Como os troços atuais do Rali de Portugal ‘nasceram’ para os ralis

Por a 10 Abril 2026 13:52

Revisitamos a história dos troços do Rali de Portugal 2025, que ao longo do tempo desafiaram pilotos, encantaram o mundo e criaram mosaicos de história em cada aldeia do País profundo.

O Rali de Portugal e muito mais do que uma prova de ralis. Quase seis décadas depois, o percurso tem sido uma autêntica viagem no tempo, onde o som dos motores se mistura com os sussurros da história. Este texto é um pequeno tributo a essa herança. A menos de um mês do Rali de Portugal de 2026, recordamos a história resumida dos troços da prova, como tudo começou, as alterações, basicamente uma imersão nas origens e evoluções dos palcos que levam o nome de aldeias e vilas perdidas no Portugal profundo, aos quatro cantos do mundo.

Começando pelo Shakedown de Baltar, 5.72 km, a presença do WRC em Baltar, Paredes, remonta a 1999 quando a super-especial se estreou no Rali de Portugal. A última foi em 2001, sob uma intempérie inacreditável. Baltar regressou em 2015, com o circuito a ser a última parte do troço desenhado na serra, onde agora é o troço de Paredes. ESTREIA EM BALTAR – CLIQUE AQUI

A SSS 1 Figueira da Foz, com 2.94 km é recente, realizou-se pela primeira vez em 2023, mas ali muito perto, apenas uns quilómetros à frente, realizou-se em 1997 um dos troços mais incríveis da história do WRC, o troço da Figueira da Foz do Rali de Portugal de 1997, troço esse que estava previsto ser maior, 3,7 Km, mas foi encurtado para 1.5 Km o que fez juntar os espetadores todos nessa zona, o que redundou num troço com pessoas a ladear a estrada do principío ao fim. Ficaram famosas as palavras de Luis Moya, navegador de Carlos Sainz: “Nunca ha visto nada assim em mi vida, cono, animales…”. Como aquele troço se realizou, muitos ainda hoje não entendem, mas felizmente não houve problemas.

Também a SS 2/9, Mortágua, com 14.59 km, tem raízes em 1999, na antiga especial da Aguieira, que era feita ao contrário de hoje, a especial, com 23.33 Km da altura começa curiosamente na mesma zona de 1999, só que, enquanto a antiga descia para junto das margens da barragem da Agueira, a atual vira à direita e vai entroncar na zona que se faz agora a descer, de norte para sul, até chegar à Arena de Mortágua, sendo que este ano o troço não vai aao gancho de Vale de Paredes, que em 1999 era já o Km 16,82 do troço da Agueira. Desde aí, o troço da Aguieira realizou-se até 2001, regressando em 2015 no Rali de Mortágua como Aguieira, depois como Felgueira, até 2022, sendo que em 2023 regressou ao Rali de Portugal como Mortágua.

A SS 3/6, Lousã, 12.28 km foi um troço completamente novo para o Rali de Portugal em 2019, mas que já tinha sido feito no Rali da Figueira da Foz como Vilarinho-Lousã, em 1984. A subir na altura. Uns metros do atual troço do Rali de Portugal são os mesmos do famoso troço de asfalto da Serra da Lousã, que surgiu no Rali de Portugal em 1985, e se realizou até 1994.

Candosa de regresso ao Rali de Portugal

Após 30 anos, o troço da Candosa regressa em 2026 ao Rali de Portugal, em substituição da Lousã – troço que referimos antes – cujo percurso foi fustigado pelo fogos, no verão passado.

Falar da classificativa da Candosa é tocar no coração do Rali de Portugal ‘profundo’. Essa classificativa não é apenas uma curta e estreita estrada de terra, é um lugar de culto onde se escreveram, durante cerca de três décadas, páginas interessantes da prova portuguesa do WRC.

Nunca foi uma classificativa decisiva como as realizadas em plena Serra do Açor, Arganil, Góis, ou mesmo as classificativas mais extensas da zona da Lousã, que chegaram a decidir o Rali de Portugal, por exemplo, em 1995 com o triunfo de Carlos Sainz no Subaru.

Situando-se a meio caminho entre o ‘antigo’ Lousão/Relvas e Góis, tinha sempre uma enorme moldura humana, ficando famosas as fotos com os carros a curvar numa esquerda e as pessoas em cima de uma pequena árvore.

