WRC, Sébastien Ogier vence Rali Safari
Sébastien Ogier venceu o Rali Safari, uma prova em que não sendo o mais rápido, foi o menos azarado, e contou novamente com fraca fiabilidade dos Hyundai que voltaram a ter problemas com a suspensão do i20 WRC. Takamoto Katsuta liderava perto do fim, mas o francês puxou dos galões e triunfou pela quarta vez em seis ralis. Para o japonês, este foi o seu melhor resultado de sempre.
Dezanove anos depois o Rali Safari regressou ao WRC, num evento que honrou o seu passado, em termos da dificuldade que o evento, historicamente, colocou aos seus concorrentes.
Numa era em que o Mundial de Ralis preza muito mais a velocidade que a endurance, como sucedeu no passado, a prova africana foi uma excelente adição à competição, pois a distinção que introduziu foi positiva. Ver concorrentes a gerir o andamento e a rodar em curvas em que habitualmente passaria no triplo da velocidade, a rodar a 30 Km/h tantas eram as pedras no percurso. Se alguém estranhou, foram os jovens adeptos, pois os ‘veteranos’ sempre conheceram a combinação de velocidade com endurance e gestão no WRC.
Neste contexto, as equipas depressa perceberam que a sobrevivência era o principal objetivo, tal foi o ritmo com que começaram a ‘cair’ concorrentes com problemas, logo na sexta-feira, naquele que se julgava ser o dia mais ‘soft’ da prova. Um aperitivo, que depressa ficou indigesto.
Troços bem mais curtos que o Safari de 2002, mas igualmente duros. Por isso, apesar destes WRC serem robustos, a forma como as equipas os utilizam, nos limites, aumenta imensamente o risco de haver problemas e depressa as equipas o perceberam.
A classificação no fim do primeiro dia de imediato deixou perceber que fora um dia difícil e duro, neste regresso do WRC ao Safari.
Curiosamente, a sensação que ficou foi que depois de tudo o que passaram no primeiro dia, os concorrentes adaptaram-se para o segundo em que quase nada sucedeu em termos mecânicos, derivados da dureza do percurso, mas aí entrou em liça a meteorologia.
Depois de um dia seco, uma enorme carga de água que não afetou toda a gente, revirou novamente a classificação, ‘tramando’ essencialmente, Ott Tanak e Takamoto Katsuta.
No primeiro dia, Elfyn Evans, Dani Sordo, Oliver Solberg, Lorenzo Bertelli e Kalle Rovanperä abandonaram a prova por motivos diversos, mas no segundo todos os World Rally Cars chegaram incólumes ao fim do dia. Só mesmo Adrien Fourmaux teve um ligeiro problema, com o pé que hoje entrou no carro e Ott Tanak, que com a avaria da chaufagem perdeu quase dois minutos. Coisas que podem suceder em qualquer lado.
O primeiro dia de prova foi um enorme teste para todos, e os erros não foram cometidos no segundo dia em que ninguém atacou. Outro dos exemplos que fugiram do habitual foram as notas.
A maioria mudou imenso as suas notas de uma passagem para outra. O maior problema? A falta de referências nos troços.
Muitos altos e baixos
Resumindo muito o que foi a prova de cada piloto, Sébastien Ogier fez daquelas provas que só ele sabe. Teve problemas com o reservatório de óleo de um amortecedor na 6ª feira e perdeu imenso tempo chegando ao fim do dia a 1m49.4s do líder, no quarto lugar. Recuperou alguma coisa no sábado, e com a ajuda da chuva, ficou a 18.1s de Takamoto Katsuta, no terceiro lugar. No domingo, fez o resto, passou o colega de equipa, depois de Neuville abandonar. Termina o primeiro dia a quase dois minutos do líder e ainda vai ganhar o rali. Só mesmo no Safari. Há quem fale em sorte, mas essa dá sempre muito trabalho…
Takamoto Katsuta fez um rali brilhante. Sabendo que cabia aos seus colegas de equipa lutar pelas melhores posições, foi andando com cautela, isso já lhe estava a pagar dividendos ao ver adversários ‘caírem’, mas tudo se precipitou quando chegou ao fim do primeiro dia em segundo da geral. Manteve corajosamente a posição durante todo o segundo dia, em que ninguém atacou ninguém e chegou à liderança do rali quando Neuville abandonou. Ainda aguentou um troço, mas Ogier passou-o na penúltima especial. O tempo que perdeu com a chuva de fim de dia no sábado, foi decisivo. Ainda assim, a sua melhor classificação de sempre no WRC.
Ott Tänak chegou desconfiado a este rali, andou de forma consistente, mas sempre sem forçar o ritmo, confessando depois que andou a 60% das capacidades.
