Há momentos em que o desporto deixa de ser apenas competição e passa a ser memória colectiva. O regresso do Rali de Portugal ao Mundial, confirmado pela FIA em 2006 para a edição de 2007, foi um desses momentos: o instante em que o país voltou a ver o seu rali mais emblemático ocupar o lugar que a história lhe reservava. Depois de cinco anos de ausência, entre 2002 e 2006, a prova portuguesa regressava ao lote de elite, agora com o Algarve e o Baixo Alentejo novamente no mapa dos World Rally Car.
A notícia caiu em Paris como um alívio esperado, mas nem por isso menos pesado de significado. Para o ACP, para a FPAK e para todos os que insistiram no regresso, tratava-se de muito mais do que uma inscrição no calendário: era a reposição de uma identidade.
O trabalho por trás da confirmação
A proposta do Conselho Mundial da FIA mantinha então um calendário de 16 provas, mas abria portas a novas discussões sobre rotação de eventos ou alargamento do campeonato. Portugal, tal como a Noruega e a Irlanda, surgia entre os promovidos, enquanto Chipre, Turquia e Austrália saíam da lista. A confirmação definitiva de 2007, entre 30 de Março e 1 de Abril, colocava novamente o país no centro do WRC.
Carlos Barbosa, presidente do ACP, não escondeu o peso da espera. “Só respirei de alívio quando vi a confirmação no papel, preto no branco”, confessou. E acrescentou: “Por muito seguro que estivesse do bom trabalho que realizámos durante estes dois últimos anos, nunca podia esquecer que estas coisas dependem de fatores que vão muito além dos relatórios dos observadores.” Uma frase que, provavelmente, hoje em dia continua a valer em muitos outros casos…
A prova reinventada
A candidatura portuguesa assentou também numa ideia prática e decisiva: a concentração da assistência num único local, o Estádio do Algarve, através do chamado sistema ‘trevo’. A solução tornava a prova mais compacta, mais económica e, nas palavras do responsável do ACP, “muito apelativa para as equipas”. Não foi apenas engenharia logística; foi uma forma de modernizar sem quebrar com a alma da prova. Barbosa sublinhou ainda outro elemento que terá pesado na decisão da FIA: “a grande tradição automobilística que existe em Portugal”. Essa tradição, feita de poeira, multidões e troços lendários, continuava viva apesar da exclusão polémica que o rali sofrera anos antes, depois da azarada prova de 2001.
O eco de um regresso
O regresso fixou-se entre o final de Março e o início de Abril, algo que o ACP considerou vital para a hotelaria algarvia e para a organização do evento. “É uma óptima data”, explicou Barbosa, antes de lançar a palavra de ordem que resumiu o espírito da altura: “É arregaçar as mangas e pôr mãos ao trabalho.”
Vinte anos depois, essa confirmação permanece como um marco. Não foi apenas o regresso de uma prova ao Mundial; foi o reencontro de Portugal com uma parte maior da sua própria história automóvel.
Hoje em dia, o Rali de Portugal é uma das provas mais importantes, históricas e simbólicas do WRC. Foi uma das rondas fundadoras do campeonato em 1973, é um rali clássico do Mundial, com muita história e enorme prestígio internacional e também um dos eventos com melhor e maior ambiente de público no WRC, algo que o próprio promotor destaca como uma das suas marcas.
No contexto do WRC, Portugal não é só “mais um rali”, pois representa tradição, dificuldade e paixão do público, e por isso é considerado um dos eventos mais icónicos do calendário do WRC.