Portanto, a classificativa da Candosa fazia parte do complexo de classificativas da Serra do Açor e Lousã e, como se sabe, durante as décadas de 70 e 80, o Rali de Portugal era decidido nestas montanhas. A classificativa nasceu no início dos anos 70 e realizou-se até 1996, com intermitências pelo meio.

Como podem ver no vídeo em baixo, embora as classificativas fossem diurnas, a Candosa era muitas vezes percorrida em condições de visibilidade mínima, seja pelo pó em suspensão (que não baixava devido à falta de vento nos vales) ou pelo nevoeiro cerrado típico da região.

O piso traiçoeiro caracteriza-se por um saibro fino que, quando seco, se torna extremamente escorregadio e, quando chove, transforma-se numa lama ‘pastosa’ que colava aos radiadores e vidros.

A classificativa começava na estrada em Góis e na Lousã, no cruzamento do quilómetro 74,4 da Estrada Nacional 342 com a EN 342-3, junto à Casa das Matas. A ligação da Candosa ao Rali de Portugal (antigo Rali TAP) remonta a 1972, época em que a prova integrava ainda o Europeu de Ralis. Desde então, a classificativa foi disputada de forma ininterrupta até ao trágico ano de 1986, regressando posteriormente ao itinerário oficial em 1995 e 1996.

Entre 1979 e 1982, a importância estratégica desta classificativa era tal que o figurino da prova incluía quatro passagens pelo mesmo troço num único rali. Caracterizada por um piso duro, com abundância de pedra solta e muito estreito, a Candosa era maioritariamente percorrida em sentido descendente, embora em edições específicas o sentido tenha sido invertido, com a partida junto ao Santuário da Candosa e a ‘meta’ na Casa das Matas.

Transformações e preservação da memória

Como se pode ver no vídeo em baixo, atualmente a classificativa da Candosa apresenta marcas da passagem do tempo e da força da natureza. Os sucessivos incêndios que fustigaram a região alteraram as referências visuais de outrora, restando poucas das árvores que ladeavam o percurso original. Recentemente, o piso foi alvo de melhoramentos pontuais, com a colocação de areia e saibro para colmatar o desgaste acentuado, e para o Rali de Portugal de 2026, certamente vai ser fortemente intervencionado.

A classificativa está hoje confinada a onde o asfalto retoma o seu domínio, mas para os entusiastas do desporto motorizado, o silêncio da serra ainda ecoa o som dos motores que fizeram da Candosa um lugar de culto no panorama mundial dos ralis. No vídeo, a versão de 1981, com 6,5 km

SS 4/7, Góis, 14.30 km, é um troço com uma enorme história, numa zona que teve muitas versões distintas, com outros nomes, mas que aproveitava todas as boas estradas de terra da zona. Desde começar em Linhares ou Pracerias e terminar no Colmeal, a começar no Liboreiro fazer parte do troço atual, mas não ir à Mimosa, ou curva da árvore, como alguns ainda chamam, mas sim, descer pelo Saião e Salgado para a EM543, que foi troço de asfalto do Rali de Portugal. Outra, a versão de 1998 que começa nas Pracerias e fazia boa parte do atual troço ao contrário.

Ou ainda começar no Salgueiro, subir à mítica Selada das Eiras, e descer pelo atual troço até ao Liboreiro, como foi em 1999, 2000 e 2001 a terminar já perto da EM543, onde o atual troço do Rali de Portugal começava há uns anos, antes desta versão atual que começa cinco quilómetros mais à frente. Em 2019, quando Góis voltou ao Rali de Portugal, utilizaram boa parte do antigo troço que se fez a subir e a descer, e na Mimosa passaram a incluir uma zona, também antiga, que descia para o gancho do Sobral e depois Colmeal.

A SS 5/8, Arganil, 14.41 km tem ainda mais história, pois fez parte de versões de Arganil muito mais extensas. Este troço atual é mesmo o mais curto de classificativas que usando a mesmas estradas – mesmo com pequenas variações – que já tiveram extensões de, por exemplo, 25.74km, 1990 (Arganil – Folques), 42.00km (1980 Arganil), 45.70km, 1979, (Fajão – Arganil), 48.30km, (1975 Aldeia das Dez – Arganil), e 1983, 1984 e 1985, (56.68km Arganil).

