WRC, Rali Safari/PEC 10: Solberg e Ogier, separados por 1.0s, Evans espera por amanhã: “o inferno vai rebentar”
O dia de sexta-feira fechou em Mzabibu 2 com Oliver Solberg (Toyota GR Yaris Rally1) a responder à pressão, Sébastien Ogier (Toyota GR Yaris Rally1), batendo o francês por 0.3s e terminando o dia com 1.0s de avanço.
Sami Pajari (Toyota GR Yaris Rally1) assinou mais um tempo de referência enquanto Esapekka Lappi (Hyundai i20 N Rally1) e Jon Armstrong (Ford Puma Rally1) simbolizaram o lado mais duro – e humano – do Safari: sobreviver, mesmo quando tudo parece conspirar para parar o carro.
Enquanto as equipas regressam ao parque de assistência, o quadro é cristalino: Solberg continua na frente, mas com Ogier colado, a um sopro; Evans segura o terceiro lugar já a 20’.5s do líder e Pajari emerge como o homem do dia em ritmo puro. A Hyundai mantém‑se dentro da luta com Adrien Fourmaux (Hyundai i20 N Rally1) e Lappi mas Thierry Neuville (Hyundai i20 N Rally1) tenta ainda encontrar o verdadeiro passo certo.
Os “sobreviventes” como Armstrong lembram a todos que, no Safari, cada especial é menos uma corrida contra os outros e mais uma luta constante contra o próprio rali. Amanhã, como prometeu Evans, “todo o inferno” pode, de facto, soltar‑se”, pois é esperada muita chuva, o que torna as margens de hoje pouco ou nada significativas.
Basta ver o que sucedeu no primeiro troço do rali com Ogier a ficar logo a mais de um minuto da frente, Pajari a dois e os Hyundai todos a mais de dois minutos.

Filme da especial
O derradeiro troço do dia arrancou sem a ameaça de chuva que pairou durante a tarde. Elfyn Evans foi o primeiro dos favoritos a fechar a sexta-feira, com 7m19.0s, consciente de que o mais importante era chegar inteiro. “Chegar sem problemas era bastante importante”, admite. “Amanhã o inferno vai rebentar. Estamos numa boa posição por agora, mas ainda falta muito. Se olharmos para anos anteriores, amanhã pode acontecer um pouco de tudo. Nunca estás preparado para isso.” A frase soa quase como um prólogo para o que aí vem.

Solberg entra logo atrás em modo de resposta. Depois do furo que lhe custou largos segundos, precisa de travar a recuperação de Ogier e volta a arriscar no limite do aceitável. O Toyota dança num piso escorregadio, o sueco chega a pensar que tem um furo na frente direita, mas insiste e arrasa o tempo de Evans: 8,5 segundos mais rápido. “Dei o meu melhor. Estava mesmo muito escorregadio e pensei que tinha um furo por alguma razão, mas não sei porquê”, confessa à saída. No fim, olha imediatamente para o rival direto: “Estamos de novo a zero com o Seb, vamos ver o que ele faz. Já tive uma luta com ele antes e este ano estou a ganhar 1-0, por isso vamos ver. Ele fez um dia incrível, impressionante. Tentei ser inteligente e fazer a minha parte e fomos claramente demasiado cautelosos, com azar no furo. Amanhã vamos outra vez.” É um misto de respeito e desafio: sabe que, do outro lado, está um oito vezes campeão, mas recusa encolher-se.

