FIA: A arte de complicar o que já é complicado

Por a 30 Maio 2022 12:40

Se ontem elogiamos a decisão corajosa mas, a nosso ver, acertada de adiar o arranque da corrida, temos de referir a confusão final no protesto da Ferrari, que mostra claramente que a FIA não resolveu o problema que existia na direção de corrida.

No final da prova no Mónaco, a Ferrari apresentou um protesto, alegando que os carros da Red Bull saíram de forma ilegal das boxes, por terem tocado na linha que delimita a saída das boxes, uma penalização que já vimos aplicadas no passado. Olhando para as imagens ficou relativamente claro que Max Verstappen tinha tocado na linha amarela. O protesto era assim de esperar e o terceiro lugar de Verstappen estava em risco. No final ficou tudo na mesma… a posição de Verstappen e a desconfiança em relação à FIA e ao trabalho dos comissários.

O protesto relacionado com Sérgio Pérez foi logo esquecido, pois as provas mostravam que o mexicano não tinha cometido qualquer infração. Mas no caso de Verstappen, as imagens mostravam que o campeão em título tinha de facto tocado na linha amarela. A Ferrari, seguindo as notas do diretor de corrida, apresentou o protesto. A parte relevante das notas diz o seguinte: “Em conformidade com o Capítulo 4 (Secção 5) do Apêndice L do ISC, os pilotos devem manter-se à direita da linha amarela sólida à saída das boxes quando saem das boxes e permanecer à direita desta linha até terminar após a Curva 1”.

A interpretação da Ferrari é que a linha amarela não pode ser tocada, mas a explicação dos comissários refere que as notas não estavam em conformidade com o Código Desportivo Internacional que sofreram alterações este ano. A parte relevante do CDI que foi modificada, em vez de especificar que a linha de saída das boxes “não deve ser atravessada por qualquer parte de um carro que saia das boxes”, diz “qualquer pneu de um carro que saia da pitlane não deve atravessar” a linha de saída das boxes.

Ora, ao atravessar a linha, a roda deve ficar completamente do lado esquerdo desta, o que não aconteceu. Mas isso vai contra as notas do diretor de corrida. O CDI sobrepõe-se como é evidente e por isso o protesto também caiu, mas Eduardo Freitas teve de referir que as notas do diretor foram copiadas do ano passado, sem ter em conta essa alteração.

Mais uma vez se mostra que a solução da FIA para a direção de corrida da F1 não é forte o suficiente. Eduardo Freitas tem de lidar com as preparações de Le Mans e apanhou um dos GP mais importantes do ano na sua segunda corrida ao leme da operação. Freitas é uma pessoa metódica, com atenção ao detalhe, mas precisa de uma boa equipa à sua volta e parece que essa equipa não está a funcionar bem. Mesmo o “VAR” instalado na Suíça para ajudar, não parece trazer uma mais valia clara. No fundo, passou-se de um sistema que sobrecarregava um indivíduo, para um sistema que se tornou mais complexo e que usa dois indivíduos em vez de um. Isso prejudica a adaptação ao cargo, a continuidade nas decisões e pior que isso, coloca em posição de desvantagem quem tem de estar numa posição forte para comandar. Até que ponto o sistema de rotatividade é bom para a direção de corrida da F1? Até que ponto este sistema mais complexo é funcional? Perguntas que ficam no ar. Mas a FIA precisava de ter arrumado a questão da direção de corrida de forma mais convincente. Arranjou uma solução pomposa, mas nem por isso resolveu algumas questões. E nós sabemos que há pessoas naquela sala com capacidade para fazer esse trabalho com qualidade. Freitas está habituado a trabalhar com um pelotão bem mais vasto, com mais meios e com uma complexidade igual ou superior à da F1. O trabalho que tem feito é elogiado por todos. Este tipo de lapsos… não são normais e para nós evidenciam que o sistema precisa de ser revisto e melhorado. O problema talvez nunca tenha estado nos homens do leme, mas sim no próprio leme. 

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8 comentários

  1. [email protected]

    30 Maio, 2022 at 13:00

    E quem disse que se aplicam essas regras ao Campifraude

  2. jo baue

    30 Maio, 2022 at 13:35

    Excelente texto, parabéns ! Isto é verdadeiro jornalismo. A informar, face às dúvidas e confusão dos foristas ( ver os comentários no outro artigo) que ainda não tinham percebido que a”Nota” a que todos – equipas e FIA- estavam vinculados violava a norma de valor superior que está em vigor em 2022; situação criada pela Direção da Corrida (e que a Ferrari não podia deixar passar); e a criticar de forma construtiva e imparcial.

    • [email protected]

      30 Maio, 2022 at 15:58

      Você já tinha percebido? Curioso como não disse logo. Porque quem foi ver as notas de corrida, e isto incluí os mais conceituados jornalistas deste planeta, estava convencido do contrário… Mais uma argolada da arbitragem, só que agora ao contrário do fim do ano passado seguiram a regra. Ou seja perante a visão que tinham das regras e que comunicaram às equipas erraram, posteriormente alguém se lembrou que tinha havido mudança da regra e desculparam-se com o copy-paste das instruções do ano anterior. O mínimo que se pode dizer é que houve uma absoluta falta de rigor profissional, um amadorismo gritante que não se coaduna com o alto standard que a F! pretende.

  3. AdolfoDias

    30 Maio, 2022 at 14:04

    Os regulamentos continuam a ser escritos “com os pés”.
    A lógica diria que deveria ser “qualquer pneu tem que se manter à direita da linha”. Clarinho e em conformidade com o objectivo de ter lá a linha.
    “Atravessar” é uma ambiguidade evidente. Posso interpretar que um pneu atravessa a linha quando uma qualquer parte do pneu ficar á esquerda da linha.
    A interpretação dos comissários foi mais um malabarismo linguistico para evitar admitir erros e penalizar um piloto que é protegido pela FIA, do que assente em qualquer lógica.

  4. Pity

    30 Maio, 2022 at 14:31

    Não sei se ter um director de prova, que é também director de outro tipo de provas, foi a melhor solução. Como não costumo ligar ao WEC ou Le Mans, não sei se há regras diferentes das da F1. Seja como for, antes do início da temporada, quem tem de decidir, devia passar por uma reciclagem, para evitar que pequenas alterações de texto lhes possam escapar.

  5. Pedro Vasco

    30 Maio, 2022 at 14:36

    Óbvio que a Ferrari tem razão deviam ser penalizados mas não perderam por causa disso, olhem para dentro tem o melhor carro e dois bons pilotos, organizem-se e façam as coisas bem,como a gestão de GP… Assim podemos afirma volta Masi estás perdoado, muda-se e se contimua erros grosseiros fica complicado…

  6. Scirocco

    30 Maio, 2022 at 15:49

    As regras são claras, e infelizmente para o Eduardo Freitas foi ele que fez uma má interpretação das notas pois é o regulamento que dita a lei. Não lhe correu de feição, mas foi um GP demasiado complicado para alguem com pouca experiência de F1. Penso no entanto, e a acreditar na sua autoridade no WEC, que vai estar á altura do desafio.

  7. Ma25041710

    30 Maio, 2022 at 18:36

    Tal como no desporto também aqui no “circo” os árbitros são movidos por um único interesse; o dinheiro.

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