Fórmula E: Dan Ticktum sem medo de polémicas
Se muitos pilotos tentam a todo o custo evitar polémicas, há outros que vivem no meio da polémica, sem medo (ou noção das consequências). São figuras controversas, mas que dão um colorido especial à competição. Num mundo onde a comunicação é cada vez mais controlada e asséptica, Dan Ticktum é o completo oposto.
Ticktum voltou a estar no centro da polémica ao criticar publicamente a revista britânica Autosport, acusando-a de apagar um comentário seu nas redes sociais e de distorcer declarações que lhe eram atribuídas. O piloto de Fórmula E aproveitou ainda para atacar rivais e críticos, reacendendo memórias do passado mais controverso da sua carreira.
Segundo Ticktum, a Autosport terá eliminado um comentário em que procurava contextualizar declarações suas, alegadamente editadas para se ajustarem a uma narrativa específica. O piloto considera injusto que a publicação tenha removido a sua resposta, enquanto manteve mensagens ofensivas de outros utilizadores que o insultavam nos comentários.
O britânico mostrou-se particularmente crítico em relação à forma como o seu historial disciplinar continua a ser usado contra si e acusou ainda alguns colegas de profissão de evitarem criticar a Autosport, alegando que o fazem para garantir uma cobertura mediática favorável. Na sua perspetiva, poucos têm a coragem de dizer “a verdade” de forma aberta, como ele afirma fazer.
Apesar do tom agressivo utilizado, o piloto defende que o seu objetivo é contribuir para a melhoria do campeonato, tanto para os espetadores como para os próprios competidores. Recorde-se que Ticktum tem um historial de declarações polémicas, incluindo comentários insultuosos e ameaças em comunicações por rádio ao longo da sua carreira, embora esteja agora na sua sexta temporada na Fórmula E.
“Não acho que aquelas citações fossem diretas. Foram claramente cortadas e adaptadas a uma narrativa que eles queriam, completamente fora de contexto. O post é sobre mim, eu explico o meu ponto de vista e eles apagam o meu comentário, mas deixam dezenas de pessoas a chamar-me nomes. Isso é aceitável, mas eu esclarecer as coisas já não é.”
“Conheço a Autosport há anos e trabalhei com pessoas fantásticas lá, mas quem tomou essa decisão merece ser criticado. É triste ver uma plataforma agir dessa forma. Sou dos poucos que dizem a verdade. Muitos querem agradar à Autosport para terem boa cobertura mediática. Digo as coisas como elas são. O problema atual é a falta de penalizações. Sou o único com coragem de desafiar isso publicamente. Os pilotos do pelotão são extremamente talentosos. O que critiquei foi o excesso de gestão de energia e de estratégia, que torna as corridas mais dependentes da sorte do que do talento.”
Esta versão das declarações é a mais polida, mas a versão integral é bem mais agressiva, com algum vernáculo à mistura.
Quem é Dan Ticktum?
Daniel Charles Anthony Ticktum nasceu a 8 de junho de 1999, em Londres, Inglaterra. Começou a demonstrar paixão por automóveis desde muito cedo. Aos sete anos, o pai levou-o a experimentar karting, onde rapidamente mostrou talento ao quebrar o recorde de pista do local após apenas quatro ou cinco sessões. A família, que não vinha do mundo das corridas nem possuía grande fortuna, decidiu apoiar o jovem piloto.
Durante a sua carreira no karting, alcançou sucessos notáveis. Em 2011, conquistou o “Grand Slam” dos campeonatos nacionais britânicos.
O incidente de 2015
Em 2015, Ticktum fez a transição para monolugares no MSA Formula (F4 Britânica) com a Fortec Motorsport. A sua temporada ficou marcada por um incidente extremamente grave em Silverstone, no dia 27 de setembro. Após um contacto na primeira volta com Ricky Collard, que o relegou para o fundo do pelotão, Ticktum ignorou deliberadamente todas as indicações dos comissários para alcançar Collard, colidindo intencionalmente com ele.
