François Cevert: Promessa para a posteridade…

Por a 3 Janeiro 2025 11:22

É sempre lamentável um piloto perder a vida, mas essa perda é mais sentida quando esse piloto era um talento promissor e não teve oportunidade de demonstrar todas as suas potencialidades.

Também é uma pena quando se perde um piloto capaz de atrair as atenções da público geral, ainda mais numa época em que a Fórmula 1 era, como sempre, um desporto dos ricos e aristocratas, mas não dos famosos, pois o mediatismo da F1 na década de 70 não se comparava à popularidade do desporto nos dias de hoje. François Cevert era um piloto talentoso, que morreu nas vésperas da sua ‘coroação’ como herdeiro de Jackie Stewart, e era um piloto mediático, pois se a F1 atual não se cansa de exibir supermodelos e atores no seu paddock, o seu envolvimento romântico com Brigitte Bardot causou uma revolução nos bastidores da modalidade.

Albert François Cevert nasceu em 1944, numa Paris ainda sob jugo da Alemanha nazi. Uma altura perigosa para qualquer parisiense nascer, mas ainda mais quando o seu pai é um joalheiro judeu de nome Charles Goldenberg. Registado com o nome de solteira da sua mãe, Cevert e toda a sua família sobreviveram à II Guerra Mundial, e o jovem François cedo demonstrou uma aptidão para as artes, especialmente sentado ao ‘volante’… de um piano. Seria mais tarde que as teclas de marfim dariam lugar a um verdadeiro volante, embora numa primeira fase fosse apenas como ‘hobby’, que se tornou mais sério quando Cevert ganhou o Volante Shell em 1966.

Francois-Cevert-(2)

Uma vitória, uma lenda

Para os amantes das estatísticas, a carreira de François Cevert na Fórmula 1 foi pouco proveitosa, com uma única vitória no Grande Prémio dos EUA de 1971. No entanto, o seu inegável talento foi amplamente demonstrado quando, em 1968, Cevert venceu o Campeonato Francês de Fórmula 3 ao volante de um Tecno oficial. A equipa italiana promoveu-o à Fórmula 2 no ano seguinte, e foi aqui que o sorridente francês começou a atrair a atenção dos homens da disciplina máxima do desporto automóvel. Numa corrida de F2 disputada no Crystal Palace de Londres, o experiente Jackie Stewart teve problemas em ultrapassar Cevert, e imediatamente assumiu o seu papel de olheiro junto do seu patrão, Ken Tyrrell. O “tio” Ken, como era chamado, não perdeu tempo, e em 1970, após a saída de Johnny Servoz-Gavin, pôs o volante do novo chassis Tyrrell à disposição do gaulês.

Cevert rapidamente se adaptou à Fórmula 1 e ao rápido Tyrrell. Sob a tutela de Stewart e do seu “tio” Ken, o francês rapidamente aprendeu a retirar todas as potencialidades da máquina britânica, e com algumas performances mais expeditas, logo se tornou um ídolo da multidão. No Grande Prémio de Itália, Cevert tomou parte numa fulgurante batalha com Ronnie Peterson, com os dois pilotos a passarem-se mutuamente aproveitando o cone de ar um do outro. Este espectacular confonto acabou por ser prejudicial aos dois, mas a sorte esteve do lado de Cevert 28 dias mais tarde, em Watkins Glen, quando o francês conseguiu passar suster o ataque cerrado de Jacky Ickx durante 40 voltas para obter a sua primeira e, infelizmente, única vitória.

Depois de vencer algumas em outras categorias, pilotando um Matra no “Mundial” de Sport e um McLaren “batmobile” no Can-Am, Cevert tinha apenas uma missão em 1973: ajudar Jackie Stewart a conquistar o seu terceiro ceptro de Campeão do Mundo. Uma tarefa a que o combativo gaulês se entregou de alma e coração, intrometendo-se no caminho dos outros pilotos. No entanto, cedo ficou claro para Stewart que as fogosas prestações de François mostravam uma crescente superioridade do gaulês. Stewart, já com o título no bolso, iria anunciar a sua reforma após o Grande Prémio dos EUA de 1973, que Cevert deveria ganhar. Infelizmente, nos treinos, o piloto foi traído pela mesma pista que lhe dera o seu único triunfo. Contava 29 anos, e a Fórmula 1 perdeu o homem que teria sido o primeiro francês a ganhar o Campeonato do Mundo. A sua morte afectou profundamente a equipa Tyrrell, que nunca mais voltou aos seus tempos de glória.

