Eddie Jordan: “não sei de que corrida é que estás a falar, não me lembro de nada disso. Obrigado e até à próxima!”


São raros os patrões de equipas de Fórmula 1 que não fizeram, na sua juventude, uma passagem pelo volante, antes de chegarem à conclusão que, afinal, tinham mesmo era talento para outras áreas do desporto automóvel que não a pilotagem. Mesmo assim, não falta quem tivesse dado nas vistas nos escalões menores do automobilismo e Eddie Jordan foi um exemplo disso mesmo.

Mesmo sendo um país pequeno e com pouco potencial económico, a Irlanda tinha uma enorme tradição no automobilismo e não foi, por isso, muito difícil a Eddie Jordan começar a interessar-se pela competição automóvel, mesmo se o seu primeiro amor foi o golfe.
Mas, com os pés bem assentes no chão, Eddie Jordan estudou, começou a trabalhar num banco e, enquanto sonhava com altos voos no golfe, acabou por encontrar a sua verdadeira paixão completamente por acaso: “Um primo meu convidou-me para ir com ele fazer uma corrida de karting e foi tiro e queda! Fiquei apaixonadíssimo pelo automobilismo e daí para a frente só pensei na melhor maneira de começar a correr. Fiz mais algumas corridas de kart, mas com a idade que eu tinha o melhor era passar para os automóveis o mais depressa possível.
Comprei um Fórmula Ford aos 21 anos – meu Deus, hoje em dia temos miúdos a correr na Fórmula 1 com essa idade! – mas a concorrência era danada, porque naquela altura os melhores pilotos estavam na Irlanda, não na Inglaterra. No meu segundo ano de competição comecei a ganhar corridas, mas isso acontecia com maior facilidade em Inglaterra do que na Irlanda e, naturalmente, comecei a correr mais em Inglaterra do que no meu país, pois queria ganhar o máximo de corridas possíveis, porque não tinha tempo a perder.”
Numa altura em que a oposição dava pelos nomes de Derek Daly, Kenny Acheson e outros, e com poucos campeonatos disputados na Irlanda, Jordan mudou-se mesmo para Inglaterra… mas rapidamente achou que o melhor era, também, mudar de categoria: “Quando fiz 24 anos, não tinha sentido continuar na Fórmula Ford e, por isso, decidi correr na Fórmula Atlantic, que era muito popular naquela altura.
Comprei um March 742B, que tinha sido do Alan Jones no ano anterior, e fiz uma primeira temporada com bons resultados. Depois, comprei um Chevron B29 e ganhei o campeonato, já com a ajuda da Marlboro irlandesa, que me começara a apoiar ainda nos tempos da Fórmula Ford. Falei no Alan Jones, mas passaram pela Fórmula Atlantic outros pilotos que chegaram ao topo, o que quer dizer que era uma categoria muito competitiva. Tinha a vantagem, no entanto, de ser possível a um piloto privado comprar um carro em segunda mão e, mesmo assim, andar entre os primeiros, porque dos carros novos para os velhos as diferenças não eram muito grandes. E fazia-se Fórmula Atlantic – que se disputava com Fórmulas 2 modificados – praticamente pelo mesmo preço necessário para fazer uma temporada de Fórmula 3.”
Só que os dias de glória da Fórmula Atlantic estavam a acabar e, por isso, Eddie Jordan não teve mesmo outra alternativa senão seguir a moda e correr na Fórmula 3 inglesa: “A Phillip Morris insistiu muito comigo para eu passar para a Fórmula 3 e foi isso que eu tive de fazer em 1978 e 1979, correndo contra pilotos como o Piquet, Warwick, Chico Serra, os irmãos Fabi, Prost, Mansell e outros. A Marlboro holandesa patrocinava uma equipa com três grandes “malucos” – Lammers, Luyendick e Bleekemolen – mas também lá andavam o Kenny Acheson, Jonathan Palmer, Andrea de Cesaris, Mike Thackwell, o pobre Winkelhock, Boutsen, Pirro, Alliot e o meu bom amigo Michele Alboreto.
No meio desta gente toda, lá andava eu, e não me defendia nada mal. Foi nessa altura que conheci um rapaz americano, que também corria na Chevron e de quem fiquei bastante amigo. Chamava-se Bobby Rahal e o facto de no conhecermos bem há 23 anos quer dizer que, agora, somos mesmo velhos!!!”
Contra pilotos dez anos mais novos do que ele, Eddie Jordan conseguiu, mesmo assim, chegar aos dez primeiros do Campeonato inglês, ganho por Johansson, mas já estava mesmo a pensar mudar de carreira: “Tinha 30 anos e ainda estava na Fórmula 3, pelo que lá convenci a Marlboro a pagar-me algumas corridas de Fórmula 2 no final da temporada, na tentativa de conseguir resultados que me dessem entrada para a Fórmula 1. Fiz mesmo um teste com um McLaren M29, pois o nosso patrocinador era o mesmo, mas a minha carreira nos monolugares estava acabada e decidi enveredar por outra via.”
Foi nessa altura que Jordan teve a possibilidade de correr em Sport-Protótipos: “Em 1980 fui contratado por uma equipa privada para fazer provas de resistência com um velho Porsche 908 e ganhei algum dinheiro com isso, tanto nesse ano como em 1981. Mas aos 31 anos, com mulher, um primeiro filho, e sem dinheiro, achei que o tempo de me divertir tinha acabado e era chegado o momento de começar a pensar no futuro.
É claro que eu achava que tinha tanto talento como o Nigel Mansell, mas eu era bem mais velho, irlandês e sem grandes conhecimentos, pois mesmo a Marlboro não estava super-interessada em levar-me para a Fórmula 1, porque tinham lá o John Watson.”
O caminho a seguir, já se sabe, foi o da gestão de equipas: “Quando eu ainda estava na Fórmula 3, corri para a Derek McMahon Racing e, infelizmente, o Derek adoeceu e não pôde continuar a gerir a equipa. Comprei toda a estrutura, mudei-lhe o nome e, por isso, quando fui correr com o 908 já tinha um negócio a funcionar com planos para o futuro.”
Estava a carreira de Jordan na Fórmula 1 já em pleno andamento, quando a Porsche o convidou para correr em Magny-Cours, na Supercup, com o mesmo carro com que Hakkinen ganhara no Mónaco: “Pois, estava com esperanças que te tivesses esquecido disso! Aceitei o convite mas não fazia a mínima ideia de que os carros eram super-difíceis de pilotar. E os alemães ‘esqueceram-se’ de me dizer que tinham uma câmara apontada à minha cara. Por isso, enquanto eu morria de calor e de cansaço, vocês estavam a rir-se que nem uns perdidos, vendo a corrida sentadinhos na sala de imprensa, com ar condicionado e tudo. Então, a conversa é assim: não sei de que corrida é que estás a falar, não me lembro de nada disso e, por isso, essa corrida nunca aconteceu. Obrigado e até à próxima!” LV