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Dakar 2003, uma prova que Stéphane Peterhansel nunca esquecerá | AutoSport

Dakar 2003, uma prova que Stéphane Peterhansel nunca esquecerá

Por a 30 Janeiro 2023 19:09

Stéphane Peterhansel já venceu o Dakar 14 vezes, 6 nas motos, 8 nos autos, mas a primeira vitória (nos autos) surgiu somente em 2004, quando tinha tudo para ter vencer em 2003. Mas algo aconteceu. Recordemo-lo…

Pelo terceiro ano consecutivo, a Mitsubishi, nos automóveis, e a KTM, nas motos, triunfaram nas respetivas classes. Até aqui, nada de surpreendente. Não fosse a forma dramática como ficou definido o nome de um dos vencedores. Ironicamente, um japonês teve agora a sorte que lhe faltou em 2001…

Por mais lições que a vida nos dê, teimamos em acreditar que existem vencedores antecipados, mesmo antes da corrida terminar. Erro crasso! Sobretudo quando a corrida dá pelo nome de “Dakar”.

É claro que até o mais veterano dos pilotos seria lícito pensar que, quando a diferença entre primeiro e segundo classificado é de 25m50s, à entrada para o penúltimo dia de prova, tudo está mais do que resolvido.

Só que o desporto motorizado por vezes prega destas partidas. Como a do passado sábado, com Stèphane Peterhansel, ou como uma outra, passada dois anos antes, com Hiroshi Masuoka. Quer num caso quer noutro, uma vitória certa acabou por transformar-se numa derrota para a qual ninguém consegue estar preparado. Afinal, no pensamento de ambos estaria já um sonho quase materializado em realidade. Neste caso, o sonho de um francês juntar às (seis) vitórias nas motos uma primeira nos automóveis, feito que até hoje passa ainda a estar apenas ao alcance de Hubert Auriol.

Triste, abatido, desencantado, Peterhansel não deixou de se relevar um verdadeiro campeão, mesmo na hora da mais pesada das suas derrotas: “Foi um dia terrível, difícil de esquecer. São as coisas que acontecem neste desporto quando se pensa que uma corrida está ganha ainda antes de cruzar a linha de chegada. Mas temos de manter uma atitude positiva: afinal, alguns sofreram consequências físicas bem graves nesta corrida. E nós estamos bem…”

A lição a reter disto? Apenas que nem sempre a vida é justa.

Masuoka pela segunda vez

O mais curioso de tudo isto é que, até esta famosa penúltima etapa, o “Dakar” de 2003 carecia de alguma emoção. Os culpados disso? Os novos Pajero Evolution, tripulados por Peterhansel e Masuoka, que cedo demais relegaram para segundo plano as estreias, a nível oficial, da Volkswagen, Nissan e BMW (esta última sob o disfarce do Team X-Raid), e quase para o esquecimento os dois buggies Schlesser-Ford… Aliás, a Diesel ou a gasolina, o destino do piloto/preparador francês não se alterou de um ano para o outro, voltou a dizer “au revoir” muito cedo à prova que ganhou em 1999 e 2000. Assim, ainda mal a caravana tinha entrado em África e já a única dúvida que persistia era saber quem levava a coroa para casa: se Peterhansel, pela sétima vez na sua carreira; se Masuoka, pelo segundo ano consecutivo.

No terreno, o francês fez a diferença, tal como já havia feito por seis vezes nas duas rodas. Mas, no restrito livro de vencedores da prova quem assina pela segunda vez o seu nome é o japonês, ainda que de forma tão injusta como o fez Jutta Kleinschmidt, em 2001.

Para a história deste “Dakar” ficam as imagens dos dois pilotos, lado a lado, no mais rápido “GP das dunas” de que há memória. Ou não fossem eles ao volante dum verdadeiro “Fórmula 1 do deserto.”