O presidente do tribunal, Guy Spollon, descreveu as ações como “totalmente irresponsáveis e repreensíveis ao extremo”. Ticktum recebeu uma suspensão de dois anos (com o segundo ano suspenso condicionalmente), vigente de 27 de setembro de 2015 a 27 de setembro de 2016. O piloto teve de pagar £2.000 em custos do processo e repetir o teste ARDS antes de poder regressar às corridas. Apesar da controvérsia, terminou a temporada em sétimo lugar e foi nomeado segundo melhor estreante.
Renascimento e Red Bull Junior Team (2017–2019)
Tornou-se uma referência em Macau ao vencer consecutivamente em 2017 e 2018. A vitória de 2017 foi particularmente dramática: partindo da sexta posição, terminou oitavo na corrida de qualificação, mas na corrida principal ultrapassou três rivais na curva de Lisboa, na volta 14, e venceu depois dos líderes Ferdinand Habsburg e Sérgio Sette Câmara colidirem na última curva da última volta.
Em 2018, dominou completamente o fim de semana, conquistando a pole position, vencendo a corrida de qualificação e dominando o Grande Prémio do início ao fim. Tornou-se o terceiro piloto na história a vencer Macau em anos consecutivos.
GP3 Series (2017)
Fez a sua estreia na GP3 Series em Monza com a DAMS, em setembro de 2017. Conquistou um pódio no seu segundo fim de semana completo, na final da temporada em Abu Dhabi, e terminou em 11.º lugar na classificação geral, à frente de vários pilotos a tempo inteiro.
Campeonato Europeu de F3 (2018)
Ticktum terminou em segundo lugar, atrás de Mick Schumacher. Com a Motopark, venceu em Spa e Silverstone e chegou a liderar o campeonato com 36 pontos de vantagem. Nos últimos eventos, Schumacher e Robert Shwartzman inverteram a tendência, com Schumacher a conquistar cinco vitórias consecutivas e a virar o campeonato a seu favor.
Ticktum gerou controvérsia ao insinuar nas redes sociais que a melhoria de desempenho dos rivais era “interessante”. A Red Bull não gostou do tom, mas manteve-o no programa.
Super Fórmula Japonesa (2018–2019)
Em 2018, fez duas corridas com a Team Mugen. Em 2019, foi confirmado como piloto a tempo inteiro, mas teve uma época desastrosa, com apenas um ponto em três corridas. Alegou problemas no chassis, mas acabou despedido do Red Bull Junior Team em junho de 2019.
Fórmula 1: testes e fim do sonho
Participou em testes de F1 pela Red Bull em 2019. Em 2020, foi piloto de desenvolvimento da Williams e competiu na Fórmula 2, terminando em 11.º lugar.
Em 2021, na Carlin, terminou em quarto no campeonato, com três vitórias. Contudo, a Williams rescindiu o contrato após um incidente numa live da Twitch em que Ticktum insultou Nicholas Latifi. A separação encerrou, na prática, as suas aspirações à F1.
Fórmula E
Ingressou na Fórmula E em 2021/2022 pela NIO 333 FE Team, que passou a chamar-se Cupra Kiro em 2024/2025. Foi aí que conquistou a sua primeira vitória, consolidando o seu estatuto.
Personalidade e controvérsias
Ticktum é uma figura polarizadora. É conhecido por dizer exatamente o que pensa, tanto no rádio da equipa como em entrevistas. O seu estilo franco lembra pilotos de outras épocas, como James Hunt.
Com o tempo, demonstrou maior maturidade. Após vencer em Jacarta, mostrou-se contido e afirmou ter passado por muitas dificuldades nos bastidores, incluindo problemas políticos no caminho para a F1 e erros próprios.
Ticktum descreve-se como alguém que privilegia a felicidade em detrimento da obsessão pela vitória. No entanto, continua a expressar-se de forma direta e, por vezes, chocante. Isso pode estar a ser aproveitado pela Fórmula E para o promover como figura mediática.
O seu caráter gera tanto ódio como admiração. Num mundo que valoriza personalidades que provocam sensações contrditórias, Ticktum pode ser um ingrediente eficaz para atrair público.
O que é certo é que Dan Ticktum nunca deixa ninguém indiferente. Talento ao volante não lhe falta, mas a sua postura continuará a dividir opiniões.
Foto: Fórmula E
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