O ‘fantasma’ que Hayden Paddon ‘espantou’ no Rali de Monte Carlo: “maior desafio mental da carreira”
Dezanove de janeiro de 2017, primeira especial do Rali de Monte Carlo. Um acidente de Hayden Paddon, espetadores mal colocados, uma vítima fatal. O neozelandês reagiu através da sua conta de Twitter: “Estou incrivelmente triste pelo acidente e os meus pensamentos vão para a família e amigos da pessoa envolvida. É difícil dizer mais de momento, pois estou em choque com o sucedido. Lamento pela família, pelos fãs, pelo desporto!”, escreveu o piloto. Paddon ficou muito marcado por aquela fatalidade, e nunca mais voltou ao Rali de Monte Carlo. Passou quase uma década, quis o destino que no seu caminho estivesse agora novamente o Rali de Monte Carlo.
O que Paddon passou na altura, não se esquece, adormece-se! Em conversa com os nossos colegas do Dirtfish, revelou que este regresso ao Rali de Monte Carlo foi o “maior desafio mental” da sua vida.
O neozelandês confessou que o regresso à competição foi acompanhado de semanas de ansiedade. “Mentalmente, este foi o maior desafio da minha vida nas últimas seis semanas. Tive de enfrentar exatamente as mesmas condições de 2017, com gelo e temperaturas idênticas”, afirmou Paddon. “Temi este rali durante semanas. Nunca quis regressar aqui, e na quinta-feira à noite, quando soubemos das zonas com gelo, pensei: ‘aqui vamos nós outra vez’.”
Apesar da carga emocional, o piloto garantiu que procurou manter o foco profissional. “Tentei evitar pensar nisso, mas não havia como escapar. Sou um desportista profissional e tinha de fazer o meu trabalho, deixei as emoções de lado”, explicou. Após completar o rali, Paddon admitiu sentir um enorme alívio. “Chegar ao fim foi o principal objetivo. Sinto que um grande peso saiu-me dos ombros. Foi provavelmente algo que devia ter enfrentado há oito anos, mas só agora consegui realmente fechar esse capítulo”, referiu.
Processo complicado
Este processo agora concluído por Hayden Paddon é um exemplo profundo de como o trauma se manifesta em desportos de alto risco. Embora a culpa fosse inexistente (espetador mal colocado), o impacto psicológico é devastador porque o cérebro humano não processa a “culpa” através da lógica das leis, mas sim através da agência do ato (a sensação de que “fui eu que fiz isto acontecer”).
A nível consciente, o piloto sabe que não teve culpa. No entanto, a nível subconsciente, as suas mãos estavam no volante e o seu pé no acelerador. E isso cria uma ferida moral. O piloto deve ter-se sentido o instrumento de um destino cruel e em atletas de elite, o trauma é muitas vezes “congelado” ou compartimentado para que possam continuar a competir. No entanto, o trauma não desaparece, fica latente, manifestando-se como ansiedade, hipervigilância ou um peso invisível que afeta a performance e o bem-estar.
O facto de o piloto ter demorado 9 anos para “fechar o capítulo” indica que pode ter vivido num estado de evitamento emocional. Voltar ao local ou ao rali onde o trauma aconteceu é, na psicologia, uma forma de Terapia de Exposição.
Ao completar a prova sem incidentes, o cérebro do piloto pode ter “reescrito” a associação negativa com aquele contexto. A memória do rali deixa de estar ligada apenas à morte e passa a estar ligada à superação e à normalidade profissional. Foi isso que pode ter acontecido agora com Paddon. Ao dizer que fechou esse capítulo, na sua cabeça, parte da sua energia mental estava ocupada a manter aquele trauma “na caixa”. Ao enfrentá-lo e terminá-lo, essa energia foi-lhe devolvida. Chegar ao fim de uma prova que teve tantas coisas semelhantes às que sucederam em 2017, serviu como uma prova de segurança para o seu subconsciente. E ainda bem.
O “fechar do capítulo” é o momento em que a história deixa de ser um processo em aberto e passa a ser um facto histórico arquivado e, ao tirar este “peso dos ombros”, é provável que o piloto recupere uma fluidez que talvez estivesse bloqueada. Talvez a tomada de decisão volte a ser instintiva e não baseada no medo residual.
Este processo de Paddon é estudado na psicologia desportiva como um dos mais complexos, pois envolve a vida de terceiros, o que é muito mais difícil de processar do que um acidente onde apenas o piloto se magoa.
Entretanto, a Hyundai confirmou que Esapekka Lappi assumirá o terceiro carro da equipa no Rali da Suécia, enquanto Paddon e Kennard regressam à competição no Rali da Croácia, em abril.
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