Manuel Fernandes: O balanço de 2025 e aposta no TCR Spain, a pensar no TCR World Tour em Vila Real

Por a 17 Fevereiro 2026 18:00

Manuel Fernandes Jr. já tem o seu programa desportivo definido para 2026. O piloto de Vila Real vai competir no TCR Spain, com o objetivo de chegar preparado à sua segunda participação na ronda portuguesa do TCR World Tour, novamente em Vila Real.

Com mais ritmo e confiança, e sem repetir os erros e limitações que marcaram a estreia em 2025, Manuel Fernandes quer criar a base certa para ser competitivo em casa, perante o seu público. Mantém-se ligado à SP Compétition, aprofunda a relação com a estrutura francesa e aposta num programa faseado, prova a prova, mas com a ambição clara de chegar mais longe.

Em 2025, o vila-realense cumpriu o sonho de qualquer apaixonado por corridas: alinhar no TCR World Tour em Vila Real, ao volante de um CUPRA Leon VZ TCR da SP Compétition, frente aos melhores pilotos de turismos do mundo. O fim de semana, porém, não acabou como imaginava. Um acidente na qualificação terminou prematuramente a sua participação, num evento que podia ter resultado numa prestação positiva.

Meses depois, já com a poeira assente, o piloto transmontano faz o balanço dessa estreia mundialista e revela o plano para 2026: um programa no TCR Spain com a SP Compétition, começando em Jarama e apontando a Valência (no mesmo fim de semana do TCR World Tour) como peça-chave de preparação para um regresso mais forte a Vila Real. Nesta conversa com o AutoSport, Manuel não foge aos temas difíceis: admite o que faria diferente, fala da pressão de correr em casa, explica por que razão decidiu manter-se na SP e traça o caminho que o pode levar ao TCR Europe.

Como é que olhas hoje para o fim de semana de Vila Real 2025? O que farias diferente?

Teria encarado o fim de semana de uma forma mais “terra a terra”. A expetativa que se criou à minha volta e a exigência que coloquei sobre mim tiveram peso. Especialmente sem qualquer ritmo competitivo, porque a última corrida que tinha feito foi em Vila Real, no ano anterior. Se pudesse voltar atrás, teria tentado arranjar forma de testar mais e, idealmente, fazer uma corrida antes. Não tivemos orçamento para o fazer, mas as boas sensações com que fiquei no teste em Barcelona mascararam um pouco a necessidade de fazer mais quilómetros.

Apesar disso, notou-se evolução ao longo do fim de semana. Que objetivos traçaste inicialmente em termos de posições?

Na primeira saída para a pista dei logo um toque, porque a equipa fez uma alteração que não estava à espera e que julgávamos ser melhor. Com esse toque, danifiquei o charriot traseiro e o carro ficou torto atrás; isso fez-nos perder à volta de um segundo e meio por volta, refletindo-se sobretudo nas travagens, porque o carro ficava completamente descompensado. Eu só soube da real dimensão do problema depois do acidente que ditou a minha desistência. A equipa não quis dizer nada antes para não me perturbar, e a estratégia passou por aceitar que não haveria tempo para reparar tudo para a qualificação e colocar o foco na corrida.

Enquanto muitos entraram na Q1 com pneus novos, nós só usámos dois pneus novos, a pensar em ter quatro completamente novos para a Q2. O plano era qualificar entre nono e décimo para aproveitar a grelha invertida na segunda corrida e atacar um pódio, porque, em condições normais, apontávamos para uma Q1 dentro do top 5.

Falaste muito da questão das travagens e da confiança. O quanto é que o problema no carro te condicionou?

O charriot estava tão danificado que o carro vinha sempre descompensado nas travagens e nas entradas em curva. Na descida de Mateus, fazia a fundo, mas era obrigado a travar muito mais cedo porque não sabia o que o carro ia fazer. Quando analisávamos os dados, o engenheiro dizia que eu estava a travar muito cedo, mas vendo os vídeos parecia, às vezes, que até era tarde.

Isso impediu-me de tirar partido do potencial do carro. Em Vila Real, a travagem é tudo: quando estás sempre a travar mais cedo, és automaticamente penalizado no tempo por volta e nas oportunidades de ultrapassar.

Ainda assim, na Q2 chegaste a rodar perto do top-10. O que é que faltou para concretizar esse plano?

Mesmo com o carro torto, conseguimos rodar na Q2 em 11.º, a uma décima do décimo, sem o “set” de pneus totalmente novo. Estávamos a gerir a situação e a tentar construir o tal cenário de grelha invertida que tínhamos pensado desde o início. Depois, acontece o acidente. Foi a primeira vez que bati “a sério” em Vila Real, e é algo que marca, até porque sentia que tínhamos trabalhado para outro tipo de desfecho.

Sentiste muita pressão por correr em casa, perante o teu público?

Muita. A pressão de correr em casa pode ser boa quando é saudável, porque sentes o apoio, ouves literalmente as pessoas dentro do carro e isso empurra-te. Mas também cria uma expetativa enorme, ainda por cima sendo português, correndo em Portugal e em Vila Real, e com os resultados que eu vinha a fazer. Senti que as pessoas esperavam muito de mim e não as queria desiludir.

