F1: 2014 vs 2026 – duas eras com arranques bem distintos
2026 marca o início de uma nova era na F1. Considerada por muitos a maior mudança regulamentar de sempre, esta temporada é agora encarada com mais entusiasmo, ainda que tenha sido olhada de lado durante muito tempo. A primeira semana em pista, no Circuito de Barcelona, deu-nos o primeiro vislumbre do que esta era pode dar e os primeiros sinais são positivos.
Comparar eras diferentes é frequentemente um exercício perigoso e injusto, pois os contextos nunca são exatamente os mesmos. Mas vale a pena olhar para o que foi a primeira semana de 2014 e comparar com a primeira semana de Barcelona, 12 anos depois.
2014 – o desastre
2014 marcou o arranque da era híbrida na F1. No momento em que o mundo automóvel começava a olhar mais seriamente para a eletrificação, as equipas e os construtores foram desafiados a criar uma das maravilhas da engenharia: o V6 turbo híbrido, equipado com o MGU-K, unidade de recuperação de energia cinética, semelhante ao KERS que vinha a ser usado de 2009 a 2013. A grande evolução desse motor, que passaria a ser designado de unidade motriz, conjugando o esforço do motor térmico e da componente elétrica, era o MGU-H, que aproveitava a energia térmica desperdiçada, transformando-a em energia elétrica. Foi o componente que mais dores de cabeça provocou e que encareceu de forma dramática o desenvolvimento destas unidades.
A complexidade fez com que os primeiros passos fossem tímidos e titubeantes. E talvez por isso estes motores nunca foram verdadeiramente apreciados. Para ajudar ainda mais ao descontentamento, tivemos alguns dos carros mais feios da história da F1, com várias equipas a optarem por um conceito “fálico” para os narizes dos seus monolugares. Ou seja, motores complexos, pouco fiáveis e carros feios. 2014 deveria ter sido um ano de celebração da tecnologia e da engenharia, mas acabou por ser o primeiro ano de uma era em que a Mercedes se destacou e criou uma hegemonia que rendeu oito títulos de construtores consecutivos.
That's a wrap on Barcelona Shakedown 🙌#F1 pic.twitter.com/CBg4ltUIUL
— Formula 1 (@F1) January 30, 2026
2026 – Um começo mais auspicioso
2026 é também marcado pelo arranque de uma nova era. Ainda no mundo das unidades motrizes híbridas, mas com uma F1 muito mais inteligente na sua abordagem. A competição, graças à entrada da Liberty, aprendeu que para o desporto florescer precisa de gerar dinheiro e, para isso, as equipas e os construtores precisam de limites nos gastos. E para ajudar nesse capítulo, optou-se pela via da simplificação. O MGU-H foi dispensado e o desafio passou a ser a maior preponderância da componente elétrica. Desafios igualmente exigentes, mas relativamente mais simples de resolver de forma astuta e menos onerosa.
Para complementar, a F1 entrou agora na era da aerodinâmica ativa, com as asas dianteiras e traseiras a moverem-se para permitir maior ou menor apoio aerodinâmico e, por conseguinte, maior ou menor arrasto. Mais simples do ponto de vista da mecânica, mais exigente do ponto de vista da gestão de energia, esta nova era vem alicerçada num regulamento pensado para evitar novas hegemonias e para permitir um plano competitivo equilibrado para todos. Uma F1 pensada não só para os entusiastas da tecnologia, mas, acima de tudo, para os fãs das corridas, especialmente os mais novos, que se interessam mais pela emoção viva das lutas em pista e dos dramas no paddock.
Duas eras diferentes, com exigências distintas, mas com um ponto em comum: a mudança profunda. E é exatamente no ponto da mudança que nos vamos centrar. A F1 em 2014 mudou radicalmente, tal como este ano. E, por isso, comparamos o que foi feito nas primeiras semanas de cada ano.
Golden hour in Barcelona 🌅
Concluding the fifth and final day of Shakedown Week ✔️#F1 pic.twitter.com/30QCxnq3la
— Formula 1 (@F1) January 30, 2026
Os números
A grande complexidade das unidades motrizes híbridas levou a que a primeira semana de 2014 tenha sido penosa para equipas e fãs. A fiabilidade foi o tema forte… ou melhor, a falta dela. E os números (apesar de aproximados, por não haver referências oficiais de 2026) refletem bem essa realidade:
Jerez 2014 vs Barcelona 2026
| Jerez 2014 | Barcelona 2026 | Diferença | |
|---|---|---|---|
| Duração | 4 dias (28–31 Jan) | 5 dias (26–30 Jan)* | +1 dia |
| Total de voltas | 1,470 voltas | aprox. 3,059 voltas | +1,589 (+~108%) |
| Total quilómetros | 6,509 km | (cerca de 14.000 km, estimativa) | aprox. mais 7500 km percorridos |
| Equipas presentes | 10 de 11 (Lotus ausente) | 10 de 11 (Williams ausente) | Igual |
* Em 2026, o regulamento limitou cada equipa a apenas 3 dias de pista dos 5 disponíveis, o que significa que, efetivamente, cada equipa teve menos dias de rodagem do que em 2014.
No primeiro dia de testes em Jerez, todas as equipas juntas completaram apenas 91 voltas, um número historicamente baixo. Kimi Räikkönen foi o mais ativo, mas somou apenas 31 voltas, mais de um terço do total.
