O que é preciso provar para ser considerado o melhor? Como se deve conquistar o sucesso para ser respeitado? Questões que, aparentemente não têm respota.
Ronnie O’Sullivan, jogador profissional de snooker e seis vezes campeão do mundo, comentou as conquistas de Lewis Hamilton, num tom de algum menosprezo:
“Se ele tem um carro que está um segundo por volta mais rápido do que os outros carros, em teoria tudo o que ele tem a derrotar é seu companheiro de equipa, Bottas – que parece estar confortável e feliz sendo o segundo piloto da equipa. Não me sentiria tão bem com a minha carreira no snooker se estivesse a jogar numa mesa se os buracos que estava a usar fossem maiores do que os do meu adversário.”
Será possível alguém ser unanimemente o melhor? Vale a pena alimentar esta conversa tão falada, mas que raramente traz uma resposta? Nem por isso. Basta olhar para o exemplo de Hamilton. É verdade que tem tido o melhor carro do grid, é verdade que está na melhor equipa da atualidade. Mas uma equipa com esta qualidade não quereria mais ninguém a não ser o melhor, e talvez por isso Hamilton é a peça fundamental da engrenagem. A qualidade do britânico está acima de toda a dúvida e quando saiu da McLaren tinha 21 vitórias e um título no seu CV, números já bastante apreciáveis. Na Mercedes encontrou o lugar certo para evoluir, mas foi graças ao seu talento que mereceu a confiança de Niki Lauda que o convenceu a ir para aos Flechas de Prata. Desde então tem estado constantemente a um nível que poucos conseguem alcançar. Apenas Rosberg foi capaz de o fazer, mas fê-lo por um ano apenas e depois retirou-se. Todos os que conhecem Bottas dirão que é um excelente piloto, mas tem estado a milhas de mostrar que pode bater o pé ao #44.
Para ser um campeão ao nível do de Hamilton é preciso ter um talento imenso e uma força mental tremenda. É preciso ter um foco brutal, uma disciplina a toda a prova, para enfrentar épocas de 20 corridas ou mais e cometer poucos erros (ou nenhuns). E fazer isso anos a fio.
A tarefa do piloto de F1 será sempre ingrata e talvez das mais únicas no mundo do desporto. É um desporto de equipa e para se mostrar valor é preciso ter uma boa equipa, mas na hora H, toda a pressão e as atenções estão viradas para o piloto. O peso de uma organização de centenas de pessoas nos ombros de um homem apenas, que no fim pode sentir que deu tudo, mas por ter um carro que não dava para mais fica com as migalhas, ou sem nada se fatores fora do seu controlo entrarem em cena. Encarar tudo isto, toda esta pressão e vencer, não está ao alcance de qualquer um.
E serve o acima escrito para todos os que são considerados dos melhores de sempre. Senna, Schumacher, Fangio…Todos eles enfrentaram desafios que exigiram deles o melhor e por serem os melhores foram para as melhores equipas e destacaram-se. Mas nenhum deles atingirá a unanimidade. Por cada voz a favor haverá uma contra, por um motivo muito simples… a paixão. Por isso o tema do melhor de sempre, seja em que competição for resultará num inevitavelmente num mar de incertezas, pois para além da diferença nas eras, há também a forma como o adepto vê e essa visão será sempre afetada pela sua paixão.
Mas uma coisa pode ser dita sem dúvida. Que todos os grandes campeões tiveram grandes máquinas, mas ao contrário do que possa parecer, nenhum deles fumou um charuto dentro do carro, pois a exigência é máxima. Pode parecer fácil, mas a arte dos melhores é fazer-nos acreditar que o que fazem é simples, quando está de facto ao alcance de muito poucos. Como pilotar um carro com pneus desfeitos em condições miseráveis e vencer, ou fazer um 147 no snooker em cinco minutos e 20 segundos. Quem vê pode sentir-se tentado a dizer “eu era capaz de o fazer”. Quem o faz sabe bem o trabalho que foi preciso para chegar ali.












