Maria Luís Gameiro e Rosa Romero: Missão cumprida no Dakar
Maria Luís Gameiro cumpriu a sua segunda participação no Rali Dakar aos comandos de um MINI JCW Rally (T1+) da X-raid, navegada pela experiente espanhola Rosa Romero. A dupla alinhou na categoria Ultimate com um objetivo claro: gerir a prova com inteligência, evitar erros maiores e levar o MINI até ao fim da edição de 2026, num Dakar assumidamente duríssimo em termos de terreno, navegação e exigência mecânica.
A abordagem passava por privilegiar consistência, gestão de risco e preservação da mecânica, aceitando desde cedo que a classificação final seria consequência direta dessa estratégia de sobrevivência.

Etapas-chave: dos furos ao diferencial danificado
A estreia “a sério” em Yanbu evidenciou a dureza da prova logo na primeira etapa, com dois furos e uma falha no ar condicionado a transformarem o interior do MINI num verdadeiro forno, obrigando a abrandar e a gerir indisposições físicas causadas pelo calor extremo. Ainda assim, o 56º tempo e a penalização de dois minutos foram encarados como um “grão de areia” face ao muito Dakar que havia pela frente.
Nos dias seguintes, a dupla consolidou uma toada cautelosa, com um 50º lugar em AlUla e uma atuação marcada pela entreajuda: cedeu uma roda a Guillaume de Mévius e a Lionel Baud, reforçando o espírito solidário do rali-raid. A primeira metade da etapa maratona (Etapa 4) marcou um ponto de viragem, com o 42º tempo e uma recuperação de 11 posições até ao 40º lugar geral. Na segunda metade (Etapa 5), sem assistência externa, Maria terminou novamente sem problemas mecânicos, subindo a 37ª e validando a maratona como um dos momentos mais consistentes da sua prova.

A Etapa 6, a mais longa desta edição (915 km totais), confirmou a tendência de recuperação: 42.º tempo do dia e subida ao 36º lugar, num registo que a própria piloto classificou como um dos melhores da sua carreira no Dakar. A partir daí, porém, a segunda semana trouxe o reverso da medalha. Problemas na caixa de velocidades na Etapa 7 – com perda de marcha-atrás logo ao quilómetro 30 e, depois, da primeira velocidade perto do fim – forçaram a um andamento extremamente contido e a recurso à ajuda de outros concorrentes para regressar ao bivouac, fazendo descer a dupla ao 39º lugar geral.
Na Etapa 8, um dia de “modo sobrevivência”: o MINI ficou literalmente pendurado numa duna, obrigando a quase uma hora a cavar, somando ainda dois furos e mais tempo perdido. A situação agravou-se na Etapa 9, primeira metade da segunda maratona, quando um toque numa pedra danificou o diferencial numa zona pedregosa durante uma ultrapassagem. Sem assistência no bivouac-refúgio, Maria e Rosa improvisaram reparações, prosseguindo a ritmo muito inferior, penalizadas ainda em dois minutos. Foi um dos dias mais duros, mecânica e mentalmente.
Mesmo assim, na Etapa 10 – 420 km cronometrados, com 300 km de dunas puras – a dupla completou a especial com o 52º tempo, mantendo o MINI em prova com o diferencial danificado e segurando o 42º lugar geral. As Etapas 11 e 12 serviram para consolidar este esforço: 50º e 40º tempos, respetivamente, com subida ao 41º posto, numa fase em que a prioridade passou claramente por gerir, evitar riscos e chegar à véspera da última etapa com o carro inteiro e o objetivo final ao alcance. O que sucedeu com o 42º lugar final entre os Ultimate.

Resiliência, entreajuda e dureza extrema
A narrativa de Maria Luís Gameiro neste Dakar é, acima de tudo, uma história de resiliência. Depois de um acidente com um camião em dias anteriores – que a obrigou a partir frequentemente de posições muito atrasadas, quase sempre no pó e em troços cavados – a piloto portuguesa recusou cair na frustração, insistindo numa leitura paciente da prova, etapa a etapa. A gestão física, com cansaço acumulado e noites curtas, foi tão desafiante quanto a gestão da mecânica, sobretudo a partir do momento em que o MINI passou a carregar um diferencial fragilizado.
A entreajuda foi outra constante: para além dos pneus cedidos a colegas de equipa e do óleo de embraiagem dado a De Mévius, a própria Maria reconheceu o papel vital dos outros concorrentes quando foi empurrada na zona de chegada devido à falha da primeira velocidade. Ao mesmo tempo, descreveu cada chegada ao bivouac como “uma vitória diária”, espelhando o peso emocional de manter o carro em movimento num Dakar em que qualquer detalhe pode ditar o fim da aventura.
O estado de espírito oscilou entre a satisfação discreta com as recuperações na geral e o reconhecimento frontal dos “dias muito duros”, mas sem nunca perder de vista o objetivo nuclear: terminar. Nas últimas etapas, com a classificação estabilizada fora do Top-40, a pressão desportiva deu lugar a uma motivação mais íntima – a de provar, a si própria e à sua estrutura, que era capaz de concluir duas edições consecutivas da prova mais dura do mundo.

Resultado, contexto e o espírito do Dakar
A presença de Maria Luís Gameiro no 42º lugar da classificação geral da categoria Ultimate no final insere-se num contexto muito mais rico do que a posição isolada sugere. O acumulado de furos, a falha do ar condicionado logo no início, o acidente com o camião que comprometeu dias de corrida, os problemas de caixa de velocidades e o diferencial danificado em plena maratona teriam sido argumentos suficientes para muitos desistirem. Em vez disso, a piloto e a navegadora insistiram em recomeçar todos os dias.
O resultado final é a síntese de uma gestão exemplar de danos: sempre que a prova abria uma pequena janela, a dupla recuperava posições; sempre que surgiam novos problemas, reorganizava prioridades para salvar o que era essencial — a permanência em prova. No fundo, o seu Dakar foi um manual prático do velho axioma da prova: o Dakar não perdoa, apenas ensina.
Maria Luís Gameiro sai desta edição com mais do que um número na classificação. Leva a confirmação de que a disciplina, a humildade tática e a capacidade de sofrer valem tanto como a velocidade pura. Leva também a consciência de que terminar, nestas condições, equivale a uma vitória pessoal e colectiva, partilhada com Rosa Romero e com toda a estrutura X-raid que a esperava, dia após dia, de sorriso nos lábios, à entrada do bivouac.
O Autosport já não existe em versão papel, apenas na versão online.
E por essa razão, não é mais possível o Autosport continuar a disponibilizar todos os seus artigos gratuitamente.
Para que os leitores possam contribuir para a existência e evolução da qualidade do seu site preferido, criámos o Clube Autosport com inúmeras vantagens e descontos que permitirá a cada membro aceder a todos os artigos do site Autosport e ainda recuperar (varias vezes) o custo de ser membro.
Os membros do Clube Autosport receberão um cartão de membro com validade de 1 ano, que apresentarão junto das empresas parceiras como identificação.
Lista de Vantagens:
-Acesso a todos os conteúdos no site Autosport sem ter que ver a publicidade
-Desconto nos combustíveis Repsol
-Acesso a seguros especialmente desenvolvidos pela Vitorinos seguros a preços imbatíveis
-Descontos em oficinas, lojas e serviços auto
-Acesso exclusivo a eventos especialmente organizados para membros
Saiba mais AQUI




