GP Austrália F1: 120 ultrapassagens anunciadas. Mas quantidade não é qualidade

Por a 9 Março 2026 12:09

Quantidade não é qualidade. Estatísticas impressionantes nem sempre resultam em espetáculos memoráveis. Durante anos repetiu-se que mais ultrapassagens significariam melhores corridas. Melbourne 2026 veio mostrar que a realidade pode ser bem mais complexa.

Uma das estatísticas mais usadas para avaliar a qualidade de uma corrida é o número de ultrapassagens. E, geralmente, quanto menor esse número, menor o entusiasmo dos fãs. Ora, na primeira corrida de 2026, em Melbourne, os espetadores assistiram a um número incrivelmente elevado de ultrapassagens. Ainda assim, a sensação geral é de que poucos ficaram convencidos com esta nova Fórmula 1.

Quantidade não é qualidade

Há muito que defendemos que quantidade não é qualidade. O número de ultrapassagens não deve ser o único barómetro de avaliação de uma corrida. Já vimos provas com poucas manobras que foram absolutamente emocionantes.

A Fórmula 1 anunciou que foram realizadas 120 ultrapassagens em pista, contra as 45 do ano anterior. Trata-se de um aumento impressionante, ainda mais tendo em conta que a corrida deste ano foi disputada em piso seco, enquanto a de 2025 foi feita com asfalto molhado — condição que normalmente ajuda ao espetáculo e multiplica as oportunidades de ultrapassagem.

Mesmo assim, olhando para o resultado da Sondagem AutoSport sobre a nova F1, percebe-se que nem este número impressionante convence os leitores do lado positivo desta nova geração de carros. A conclusão é simples: o espetáculo não depende apenas das ultrapassagens. Tal como não depende apenas da velocidade pura dos carros. Uma boa corrida resulta de muitas variáveis — e essas nem sempre se conjugam ao mesmo tempo.

Quando os números enganam

Basta olhar para o exemplo da Fórmula E. A corrida com mais ultrapassagens realizou-se em Portland, onde foram contabilizadas pouco mais de 400 manobras. Ninguém assistiu verdadeiramente às 400 ultrapassagens e, apesar do número impressionante, a corrida não ficou na memória como uma das grandes provas da modalidade.

Na Fórmula 1 aconteceu algo semelhante. Em 2023 tivemos a corrida com mais ultrapassagens da história da categoria, em Zandvoort, com cerca de 180 manobras realizadas em condições mistas. Em piso seco, o GP da China de 2016, com pouco mais de 160, continua no topo. Mas será que essas corridas ficaram realmente gravadas na memória dos fãs, acima de outras que marcaram verdadeiramente a história da F1?

Philippe Nanchino/ MPS Agency.

O dilema dos regulamentos

A tarefa de quem desenha novos regulamentos é ingrata. É preciso encontrar uma fórmula que atraia novos construtores, que seja relevante do ponto de vista tecnológico e que, ao mesmo tempo, produza boas corridas. E mesmo isso não chega. É preciso compreender as ramificações dessas escolhas.

Que novos construtores querem entrar? A Audi e a Ford mostraram interesse, com a Audi a ter tido um papel importante na filosofia agora aplicada. Mas aquilo que as marcas procuram — promover determinada tecnologia ou explorar novos caminhos para o futuro — nem sempre coincide com aquilo que produz boas corridas.

E a relevância da Fórmula 1 é cada vez mais questionada. Queremos uma F1 relevante e tecnologicamente avançada ou apenas uma F1 que proporcione grandes lutas em pista? A verdade é que uma F1 sem tecnologia, sem engenheiros a encontrar novos caminhos e novas soluções, simplesmente deixaria de ser F1. Mas o espetáculo é o que prende a maioria dos fãs.

Tudo isto com um objetivo: produzir boas corridas. Mas o que define realmente uma boa corrida? Muitas ultrapassagens? Já vimos que isso não chega. Carros muito rápidos? Também já os tivemos e nem sempre garantiram grandes espetáculos.

Philippe Nanchino/ MPS Agency.

Uma nova era sob pressão

A Fórmula 1 está agora a promover a estatística que mais lhe convém para abafar as críticas. Mas a realidade é que esta nova era começa envolta em polémica, tal como aconteceu em 2014. A diferença é que, nessa altura, a F1 era acompanhada sobretudo pelos apaixonados mais resistentes. Hoje o número de fãs é incomparavelmente maior e a pressão mediática também. O que está a acontecer agora não é propriamente uma surpresa.

Philippe Nanchino/ MPS Agency.

Encontrar o equilíbrio

Pelo bem da modalidade, é fundamental que todos se sentem à mesa, sem agendas escondidas, e identifiquem aquilo que realmente não está a funcionar. É preciso perceber se esta fórmula pode evoluir ou se os problemas de base se vão manter. E, se a intenção for apostar seriamente nesta filosofia, então é preciso dizê-lo claramente aos fãs: esta pode ser apenas a primeira fase de um regulamento que ainda precisa de amadurecer. Se todos chegarem à conclusão que esta não é a melhor via, é preciso desde já encontrar soluções para o presente e o futuro.

A Fórmula 1 não precisa de reações precipitadas. Já vimos no passado como mudanças feitas à pressa raramente resultam. O que a F1 precisa é de um rumo claro. Precisa de saber o que quer ser. Precisa de preservar a sua identidade sem perder a coragem de arriscar e de evoluir tecnologicamente.

Encontrar esse equilíbrio nunca foi fácil.

Mas é precisamente por isso que existe a Fórmula 1. E é por isso que algumas das mentes mais brilhantes do mundo trabalham nesta competição.

Philippe Nanchino/ MPS Agency.

O que falta a esta F1?

O que parece faltar a esta F1 é velocidade. Muitos ficaram surpreendidos com a falta de alma dos monolugares em alguns sectores, especialmente nas retas mais longas. Ver um carro perder cerca de 50 km/h no final de uma reta, mesmo estando a fundo, vai contra tudo aquilo a que a Fórmula 1 nos habituou ao longo das últimas décadas.

A emoção perde-se na mesma medida em que as rotações descem. Alguns onboards — e fica a sensação de que tivemos menos imagens desse tipo, talvez porque a própria F1 sabe que o problema se torna particularmente evidente aí — mostraram monolugares a passar em curvas a velocidades inferiores às que, noutras eras, tornavam esses momentos verdadeiramente impressionantes.

É por isso fundamental resolver primeiro esta questão. Se regressar a perceção de carros verdadeiramente no limite, a artificialidade de algumas ultrapassagens continuará a ser tema de debate, mas poderá perder parte da sua força.

As próximas corridas na China e no Japão deverão trazer novos elementos para esta discussão. A China, em particular, poderá favorecer esta geração de carros. Mas no final desta ronda asiática, e com a mais que provável ausência das provas do Médio Oriente, a Fórmula 1 poderá ter cerca de cinco semanas para reagrupar e perceber se este caminho é realmente viável.

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2 comentários

  1. José Pereira

    9 Março, 2026 at 14:08

    a grande maioria ultrapassagens virtuais.
    O que falta a F1, é que a deixem em paz.
    Deu um passo tecnologic gigante ao adoptar combustíveis neutros avançados. Não é preciso a loucura de tanta bateria. Tem que reduzir essa dependência, porque a imagem ficou manchada

  2. Carlos812

    9 Março, 2026 at 21:35

    Eu gostei, pena não ter havido aproximações no final, ia ser lindo aquela sequência de ultrapassagens nas últimas voltas…não meixam mais, deixem estar como está

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