Paulo Fiúza e a concretização de um sonho de 20 anos no Dakar: “Vamos dar a volta a isto, é preciso acreditar!”
Vinte anos depois, Paulo Fiúza tornou-se no primeiro português a vencer uma categoria à geral no Rali Dakar, este ano, nos Camiões, ao lado de Vaidotas Zala e Max Van Grol. O recordista português de participações no Dakar, que este ano cumpriu a sua 20ª edição, perdeu em 2025 a hipótese de um pódio e isso deixou na equipa a sensação de que podiam lá chegar. O objetivo, para este ano, era o triunfo, e conseguiram-no.
Um arranque de história no Dakar com seis capotanços, inúmeros percalços, mas a persistência de um sonho que se tornou realidade. Paulo Fiúza recorda agora a épica jornada, os momentos de desânimo e a reviravolta que os conduziu à vitória, numa entrevista que é um hino à resiliência e à crença inabalável.

AutoSport: Já interiorizaste bem o feito que conseguiste?
Paulo Fiúza: “Agora já! Mas ainda parece que foi ontem! O tempo, de facto, passa rápido. Mas sim, sei o que fiz, sei o que consegui. Agora é pensar no futuro e ver o que é que conseguimos fazer de melhor.”
AS: Uma prova como o Dakar é feita de altos e baixos, conta-me aqueles momentos que vocês viveram durante a prova que valha a pena contar…
PF: “Houve momentos melhores, outros piores. Logo na primeira semana entrámos bem, percebemos logo que tínhamos andamento para os nossos adversários. Depois, na quarta etapa, tivemos um problema: rebentou um tubo de direção, um problema de fabrico.
Ficámos logo ali um bocado desanimados porque perdemos bastante tempo e caímos na classificação, para sétimo ou oitavo. Perdemos cerca de meia hora a reparar o tubo e, depois, fomos no pó de vários carros e não conseguimos recuperar tempo.
Depois começámos a abusar, é o normal para tentar passar, começámos a cometer excessos ao tentar recuperar o que se perdeu, começámos a cometer erros, furamos, e essa fase foi ali um ‘mix’ de muita emoção, mas ao mesmo tempo começámos logo a perceber que já começava a ficar difícil o pódio.
Desanimamos um bocado aí…”
AS: Quando chega a um ponto desses, nesse dia à noite, como foram as vossas conversas?
PF: “Vamos dar a volta a isto, há que acreditar! Foi basicamente assim a conversa: amanhã é outro dia, vamos tentar atacar, fazer o nosso melhor e tentar perceber como é que estão os nossos adversários. Como se costuma dizer, não podemos ser só nós a ter problemas, os outros também têm que ter, não é? E também o Dakar estava no início, era a quarta etapa, ainda havia muito Dakar pela frente.
Mas sim, ficámos ali um bocadinho tristes quando acabou a especial, estávamos desanimados, porque o nosso objetivo inicial era tentarmos o pódio…
No dia a seguir entrámos com a vontade de vencer a etapa, fizemos, salvo erro, segundo nesse dia. Tentámos recuperar mais ali algum tempo, entretanto os nossos diretos adversários, o Macik, teve problemas nesse dia e, parecendo que não, ganhámos ali um bocadinho de ‘peito’, como se costuma dizer…”
E na sexta etapa novamente a mesma situação, conseguimos entrar bem, começámos a andar em cima deles, novamente próximo da vitória na etapa e, para mim, foi na sétima etapa que houve um ‘click’, que foi quando nós ganhámos a etapa. Aí ascendemos logo ao terceiro posto, entrámos nos lugares do pódio e ficámos a trinta e tal minutos da frente.
AS: Achas que foi esse momento que vos levou a voltar a acreditar?
PF: “Foi. Ganhámos a etapa, e foi para mim, para a equipa, mas principalmente para o Zala, fez ali um ‘click’, digamos assim. Já estávamos no pódio, porque não atacar mais um bocado e conseguirmos chegar à vitória? Depois daí para a frente, ficavam a faltar sete etapas, estávamos a meio…”

AS: Os dias foram passando, tiveram ali uns dias regulares….
PF: “Sim, estivemos sempre muito regulares, e nessa altura isso foi estratégia. Já começámos a delinear todos os dias o tipo de etapas que queríamos fazer. Não queríamos atacar demais para não sermos o primeiro camião na pista, queríamos estar sempre em segundo ou terceiro para controlar os nossos adversários, que era muito mais fácil nós controlarmos e, ao mesmo tempo, estávamos a pôr pressão sobre eles, porque eles é que tinham que ir à frente, é que tinham que acelerar para ganhar tempo e nós estávamos a controlar. E porque nos camiões é mais fácil andar atrás do que andar à frente…
E foi isso, começámos a ser muito regulares, todos os dias segundo, segundo, segundo, a poucos segundos do primeiro e de ganhar a etapa. Entretanto, mais uma vez a sorte esteve sempre do nosso lado.
