O Diretor de Ralis da FIA, Jarmo Mahonen, lidera um grupo de trabalho que atualmente se debruça sobre a segurança no WRC, modalidade onde pretende ‘educar’ os espetadores, para que o que foi visto recentemente no Rali da Argentina e, por exemplo, já este ano no Rali de Monte Carlo não volte a suceder. Curiosamente, um dos países em que este problema mais se colocava até ao final dos anos 90, Portugal, com um rali terminado há poucos dias, não é referido uma única vez quando se ‘ataca’ a segurança nos ralis. Só isso, chancela de uma forma muito positiva o que os organizadores portugueses fizeram, já que a prova, também a esse nível foi um enorme sucesso.
Recorde-se que no Rali da Argentina um acidente, de Hayden Paddon, mandou seis pessoas para o hospital. No dia seguinte, na PowerStage do Rali da Argentina, dois acidentes de Andreas Mikkelsen e Thierry Neuville poderiam ter tido graves consequências, já que os espetadores estavam mal colocados. Dia depois, num Rali na Estónia, morreram três espetadores. Portanto, esta questão está na ordem do dia na FIA, e Mahonen diz que o rali da Argentina levantou algumas questões:
“O que sucedeu na Argentina foi resultado das pessoas estarem mal colocadas, e não vale a pena dizer depois que as pessoas estavam numa zona proibida. Os organizadores tem que assegurar que os espetadores não vão para esses locais. Para mim é impossível sequer considerar que a responsabilidade é dos espetadores. Temos que apostar na educação dos espetadores, mas também dos organizadores e dos marshalls. Noventa por cento do trabalho de segurança dos ralis faz-se antes do rali começar, vimos isto no Rali de Portugal, prova em que acredito que todo o crédito deve ser dado aos organizadores que fizeram grandes campanhas antes do evento, dizendo aos espetadores como se deveriam portar na prova portuguesa. A educação é a chave do sucesso.” prosseguiu.
Para Kris Meeke, piloto vencedor do Rali da Argentina, logo após a prova o irlandês disse: “Algo tem que ser feito, a prova argentina poderia ter sido um desastre. Temos que ser realistas e perceber que cinco ou seis pessoas poderiam ter morrido na Argentina. Quando estas coisas sucedem, pessoas ficarem presas debaixo dos carros, algo tem que ser feito. Penso que só passando de helicóptero imediatamente antes de irmos para a estrada poderá ajudar porque passar de carro meia hora antes serve de pouco. Se anularem todas as especiais onde possa haver riscos, uma , duas, três de seguida, então talvez os próprios espetadores se auto policiem, porque ninguém quer ir para uma festa e vir de lá sem ver nada. Temos que ensinar as pessoas” disse Meeke.
Jarmo Mahonen acrescentou que os organizadores vão ficar sob muito maior escrutínio relativamente a esta questão: “Os organizadores são responsáveis pela segurança nos seus ralis e se existir algum lapso, não será tolerado. Esses eventos sairão do calendário de imediato” disse Mahonen. Resta saber se estas palavras se aplicam a todos os eventos, ou somente aos que derem jeito, para quando for necessário ‘meter’ no calendário os ralis do Brasil, China, e talvez Jordânia, num futuro próximo.
Tendo em conta que ralis como o Monte Carlo, pelas razões conhecidas de todos, por ser o rali que é, tem um estatuto especial será que Jarmo Mahonen teria coragem do tirar o calendário caso houvesse problemas com o público, como se vê tantas vezes nas imagens que circulam? Será que a Argentina, mesmo tendo levado agora um cartão amarelo, alguma vez verá o segundo, e será expulsa (seguindo a gíria futebolística) se voltar a acontecer o mesmo, ou porque dá muito jeito à FIA ter um Rali do WRC na Argentina, dificilmente a prova sai?
Ao ler estas declarações de Jarmo Mahonen, e sabendo que o número absolutamente anormal de elementos da FIA que estiveram em Portugal – segundo apurámos, quatro vezes mais do que o habitual noutros ralis – será que querem estender isso mesmo a todos os eventos? Resta aguardar pelo que vai suceder nas próximas provas, sendo certo que a organização portuguesa deixou a fasquia muito alta a esse nível para todas as outras.
Por isto tudo, é mais fácil à generalidade dos adeptos portugueses perceberem que valeu a pena todo o esforço dos organizadores e espetadores na prova portuguesa. O Rali de Portugal foi uma festa, para o ano será melhor, e ter um rali na Europa com a maior segurança, a maior espetacularidade, dos melhores troços, das melhores paisagens, e acima de tudo o melhor público, dificilmente haverá um argumento que seja para que a nossa prova possa ter que dar o lugar a outra qualquer noutro continente.