Francois-Cevert-(4)

11 comentários

  1. Paulo Alexandre Alberto Alberto

    25 Fevereiro, 2017 at 13:22

    Esteja onde estiver, continue a ser exemplo de arrojo, coragem, dedicação e determinação, …. descanse em PAZ!!!

  2. Speedway

    25 Fevereiro, 2017 at 13:35

    É verdade. Diziam que este rapaz podia vir a ser o 1º campeão do mundo francês.
    Sim, em 1973 já era praticamente tão rápido como o grande Jackie Stewart,que foi o seu mentor. A Tyrrell era sempre obrigada a ter um piloto gaulês por causa do patrocínio chorudo da ELF, e o Cevert até terá sido o melhor deles todos. Mas se seria ou não um piloto completo,nunca ficou (infelizmente) provado.
    E nalgumas provas (dizia-se), terá recebido ordens para não atacar o chefe de fila que tinha que ganhar o titulo nesse ano.
    Em 74 ele seria chefe de fila da Tyrrell, e teria toda a primazia para visar o titulo.
    Mas com o velho modelo 006 nunca iria lá de certeza ( era um carro totalmente ultrapassado na aerodinâmica), e com o novo 007 ( um carro certinho mas sem nada de inovador) , talvez sim ou não nunca se sabe. Uma coisa foi certa; a Tyrrell nunca mais foi a mesma, e começou lentamente a decair no ranking da F1. Nunca mais teve pilotos do nível do Stewart e (talvez) do Cevert.
    Quem “fez” a Tyrrell foi basicamente o Jackie Stewart, um dos melhores pilotos da história é bom nunca esquecer.
    A Mclaren tinha um grande monolugar, espanto de fiabilidade e simplicidade, o M23, ( um pouco melhor que o Tyrrell 007 em tudo), e o grande “gestor” que era o Fittipaldi que no fim ganhou ( e bem ) o titulo nesse ano.
    E a Ferrari tinha o melhor carro em perfomance absoluta,o 312 T4, ( um carro muito inovador de aerodinâmica – carenagem integral, asa a toda a largura da frente, caixa transverrsal miniaturizada, um carro avançadissimo – a Ferrari inovava nesses tempos !), que só não ganhou o mundial porque lhe faltou fiabilidade num par de provas. E o jovem Lauda e o veterano o Regazonni eram uma grandíssima dupla.
    Portanto nada mais incerto se o Cevert ganharia o mundial esse ano. O destino não quis e a pergunta ficou sem resposta.

    • Antonio

      25 Fevereiro, 2017 at 14:56

      Convem não esquecer que em 1974,o Jody Scheckter com o Tyrrell 007,e sem a experiencia do Cevert,discutiu o titulo até á ultima prova,com o Emerson e o Clay.Portanto…

    • RedDevil

      25 Fevereiro, 2017 at 19:27

      um “comment” à sua afirmação sobre a “inovação” na Ferrari, nunca a Ferrari foi um construtor inovador, as inovações que trouxe foram mais excepção do que regra.
      Por exemplo, a Ferrari foi o último ou dos últimos construtores a adoptar as seguintes tecnologias: motor central traseiro, travões de disco, chassis monocoque em alumínio e depois em compósito, motores turbo, jantes de liga leve, suspensão activa.
      Que me lembre assim rápido, as únicas inovações relevantes que a Ferrari trouxe desde que acompanho F1 (84) foram a caixa semi-automática em 90 ou 91 e a dupla embraiagem em 99 ou 00 (esses anos são aproximados, não sei a data exacta).

