O drama do Dakar: pneus tornaram-se o elo mais fraco
Sébastien Loeb veio a terreiro revelar uma verdade incómoda para muitos no Dakar: a engenharia automóvel moderna alcançou um nível de fiabilidade que transferiu o fator limitante da competição dos sistemas mecânicos para os consumíveis críticos – neste caso, os pneus. Trata-se não é apenas uma questão técnica; é um problema de integridade competitiva, já que reduz a importância da rapidez, da perícia e da estratégia.
Contexto técnico: a evolução dos veículos no Dakar
Os automóveis modernos do Rali Dakar representam uma evolução tecnológica notável em termos de fiabilidade mecânica e robustez estrutural. Componentes que historicamente foram nos últimos anos, pontos críticos de falha — como suspensões, direções, sistemas de transmissão entre outros, foram significativamente aprimorados. Os chassis, combinados com engenharia avançada em sistemas de amortecimento e geometria de suspensão, tornaram os veículos excepcionalmente resistentes aos rigores do percurso.
Loeb confirmou isso concretamente durante a edição de 2026: “As máquinas são fiáveis e sólidas. A única coisa que se cede são os pneus. Caso contrário, não há muito que se parta nos carros. Podes conduzir muito rápido, mas tens de evitar um furo, e é isso que não consegui fazer este ano”, disse o piloto francês depois de sofrer 13 furos durante toda a prova. O piloto francês experimentou apenas um problema mecânico significativo, uma avaria na direção assistida na segunda semana, que teve de reparar pessoalmente devido às regras da etapa maratona, reforçando a fiabilidade geral do pacote.
O problema dos pneus
A mudança da BFGoodrich para uma nova composição de pneus em 2026 expôs um dilema técnico clássico: resolver um problema ao criar outro. Tal como sucedeu no WRC com a Hankook. A fabricante modificou a estrutura interna dos pneus com o objetivo específico de reduzir danos à superfície da banda de rodagem, um problema recorrente em anos anteriores. Segundo relatos que se foram ouvindo, a estratégia foi parcialmente bem-sucedida.
Tal como revelou uma fonte de uma equipa, corrigiram o problema dos furos numa zona do pneu e expuseram outra, passado agora a haver muito mais furos nas paredes laterais. E o número total de furo é basicamente o mesmo, mas num sítio diferente.
Isto representa um trade-off técnico não resolvido: ao fortalecer a banda de rodagem, BFGoodrich inadvertidamente terá enfraquecido as paredes laterais, tornando-as mais susceptíveis a perfurações. Durante a primeira semana de 2026 em Arábia Saudita, a situação atingiu proporções críticas, com várias equipas a sofrer mais de 15 furos a cada etapa, com as consequências que isso acarreta.
O fator terreno vs. design de pneu
Existe debate legítimo sobre se o problema é primariamente do design do pneu ou do terreno. Poderá estar aqui parte da explicação, porque o percurso mudou e passou por mais zonas onde existem muitas pedras vulcânicas muito afiadas, que como se pode calcular são muito agressivas para os pneus. E como sempre os pilotos insurgem-se face ao facto de terem de gerir o andamento, quase nunca sabendo quando podem acelerar muito mais à vontade.
Basicamente, embora a parede lateral enfraquecida seja a vulnerabilidade, o terreno específico de 2026 amplificou dramaticamente o risco.
Impacto competitivo: a lotaria do Dakar
O efeito combinado transformou a competição num que vários pilotos denominam como uma “lotaria”. Com margens de tempo tão reduzidas entre os principais competidores, o resultado final pode depender simplesmente de quem termina com menos furos, em vez de quem tem a melhor estratégia de condução ou velocidade pura.
Isto é profundamente contrário à ‘ética’ dos pilotos e como eles encaram as corridas. Andar devagar para não furar é contrário ao que significam os ralis, embora no todo-o-terreno se tenha que viver muito mais com essa questão devido ao caráter da disciplina. : É a raiz da palavra “ética”. Refere-se à disposição moral e à forma como um indivíduo se comporta no mundo.
A experiência de Loeb ilustra isto perfeitamente: 13 furos ao longo da campanha, incluindo um episódio crítico na Etapa 3 onde esgotou as reservas de pneus ao conduzir a “20% do potencial do carro”, deixando-o “quase parado”. Apesar desta desvantagem massiva, Loeb ainda conseguiu recuperar gradualmente na segunda semana para terminar em 4º lugar — um desempenho notável que demonstra tanto a robustez do veículo moderno quanto a arbitrariedade da lotaria de pneus.
Validação técnica insuficiente?
Um problema crítico subjacente terá sido a validação inadequada do pneu antes do Dakar. Várias fontes referiram que o novo pneu não foi suficientemente testado, muito menos em terrenos como os deste Dakar. O novo composto foi introduzido no Rallye de Marrocos, em outubro, numa altura em que era impossível mudar o que quer que fosse nos pneus. Portanto, sendo inevitável que nos rally-raids modernos, algo fraqueje, pois isso faz parte do jogo que é o desporto motorizado, a frustração disso vir dos pneus é muita. Porque é a única coisa que as equipas não controlam.
Portanto a frustração é legítima: os pneus tornaram-se o elo mais fraco.
FOTO Dacia Sandriders
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