GP da Austrália F1, Adrian Newey: “Só nos apercebemos disso em novembro”
O início da temporada está a revelar-se particularmente complicado para a Aston Martin. Durante a conferência de imprensa em Melbourne, o chefe de equipa Adrian Newey explicou em detalhe as dificuldades que a equipa enfrenta, sobretudo relacionadas com a unidade motriz fornecida pela Honda.
Problemas de vibração, limitações de componentes e falta de quilometragem estão a comprometer seriamente o trabalho da equipa neste arranque de campeonato. Mas o mais surpreendente é perceber que a equipa só reparou na dimensão do problema no final do ano passado.
As dificuldades que a Honda tem sentido no desenvolvimento deste motor devem-se em boa parte à inexperiência da sua equipa, apesar de ter fornecido até há relativamente pouco tempo um dos melhores motores da F1. Porquê? Porque o programa foi desmantelado em 2021 e neste regresso poucos foram os homens e mulheres que regressaram para este novo projeto.
Adrian Newey explicou de forma clara os problemas que a equipa enfrenta neste momento:
“Estamos a ter problemas contínuos com a bateria e tivemos uma nova falha de comunicação entre a bateria e o sistema de gestão. Mas o problema muito mais fundamental são as vibrações com que continuamos a lutar. Tentámos uma solução diferente no carro do Lance hoje. Está a ser feita uma análise neste momento para perceber se ajudou ou não e, dependendo dessa análise, vamos definir o que faremos para o TL2″.
“Com a taxa de danos que estamos a ter, é um lugar bastante assustador”
A situação tornou-se ainda mais preocupante devido à escassez de baterias disponíveis.
“Viemos para esta corrida com quatro baterias. Tivemos problemas de condicionamento ou de comunicação com duas delas e neste momento só temos duas operacionais, que são as que estão nos carros. Com a taxa de danos que estamos a ter, é um lugar bastante assustador para estar. Se perdermos uma dessas duas baterias, torna-se obviamente um grande problema, por isso temos de ser muito cuidadosos na forma como as utilizamos”.
Newey reconheceu também que as limitações impedem a equipa de compreender o comportamento real do carro.
“Estamos a fazer muito poucas voltas e isso significa que também não estamos a descobrir muito sobre o carro. A informação que temos sobre o chassis é muito limitada porque rodámos muito pouco e praticamente não fizemos voltas com pouco combustível. O combustível funciona como um amortecedor para a bateria e a Honda limitou muito a quantidade de voltas que podemos fazer com pouco combustível. Acaba por se tornar um problema que se alimenta a si próprio”.
“Sinto-me um pouco impotente”
O responsável da Aston Martin confessou mesmo sentir alguma frustração perante a situação.
“Sinto-me um pouco impotente porque temos claramente um problema muito significativo na unidade motriz. Ao mesmo tempo, estamos a gastar muita energia — no sentido humano e não no sentido de quilowatts — a trabalhar com a Honda para tentar encontrar a melhor solução possível. Podemos dizer que não é o nosso problema, mas na realidade é, porque o carro é sempre a combinação entre chassis e unidade motriz”.
Newey explicou ainda que o problema de vibrações se tornou a prioridade absoluta para o fabricante japonês.
“Há uma ação muito clara da Honda para tentar reduzir as vibrações que vêm da unidade motriz. Eles estão a trabalhar nisso, mas não vai ser uma solução rápida porque envolve projetos fundamentais de equilíbrio e amortecimento. Não posso dizer quanto tempo vai demorar, mas essa tem de ser a prioridade. Só depois disso poderão concentrar-se verdadeiramente na performance”.
O engenheiro revelou também o impacto humano que a situação está a ter dentro da equipa.
“Este problema está a sugar energia em todas as áreas. Os nossos mecânicos estiveram a trabalhar até às quatro da manhã e obviamente estão completamente exaustos. A fábrica tem dado muito apoio e precisamos realmente de resolver isto o mais rapidamente possível”.
“Só nos apercebemos realmente disso em novembro do ano passado”
Newey explicou ainda como a situação atual está relacionada com a forma como a Honda regressou à Fórmula 1.
“É importante perceber um pouco da história. A Honda saiu no final de 2021 e regressou de certa forma no final de 2022. Nesse período fora da competição, grande parte do grupo original acabou por se dispersar e muitos foram trabalhar noutras áreas, como painéis solares ou outros projetos. Quando regressaram, descobrimos que muitos dos membros originais já não estavam lá.”
Segundo o britânico, a equipa apenas percebeu a dimensão do problema no final do ano passado.
“Só nos apercebemos realmente disso em novembro do ano passado, quando o Lawrence, o Andy Cowell e eu fomos a Tóquio para discutir rumores de que a potência que tinham como objetivo para a primeira corrida não seria atingida. Foi nessa reunião que percebemos que muitos dos elementos originais da equipa já não tinham regressado. Na prática, regressaram talvez com cerca de 30% da equipa original e já numa era de teto orçamental para motores, enquanto os seus rivais tinham continuado a desenvolver com continuidade e sem essas limitações durante algum tempo”.
Em resumo
A Aston Martin enfrenta um dos arranques de temporada mais complexos do paddock. Adrian Newey deixou claro que a prioridade absoluta passa por resolver o problema de vibrações da unidade motriz Honda. O desafio é grande e não tem solução à vista, uma vez que está relacionado com os fundamentos do projeto. O facto de Newey não apontar uma janela temporal específica torna o caso ainda mais assustador. Mas o que surpreende é a forma como a Honda e a Aston Martin trabalharam até agora.
Para a Aston perceber apenas em novembro que está a trabalhar com uma equipa praticamente nova, quando pensava que teria do seu lado o know how que permitiu fazer uma das unidades motriz referência do fim da última era deve ter sido um choque. Ao mesmo tempo, pode mostrar alguma distância por parte da Aston Martin e da Honda.
Do lado da Honda, parece surpreendente ver-se envolvida em problemas similares ao que encontrou na McLaren e que motivou tanta má publicidade. A Honda tem capacidade técnica e humana para fazer excelentes motores, como já comprovou. Mas parece decidida em fazê-lo da forma mais difícil e mais desgastante.
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