Entrevista Tiphanie Isnard (Dacia Sandriders): a evolução de um projeto ambicioso no Dakar e W2RC

Por a 11 Junho 2025 13:10

Entrevista com Tiphanie Isnard, Chefe de Equipa Dacia Sandriders, a timoneira do desafio do Dakar e do Mundial de Todo-o-Terreno.

A equipa Dacia Sandriders caminha a passos largos para o seu segundo Dakar, num ano em que as perspetivas são substancialmente mais animadoras! A estreia não foi má, longe disso, a ambição era grande, tal como o potencial, os carros mostraram competitividade, mas os resultados finais não espelharam esse andamento.

Os meses passaram, a equipa continua a trabalhar, ao mesmo tempo que disputa o W2RC, o Mundial de Todo-o-Terreno, e a liderança da competição por parte de Nasser al Attiyah comprova a validade do projeto. Já Sébastien Loeb, o outro piloto mais destacado da equipa, tem tido alguns azares, tanto no Dakar, como no restante W2RC, que não irão durar sempre.

O projeto teve início em 2024, com a estreia da equipa no Rally de Marrocos, onde surpreendeu ao vencer logo na sua primeira grande prova, com Nasser Al-Attiyah à frente de Sébastien Loeb, ambos a pilotar os novos Dacia Sandrider. Este resultado serviu como preparação para o Dakar 2025, o principal objetivo da equipa, que apostou no desenvolvimento de um carro competitivo (categoria Ultimate T1+) com motor V6 biturbo e combustível sintético, que se tem vindo a destacar pela agilidade, baixo peso e fiabilidade.

O Dakar 2025 foi duro para a equipa: Sébastien Loeb viu a sua participação terminada precocemente após um capotamento na terceira etapa, que danificou o roll bar do carro – segundo a FIA – e obrigou à sua desistência por questões de segurança. Cristina Gutiérrez também não conseguiu lutar pela classificação geral, deixando Nasser Al-Attiyah como o único representante da Dacia na luta pelos lugares da frente, ficando a três minutos do pódio, mostrando que o carro tem potencial para bons resultados.

Este é já o segundo ano do projeto, e já se nota evolução, pois Nasser Al-Attiyah lidera atualmente o Mundial de Rally-Raid (W2RC), consolidando a equipa como uma das melhores do campeonato. Sébastien Loeb, por outro lado, tem enfrentado dissabores, logo no Dakar, mas a equipa continua a trabalhar para melhorar a fiabilidade e o desempenho, com vista a resultados ainda melhores nas próximas provas, e no início de 2026, no próximo Dakar.

Tivemos a oportunidade de falar com Tiphanie Isnard, Chefe da Equipa Dacia Sandriders, a líder por trás do ambicioso projeto da Dacia no Dakar. Com três vitórias no Dakar no currículo e uma longa trajetória no WRC, Tiphanie Isnard fala com paixão e franqueza sobre o desafio de liderar uma estrutura jovem, mas ambiciosa, os bastidores de um programa de fábrica, com o selo do Grupo Renault, e a experiência de trabalhar com nomes como Sébastien Loeb e Nasser Al-Attiyah. Nesta entrevista exclusiva, revela o lado humano de um projeto que quer escrever história nas areias mais duras do mundo.

Para que os nossos leitores a conheçam melhor, diga-nos quem é Tiphanie Isnard, de onde veio e o que fez até agora no desporto automóvel. Provavelmente, muitos não sabem que ganhou o Dakar três vezes seguidas…

Chamo-me Tiphanie Isnard, tenho 40 anos. Nasci no sul de França, perto da zona onde se realiza o Rallye de Monte Carlo. É de lá que venho, a minha carreira começou e, entretanto, entrei para a Citroën no WRC onde passei 12 anos. Depois o Bruno Famin perguntou-me se queria entrar no programa Dakar com a Peugeot, e eu disse que sim, fiquei entusiasmada por poder ter outra experiência no desporto automóvel, foi fantástico. Ganhámos o Dakar três vezes com o Stéphane Peterhansel e o Carlos Sainz, foi maravilhoso, depois disso continuei a desenvolver a minha agência, que está envolvida na Fórmula 1 e em muitos desportos motorizados nos programas VIP, em ambos os lados, e quando, depois da época do covid, o Bruno voltou-me a ligar e disse-me que agora estava no Grupo Renault e que tínhamos um novo programa para o Dakar, que queríamos participar, e eu disse que sim, com certeza. Fiquei muito contente, gosto deste universo fantástico.”