Takamoto Katsuta chega a seguir, ainda a carregar o peso mental do duplo furo do início da tarde e sem rodas suplentes há vários quilómetros. Faz 7m13.3s, apenas 2,8 segundos mais lento do que Solberg. “Infelizmente tivemos os furos na primeira da ronda”, recorda. “Não foi muito agradável, mas pelo menos ainda estamos no jogo.” Adrien Fourmaux reforça a posição no top 6 com 7m11.1s, só seis décimas acima do tempo do líder, e alarga a margem sobre Katsuta na luta direta. Sem grandes palavras, deixa falar o cronómetro: sexta-feira termina com uma Hyundai sólida, a colher dividendos de um dia em que encontrou finalmente confiança no seco.
Thierry Neuville, por seu lado, leva o i20 a 7m14.9s e fecha muito provavelmente o dia em quinto da geral, depois de uma reparação de recurso na estrada. À pergunta “o que está mal?”, responde apenas: “Muita coisa.” O olhar, mais do que as palavras, explica o balanço: o belga está vivo na classificação, mas longe do cenário que imaginara à partida.
Ogier surge então em modo cirurgião. Precisa de medir cada ataque ao milímetro: quer aproximar-se de Solberg, mas sabe que um erro pode deitar por terra um dia quase perfeito. Corta em 7m10.8s, apenas três décimas mais lento do que o sueco. A diferença entre os dois, depois de dez classificativas, fica em um segundo. “Foi um bom dia”, reconhece. “É até melhor não estar na frente esta noite porque sabemos que, ao sábado, começa sempre a chover à tarde e quase sempre os de trás sofrem mais. Amanhã é um grande dia e será um desafio enorme sobreviver.” O francês joga também no xadrez estratégico do Safari: começar atrás pode ser vantagem quando o céu abrir.

No meio da guerra pelo topo, Sami Pajari continua a construir um rali quase perfeito nas entrelinhas. Em Mzabibu 2, volta a ser o mais rápido: 7m07.8s, 2,7 segundos melhor do que o tempo de referência. “Hoje estive a divertir-me bastante”, admite o finlandês. “Claro que foi duro em muitas especiais, mas tentei ser inteligente nos sítios em que o risco é maior. Ainda falta um caminho muito longo.” Com um sorriso, conta que viu alguns colegas a assistir à sua ‘onboard’ da primeira passagem à hora de almoço: “Acho que é um sinal, às vezes era ao contrário, por isso está bem assim.” É a confirmação de que não está apenas rápido; está a ser observado como referência.
Esapekka Lappi fecha o dia em 7m17.1s, com um alarme de temperatura de óleo a acender no i20 e o cansaço de quem passou dois dias aos solavancos. “Foi mais fácil do que ontem, mas duro, e ainda encontrei alguns animais”, resume, num aceno às imagens de girafas e vida selvagem que marcaram o seu Safari. “Tem sido duro, mas tentamos aproveitar o máximo possível, nunca sabemos se vamos voltar ou conduzir carros Rally1 no futuro. Vamos tentar continuar a sorrir, mesmo que às vezes seja difícil.” É um comentário com sabor a balanço, quase existencial, num rali que se vive tanto com a cabeça como com o acelerador.
A M-Sport encerra a etapa com o capítulo mais épico do dia. Jon Armstrong e Shane Byrne, depois de partirem um braço de suspensão traseiro na especial anterior, atiram-se à mecânica em plena ligação, improvisam uma reparação, bloqueiam a transmissão e voltam à estrada com um Puma praticamente reduzido a tração dianteira. Em Mzabibu 2, arrastam-se até ao fim em 7m59.9s, mas garantem que o carro chega à assistência e o rali continua. “Na última especial, infelizmente, fui um pouco apanhado e fui largo, toquei em qualquer coisa. Não devia estar a fazer isso”, admite o norte-irlandês. “Conseguimos reparar, mas só temos tração dianteira.” É o retrato de um Safari em estado puro: longe do topo da folha de tempos, mas no coração do espírito de resistência.
FOTOS @World

O Autosport já não existe em versão papel, apenas na versão online.
E por essa razão, não é mais possível o Autosport continuar a disponibilizar todos os seus artigos gratuitamente.
Para que os leitores possam contribuir para a existência e evolução da qualidade do seu site preferido, criámos o Clube Autosport com inúmeras vantagens e descontos que permitirá a cada membro aceder a todos os artigos do site Autosport e ainda recuperar (varias vezes) o custo de ser membro.
Os membros do Clube Autosport receberão um cartão de membro com validade de 1 ano, que apresentarão junto das empresas parceiras como identificação.
Lista de Vantagens:
-Acesso a todos os conteúdos no site Autosport sem ter que ver a publicidade
-Desconto nos combustíveis Repsol
-Acesso a seguros especialmente desenvolvidos pela Vitorinos seguros a preços imbatíveis
-Descontos em oficinas, lojas e serviços auto
-Acesso exclusivo a eventos especialmente organizados para membros
Saiba mais AQUI