Veja a foto como o atual troço, a vermelho, cabia no troço de 56.68 Km, que até poderia ter sido maior se usasse a mesma zona do Sardal e Pai das donas do atual. Incomparável. Dava para escrever um livro com as versões do troço de Arganil, e dava também para fazer um rali do mundial completo com três dias de prova só entre a Lousã, Arganil e Góis. E não precisava de serem troços pequenos…

A SS10, Águeda – Sever, 15.08 km, é um novo troço, não é nada de especial, mas tem zonas interessantes, ainda que sem qualquer acesso ao público. Tem muitas curvas longas, do ponto de vista dos pilotos, até deve ser um bom troço, mas para os espetadores há um ponto alto, na pista de Ralicross, com espaço para muita gente ver, e boa parte do percurso final já que o troço termina ali. Especialmente, no gancho de entrada no circuito e depois na entrada para a reta da meta e a longa curva final devem ser agradáveis de se ver. Curiosamente o Mundial de Ralis já passou pela pista do Alto do Roçário entre 1995, 1997 e 1998, pois houve um Parque de Assistência na pista.

SS 11, Sever – Albergaria, 20.24 km é um troço que nasceu para o Rali de Portugal em 1974, em que tinha apenas 11.70 Km, chamava-se Monte Telégrafo, começava já bem para lá das Minas do Braçal, fazia o exato mesmo percurso dos troços de 1995 a 1999, passando pela conhecida Casa do Guarda Florestal, onde este ano volta a haver uma Zona Espetáculo, sendo que a outra ZE será onde o troço dos anos 90 terminava ou começava, conforme o ano, junto da EM554. O troço tem agora mais 5 Km até final, no Gavião, mantendo as mesmas características.

A SS 12/15, Vieira do Minho, com 17.69 km é outro dos troços com enorme história. Alguns metros deste troço surgiram pela primeira vez no Rally Internacional TAP 1973, no troço de Ruivães, com 9.00km, mas apenas porque este atravessava em cruzamento o atual Vieira do Minho. O troço da Cabreira de 1977 passava no final do atual, como todos até 1980, mas em 1981 o ACP descobriu um ‘monstro’ com 49.30 Km, que tinha nessa altura boa parte deste atual Vieira do Minho, entre o Km 7.71 e o final. Voltou a ser usado o mesmo percurso na versão de 1995 até 2001 e desde 2015 este troço já teve 32.35 Km (2015), 22.47 (2016), 17.43 Km (2017), a versão de 2019 começava bem antes, e nos últimos anos tem havido alguma variação na zona inicial.

Já a SS 13/16, Cabeceiras de Basto, 19.91 km tem uma história semelhante, porque os troços da Serra da Cabreira, só nos anos 90 começaram a trocar o nome de Cabreira para Cabeceiras/Vieira do Minho, e tal como Vieira do Minho, também Cabeceiras teve ao longo dos tempos muitas versões diferentes.

A versão de 1973 do TAP atravessava o atual troço no Km 13.50, e as primeiras versões da Cabreira pouco ou nada tinham a ver com o troço atual. Todas elas tinham a famosa Ponte da Ranha onde agora existe uma bonita Praia Fluvial, a versão de 49.30 Km de 1981 apanhou alguns quilómetros do atual troço de Cabeceiras, os troços dos anos 80 apanhavam ‘bocados’ bem como o Vieira-Cabeceiras de 1998, em 2017 a atual versão já teve bem mais quilómetros, a versão de 2023 foi bem diferente, mas a de 2024, é a mesma deste ano. Na foto pode ver o épico troço de 49 Km com traço claro face ao atual, a encarnado.

O troço SS 14/17 Amarante, 22.10 km é outro de uma zona muito rica para os ralis, com uma longa história no Rali de Portugal. Em 2024 o troço deve 37.24 Km , este ano tem apenas 22.10 Km que cabem todos no troço do ano passado. No nosso ponto de vista, Amarante perde boa parte das suas melhores características. Este ano não faz a subida final, para ir novamente ao cume, e onde se fazia aquela descida muito técnica com ganchos e com um salto lá pelo meio. O ACP teve de encurtar quilómetros, mas perde muito do seu encanto. Tecnicamente para os pilotos é diferente, é um Amarante mais curto. E por isso menos ‘seletivo’. Em 1973 estes percursos já se faziam. O troço chamava-se Fridão, e o atual, até ao Km 9.38s cabia no de 1973. Em 1973 realizava-se outro, denominado Marão com 31.90 Km, que também englobava todo o atual.