Eu saio sempre de casa a pensar em ganhar, mas depois de fazer meia dúzia de voltas percebes que não é fácil. Os pilotos residentes da competição fazem daquilo vida, são pagos para isso. A minha realidade é outra. Eles conhecem o carro de olhos fechados, sabem exatamente o que ele faz quando mudam uma afinação; eu, muitas vezes, ainda tinha de olhar para o volante para perceber onde estava cada botão ou o que ia acontecer se alterasse a repartição de travagem, por exemplo. Essa diferença de “rodagem” pesa muito.

Comparando com os pilotos “residentes” do campeonato, onde notaste a maior diferença?

A maior diferença está na experiência de campeonato e na forma como trabalham dentro do fim de semana. No Nacional de Velocidade, há ótimos pilotos e grandes corridas, mas a evolução ao longo do fim de semana não é tão extrema. No TCR World Tour há sempre mexidas de setup, há uma procura constante de melhorar, nem que seja correndo o risco de dar um passo atrás para depois dar dois à frente.

Eles arriscam onde têm de arriscar, muito na qualificação, mas com um limite bem definido porque estão a lutar por campeonatos e não podem deitar um fim de semana fora num citadino. No meu caso, eu arrisquei mais. Por exemplo, em Mateus tirava três décimas ali face ao meu colega de equipa [Aurélien Comte]. Essas três décimas, num cenário de título, podem significar zero pontos se algo correr mal. Foi uma grande lição perceber onde é que se deve arriscar e onde é que se deve garantir que se está no domingo com o carro inteiro.

Sentiste que tinhas andamento de corrida para outro resultado?

Sim. Quando fizemos simulações de corrida, os tempos eram idênticos aos que fiz em qualificação: o melhor tempo foi 2m01s e qualquer coisa, e em ritmo de corrida fiz 2m03s/2m04s, ou seja, a base de ritmo estava lá. O Comte demonstrou bem o potencial do carro ao longo do campeonato, e isso deu-me confiança de que, em condições normais, também eu podia estar mais à frente.

Mas tudo isto reforçou a ideia de que era preciso montar um projeto com mais corridas, mais testes e mais tempo com o carro. Por isso é que, mal acabou Vila Real, mesmo chateado com o desfecho, disse logo que queria voltar – mas com um plano diferente e mais estruturado.

É aí que entra o projeto TCR Spain 2026. Esta escolha é feita a pensar em Vila Real?

Completamente. O TCR Spain é pensado como forma de chegar a Vila Real com ritmo, quilómetros e experiência em contexto de TCR. O plano não está fechado para fazer a época completa; vamos avançando prova a prova, pois ainda procuramos mais apoios. Mas a ideia é fazer o máximo de corridas até Vila Real. Jarama está confirmado, Paul Ricard está em cima da mesa e Valência, em junho, é quase certa, até porque partilha o fim de semana com o TCR World Tour.

O TCR Spain 2026 tem também um prémio de acesso ao Europeu. Isso pesa na decisão?

Sim. O TCR Spain tem este ano como prémio uma entrada para o Europeu (TCR Europe), e isso encaixa exatamente no nosso plano. Se tudo estiver a correr bem, queremos continuar no TCR Spain e usar essa via para garantir o salto para o Europeu no ano seguinte.

A lógica é simples: encontrar os apoios para poder fazer uma boa época em Espanha, tentar lutar pelo título e, se possível, ganhar o campeonato para no ano seguinte estar a tempo inteiro no Europeu. Com 31 anos (32 este ano), sinto que é a altura certa em termos de maturidade de pilotagem para fazer este tipo de aposta.

Porque é que decides manter-te com a SP Compétition?

Porque os resultados e a forma de trabalhar falam por si. A SP é uma equipa privada que, mesmo com poucos carros, conseguiu mais vitórias do que estruturas com mais recursos e mostrou um nível muito alto no Mundial. Mas, acima de tudo, eu não vejo a SP apenas como uma equipa: vejo como uma família. Tenho uma relação direta com o Sylvain Pussier, o dono da estrutura, algo que não é habitual nas grandes equipas, onde muitas vezes nem vês o “patrão” no paddock. Sinto-me desejado lá dentro, não sou apenas “mais um piloto que paga e vai embora”. Ele puxou muito por mim para voltar este ano, para fazer mais corridas e para ser o piloto da equipa em Espanha, e isso faz toda a diferença.

Tens testes privados planeados?

Para já, a ideia é ir prova a prova e ver o que faz sentido. Não há nada fechado em termos de testes privados; se aparecerem oportunidades e apoios, ótimo, mas, neste momento, a prioridade é garantir presenças em corrida. Depois, em conjunto com o Sylvain, vamos decidir o que é ou não indispensável fazer para chegar a Vila Real no ponto certo. Se pudesse, fazia todas as corridas e mais algumas – porque, no fim do dia, o que eu quero é estar dentro do carro o máximo de tempo possível.

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