A tática era boa, os adversários tiveram efetivamente problemas, e se não tem tido o azar da chaufagem do i20 WRC avariar, teria sido, quase de certeza, pelo menos segundo no rali. Estava a 14.5s de Katsuta e a 49.5s de Neuville. O azar só bateu mesmo à porta dos Hyundai.
Para Adrien Fourmaux, três provas com um WRC, 5º na Croácia, 6º em Portugal e agora 4º no Safari. Sabendo que não lhe era possível lutar mais à frente, foi fugindo dos problemas e subindo paulatinamente de posição. Ganhou a luta com o seu colega de equipa, e tal como o seu colega de equipa, sobreviveu a uma experiência completamente diferente da que já tinha vivido nos ralis. A M-Sport deu-lhe um carro o mais alto possível e duro, de modo a não o danificar, isso tirou-se tração, mas fez pouca diferença face ao que era preciso. Mais uma boa exibição, cada vez mais a fazer esquecer Teemu Suninen.
Gus Greensmith teve no Safari a prova ideal para não levantar ondas. Tirou partido da experiência, andou o suficiente, mas perdeu luta direta com Fourmaux.
Kalle Rovanperä esteve perto do céu, no primeiro dia de prova, e depois de vencer a PE4 e 5 chegou à liderança do rali, mas no final do dia ficou atascado no fesh-fesh, e teve de abandonar. No segundo dia, geriu, como todos, o andamento, para fugir aos problemas, o que fez até ao fim, terminando no sexto lugar. Foi segundo na PowerStage, e depois de dois maus resultados, voltou a um bom momento.
Elfyn Evans era quarto da geral quando bateu numa enorme pedra, que conhecia dos reconhecimentos. Um erro que o atirou para fora de prova. Tudo o resto, foi minimizar as perdas. Somou quatro pontos, três deles na PowerStage. Foi 10º da geral.
A Thierry Neuville e Martijn Wydaeghe não mereciam o que lhes aconteceu. Fizeram uma grande exibição, tinham a vitória quase garantida depois de chegarem ao último dia de prova com 57.4s de avanço para o segundo, mas uma quebra da suspensão, mais uma para a Hyundai, ‘tramou-os’, perdendo ingloriamente esta prova. É verdade que teve um duplo furo no primeiro dia e mesmo assim conseguiu manter a liderança, mas a sorte que teve aí perdeu-a no último dia.
Lorenzo Bertelli corre nas provas que quer, não tem que se justificar perante ninguém o facto de andar pouco, anda lá para se divertir, e foi o que fez. Passou a ter um Safari no currículo, o que poucos atuais pilotos têm.
Dani Sordo abandonou na PE3 depois de bater numa pedra, partir um braço de suspensão, e sair de estrada. Regressou, levou o carro até ao fim e somou um ponto na PowerStage.
Oliver Solberg bateu no shakedown, foi nono na PE2 e bateu na seguinte, desperdiçando mais uma oportunidade de evoluir no WRC. Tem muito valor, mas está com dificuldades de o mostrar. Mesmo que baixe um pouco o ritmo, continuará a andar muito, talvez devesse ter tido outra abordagem a este prova.
Como é natural face a tantos problemas, o top 10 ficou completo com vários pilotos locais. Onkar Rai (Volkswagen Polo GTI R5) triunfou mais de quatro minutos na frente de Karan Patel (Ford Fiesta R5) com Carl Tundo (Volkswagen Polo GTI R5) em terceiro, nono da geral.
Foi Elfyn Evans que fechou o top 10.
Filme da prova
Já se esperava que o Rali Safari fosse duro para as mecânicas e existissem armadilhas em “cada canto” mas depois de um primeiro dia cheio de incidentes, e um segundo muito calmo, até começar a chover… para alguns.
Thierry Neuville liderou os sobreviventes do Rali Safari no dia de abertura da prova, etapa que ‘destruiu’ as esperanças de metade dos pilotos de topo, logo na sexta-feira.
O belga venceu três dos seis troços, e chegou ao fim do dia com 18.8s de avanço para Takamoto Katsuta, isto apesar de ter tido dois duros e um problema no motor no derradeiro troço do dia.
Kalle Rovanperä esteve momentaneamente na liderança do rali, mas as suas esperanças ficaram arruinadas quando o seu Toyota Yaris ficou preso no fesh-fesh profundo. O carro foi rebocado para fora do troço e o finlandês abandonou.
Katsuta perdeu tempo quando deixou o motor do Toyota calar-se, mas o piloto japonês subiu de quarto para segundo no último troço do dia, aproveitando os problemas de Rovanperä e um furo de Ott Tänak, que custou ao estónio quase um minuto.
