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OPINIÃO: Encurtar todos os ralis seria cortar com o ADN do WRC

José Luis Abreu by José Luis Abreu
11 Outubro, 2026
in Destaque Homepage, Newsletter, Ralis
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OPINIÃO: Encurtar todos os ralis seria cortar com o ADN do WRC

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Transformar progressivamente todas as provas do Campeonato do Mundo de Ralis em eventos compactos pode facilitar as transmissões televisivas, reduzir custos e aproximar novos públicos, mas retiraria ao WRC uma parte essencial da sua identidade. A solução não passa por rejeitar os formatos mais curtos, mas por impedir que estes se tornem uma fórmula única aplicada a um campeonato cuja principal riqueza sempre foi a diversidade.

A entrada da Cosmobilis e da Park Square Capital, que adquiriram os direitos comerciais do WRC e do Europeu de Ralis, abriu uma nova fase na promoção da modalidade. Éric Boullier, nomeado diretor executivo do promotor, estabeleceu como prioridades o crescimento da audiência, o reforço da presença digital e a melhoria da experiência dos adeptos.

Essa modernização é necessária. O problema surgirá se a tentativa de tornar o WRC mais simples de acompanhar levar à uniformização dos ralis, reduzindo diferenças que não são meramente geográficas ou visuais. Ao contrário das competições disputadas em circuitos permanentes, o Mundial construiu-se sobre provas com duração, condições, pisos, ritmos e exigências próprias.

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A diversidade faz parte da competição
O WRC nasceu em 1973 com 13 provas de grande extensão, concebidas como testes aos pilotos, navegadores e automóveis. Monte Carlo, Suécia, Portugal, Safari, Acrópole, Tour de Corse e RAC integravam ou ajudaram a definir essa primeira fase do campeonato.

A identidade do Mundial não resulta apenas da existência de asfalto, terra, neve e gelo. Está também na forma como cada rali obriga as equipas a resolver problemas diferentes. Monte Carlo exige decisões sobre pneus perante mudanças frequentes de aderência; a Suécia depende da utilização dos pregos no gelo e na neve; Portugal sempre encarnou a paixão visceral de um “mar humano” que se abria a centímetros dos carros, contrastando com a dureza implacável dos pisos de terra rochosa, a Acrópole junta temperaturas elevadas a troços de pedra agressiva; o Safari acrescenta distância, terreno degradado e imprevisibilidade.
A Finlândia assenta na velocidade e na precisão sobre lombas e saltos. O antigo RAC construiu a sua reputação nas florestas britânicas, com chuva, nevoeiro e lama, e o Tour de Corse tornou-se uma referência pela sucessão de curvas em estradas de montanha.

Estas diferenças não são acessórios promocionais. São parte integrante da seleção desportiva. O próprio WRC apresenta o campeonato como um teste à capacidade dos pilotos, navegadores e máquinas para responderem a terrenos e condições em permanente mudança, das florestas cobertas de neve às estradas montanhosas com temperaturas elevadas.

Se todas as provas passarem a ter uma duração semelhante, percursos muito compactos e estruturas desenhadas prioritariamente para a transmissão, continuarão a existir diferenças de piso. Poderá, contudo, desaparecer uma parte importante da exigência: a gestão prolongada do esforço, da mecânica, dos pneus e das alterações do terreno.

Um rali não é apenas velocidade
Um formato mais curto tende a concentrar a competição na velocidade imediata. Essa abordagem pode funcionar particularmente bem em provas como a Estónia e a Finlândia, onde as diferenças são reduzidas e o ritmo elevado favorece um programa intenso.

A Estónia experimentou em 2026 um modelo disputado em pouco mais de 48 horas. O programa começou desportivamente na sexta-feira e terminou no domingo, mantendo cerca de 300 quilómetros cronometrados. A organização defendeu que a solução permitiu reduzir custos laborais para as equipas sem comprometer a dimensão competitiva do evento.

O promotor pretende igualmente desenvolver o conceito de um único troço repetido ao domingo. A concentração da ação facilita a realização televisiva, o transporte de espectadores e a criação de um desfecho mais simples de compreender para quem não acompanha regularmente a modalidade.

