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Michael Schumacher: Breve retrato de um homem que ganhou tudo

José Luis Abreu by José Luis Abreu
3 Janeiro, 2019
in AutoSport Histórico, F1, FÓRMULA 1, Newsletter, pv2
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Michael Schumacher: Breve retrato de um homem que ganhou tudo

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Os números dizem tudo. Sete títulos Mundiais, 91 vitórias em Grande Prémios, 68 pole positions e tudo mais que se pode ler adiante. Mas Michael Schumacher foi muito mais que um dado estatístico nos 15 anos em que esteve na Fórmula 1; foi o pólo de todas as atenções desde o dia em que se estreou, de forma sensacional, com um Jordan-Ford em Spa-Francorchamps, até ao dia em que fechou a primeira parte da sua carreira com um Ferrari, em Interlagos 2006.

Breve retrato de um super-campeão. Figura singular Especial. Uma palavra raramente usada na Fórmula 1, mas que foi ouvida logo no GP da Bélgica de 1991, quando um estreante levou um carro razoável – o Jordan 191-Ford HB – ao sétimo lugar da grelha, aniquilando o seu experiente companheiro de equipa, Andrea de Cesaris.

Tão especial que na corrida seguinte Michael Schumacher já estava ao volante dum Benetton-Ford, levado pela mão de Ecclestone e Walkinshaw, na primeira das muitas polémicas que marcaram a sua longa carreira.

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Esta, pelo menos, sem que fosse bem ouvido nem achado, porque todas as decisões foram tomadas por outros. Tão especial, ainda, que arrumou com a carreira de Nelson Piquet em cinco corridas, logo na altura em que o tri-campeão do Mundo parecia renascer, depois de ter caído nas profundezas das classificações aquando da sua passagem pela Lotus.

Daí para a frente ele foi o “dono” da Benetton, ganhando dois títulos Mundiais em 1994 e 1995, para, depois, se passar para a Ferrari, levando “na bagagem” Ross Brawn, Rory Byrne e Tad Czapski.
Na Scuderia a missão de chegar ao titulo foi bem mais complicada do que Michael Schumacher poderia prever e durante quatro longos anos o alemão amargou mais frustrações que alegrias, perdendo dois Campeonatos consecutivos na última corrida e sofrendo o acidente mais grave da sua carreira. Mas quando Schumacher e a Ferrari começaram a vencer, nunca mais pararam.Os cinco títulos conquistados de forma consecutiva, entre 2000 e 2004 não têm paralelo na história da Fórmula 1 e deverão ficar por longos anos como um marco histórico, impossível de alcançar.
Como o foram os cinco títulos de Juan Manuel Fangio durante mais de 40 anos, até a Fórmula 1 passar a ser a Fórmula Schumacher.
Um autêntico canibal Canibal foi o nome por que ficou conhecido outro monstro do desporto Mundial, o ciclista belga Eddy Merckx, mas também podia ser a alcunha de Michael Schumacher. O belga, que venceu por cinco vezes a Volta à França e por sete vezes a clássica Milan-Sanremo, entre muitas outras coisas, aplicava toda a sua energia fosse a subir o Puy de Dome, fosse, passe o exagero, num sprint para ganhar as “12 voltas à Gafanha”.

Ganhar era o que lhe interessava e nem os companheiros de equipa tinham licença para atacar. Michael Schumacher é feito da mesma massa que o belga. O alemão efectuou os seus 248 Grande Prémios sempre com o máximo da motivação para vencer, quase nunca tirando o pé mesmo nas circunstâncias mais desmotivadoras e também nunca virou a cara à luta.

Mais do que o seu inegável talento, mais do que a sua espantosa capacidade de trabalho e a sua impecável preparação física, o que separou Michael Schumacher dos outros grandes campeões foi a sua insaciável fome de vitórias.
Mesmo com 91 Grande Prémios no bolso – apenas menos um que o total combinado de Alain Prost e Ayrton Senna! – Michael Schumacher “atirava-se” às corridas como se estivesse atrás do seu primeiro triunfo.

Concentrar esforços
Outra das áreas em que Michael Schumacher foi quase um pioneiro foi na questão do estatuto. É verdade que Juan Manuel Fangio fazia o que queria na Maserati, Jim Clark na Lotus, Jackie Stewart na Tyrrell e, mais tarde, Ayrton Senna também vetou Derek Warwick na Lotus. Mas Michael Schumacher foi o primeiro piloto a ter bem especificado no seu contrato que era o lider da equipa, canalizando para si todos os desenvolvimentos técnicos e fazendo com que chassis, motor e pneus fossem desenvolvidos para o seu estilo de pilotagem.
Se na Benetton essa autoridade foi nascendo de forma natural, com a cumplicidade de Briatore e de Walkinshaw, em detrimento de Patrese, Lehto, Verstappen e Herbert; na Ferrari o estatuto começou por ser garantido por contrato, antes de ser confirmado nas pistas.

A presença protectora de Ross Brawn, o maior aliado de Michael Schumacher em toda a sua carreira, foi um autêntico selo de garantia para o piloto alemão, que nunca ligou aos críticos e recusou sempre qualquer confronto no seio da sua equipa. Mas foi isso que acabou por faltar na sua carreira, pois Lauda não teve medo de acolher Prost na sua equipa e o francês aceitou a chegada de Senna à McLaren em 1988, logo depois de Piquet e Mansell se terem digladiado na Williams em 1986 e 1987. Foi esse confronto directo com um piloto de grande valor, com material igual, que faltou na carreira do fabuloso alemão, o que só se pode lamentar.

Só lhe faltou carisma Se isso não lhe pode ser imputado, por se tratar duma qualidade inata, não restam dúvidas que a Michael Schumacher faltou o carisma que tende a caracterizar os desportistas que ficam na história. Homens como Ayrton Senna, Michael Jordan, Jack Nicklaus, Eddy Merckx ou Bjorn Borg ultrapassaram amplamente as fronteiras dos desportos que os levaram à fama, tornando-se em personalidades mundial pela forma como se comportavam em publico, pelo seu carisma.
Ora mau grado todo o seu indiscutível talento e o domínio que exerceu na Fórmula 1 entre 1994 e 2004 – com um hiato de três anos em que teve um rival à altura em Mika Hakkinen – Michael Schumacher nunca chegou verdadeiramente a ultrapassar as fronteiras da Fórmula 1.
Enquanto os homens de que acima falamos são conhecidos e respeitados em todo o Mundo, das Ilhas Galápagos ao Bangladesh, o alemão é apenas reconhecido em todo o lado e isso diz tudo acerca da diferença que faz ter ou não carisma.
A não ser nas poucas ocasiões em que quis defender os seus interesses próprios, Schumacher nunca enfrentou os poderes instituídos, nunca liderou uma causa, nunca impôs o respeito que, por exemplo, um Ayrton Senna impunha no paddock. O brasileiro até tinha mais detractores que o seu sucessor, mas
quando abria a boca até Ecclestone e Mosley escutavam com atenção e raramente o contrariavam.
Apesar dos pesares, sem o carisma dos grandes campeões nem o beneficio de ter batido pilotos da sua igualha com material igual, Michael Schumacher saiu pela primeira vez da da Fórmula 1 pela porta grande, deixando um vazio difícil de preencher.

Da segunda despedida, falaremos em artigo à parte…

José Luis Abreu

José Luis Abreu

Entre curvas e muito pó, descobri que o olhar treinado pela fotografia e a paixão pelos ralis só podiam levar a um destino: o jornalismo desportivo. E já lá vão mais de 30 anos…

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