O líder do campeonato, Sébastien Ogier ficou a 1m49.4s da liderança, em quarto, após ter perdido o óleo do amortecedor traseiro direito do seu Yaris, tendo que abrandar muito para chegar ao fim. Os Ford Fiesta de Gus Greensmith e Adrien Fourmaux completaram o top 6. Greensmith quebrou uma barra anti-rolamento, mas a sua abordagem cautelosa deu dividendos. Já Elfyn Evans abandonou a 300 metros do final da PE3 depois de bater numa pedra e partir a suspensão dianteira direita no seu Yaris WRC.
Dani Sordo saiu no mesmo troço, quando uma pedra partiu um braço de suspensão no seu i20 WRC, levando-o a uma saída de estrada a alta velocidade.
Oliver Solberg ficou com a suspensão traseira direita danificada logo desde o início e acabou por desistir depois de Kedong com o roll bar danificado. Lorenzo Bertelli parou com uma fuga de líquido de refrigeração no motor do seu Fiesta.
No segundo dia, Neuville aumentou a sua vantagem sobre Takamoto Katsuta para 57.4s, mas no fim do dia um súbito aguaceiro no final dos 31,04km de Sleeping Warrior causou o caos na caravana. As estradas secas e poeirentas transformaram-se rapidamente em lama e os pneus não ofereciam a aderência mínima.
Apesar de perder tempo, Neuville aguentou-se melhor que Katsuta, que patinou para fora da estrada e cedeu mais de 20s ao seu rival. Com isso, Katsuta, ficou sob pressão de Ott Tänak. Mas tudo correu mal para o estónio em Sleeping Warrior. Apanhado na tempestade, a chaufagem do para brisas do seu Hyundai i20 falhou e teve de parar para limpar. Perdeu mais de um minuto para Katsuta e viu-se relegado para quarto lugar.
Sébastien Ogier estava em modo recuperação após os problemas de suspensão de sexta-feira. O francês venceu três troços, e no final, com a chuva, subiu a terceiro, apenas 18.1s atrás de Katsuta. Os homens dos Ford consolidaram a quinta e sexta posições, ficando separados por 12.0s.
Esta manhã, Thierry Neuville danificou seriamente a suspensão traseira direita do seu Hyundai i20 WRC e terminou o primeiro troço do dia quase um minuto atrás de Sébastien Ogier. Mesmo que fosse possível atenuar o problema, sem assistência não havia a mínima hipótese do belga suster os ataques dos seus adversários e depois de ter ficado no fim da PE14 com apenas 11.7s de avanço para Takamoto Katsuta, com Sébastien Ogier 4.6s mais atrás depois de ter ganho 13.5s ao japonês, a Hyundai confirmou o abandono de Neuville e Wydaeghe, com Takamoto Katsuta a ser o novo líder do Rali Safari, mas apenas com 0.8s de avanço para Ogier, faltavam três troços.
Como se calcula, não demorou muito a Ogier virar as contas a seu favor. Empatou na PE16, desempatou na PE17 por 8.3s a seu favor, confirmando o triunfo na PowerStage. Takamoto Katsuta assegurou o segundo lugar e a sua melhor classificação de sempre no WRC, Ott Tanak terminou em terceiro uma prova em que teve tanto de cuidadoso como de azarado.
Seguiram-se os dois Ford, de Adrien Fourmaux e Gus Greensmith, quarto e quinto. O melhor resultado de conjunto do ano, de longe para as duplas da M-Sport.

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Peça Misto
27 Junho, 2021 at 13:12
Azar dos pilotos Hyundai, que pilotam o carro mais frágil do Mundial.
Suspensões com falhas crônicas e ventilações defeituosas dão nisto. A Hyundai só se pode queixar dela própria. E se jogam com segundos e terceiros pilotos a seu bel prazer, que tipo de compensação darão aos pilotos de topo, por lhes darem produto tão fraco.
Homem do Leme
27 Junho, 2021 at 16:46
O Ogier na entrevista que deu antes da prova, falou com bastante entusiasmo e expectativa sobre a experiência que os esperava com este rali, diferente de todos os outros e parece que estava a adivinhar o que se iria passar!
Apesar de a totalidade do atual rali Safari corresponder a praticamente uma única etapa da anterior, os pilotos tiveram de entrar em modo de “sobrevivência” para chegar ao fim.
O Ogier acabou por ser o mais feliz apesar do Katsuta merecer tanto ou mais a vitória. Aqui provavelmente falaram mais alto as ordens de equipa, coisa que tanto a Hyundai ou Ford teriam feito nas mesmas circunstâncias… portanto não me venham com falsos moralismos!