F1: A aposta arrojada da Ferrari na construção do motor para 2026

Por a 6 Janeiro 2026 09:37

É tempo de começar um novo regulamento e, com isso, tentar novas soluções. A Ferrari quis ser arrojada no seu plano e fez uma aposta surpreendente na construção do seu motor para esta nova era: a adoção de uma cabeça de motor em liga de aço. Numa categoria dominada há décadas pelo alumínio, esta decisão representa uma abordagem completamente diferente num momento em que o equilíbrio entre potência térmica e elétrica será redefinido.

Contexto regulamentar: a nova era híbrida

Os novos regulamentos impõem uma reformulação profunda das unidades motrizes. O conceito “Projeto 678” da Ferrari materializa essa revolução: um motor V6 turbo de 1.6 litros, alimentado por combustíveis totalmente sustentáveis, associado a um sistema híbrido em que a contribuição elétrica se aproxima da térmica.

Com cerca de 400 kW (~540 cv) provenientes do motor térmico e até 350 kW (469 cv) do MGU-K — praticamente o triplo da potência elétrica atual — a exigência sobre a eficiência térmica cresce substancialmente. A ausência do MGU-H, até aqui responsável pela recuperação de energia através do turbo, faz da combustão e da travagem os pontos principais no fornecimento e recuperação de energia.

Neste quadro, a Ferrari iniciou o desenvolvimento da cabeça de motor em aço com antecedência, beneficiando de meses adicionais de testes no dinamómetro de Maranello. O desempenho demonstrado em testes de durabilidade e a integração com o conceito global da unidade motriz levaram à aprovação definitiva da cabeça de cilindro em liga de aço, desenvolvida em colaboração com a especialista austríaca AVL.​

A solução técnica: uma liga reforçada para resistir ao limite

Segundo várias fontes, incluindo o motorsport.it, nova cabeça de cilindro é fabricada numa liga especial de aço combinada com cobre e cerâmica — uma composição que, até onde se sabe, não tem precedente conhecido em F1. O projeto foi liderado por Davide Mazzoni e contou com o contributo decisivo de Guido Di Paola, responsáveis pela arquitetura do motor de combustão interna, sob a direção de Enrico Gualtieri. A parceria com a AVL foi essencial para superar os desafios de durabilidade que quase levaram ao abandono do conceito em fases iniciais de desenvolvimento.​

Apesar da saída dos engenheiros Wolf Zimmermann e Lars Schmidt para a Audi no verão de 2025 — ambos figuras‑chave no desenvolvimento inicial do motor de 2026 — o projeto manteve-se sólido e em continuidade em Maranello.

Vantagens técnicas: onde o aço supera o alumínio

A escolha desta liga é suportada em conceitos que podem, de facto, fazer a diferença ao nível da performance. O aço oferece resistência mecânica superior ao alumínio, suportando pressões e temperaturas de combustão mais elevadas, algo particularmente relevante num contexto em que se explora o limite da eficiência térmica. A menor sensibilidade do conceito ao peso — com um peso mínimo regulamentar da unidade motriz na ordem dos 150 kg — reduz a penalização de optar por um material mais denso na cabeça de cilindro.

Enquanto o alumínio dissipa rapidamente o calor, o aço tende a reter mais energia térmica na câmara de combustão, elevando a temperatura dos gases e favorecendo a eficiência térmica quando bem controlado. Estudos de redução de perdas de arrefecimento mostram que um maior isolamento térmico da câmara pode aumentar o trabalho útil no pistão e a eficiência global do ciclo.

A menor expansão térmica do aço traduz‑se em tolerâncias dimensionais mais estáveis sob altas temperaturas, um fator estratégico quando as taxas de compressão são rigidamente controladas pela FIA.

A controvérsia da compressão: o aço como resposta

A redução regulamentar da taxa de compressão máxima para 16:1 em 2026 gerou polémica, com relatos de que Mercedes e Red Bull Powertrains exploram a expansão térmica de componentes em alumínio para obter taxas efetivas mais elevadas em regime de funcionamento, partindo de uma medição regulamentar feita a temperatura ambiente.

