Depois de ontem termos ficado a conhecer o calendário para 2022, que conta novamente com 23 datas, Sebastian Vettel voltou a referir um facto há muito discutido. Os calendários da F1 são demasiado extensos e o alemão pegou num argumento interessante.
“Antigamente é que era” dizem muito dos fãs que recordam com saudade as corridas do passado, numa altura em que F1 era vista em todo o mundo e era um dos grandes eventos do fim de semana, em que todos esperavam ansiosamente pelo arranque da prova. Mas essa nostalgia não deixa de ser enganadora pois a F1 evoluiu a vários níveis e fornece agora aos fãs um espetáculo com muito mais qualidade, como seria de esperar. O que temos saudades é de ver os grandes nomes em pista, o caráter forte das estrelas da época e as lutas acesas. Mas o que contribuiu para essa nostalgia foi a escassez de provas. Com calendários com 15 a 17 provas por ano, a F1 era um “bem escasso”, que acontecia poucas vezes e que por isso era apreciado de forma diferente. Hoje em dia, com 23 provas e com tanta escolha de entretenimento, a F1 torna-se mais uma escolha para o fim de semana. Vettel fez questão de frisar isso:
“Esta é apenas a minha opinião, e não vale nada, mas penso que não devemos ter tantas corridas”, disse Vettel, citado pelo autosport.com. “Por uma série de razões. Penso que uma, talvez sejam demasiadas corridas para os fãs assistirem. Já não é especial, se há tantas. E segundo, eu tenho pena [do pessoal]. Nós pilotos, estamos no lado bom das coisas: podemos chegar numa quarta-feira à noite e partir se encontrarmos um voo, num domingo à noite. Mas a equipa já tem muito mais stress. Chegaram na segunda ou sábado da semana anterior, constroem a garagem, preparam os carros, e depois também têm trabalhar o fim de semana inteiro e depois fazer as malas, enviar tudo de volta, e prepararem-se na fábrica. Para eles, é um trabalho que ocupa toda a semana e quase todos os fins-de-semana, pelo que não se tem tempo para si próprio. E penso que estamos numa época em que as pessoas estão cada vez mais conscientes de que também têm uma vida, e que a vida não pertence ao empregador. Não estou no comando e obviamente há outros interesses, mas é apenas assegurar que as pessoas tenham um equilíbrio entre a sua vida em casa e o tempo passado fora”, explicou ele. “Penso que deveria ser um número de corridas que seja sustentável para manter a paixão durante muitos anos e não ser levado à exaustão ao fim de dois ou três anos”.
Esta tendência de aumentar o número de provas é transversal a todo o desporto. Quem manda quer sempre mais eventos, pois isso implica mais retorno, mas será que isso implica também mais qualidade no espetáculo. Olhando para outros desportos, no futebol, por exemplo, já se fala em ter mundiais de futebol de dois em dois anos. Além da logística extra que isso implica para atletas e staff e a exigência da competição quase ininterrupta, perde-se a magia, pois, tal como Vettel disse, ao ser tão frequente, deixa de ser especial. E acontece o mesmo com a F1. Cada corrida é um evento único, em que os melhores do mundo se juntam para competir entre si. Se os virmos a cada fim de semana, poderá perder o brilho. Tal como uma boa série, não é o número de episódios que interessa, mas sim a qualidade da história. Com muitos episódios, a história pode se tornar entediante. É algo que, num desporto que usa agora tanto a palavra sustentabilidade, deve ser revisto no futuro.














