O Dakar 2015 marcou uma década de presenças na maior maratona do todo-o-terreno mundial de Ricardo Leal dos Santos. Um regresso dois anos após ter participado pela última vez, com um Mini ALL4Racing da X-Raid.
Desta vez o piloto apresentou-se como o rosto do projeto BAMP (Brasil, Angola, Moçambique e Portugal), tendo em mãos uma Nissan Navara V8, da Red Lined Motorsports, e navegado por Carlos Du Sachs, num Dakar que não se revelou fácil, pelas próprias peculiaridades, mas também por muitos azares que ‘ensombraram’ a prova do piloto português. Mesmo assim, “o balanço é positivo”, numa prova que concluiu na 25ª posição.
“Os homens da Nissan ficaram muito contentes, a base é boa, e isso deixa-me bastante satisfeito, o fundamental é que as coisas corressem bem e assim foi, o que me deixou bastante esperançoso porque isto não vai correr sempre assim, não hei-de ter azar sempre…
Em termos de resultado não foi o Dakar que eu queria, foi o Dakar possível, a par das contingências próprias da prova, houve coisas que nos complicaram a corrida. Todos os dias aconteceu sempre qualquer coisa, nunca conseguimos fazer uma etapa limpa”, afirma Leal dos Santos.
Posição de Partida
Uma das contrariedades com que se teve de deparar ao longo de todo o rali adveio da própria mudança dos regulamentos, como explica: “Eles adotaram um sistema de partida novo, em que, a partir do 20º carro, partíamos sempre com uma diferença de 30s, e a partir do 15º colocavam os carros que podiam pedir recolocação, que eram todos os carros que tivessem terminado até ao 15º lugar na etapa anterior.
Conclusão, nós tivemos sempre pó da primeira à terceira etapa, nunca conseguimos pedir recolocação e, quando as coisas nos corriam bem, ficávamos sempre ali entre o 15º e o 17º lugares. Como recolocavam quatro ou cinco carros, passávamos outra vez a partir de 20º e de 30s em 30s. Assim os primeiros 100 ou 150 km da corrida eram sempre no pó, estávamos sempre a partir de trás”, lamentou.
As contrariedades da prova
A par da posição de partida, “tivemos imensos problemas de coisas pequeninas, por exemplo, no segundo dia tivemos um problema com uma ventoinha que avariou, depois sobreaqueceu, o que originou outros problemas, com alguns cabos a derreterem. No terceiro dia, devido a uma pedra que saltou, rebentámos as bombas de travão de trás, e ficámos sem travões de trás com 300 km para fazer.
No quinto dia quando fomos para a Bolívia apanhámos um temporal, como apanharam as motos, e os da frente não apanharam, o carro ficou num estado que tivemos que o ‘aguentar’ dois dias naquelas circunstâncias, mas é o Dakar, umas vezes corre melhor, outras vezes corre pior”, salientou.
Nesta odisseia, outro dos episódios aconteceu “em uma das estações de serviço que nos meteram gasolina com água, isto a quatro etapas do fim. Resultado, andámos ali uns dias em que o carro não passava dos 150 km/h, não tinha força, sem saber qual o problema. Tivemos dois dias para nos ‘livrar’ da água porque depois o depósito estava a meio e eles achavam que era da altitude, eramos passados em aceleração, e até descobrirmos o problema acabou por nos custar dois dias”.
Nissan VS Toyota e Mini
Numa prova que realizou pela primeira vez com a Nissan Navara V8, um dos objetivos passou por avaliar o nível da sua pick-up em comparação com as Toyota, também a gasolina, dado ser já sabido que os MINI ‘jogavam’ num outro campeonato.
“O carro é bom, mas ainda precisa de mais algum trabalho para ficar mesmo como nós o queremos”, realçando que “aguentou ele e também as duas outras Nissan, apesar de a nossa estrutura ser independente, os três carros iguais chegaram ao fim, e isso poucas equipas conseguiram, o que prova que o carro é muito bom. Houve ali uma questão com as suspensões, andámos sempre a ‘lutar’ com elas, o carro não estava bom no mau piso, e nunca o conseguimos pôr bom. Há ajustes interiores nos amortecedores que vão ter que ser feitos posteriormente, mas não houve nada de especial com o carro, não tivemos problemas estruturais”.