Agora, as areias do Dakar, mas no início da sua paixão, era a neve do Rali de Monte Carlo?

“Sim, sim, mas porque desde os meus tempos de jovem quando chegava o Monte Carlo, toda a gente parava para ver o Monte Carlo, mas ninguém da minha família estava no desporto automóvel. Mas eu comecei a ver o que as equipas estavam a fazer, mesmo nos testes, quais eram os trabalhos, e comecei a ficar apaixonada!

Mas esse tipo de trabalho, não propriamente pelo WRC, mas sim pelo desporto motorizado, o trabalho de fazer parte da equipa, o desempenho, desenvolver o carro, a equipa, foi uma paixão clara, porque eu era uma rapariga do desporto desde o início, fazia muito esqui e basquetebol, por isso o desporto faz parte da minha vida.”

Como tem sido este percurso desde o anúncio do projeto para iniciar o Rali de Marrocos 2024 e o Dakar 2025, até agora?

“O carro foi construído há apenas um ano, por isso ainda é um programa jovem, tivemos um grande e intenso período de desenvolvimento durante o verão do ano passado, e mesmo quando começámos o Rali de Marrocos, começámos normalmente como um rali de desenvolvimento do carro, mas ganhámos Marrocos, por isso foi fantástico. Foi uma grande sensação para a equipa, porque trabalharam muito e, depois disso, tivemos de trabalhar muito, não tivemos fins de semana, nem férias, andámos sempre às voltas com o projeto. Agora há um pouco mais de calma porque acabámos a primeira parte da campanha, mas mesmo sendo um programa jovem é muito, muito intenso.”

Aposto que sendo uma mulher, tem um sexto sentido especial na relação com as pessoas, e isso é uma mais-valia no seu papel na equipa…

“O automobilismo é a minha paixão. Acredito que uma mentalidade positiva e focada contribui para um bom espírito de equipa. Juntos, construímos a equipa, trabalhamos arduamente e vivemos a história. Quando vejo a minha equipa na fotografia, no final das corridas, após tanto tempo de trabalho e longe da família, sinto uma grande emoção porque isto é o lado humano… Podemos construir um carro com tecnologia, mas somos humanos e somos uma equipa, somos uma família, e estamos a fazer história juntos. Por isso, tudo isto é fantástico e penso que sim, tenho esta sensibilidade na relação com as pessoas e estou orgulhosa de todos os elementos da equipa.”

A Dacia tem o apoio do Grupo Renault e a colaboração com a Prodrive neste projeto do Dakar, sente que já tem um pacote capaz de vencer o Dakar 2026?

“Sim, estou confiante porque temos muitos bons parceiros, temos a Alpine Racing, que está a fazer toda a engenharia do desporto motorizado, temos a Prodrive, que opera o carro e que tem uma grande experiência no desporto motorizado. Temos um line-up fantástico, tudo o que podemos fazer é prepararmo-nos arduamente, trabalharmos para estarmos prontos! Por isso, sim, fazemos tudo o que está ao nosso alcance para ganhar o Dakar. Agora, não é fácil, nem vai ser fácil, é uma viagem longa, nunca sabemos o que o Dakar vai ser, o que o Dakar nos vai trazer, mas vamos estar prontos para isso!”

Este ano a Dacia lidera o W2RC com o Nasser, mas o Sébastien teve mais azar, como tem sido e o que espera daqui para a frente?

“Tem sido muito difícil porque, enquanto preparávamos o carro do Seb (Loeb) e preparávamos o carro da Cristina (Gutierrez), tínhamos um trabalho enorme para estarmos prontos para o Dakar, o que aconteceu com o Loeb e a desqualificação foi uma grande desilusão. Foi, até agora, a má recordação do programa e voltou a acontecer em Abu Dhabi (Desert Challenge), mas faz parte do desporto automóvel. Temos de fazer um bom trabalho, a equipa faz um bom trabalho, a competição é cada vez mais intensa com os grandes nomes e os grandes fabricantes.