A SS18, Lousada tem este ano 3.52 km, e com as alterações que tiveram lugar no Circuito da Costilha em Lousada a pista da Super Especial do Rali de Portugal será diferente, não tanto pelo traçado, que é basicamente igual, mas sim pelo muito mais asfalto que o circuito tem depois da renovação. A reta em frente à tribuna principal foi asfaltada por completo, bem como a longa curva de saída ou de entrada na reta, conforme a zona onde se arranca, sendo que as únicas partes do traçado em terra são agora partir do meio da reta junto à zona do peão (no sentido da pista de ralicross) até depois do novo banking, já apelidado por muitos o novo saca-rolhas de Nurburgring.

A história da SS 19/22, Paredes com 16.09 km é curta, pois o troço, que nasceu em 2023, aproveitou partes do Shakedown, foi dilatado no monte, é muito sinuoso e técnico, mas curiosamente dá boas diferenças, porque faz sobressair quem guia melhor. O ano passado, Ogier entrou para o troço a 0.2s de Tanak e saiu de lá…13.6s na frente, assumindo o comando do Rali de Portugal, que viria a vencer.

Já a SS 20/23, Felgueiras, 8.81 km tem uma longa história no Rali de Portugal, que começou em 1995 quando o troço se denominava Santa Quitéria. Desenhado no Monte de Santa Quitéria, o troço é exatamente o mesmo que há 30 anos, com muito pequenas diferenças de quilometragem face ao local em que terminava ou arrancava.

Tendo em conta que Felgueiras é logo ali ao lado, a especial teve sempre muita gente a assistir numa classificativa que ganhou o seu espaço na prova, mesmo sendo muito diferente de todas as restantes zonas do rali. Sendo um troço estreito e sinuoso, é curioso porque devolve sempre algumas margens entre quem ataca e quem apenas se defende das armadilhas.

Por fim, a SS 21/24, Fafe e os seus 11,18 Km que se tornou famoso mundialmente devido ao grande trabalho que a Câmara Municipal fez e que colocou Fafe no mapa dos ralis mundiais. Hoje em dia, qualquer adepto e não só conhece ou já ouviu falar das enormes moles humanas que sempre coloriram as encostas do Confurco ou o Cabeço da Pedra Sentada! Tudo começou com o seu grande impulsionador, Parcídio Summavielle, ex-Presidente da Câmara de Fafe, hoje cidadão honorário da Cidade, foi ele, que com o seu entusiasmo e abnegação desbravou muitos dos caminhos que agora são revisitados pela nata do WRC.

Desde Pereira, Fafe-Lameirinha, Fafe, Lameirinha e Ruivães, o nome mudou, mas o ‘solo sagrado’ foi basicamente o mesmo. Mais quilómetro aqui, outro ali…

A primeira versão 1 chamava-se Pereira, tinha 7.7 km, foi utilizado no Troféu de Iniciados do Norte 1975 / Rali de São Mamede 1977, foi a primeira versão do troço que mais tarde foi conhecido como Fafe-Lameirinha. Começava no Confurco e terminava na Lameira. Na Volta ao Minho 1976 / Rali Sport Clube do Porto 1979 foi feito em sentido contrário. Rali Fapobol 1977, com 7.0 Km, utilizava uma nova estrada no início que ligava a povoação de Barbosa a Vila Pouca. Pereira com 8.0 km foi utilizado na Volta Galp a Portugal 1983, era uma versão mais longa de Pereira , que começava em Moreira de Rei e não em Barbosa.

Depois veio Fafe-Lameirinha com 10.0 km, Fafe com 20.4 km foi utilizada no Rali de Portugal 1994-5 e Rali Portopetróleos 1994. Outra versão de Fafe/Lameirinha tinha 15.1 km, foi usada nos Rali de Portugal 1996-7-8-9-2000-1, Rali Esso Futebol Clube do Porto 1998-9-2000, Rali Futebol Clube do Porto 2001-3-4. E podíamos aqui continuar o dia todo: Veja este link, fica a saber a história toda:

https://www.autosport.pt/ralis/wrc/fafe-e-as-mil-e-uma-configuracoes-a-historia-de-um-icone-dos-ralis/

Como se percebe, Fafe já foi feita por todos os lados e mais alguns. No mapa em cima, pode ter uma ideia do que já foi utilizado no troço de Fafe, isto sem falar em todos os outros da zona, que dão para um rali do CPR inteiro com facilidade.

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