A Ferrari, por sua vez, parece apostar numa abordagem inversa: preservar dimensões mais estáveis através do uso de aço, maximizando pressões de combustão de forma consistente sem depender de dilatações térmicas como parte do “truque”. Esta solução revela uma filosofia de engenharia distinta, assente na estabilidade dimensional e na robustez material em vez de tirar partido extremo da expansão térmica.

Desvantagens e desafios: gestão térmica no limite

A penalização de peso é o primeiro obstáculo óbvio — comparações típicas entre cabeças em alumínio e ferro/aço em motores de alta performance apontam para diferenças na ordem dos 18–27 kg, dependendo da arquitetura, o que dá uma ideia da ordem de grandeza do acréscimo potencial. No contexto de um peso mínimo regulamentar elevado para a unidade motriz, este compromisso torna‑se mais aceitável.​

Mais delicado é o problema da dissipação de calor: o alumínio é significativamente superior ao aço em condutividade térmica, o que significa que o aço conduz menos energia térmica para o sistema de arrefecimento, exigindo soluções mais inteligentes de arrefecimento. Indicações vindas de Maranello referidas por várias fontes, apontam para um conceito que combina canais internos de arrefecimento otimizados com radiadores de menor dimensão, permitindo reduzir a massa radiadora e melhorar simultaneamente o packaging e a eficiência aerodinâmica.​

Permanece o risco de pré‑ignição e detonação, inerente a temperaturas mais elevadas na câmara de combustão. Temperaturas excessivas na cabeça e nos pontos quentes da câmara aumentam a probabilidade de auto‑ignição da mistura e de fenómenos de knock, que podem levar a falhas graves se não forem rigorosamente controlados. É uma aposta calculada: o ganho potencial em eficiência térmica e potência precisa de ser equilibrado com margens de fiabilidade muito estreitas.

O alumínio continua a ser a norma na F1: leve, relativamente fácil de maquinar e excelente para dissipar calor, além de permitir taxas de compressão elevadas com boa resistência à detonação em configurações convencionais. Contudo, com a redefinição das prioridades para 2026 — maior ênfase na eficiência energética e menor penalização direta de peso ao nível da unidade motriz — abre‑se espaço para o aço como aposta de desempenho puro em regimes de fronteira.

Implicações aerodinâmicas e estratégia de projeto

Ao adotar esta solução, a Ferrari oferece aos seus engenheiros aerodinâmicos, novas possibilidades de otimização. Uma unidade motriz concebida para operar com radiadores menores e um conjunto térmico mais compacto facilita sidepods mais estreitos e uma traseira mais limpa, com impacto direto na redução de arrasto e na qualidade do fluxo para a asa traseira e difusor.​​

Conclusão: inovação ou aposta demasiado arriscada?

A Scuderia optou por desafiar os padrões em nome de ganhos de eficiência térmica, estabilidade dimensional e potencial aerodinâmico, e não apenas de potência de pico.

Se a cabeça em aço permitir maior eficiência térmica, operação estável a pressões de combustão extremas e um pacote aerodinâmico mais eficaz, os italianos poderão ter descoberto uma vantagem substancial na nova era híbrida. No entanto, o verdadeiro veredito só virá quando os carros entrarem em pista: os testes de Barcelona e o início da época serão o primeiro julgamento público deste conceito ousado.

Fotos: Redes sociais Ferrari

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1 comentários

  1. Pity

    6 Janeiro, 2026 at 18:50

    “Quem não arrisca, não petisca”, lá diz o ditado. A Ferrari tanto pode ter “descoberto a pólvora”, como acontecer-lhe como à Mercedes com o zeropod.
    Para bem da F1 e, principalmente de Leclerc e Hamilton, espero que a Ferrari tenha acertado. Já é tempo.
    Aproveitando que ainda não há carros em pista, portanto ninguém sabe quem estará melhor, vou deixar aqui os meus desejos para este ano. Espero que o campeonato tenha, no mínimo, cinco candidatos ao título: os dois McLaren, os dois Ferrari e Russell. Como Norris é o campeão em título, o que me deixou feliz, digo, desde já, que ficarei igualmente feliz se o campeão de 2026 for um dos outros quatro.

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