WRC na Arábia Saudita: entre a crítica dos pilotos e o apelo ao público

Por a 16 Fevereiro 2026 11:59

O príncipe Khalid bin Sultan Al-Abdullah Al-Faisal, líder da Federação Saudita de Automobilismo, refutou as críticas dos pilotos ao terreno pedregoso da estreia do WRC na Arábia Saudita em 2025, considerando-o um “novo desafio” comparável ao antigo Rali Safari. Apesar dos danos nos pneus descritos como uma “lotaria”, o responsável diz que respeita as opiniões e não descarta alterações para futuras edições.

A ronda final de 2025, perto de Jeddah, gerou queixas devido às pedras que afetaram os Rally1, mais adequados a superfícies variadas do que ao Dakar. “Respeitamos todos os pilotos”, afirmou Al-Faisal à margem do Dakar, em janeiro. “É novidade para alguns, mas semelhante aos Rali Safari antigos. Se enviarmos pilotos sauditas para a neve, também reclamariam. Condições diferentes melhoram os pilotos através da adaptação.”

A Hankook já anunciou melhorias nos pneus para 2026, e para a segunda edição, em novembro, estão previstos pisos próximos das montanhas e muitas pedras, sempre longe da areia macia. “Vamos tentar ter menos pedras ou explorar outras zonas do país”, adiantou. “Os pilotos devem aprender a adaptar-se; com o tempo, vão gostar.” Nos primeiros anos, o foco é Jeddah, mas admite explorar o asfalto futuramente, valorizando o feedback para evoluir o evento.

Sendo verdade que, como prova de encerramento do WRC e tendo em conta que se ‘jogava’ o título, a ‘lotaria’ dos pneus foi um enorme ponto de interrogação, a verdade é que um dos problemas dos ralis do WRC é a escassez de histórias e acontecimentos nos Rally1 (nos Rally2 não há o mesmo problema, mas a atenção é muito menor, porque é a ‘2ª divisão’), e do ponto de vista dos media e do interesse do público, uma prova em que acontece muita coisa suscita sempre muito mais atenção por parte das pessoas.

Primazia ao Desporto ou ao Espetáculo?

Essa é a eterna tensão entre o desporto como mérito e o desporto como espetáculo. É um debate fascinante porque ambos os lados têm razão, mas olham para os ralis através de ‘lentes’ completamente diferentes.

Os pilotos “queixam-se”, com razão, e temos de olhar para o que está em jogo para eles, comparando com o que nós, sentados no sofá ou na berma da estrada, queremos ver.

Para um piloto de elite, o rali deve ser uma prova de velocidade e precisão. Eles treinam meses para conseguir ganhar décimas de segundo em cada quilómetro dos troços.

Quando um rali tem “pedra a mais”, o resultado deixa de depender tanto do talento do piloto ou da engenharia do carro e passa a depender muito mais da sorte. Para eles, perder um campeonato porque uma pedra escondida cortou um pneu é como um jogador de xadrez perder um jogo porque caiu um candeeiro em cima do tabuleiro. Passe o exagero e fique a ideia!

Os pilotos querem sentir que têm o destino nas mãos. Furos constantes tornam a prova uma “lotaria”, e ninguém gosta de sentir que o seu trabalho de um ano inteiro foi decidido por uma moeda ao ar.

Depois há o outro lado: a estabilidade é inimiga das audiências. Se o rali for num tapete de terra perfeito, a ordem de chegada costuma ser fortemente previsível. O interesse dispara quando o líder fura, quando a estratégia de pneus muda ou quando alguém tem de fazer uma reparação heroica numa ligação.

Historicamente, os ralis (como o antigo Rali Safari ou o Acrópole) eram muito mais sobre resistência e não apenas velocidade pura. O público sente falta dessa componente de “sobrevivência”, onde o mais rápido nem sempre ganha, mas sim o mais inteligente e resiliente. Tal como sucede no Dakar…

Aqui reside o conflito: sem público, não há patrocinadores; sem patrocinadores, não há carros.

Os pilotos focam-se no ego e no resultado, são pagos para ganhar. Para eles, o rali ideal é aquele onde podem andar a 110% sem variáveis externas.

Mas os promotores focam-se no ‘engajamento’. Para o WRC, um rali onde nada acontece é um desastre comercial. Eles precisam do caos (controlado) para criar as narrativas que prendem as pessoas.

Como equilibrar estes dois mundos é que está o segredo. A solução passa por um meio-termo que raramente agrada a todos. Neste caso particular, talvez fosse prudente tirar a Arábia Saudita do final do campeonato e colocar a prova no meio do calendário. Na verdade, ninguém se queixa do Rali Safari. E este é também muito duro, para não dizer extremamente duro.

Se a Hankook passar a oferecer compostos que aguentem o castigo, permitindo que a “pedra” seja um desafio tático e não um fim de prova inevitável, os pilotos vão queixar-se da aderência. Tendo aderência, queixam-se dos furos.

Ou seja, o construtor de pneus tem que ser perfeito, mas eles próprios, os pilotos, como todos nós, são e somos falíveis.

Resumindo, os pilotos precisam de aceitar que o WRC moderno está a evoluir para ser mais televisivo. No fundo, eles são os gladiadores, e o público quer ver a arena a testar os seus limites. Concordo em ter um rali mais ‘normal’ como fecho do campeonato, mas as críticas ao Rali da Arábia Saudita foram excessivas… tal como os furos!

Como quase sempre, no meio está a virtude!

Outra nota curiosa: os pilotos queixam-se hoje, mas daqui a 10 anos, as vitórias nesses ralis “impossíveis” serão as que mais vão valorizar nas suas carreiras, precisamente por terem sido as mais difíceis…

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