Tudo isso faz parte do Dakar, é o que é, infelizmente aconteceu com o Seb duas vezes seguidas, mas agora ele foi segundo na África do Sul, foi um bom resultado e… a questão do roll-bar ficou para trás…

Portugal deve ser um evento muito bom para vocês, porque as etapas podem ser perfeitas para o vosso carro, o Dacia Sandrider…

Sim, é um evento muito bom porque é muito diferente – uma típica baja – mas é sempre bom testar o carro nesse tipo de terreno, temos muito boas recordações do WRC, a diversão, as pessoas são fantásticas e estamos ansiosos por partilhar o carro, o espírito, a paixão das pessoas em Portugal, uma corrida europeia também é muito bom para nós. Por isso, sim, acho que temos boas expectativas para a prova e só queremos colocar o nome no topo da ronda portuguesa…”

Este projeto está previsto até 2027, ou vai ser prolongado?

“O nosso roteiro é de três anos, três Dakar e W2RC e depois vamos ver qual é o futuro que nos traz…”

O vosso carro, o Dacia Sandrider, penso eu, tem um pouco de tudo: Dacia, claro, engenharia Alpine, motor Nissan e penso que algumas peças Hunter, através da Prodrive, não é verdade? Conte-me mais…

“Embora a Prodrive seja o nosso parceiro técnico e tenhamos colaborado com o seu gabinete de design, o Sandrider não é, de maneira nenhuma, um Hunter renovado. Optámos por selecionar componentes fiáveis e de alto desempenho do Hunter, mas o design do nosso protótipo foi da responsabilidade do departamento de design da Dacia desde o início. Além disso, reunimos recursos de engenharia do grupo com a Alpine e escolhemos um motor Nissan. Trata-se de um chassis totalmente novo, um motor completamente novo e um cockpit revisto.”

Qual é o ponto mais forte do carro? Não vou perguntar qual é o mais fraco, porque provavelmente não me vai dizer…

“O ponto mais forte é o facto de o Sandrider ser compacto, pelo que a condução é muito confortável para o piloto em diferentes tipos de terreno, podendo passar facilmente por todos os terrenos. O ponto fraco do carro é que, por ser muito compacto, o sistema de arrefecimento torna o habitáculo muito quente, pelo que tivemos dificuldades no início, mas já estamos a resolver o problema…”

O Dakar é provavelmente a corrida mais difícil do mundo do desporto automóvel. Pode explicar aos nossos leitores os altos e baixos por que passa uma equipa no seu todo, com tudo o que se passa numa corrida de 15 dias como o Dakar, onde por vezes se vai do céu ao inferno e vice-versa em segundos? Penso que não é só o piloto e o navegador que têm de estar física e mentalmente a mil por cento…

“Isso é verdade porque todos os técnicos, e também os dirigentes, estamos todos a viver em tendas, a dormir em tendas, às vezes o duche é ‘fresquinho’, outras vezes os dias são muito intensos física e mentalmente, porque durante 15 dias, temos de acordar cedo, preparar o carro, dar o carro à dupla, o carro volta entretanto, conduzimos de bivouac em bivouac, reconstruímos o carro, e isto é durante 15 dias, por isso, é muito intenso, e mesmo quando é dia de descanso temos de nos esforçar imenso para termos a certeza de que vamos aguentar a segunda semana, por isso sim, é muito exigente, mas o ser humano tem limites, as pessoas cansam-se. Por vezes, há um pouco mais de tensão, coisas que nunca se tem na vida ‘normal’, mas que ali, no Dakar, se podem tornar um drama enorme, coisas pequenas que se podem tornar problemas maiores, e depois há também a pressão do resultado, por isso, sim, faz parte do meu trabalho acordar de manhã e dizer: “Vamos lá, malta, vamos embora! Por isso, sim, isto é uma casa para todos, e ser uma equipa forte é muito mais que o simples desempenho do carro…”

Como funciona a estrutura da equipa num contexto de gestão de crises, num evento como o Dakar, as decisões rápidas sob pressão são vitais. Numa equipa, um pequeno problema pode tornar-se grande, devido ao local onde se está, longe de quase tudo. Como é o processo de tomada de decisões na sua equipa?

