O peso dos anos e o regresso…

Há nomes que ficam inscritos na geografia emocional de um rali. Giandomenico Basso é um deles na Madeira — não apenas pelos números, mas pelo modo como os construiu, entre o risco calculado e a paixão pura. Treze anos depois da última vitória, o italiano regressa à ilha com 52 anos e a mesma declaração de princípios: “daremos o máximo para sermos competitivos e vencer”.
Não é apenas um regresso. É um reencontro com uma prova que ajudou a definir uma era e onde o tempo se mede em décimos de segundo e não em ‘calendários’.
2005: o início de uma ligação intensa
A história começou com um quase. Em 2005, Basso esteve à beira de uma estreia perfeita, dominando grande parte do rali até que, nos derradeiros 18 quilómetros, um problema mecânico no Fiat Punto S1600 lhe roubou uma vitória que parecia inevitável. Renato Travaglia herdou o triunfo, mas a imagem que ficou foi a de um jovem italiano que descobria a Madeira com um ritmo que poucos conseguiam acompanhar. Foi o primeiro capítulo de uma relação feita de intensidade e drama.
2006–2007: hegemonia e afirmação europeia
A resposta chegou um ano depois, e com autoridade. Em 2006, ao volante do Fiat Punto Abarth S2000, Basso dominou a prova e selou também o título europeu. “O carro não podia estar melhor… gostei muito de ganhar na Madeira perante um público tão entusiasta”, confessou, exausto, no final.
Em 2007 repetiu o feito, confirmando o estatuto de referência absoluta. Já não era surpresa — era a medida pela qual os outros se avaliavam.
Entre azares e redenção
Nem sempre a Madeira lhe sorriu. Em 2008, decisões erradas de pneus afastaram-no de uma terceira vitória consecutiva que esteve ao alcance por escassos segundos. Ainda assim, a recuperação furiosa na segunda etapa — seis vitórias em oito especiais — reforçou a aura de piloto que nunca abdica.
Essa capacidade voltaria a emergir em 2013, num dos duelos mais memoráveis da história da prova. Frente a Bruno Magalhães, Basso venceu por apenas 7,3 segundos, num rali decidido até ao último troço. No final, o abraço entre ambos sintetizou tudo: rivalidade, respeito e a consciência de terem escrito mais uma página de antologia.
O legado que resiste ao tempo
Quatro vitórias (2006, 2007, 2009, 2013) colocam Basso entre os grandes da Madeira, mas o seu legado vai além das estatísticas. Representa uma geração que elevou o IRC e o Campeonato Europeu, onde construiu uma carreira sólida — campeão europeu em 2006 e 2009, múltiplos títulos italianos — sempre com uma abordagem metódica e competitiva.
Hoje, ao regressar com um Skoda Fabia RS Rally2 e ainda na luta pelo ERC, Basso traz consigo mais do que experiência: traz memória. A memória de troços envoltos em nevoeiro, de escolhas de pneus decididas ao segundo, de multidões que fazem da estrada um anfiteatro. “Não vejo a hora de reencontrar tantas pessoas… e os muitos adeptos que os ralis têm na ilha”, disse. Na Madeira, poucos regressos são apenas desportivos. Este é histórico.