Quanto às diferenças o piloto não tem dúvidas: “O nosso carro é extremamente competitivo está ao nível das Toyota da Overdrive”, lembrando que, “não a do Giniel De Villiers, nem a do Yazeed Al-Rajhi, que são carros de outro patamar, aí não há duvida, esses carros estão no patamar do MINI, nós estamos no patamar das restantes Toyota da Overdrive. Aí achamos que estamos tão bem ou melhor, em termos de potencial achamos que podemos estar melhor rapidamente e em termos de andamento, comparativamente com qualquer uma dessas, anda sempre relativamente bem”. Por exemplo, “o Dabrowski, que tinha a carrinha do De Villiers do ano passado, andou sempre ‘taco a taco’ connosco, eles ganhavam no mau piso, nós no piso rápido, e era uma carrinha num patamar um bocadinho superior à nossa, e mesmo assim já estamos perto.
Agora as outras custam o dobro ou o triplo do preço da nossa, é completamente diferente e aí nota-se que há uma diferença, nós queremos fazer um carro daquele nível, e aquele carro não existia, foi uma surpresa para meio mundo, eles evoluíram o carro e há que saber reconhecer o mérito da concorrência. Eles realizaram também um investimento muito grande, é uma equipa de fábrica, o que é um bocadinho diferente”, frisou o piloto.
O ‘caso’ da sexta etapa
Ao sexto dia de prova, numa etapa que ligava Antofagasta a Iquique, “fizeram-nos passar em dois ou três sítios de dunas que eram extremamente difíceis e muito estreitas, parecia mesmo que o objetivo era lançar a confusão, e conseguiram.
O nosso caso foi mais crítico porque atascámos, isto também para evitar embater noutro piloto, mas acabámos por ficar presos na crista de uma duna. Acabámos por tirar o carro e colocá-lo no lado de lá da duna, enquanto estávamos a carregar os macacos, ainda estava o Carlos Du Suchs fora do carro, eu já estava dentro, mas com a traseira a ver-se do lado de baixo, toda a gente via que nós estávamos ali em cima, vem um camião tentar passar ao nosso lado, não consegue, descai, e ‘encaixa-se’ pura e simplesmente em cima do carro. O camião ficou deitado em cima do nosso carro e ele resolveu arrancar e arrancou-me a lateral do carro toda, e nós dentro da Nissan a vermos tudo aquilo a partir-se”.
Mas como um ‘azar nunca vem só’, “ainda estávamos ‘atarantados’ com aquilo tudo, o navegador sai e dá a volta ao carro para colocar novamente as coisas para o tiramos dali, só vejo o buggy Carocha do Stephane Henrard a voar e a aterrar literalmente em cima da Nissan, foi uma cena de filme”, concluiu.
O percurso do Dakar 2015
Contando com dez presenças no Dakar no currículo, e apesar de a prova ser realizada na América do Sul apenas desde 2009, já são vários os Dakar por que passou Leal dos Santos. Num comparativo entre esta edição e as anteriores, o piloto é da opinião que “a versão deste ano foi muito abaixo das expetativas que eu tinha, estava a contar com uma corrida bastante mais engraçada. Também como não me correu bem, se calhar não tenho a melhor opinião. A parte do deserto tinha pouca areia, e as dunas eram extremamente complicadas de atravessar, há ali etapas que são muito duras, que são só pedra e que não dão gozo nenhum. Já a parte da Bolívia foi gira, apesar de não me ter corrido bem, aquilo era engraçado, estava à espera de mais algumas etapas com mais condução, com curvas e assim, mas não houve, por exemplo, a primeira e última etapas foram horríveis, foram o oposto, acho que comparativamente com às edições anteriores, aquelas em que estive, já não fazia a prova desde 2012, foi a pior, da minha experiencia foi a mais mal conseguida”.