O panorama não melhorou substancialmente no balanço global da semana. Em quatro dias, Jerez 2014 acumulou 1.470 voltas, contra as 3.531 (15,634 km) de 2013. Ainda assim, registou-se uma progressão gradual ao longo dos dias: 91 voltas no primeiro dia, cerca de 330 no segundo, aproximadamente 350 no terceiro e 688 no quarto, sendo este último valor um dado oficial e representando quase metade da distância total da semana.
Em contraste, os testes de Barcelona em 2026 evidenciaram níveis de robustez muito superiores, apesar de uma mudança regulamentar de dimensão comparável. Só a Mercedes completou cerca de 500 voltas em três dias, percorrendo aproximadamente 2.300 quilómetros, enquanto George Russell somou individualmente 265 voltas.
Os problemas registados foram pontuais e, em vários casos, não relacionados com falhas técnicas estruturais. A Red Bull perdeu tempo após um despiste de Isack Hadjar à chuva, a Aston Martin começou tarde o programa, numa opção deliberada, esticando ao máximo o desenvolvimento do chassis e a Audi enfrentou dificuldades iniciais na unidade motriz, embora tenha mostrado progressos claros na fase final dos testes.
12 years on from when the world first met our 2014 championship-winning @F1 car 🩶
W05 won 16 of 19 races and both Drivers' and Constructors' titles in the first season of the previous hybrid era 🏆 pic.twitter.com/NnNSYonJ4d
— Mercedes-AMG PETRONAS F1 Team (@MercedesAMGF1) January 28, 2026
Voltas por fabricante
A F1 começou 2014 com apenas três fabricantes e com números modestos, comparativamente a 2026, que conta com cinco construtores de motores. Os valores abaixo para motores de 2026 são uma leitura aproximada dos dados que foram chegando de Espanha, motivado pela exigência da F1 em tornar os testes o mais privado possível. Usamos o número de voltas fornecido pela SoyMotor nos testes de Barcelona 2026.
Jerez 2014
| Fabricante | Voltas | % do total |
|---|---|---|
| Mercedes | 875 | 59,5% |
| Ferrari | 444 | 30,2% |
| Renault | 151 | 10,3% |
Barcelona 2026 (dados aproximados)
| Fabricante | Voltas | % do total |
|---|---|---|
| Mercedes | 1.134 | 37,1% |
| Ferrari | 991 | 32,4% |
| RBPT Ford | 624 | 20,4% |
| Audi | 240 | 7,9% |
| Honda | 66 | 2,2% |
Comparação de tempos
Dada a inutilidade de comparação direta de tempos entre as duas eras, torna-se interessante comparar as diferenças em relação aos anos anteriores, entendendo o quanto os carros perderam – ou não.
Em Jerez 2014, o registo mais rápido da semana pertenceu a Kevin Magnussen ao volante da McLaren equipada com motor Mercedes, com 1:23,276 no terceiro dia. Seguiram-se Felipe Massa, pela Williams (motor Mercedes), com 1:23,700, e Lewis Hamilton, na Mercedes, com 1:23,952.
Just going for a few laps in the SF-26 😏 pic.twitter.com/gvXV5w9buZ
— Scuderia Ferrari HP (@ScuderiaFerrari) January 30, 2026
Estes valores contrastaram fortemente com os de 2013, na mesma pista, quando Massa tinha sido o mais rápido com 1:17,879 pela Ferrari — uma diferença de 5,397 segundos, sublinhando o impacto da nova era híbrida. A quebra de performance explicava-se por vários fatores: redução inicial da potência total, menor carga aerodinâmica, aumento de peso mínimo e a curva de aprendizagem associada aos sistemas híbridos então introduzidos.
Doze anos depois, em Barcelona 2026, o cenário foi bastante diferente. Hamilton, agora pela Ferrari, assinou 1:16,348 no quinto dia, enquanto George Russell registou 1:16,445 com a Mercedes no quarto e Lando Norris marcou 1:16,594 com a McLaren também no quinto dia.
Quando comparados com as referências de 2025 em Barcelona, estes tempos mostram que a nova geração surgiu logo muito próxima dos ritmos consolidados da era anterior. A melhor volta do GP de Espanha 2025 foi de 1:15.743, com a pole a ficar no 1:11.546.
Fiabilidade: síntese numérica
| Jerez 2014 | Barcelona 2026* | |
|---|---|---|
| Fiabilidade média | 368 voltas por dia | ~612 voltas por dia |
| Total de voltas | 1,470 em 4 dias | 3,059 em 5 dias** |
| Equipa com mais voltas | Mercedes: 309 | Mercedes: 502 |
| Piloto com mais voltas | Rosberg: 188 | Russell: 265 |
* Média feita aos cinco dias de shakedown; cada equipa pôde rodar apenas em 3 dias.
** Cada equipa apenas testou em três dos cinco dias de teste, o que torna o volume total ainda mais impressionante.
Comparar o arranque das duas eras permite chegar a algumas conclusões interessantes: as equipas souberam preparar-se melhor para os desafios; a simplificação técnica permitiu que os construtores estreantes chegassem e apresentassem níveis muito aceitáveis de fiabilidade; e a Mercedes começou 2026 um pouco à imagem de 2014: a dominar, com um piloto Mercedes a fazer mais voltas. Curiosamente, em 2014 era a unidade motriz Ferrari a mostrar sinais de que se poderia aproximar da Mercedes, o que parece ser também o caso em 2026.
A maior evidência é que esta nova era começa bem mais interessante e saudável. Carros mais bonitos, motores mais fiáveis, entusiasmo crescente. Ainda não vimos a verdadeira performance das novas máquinas e aí, sim, poderemos entender se alguém se vai destacar nesta temporada, mas os primeiros sinais são animadores.
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