      • Speedway

        25 Fevereiro, 2017 at 20:28

        Os Ferrari 312 T4 e T5 monologares de1974 e 75 do Mauro Forghieri, foram os que trouxeram a Ferrari para o topo depois de quase 10 anos de relativo apagamento.
        O carro de 1975, que foi a evolução aprimorada do carro que fez o final de 73 e todo o 74, com várias evoluções de carraçaria, é considerado talvez o melhor Ferrari de sempre, e um dos mais bonitos F1 da história.
        Ganhou os mundiais de 75 e 77 de pilotos e construtores .E só não ganhou em 74 por falta de fiabilidade e em 76 por causa do acidente do Lauda na Alemanha.
        Era um carro muito equilibrado . O modelo de 1975 era avançadissimo em aerodinâmica. Um carro muito à frente. Apresentou características que depois se tornaram universais, como a asa a toda a largura da frente e a carenagem integral. Era um carro com um layout bastante complicado como eram todos os Ferrari da época devido às contingências do 12 cilindros Boxer.
        Depois veio a revolução do efeito de solo do Chapman e a Ferrari patinou muito, porque o motor largo criava-lhes muitas interferências noçivas nos tubos Venturi. Mesmo assim ganharam em 79 com o Scheckter mas com um carro totalmente diferente . Foi um feito conseguir isso com um motor Boxer.
        Numa marca que se caracteriza realmente pelo seu conservadorismo, esses modelos foram sem dúvida uma pedrada no charco. Acho que eles deviam olhar para esses tempos e aprender que sem inovação é muito mais difícil dominar-se. Mas os tempos são outros. Se o Mauro Forghieri fosse 30 anos mais novo !

        • TAZ

          26 Fevereiro, 2017 at 20:48

          O Ferrari de 79 foi o 312 T4, em 1974 foi ainda o B3, a série T com a caixa transversal só aparece em 1975. Os motores boxer eram excelentes para baixar o centro de gravidade, só o advento do efeito de solo é que os tramou, mesmo assim como muito bem disse, o gênio de Forghieri em 1979 conseguiu contornar muito bem a falta de espaço para os tubos venturi, o T5 foi uma pequena evolução do T4, mas já não dava para acompanhar. A seguir vieram os turbos.

    • TAZ

      26 Fevereiro, 2017 at 20:20

      Só uma pequena correção, o Ferrari seria o 312 B3, o 312 T1, ou 312 T saiu em 75 mas bebou muita inspiração na última versão do 312 B3.

  3. O Verstappen comeu o Hamilton de cebolada

    17 Abril, 2020 at 16:33

    Excelente homenagem! A Formula 1, como qualquer outra modalidade do automobilismo, sempre foi um desporto em que os seus praticantes sabem que existe um certo nível de risco associado que não existe na maioria dos outros desportos.
    Para mim, todos aqueles que tombaram ao volante de um F1, serão sempre campeões.
    Este foi mais um campeão que nos deixou cedo demais!

    Cumprimentos

  4. jose melo

    17 Abril, 2020 at 18:00

    Na década de 70 em que tinha como hobby escrever cartas de 15 em 15 dias às equipas de ´F1 a pedir postais, fotos, autocolantes e tudo o que mais houvesse, a Tyrrel e a única vez que respondeu, fez o favor de enviar uma foto do Cevert (a preto e branco) devidamente autografada e que ainda hoje guardo religiosamente junto com muitas outras de pilotos da época, a maior parte falecidos.

  5. Speedway

    17 Abril, 2020 at 18:04

    Morreu por um tremendo erro dele próprio.

  6. Scirocco

    3 Janeiro, 2025 at 11:56

    Grande piloto, grande recordação. Morreu numa altura em que a Fórmula 1 era apenas sobre performance e prácticamente zero sobre segurança. As condições dessa mesma segurança das pistas, dos carros e dos equipamentos (basta olhar para as fotografias em close up da cabeça para ver o estado do capacete e a comparação com os dias de hoje). Irónico que alguns velhos do Restelo ainda falem sobre os “bons velhos tempos” e que naquele tempo é que era, como se tivesse que haver mortes ou ferimentos com sequelas profundas para definir a qualidade de um piloto.

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