BMW impressionou

Mas o passado sábado não se tornou cruel apenas para um piloto, pois também Miki Biasion haveria de ser arredado de um pódio que tinha herdado momentos antes. O italiano foi vítima de uma pesada penalização após ter procedido à reparação da caixa de velocidades do seu Pajero em zona de Parque Fechado, vendo por isso o terceiro lugar transformar-se, de uma hora para a outra, num amargo 15º lugar.

Quem também teve uma passagem efêmera por esta posição foi Grégoire de Mévius, o belga que impressionou tudo e todos ao volante do BMW X5 de motorização Diesel, ao ponto de ser o único que ainda conseguiu colocar alguma pressão aos dois “Mitsu Evo boys”. Só que este ousadia haveria de ter um preço demasiado alto, depois de um toque numa pedra deixar a direcção do carro alemão sem conserto. Mas, talvez por vingança, Luc Alphand estreou-se a vencer uma etapa, a primeira da marca nas quatro rodas e a primeira de um Diesel no historial da prova.

Quanto a Carlos Sousa, acabaria por assegurar um inesperado quarto lugar, atrás de Fontenay e Peterhansel, o que mesmo constituindo o seu melhor resultado de sempre na prova, não deixa esconder uma certa desilusão. Afinal, com um carro que estava finalmente à altura do desafio, apenas por uma vez conseguiu acompanhar o ritmo dos da frente. Ainda que por culpa de um navegador (Henri Magne) que apenas soube fazer a diferença… pela negativa.

Volkswagen desiludiu

Mas, se uma marca – a BMW – surpreendeu pela positiva, outras há que ficaram bem aquém das expectativas iniciais, nomeadamente a VW, que o melhor que conseguiu foi colocar Stèphane Henrard no sexto lugar.

Apesar de se ter tratado de uma estreia, ainda por cima planeada em tempo recorde, ninguém pode ficar indiferente às modestas performances do Tarek, depois rebaptizado de Desert Nardo, mas sobretudo à parca fiabilidade do buggy de Jutta Kleinschmidt.

A Nissan, por seu lado, também falhou o seu objectivo declarado, isto é, bater a rival Mitsubishi. Mas apenas porque a fasquia foi colocada demasiado alta. O acidente de Kenjiro Shinozuka em nada contribuiu para acalmar a “jovem” equipa, que voltou a ter na falta de fiabilidade da Pick-Up sul-africana o seu “calcanhar de Aquiles”. De qualquer forma, é justo dizer que a Nissan evoluiu sobremaneira relativamente ao último ano, caso contrário, nem Ari Vatanen teria vencido quatro especiais… nem Giniel de Villiers teria chegado ao quinto posto, na sua estreia no “Dakar”.

Sainct fez a diferença

Nas motos, Richard Sainct teve o mérito de nunca deixar de acreditar que era possível chegar à vitória – a terceira da sua carreira – aos comandos de uma moto que, tanto na teoria como na prática, era inferior à dos seus mais directos opositores.

Mais do que Joan Roma ou Fabrizio Meoni, a bicilíndrica da KTM foi, por isso, a maior derrotada desta edição, pois a sua superior velocidade de ponta de nada serviu quando a fiabilidade da moto austríaca caiu por terra.

Isso mesmo ficou provado quando Meoni decidiu lançar o seu ataque à liderança, numa etapa em que prometia ganhar pelo menos 15 minutos ao seu rival francês. Ao invés disso, perdeu mais de meia hora, depois da sua moto passar a trabalhar, ironicamente, apenas num cilindro.

Um dia depois, voltou à carga e ainda ameaçou Sainct. Mas o destino do italiano estava escrito e uma queda violenta na 14ª etapa atirou, definitivamente, o vencedor das duas últimas edições da prova para o terceiro posto, atrás de Cyril Despres.

Ainda nas duas rodas, destaque ainda para o triunfo de Jean de Azevedo na Categoria Maratona, fruto de um soberbo quinto lugar à geral do brasileiro.

Finalmente, nos camiões, a vitória haveria de sorrir, pela terceira vez na sua carreira (a segunda consecutiva), ao russo Vladimir Tchaguine (Kamaz).

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