“O processo de decisão é diferente, porque se for uma questão técnica, passa diretamente pelo engenheiro, o contacto entre o piloto e o copiloto é o engenheiro e o diretor técnico, mas se for uma decisão que tenha a ver com o ponto de vista desportivo, passa diretamente por mim, não há muitas pessoas que possam ter uma palavra, que possam ter essa liberdade. Sou eu e o diretor técnico, e temos uma relação muito forte. Conhecemo-nos há muito, estivemos juntos na Citroën e na Peugeot, por isso conhecemo-nos muito bem e isso é muito importante…”

Sendo personalidades tão diferentes, Al Attiyah e Loeb têm de trabalhar juntos, por vezes, como é que isso funciona?

“Penso que são ambos grandes atletas e sabem que se querem fazer crescer a equipa, têm de trabalhar em conjunto. Trabalhar com o colega de equipa e trocar informações faz parte do desempenho. Por isso, se acontece alguma coisa, um problema, uma questão, no carro do Nasser, se ele contar ao Seb, isso já não deverá acontecer, porque estão precavidos, e é o mesmo caso com toda a gente. Portanto, é puro trabalho. Eles não vão passar férias juntos, mas isso não é um problema. Só têm de falar um bocadinho no que verdadeiramente interessa…”

Esteve muitos anos no WRC, agora à distância, como é que ‘vê’ o Mundial de Ralis, globalmente falando?

“Há muito barulho sobre o futuro do WRC e, de certeza, estou um pouco chateada com o que se passa, porque há lá pessoas fantásticas e confio plenamente que as pessoas que estão a gerir o WRC, vão encontrar uma boa maneira de continuar a desenvolver o espírito deste campeonato, que é fantástico, quando há 14 ralis diferentes, vários tipos de terreno, diferentes condições, por isso, tecnicamente, o WRC é muito emotivo e divertido, e estou confiante de que encontraremos uma forma de ter um futuro melhor no WRC. Com a Pernilla Solberg, que está a falar com os pilotos para encontrar uma forma de tornar as coisas mais positivas no futuro…”

Muito bem, e relativamente ao W2RC, é um campeonato muito mais recente. Como é que vê a sua evolução? Está a evoluir como desejado, está mais lento…

“Infelizmente, o bom é que o Dakar é o brilho do campeonato como Le Mans é no Endurance, e não se fala tanto das outras provas, que são também fantásticas. Por exemplo, Portugal é completamente diferente da África do Sul, é fantástico, temos muitas histórias à volta da competição, estamos a competir, enfrentamos alguns problemas e isso faz parte das histórias que se podem contar. É uma disciplina muito exigente. E sim, temos de ter um grande foco nisto. O Dakar não precisa, o Dakar é o Dakar, vive para si próprio, mas temos um bom campeonato à volta dele e estamos a dar muito valor, a Ford também, a Toyota também. Temos uma boa relação entre os construtores e pressionamos muito o promotor para destacar mais os outros eventos.”

Não se vai surpreender muito em Portugal porque já sabe como é, desde os tempos do WRC, o que vamos ver, mas quase podemos apostar que este evento do W2RC em Portugal vai ser fantástico…

“Sim, no ano passado, estive lá e fiquei muito surpreendida, no bom sentido, porque havia muita experiência do WRC que o organizador trouxe para o W2RC e muitas pessoas do W2RC disseram, oh, é demasiado WRC, mas vá lá, é bom. É bom que estejamos a partilhar, pela primeira vez, as duas disciplinas e a crescer juntos. É ótimo porque está bem organizado, é muito disciplinado, por isso para o W2RC é bom, e é bom para nós, Dacia.

O público é fantástico. As pessoas, os portugueses são fantásticos, estamos ansiosos por lá ir. As minhas melhores recordações do WRC são do troço de Fafe, quando vi o salto em Fafe, é um dos meus melhores momentos no WRC…”

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