Nada disso representa, por si só, uma ameaça ao WRC. O risco está na generalização. Um formato adequado às estradas rápidas da Estónia não serve necessariamente Monte Carlo, a Acrópole ou o Safari. Encurtar indiscriminadamente estas provas significaria eliminar parte das condições que as tornam diferentes.

No Safari, por exemplo, a distância e a capacidade de sobrevivência fazem parte do desafio. Na Acrópole, o calor e as pedras pontiagudas colocam pneus e componentes sob pressão constante; em 2026, a apresentação oficial da prova voltou a destacar temperaturas superiores a 40 graus e o risco causado pelas rochas. Reduzir estes ralis a uma sucessão breve de troços retiraria peso à resistência, aproximando-os de eventos de velocidade pura.

A duração também produz incerteza
Os ralis longos permitem que a competição evolua. O piso degrada-se, as condições meteorológicas alteram-se, os pneus perdem rendimento e os automóveis acumulam desgaste. Pilotos e navegadores precisam de adaptar o andamento, interpretar mudanças e decidir quando atacar ou proteger o equipamento.

Essa dimensão distingue os ralis de outras modalidades. A vitória não depende apenas de ser o mais rápido em condições estáveis, mas de continuar competitivo quando essas condições deixam de ser previsíveis.

Ao comprimir todas as provas, diminui-se o espaço para essa gestão. Os concorrentes passam a atacar durante períodos mais curtos, a fiabilidade perde influência e os acontecimentos têm menos tempo para alterar a classificação. O espetáculo pode ganhar intensidade imediata, mas perde complexidade.

Há também uma consequência editorial. O WRC precisa de ser mais fácil de seguir, mas não deve confundir simplificação da transmissão com simplificação do desporto. A tecnologia e os modelos de cobertura têm de encontrar formas de explicar os ralis; não devem obrigar os ralis a tornarem-se outra modalidade para caberem num produto televisivo uniforme.

Modernizar sem uniformizar
A defesa dos ralis tradicionais não exige um regresso integral aos programas de vários dias e às distâncias do passado. O próprio campeonato começou a tornar as provas mais compactas durante a década de 1990, abandonando progressivamente os formatos de maratona. Os custos, a sustentabilidade, a segurança, a disponibilidade das equipas e os hábitos do público tornam inviável uma recuperação literal dessa época.

Também não existe razão para manter todos os eventos com quatro dias. Um calendário moderno pode incluir ralis de 48 horas, provas de três dias, eventos mais longos e formatos especiais. Essa variedade seria mais coerente com a história do WRC do que a aplicação da mesma estrutura a todas as organizações.

A própria posição pública de Boullier é mais prudente do que a ideia de uma redução generalizada. O responsável afirmou que não pretende encurtar todos os ralis, reconheceu que cada prova é única e admitiu a coexistência de eventos de três e quatro dias. Para 2027, a orientação discutida aponta para a introdução do novo formato em cerca de 25% das provas, com cada proposta sujeita a avaliação individual.

Essa é uma base razoável, desde que a percentagem não se transforme apenas no primeiro passo de uma uniformização progressiva. A Estónia pode funcionar como rali compacto. A Finlândia pode concentrar o programa de domingo sem perder a velocidade característica dos seus troços. Outras provas podem adotar soluções próprias para aumentar a presença do público e melhorar a cobertura.

Mas o calendário deve conservar uma espinha dorsal de ralis em que a duração e a resistência continuem a contar. Monte Carlo, Suécia, Safari, Acrópole, Finlândia e Portugal não têm de reproduzir os percursos de há quatro ou cinco décadas, mas devem preservar os desafios que sustentaram a sua reputação.

O WRC precisa de conquistar novas audiências, reduzir custos e oferecer um produto mediático mais acessível. Pode fazê-lo com melhores transmissões, conteúdos digitais, horários mais claros, zonas de público organizadas e programas complementares nos parques de assistência. O que não deve fazer é procurar essa modernização através da eliminação das diferenças entre os ralis.

A identidade do Mundial está precisamente na obrigação de vencer desafios distintos. Os formatos Sprint podem integrar o futuro do campeonato e até melhorar algumas provas. Não podem tornar-se o campeonato inteiro.

Tags: WRC
José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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