945 (68 anos)
GP F1 disputados: 122 (116 largadas)
1º GP F1: GP Alemanha 1966
Último GP F1: GP Estados Unidos 1979
Vitórias: 8
1ª vitória F1: GP França 1968
Última vitória F1: GP Alemanha 1972
“Pole positions”: 13
Voltas mais rápidas: 14
Pódios: 25
Pontos: 181
Marcas: Matra (1966-67); Cooper (1967); Ferrari (1968; 1970-73); Brabham (1969); McLaren (1973); Iso (1973); Lotus (1974-75); Williams (1976); Ensign (1976-78); Ligier (1979)
PALMARÉS NA F1
1966 – Matra: 1 GP; Não pontuou
1967 – Matra: 1 GP; Cooper, 2 GP; 1 ponto; 20º CM, 1 ponto
1968 – Ferrari: 9 GP; 1 vitória (GP França); 4º CM, 27 pontos
1969 – Brabham: 11 GP; 2 vitórias (GP Alemanha e Canadá); 2º CM, 37 pontos
1970 – Ferrari: 13 GP; 3 vitórias (GP Áustria, Canadá e México), 2º CM, 40 pontos
1971 – Ferrari: 11 GP, 1 vitória (GP Holanda); 4º CM, 19 pontos
1972 – Ferrari: 12 GP; 1 vitória (GP Alemanha); 4º CM, 27 pontos
1973 – Ferrari: 10 GP, 8 pontos; McLaren, 1 GP, 4 pontos; Iso, 1 GP; 9º CM, 12 pontos
1974 – Lotus: 15 GP; 10º CM, 12 pontos
1975 – Lotus: 9 GP; 16º CM, 3 pontos
1976 – Williams: 8 GP, 4 NQ; Ensign, 4 GP. Não pontuou
1977 – Ensign: 1 GP. Não pontuou
1978 – Ensign: 4 GP, 1 NQ. Não pontuou
1979 – Ligier: 8 GP; 16º CM, 3 pontos