O Loprais teve problemas, o Van den Brink, numa etapa das dunas – que foi na etapa que atacamos – teve problemas, acho que se partiu uma transmissão ou o veio de transmissão e ficou atascado, perdeu bastante tempo. Subimos para segundo e, de um momento para o outro, subimos a primeiro, na etapa 10…”
AS: Qual é que achas ter sido o momento chave que decidiu, ou encaminhou a prova?
PF: “Acho que foi a etapa 7, foi ali o ‘click’, digamos assim, de tudo se começar a alinhar….
E também houve uma coisa decisiva, na primeira semana nós andávamos a furar muitas vezes, furavamos dois pneus, normalmente dois, até houve dias a furarmos três, a pôr sempre pressão de ar dentro dos pneus para chegar ao fim da especial, porque já não tínhamos mais pneus sobressalentes, porque só levamos dois.
Depois da etapa de descanso, a partir daí, acho que acertamos mesmo com a pressão exata dos pneus e começámos a furar apenas um de vez em quando, houve dias que não furavamos e isso acho que também foi importante. O momento de tudo se começar a alinhar para a vitória.”
AS: E assim fizeste um feito único na história do TT português. Nunca mais hás-de esquecer este momento…
PF: “Foi um misto de emoções, de facto, quando passámos a última etapa, foi daquelas em que qualquer barulho que nós ouvíamos dentro do camião era assustador, porque não sabíamos o que se passava. E naquela noite, como podes imaginar, nem dormi…
Eram 4:00 da manhã, estava de olhos bem abertos a pensar como iria ser o dia, se ia conseguir chegar ao fim, conseguir ganhar o Dakar era um sonho que eu tinha e felizmente consegui realizá-lo ao fim de 20 anos, é de facto um feito histórico. Aquela última etapa foi um misto de emoções, chegar ao fim. E nós, dentro do camião, quando passámos a tomada de tempos, foi engraçado porque era a tomada de tempo, terminavamos, e logo a seguir tínhamos o pódio. Ficámos os três dentro do camião uns momentos, do tipo, pá, é mesmo verdade, acho que conseguimos ganhar o Dakar…
Depois, sim, festejámos, mas não foi uma enorme euforia. Foi fantástico, mas uma sensação diferente de tudo.
Eu acho que já celebrei mais vezes ter chegado ao fim do Dakar noutras posições do que propriamente esta em que venci. Mas depois caiu a ficha. A ficha caiu depois da entrega de prémios, aquela situação toda, aquela festa e depois chegar ao hotel deitar-me e pensar, sim, de facto, ganhei. É mesmo verdade…”
AS: Daqui a muito tempo, vai continuar a falar-se de teres sido o primeiro…
PF: “Sim, eu espero bem que sim, é natural que o meu nome seja recordado por muitos e muitos anos…”
AS: Alguma vez imaginaste isso quando eras aquele puto que andava de bicicleta ali para os lados de Mafra?
PF: “Não, sinceramente não… a primeira vez que eu fiz o Dakar, em 2006, com o Francisco Inocêncio, tivemos logo um acidente e capotamos seis vezes, destruímos o carro e fiquei naquela, bom, de facto, isto não é para mim. No ano a seguir o Francisco convida-me novamente, vamos, e terminámos a prova.
Cheguei ao Lago Rose em Dakar e disse: Se calhar é mesmo isto que eu quero e hei de conseguir um dia a vitória. E foi isso, este tempo todo procurei isso, fui persistente, muito persistente e trabalhei muito para isso. Acho que é o mais importante…”
AS: Mas agora procuras mais?
PF: “Claro que sim, agora quero mais, claro que sim…
Para o ano, se lá for, gostava novamente de voltar a trazer um troféu, seria fantástico. Vamos ver!
AS: Achas que a pressão é maior, que a responsabilidade muda?
PF: “Muda. Eu vou continuar a fazer o meu trabalho e a maneira de trabalhar será igual, não mudei por ter ganho o Dakar, continuo a fazer o meu trabalho como faço sempre. Agora, claro que a responsabilidade é diferente. Somos encarados de outra forma. Mas não sei ainda, não tenho nada ainda concreto para 2027, mas na minha opinião, seria novamente voltar de Camião e tentar trazer novamente a vitória para Portugal…”
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25 Março, 2026 at 17:08
Belo Escort em pano de fundo…